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Rodolfo Lucena

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Perfil Rodolfo Lucena é ultramaratonista e colunista do caderno "Equilíbrio" da Folha

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Parque do Carmo é palco de treinos de ultramaratonista

Por Rodolfo Lucena
13/12/13 15:39

selo_rodolfo_correndoQuando menino, ele era um azougue. Tanto que a mãe o mandou de volta para o Piauí, para ficar com a família. Voltou a São Paulo adolescente, mais tranquilo: “Sou um ótimo filho”, me diz Carlos Éber Valentim Vieira, mais conhecido no mundo das corridas como Éber Valentim.

De fato, leva uma vida calma. Aos 36 anos, é casado, tem um filho pequeno e já é veterano na empresa em que trabalha, onde assina ponto há cerca de 15 anos. Na hora da corrida, porém, acabam-se as gentilezas: ele vai para a morte, como dizem os corredores. Gosta de provas longas, de mais de 50 km, e já acumula vitórias em duplas e trios em uma das mais difíceis ultramaratonas do país, a Brasil 217 –o número se refere ao total de quilômetros do percurso.

Fomos correr juntos hoje em um dos seus campos de treinamento, o sensacional parque do Carmo, na zona leste de São Paulo. Começamos caminhando e tenho certeza que, estivesse alguém nos observando, acreditaria que Éber estava muito mais descansado do que eu.

Ledo engano. O sujeito havia trabalhado a noite toda. Encontrei com ele às 7h em ponto na frente do prédio dos Correios, pertinho do Ceasa, em um dos extremos da zona oeste de São Paulo. Lá, durante as oito horas regulamentares de seu turno, ficara operando uma máquina que seleciona e organiza correspondência destinada a Osasco (que está ali pertinho).

No total, o equipamento manipula cerca de 100 mil cartas por turno e as separa em lotes. Depois, os carteiros pegam seus fardos e vão à luta –homens carregam 15 kg, mulheres saem com uma sacola de 10 kg. E o operador da máquina sai para correr.

1eber VA

Hoje não foi a primeira nem a segunda vez em que Éber saiu do trabalho direto para o treino –ao contrário, essa é sua prática mais comum. Mais recentemente, tem preferido treinar no parque estadual do Tietê, mas guarda memórias doloridas das rampas do Carmo, onde a preparação era pesada e o ritmo intenso.

Partimos para fazer a volta tradicional que Éber costumava completar algumas vezes. É um percurso de seis quilômetros que utiliza trechos da ciclovia –basicamente utilizada por caminhantes e corredores, a julgar pelo que vimos hoje–, com piso em asfalto, e algumas trilhas não muito irregulares (fora da volta tradicional, há percursos mais casca grossa, como o da imagem abaixo).

1 trilha 1

As subidas e descidas tornam a volta uma excelente preparação para quem vai enfrentar corridas em montanhas –em 2006, Éber foi o terceiro colocado no Desafrio Urubici, uma prova na cidade catarinense que dá nome à corrida e que se notabiliza pelo clima gélido; lá os atletas chegam a 1.826 m no cocuruto do Morro da Igreja.

Hoje, no Carmo, o clima estava agradável, bom para correr. Eu nunca tinha ido ao parque e Éber parecia vê-lo pela primeira vez: no ritmo que costumava treinar lá, conta ele, não dava para perceber muita coisa em volta.

Ele não sabia, por exemplo, que o parque abriga um viveiro de plantas, que fornece folhagens, arbustos e árvores para outros parques municipais, praças, escolas, hospitais.

1 viveriro 2 va

Até gente comum –os munícipes, no jargão das portarias municipais– pode buscar uma plantinha lá, tudo de graça. Cada pessoa tem direito a até dez mudas de árvore por ano, para plantar na frente de casa ou em seu jardim; no caso de folhagens, são cinco peças (saiba mais AQUI).

É bem verdade que o viveiro fica numa baixada, um tanto fora da visão de quem está correndo forte no circuito. Hoje, porém, fizemos a volta em ritmo lento e ainda aproveitamos para investigar algumas das trilhas menos civilizadas que o parque também apresenta.

Afinal, o Carmo não é pequeno, tem 1,5 milhão de metros quadrados. Originalmente uma fazenda no século 19, o parque tem mais de 6.000 árvores, com destaque para eucaliptos e cerejeiras. Segundo me ensina o portal da Prefeitura, ali é realizada há 35 anos a Festa das Cerejeiras, que “comemora o florir da árvore símbolo do Japão e tornou-se a marca da comunidade nipônica que vive na região. Todos os anos ocorre a prática do “hanami”, ritual que consiste em sentar-se sob as cerejeiras e contemplá-las por longo período”.

Até consigo reconhecer uma cerejeira em flor, mas hoje não foi o caso. Precisava cuidar do meu joelho, que sofria nas descidas, mas se recuperava nas subidas, e ainda captar o que imaginava ser o espírito do parque.

Tem uma alma muito calma (ih, rimei!) e parece ser bastante seguro. Éber notou a limpeza da área e o aumento do número de funcionários e de seguranças –há cinco anos, por exemplo,as áreas próximas aos banheiros eram território dominado pro drogados, que não poucas vezes agrediam corredores. “Teve um que levou uma voadora”, lembra Éber.

Isso apesar de haver uma delegacia de polícia colada à entrada do Carmo: a 53ª DP deve fechar o ano com menor número de homicídios, mas basicamente o mesmo número de roubos e furtos, a julgar pelas estatísticas atuais (saiba mais AQUI).

Aliás, não vi polícia nas alamedas do parque, hoje, mas também não vi nada que parecesse necessitar da presença dela. Ao contrário, tudo rolava na mais santa paz, com o público aproveitando bem algumas das simpáticas áreas do Carmo, como um jardim de inspiração japonesa.

1 jardim VA

Corremos em volta do lago, numa planura bem agradável, e às vezes ficava com vergonha de obrigar um sujeito muito mais rápido a rodar em ritmo tartaruguesco. Mas Éber não foi sempre essa máquina de engolir quilômetros. Mesmo com biotipo que lembra o de quenianos, estreou em corridas completando 10 km em pedestres 80 minutos.

Era o ano de 2004, ele ainda fumava e bebia regularmente. Aceitou o desafio de um amigo gordinho e saiu à toda a brida, disposto a vencer o colega. Seu entusiasmo durou pouco: foi ultrapassado no km 4 e só chegou ao final porque forçou o corpo a não desistir.

“Até hoje terminei todas as provas em que entrei”, diz ele, que adorou o esporte apesar do sofrimento da estreia. Aos poucos foi largando o cigarro e o álcool, percebendo que lhe prejudicavam o desempenho na corrida.

Só não abandonou o Corinthians de seu coração (e do corpo: tem o brasão corintiano tatuado na pele). Sócio da torcida organizada Gaviões da Fiel, já chegou a frequentar 100% dos jogos do time em campeonato Paulista. No Carnaval, sai na bateria da Gaviões, posto que também ocupa quando vai ao estádio conferir o jogo da equipe.

O amor pelas corridas e as atividades profissionais –não poucas vezes, atua em fins de semana na cronometragem de provas—reduziu sua presença nos gramados, mas ainda veste a camiseta branca-e-preta, nem que seja para posar para fotos, como no treino de hoje.

Para ele, é certo, nem dá para chamar de treino. Passeio, talvez, em que descobrimos no alto de uma das colinas do Carmo o seu Planetário, um predião bonito, que lembra um pouco o do Ibirapuera. Mas está fechado. “Problemas de equipamento”, me diz um atendente pelo telefone.

Pesquiso um pouco e percebo que é mais que isso. Pelo visto, há uma sequência de erros em que a vítima é sempre o público. Um dos textos que li aponta, de forma ácida: “Com obras iniciadas em 2002 e inauguração no fim de 2005, o Planetário do Carmo passou pelas mãos de quatro prefeitos — Marta Suplicy (PT), José Serra (PSDB), Gilberto Kassab (PSD) e Fernando Haddad (PT))— e, até agora, é um elefante branco. Apenas em 2006, o local ficou aberto de forma regular. Naquele mesmo ano, porém, foram encontrados problemas em sua estrutura e o planetário fechou”.

Por alguns meses do ano passado e deste 2013, voltou a abrir, mas praticamente de forma experimental, atendendo a algumas escolas. Neste mês deve sair o resultado da licitação da gestão do local, segundo notícia publicada num jornal virtual especializado na zona leste (leia AQUI).

Bom, se não vi estrelas, pelo menos tive a oportunidade de conhecer algumas das belezas do local. Não encontrei  veados-catingueiros, preguiças-de-três-dedos, tatus, ouriços-cacheiros nem caxinguelês, que já foram observados na mata, segundo a apresentação oficial do parque. Em contrapartida, vimos porquinhos-da-índia e simpáticos e serelepes esquilos. Um deles chegou mesmo a posar para a câmera.

1 esquilo 1

Com o que me despeço, seguindo para casa onde vou logo botar gelo no meu joelho, pois amanhã tem mais. Vamo que vamo!

 

DIA 13 – PROJETO 460 KM POR SÃO PAULO
Clique no mapa para acessar informações mais detalhadas sobre o percurso

mapa dia 13dez2013
QUILOMETRAGEM DO DIA:12 km
TEMPO DO DIA: 2h10min41
QUILOMETRAGEM ACUMULADA:157 km
TEMPO ACUMULADO: 29h55min22
QUILOMETRAGEM A CUMPRIR: 303 km
DESTAQUES DO PERCURSO: parque do Carmo, viveiro de plantas, lagos e planetário do Carmo

PS.: O dia 12 foi de folga

 

 

 

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Sem internet e com joelho lesionado, corredor tira breve folga e testa calçado de recordista mundial

Por Rodolfo Lucena
12/12/13 14:26

selo_rodolfo_correndoEstou neste momento em um cantinho da sala de minha casa, sentado na ponta do assento de uma cadeira, curvado sobre um notebook colocado no ângulo direito inferior de uma mesinha portátil, que por sua vez está posicionada na diagonal em relação a uma porta. Só assim, por breves instantes e de forma intermitente, consigo acessar a internet aqui de casa.

E isso porque a Folha mandou para mim, em situação de emergência, um modem 4G. Cá na zona oeste, porém, a dois quilômetros da riqueza e do poder da avenida Paulista, o 4G funciona como se fosse um 3G, isso quando fica ligado por tempo suficiente para que eu troque algumas mensagens.

Quanto à minha internet doméstica, pela qual pago religiosamente à operadora e ao provedor de acesso, está morta desde segunda-feira última. Não vou amolar sua paciência contando minha via-crúcis de busca de atendimento; basta dizer que não funciona, não atendem, mentem, desrespeitam e o escambau.

As tensões e o sofrimento de ficar sem minha ferramenta essencial de trabalho se somam às dores que venho tendo por causa da lesão no joelho direito, surgida depois de trilhar montanhas de quilômetros nos pisos irregulares da Paulicéia. Caminho mancando, corro tal qual um pato, mas vou vivendo, assim como vou driblando as falhas do atendimento internético…

O treino de ontem me animou: achei que mancava menos e resolvi investir em uma maratona de tratamento. Durante a tarde, passei novamente por terapeutas e fisioterapeutas, fiz gelo, laser, ultrassom e tratamento a laser, choques elétrico e geloterapia. E resolvi tirar o dia de hoje para descansar o corpo, esperando que isso acelere minha recuperação –se é que ela será possível, vamos esperar o resultado da ressonância magnética, prometido para amanhã.

Mas não fico sem conversar com você, que tem acompanhado com tanto carinho essa jornada quilométrica. Saiba que, ao longo desse processo, estou também fazendo testes com equipamento para o corredor. Venho usando um telefone que vem com uma câmera fotográfica fabulosa (mais para o final do projeto, publicarei resultados da avaliação) e experimentei um dos mais recentes modelos de tênis da Adidas, o adizero adios Boost (a empresa gosta de usar letras minúsculas nos nomes). É sobre ele que falo agora.

adidas VAA linha adizero é a mais rápida da Adidas, com calçados que dão ótima resposta: Wilson Kipsang usava um deles quando quebrou o recorde da maratona em Berlim. Com a tecnologia Boost, o adios ganha um sistema de amortecimento de alta tecnologia, “composto de milhares de cápsulas que liberam energia a cada passada”, segundo diz a empresa.

Todo o parágrafo acima foi escrito com base nas informações fornecidas à imprensa pela Adidas. Eu lembro que o fato de um determinado modelo de tênis ter sido usado por um maratonista de elite, campeão ou recordista mundial nem por um segundo significa dizer que automaticamente ele será bom para o sujeito comum, que não tem a leveza, o Índice de Massa Corporal e , especialmente, a maravilhosa biodinâmica que Kipsang apresenta.

Assim, lá fui calçar o adios Boost, colocando sobre sua sola macia meu corpo com sobrepeso, levando o calçado com passadas deselegantes e nem um pouco uniformes, sobre piso irregular.

Devo dizer que gostei. É o primeiro tênis da Adidas que não me aperta os dedos dos pés; em geral, a marca oferece produtos de forma afilada (não é a única, muitos tênis da Nike também são justos demais na largura, pelo menos para o meu gosto).

Eu desconfio que, no caso do adios, a Adidas tenha mantido sua escrita e, de fato, o chassis é fino. Acontece, porém, que o cabedal é muito leve e maleável, dá uma sensação de bom ajuste.

O tênis é superleve e gostoso de calçar, mas, na hora de correr, a experiência já não foi tão agradável. Dava para sentir o amortecimento, o que é bom, mas também insuficiente: o calcanhar parecia estar batendo no asfalto.

Nas descidas, então, a impressão era de a planta do pé estava sem proteção nenhuma. Isso que o calçado não está na lista dos minimalistas: traz uma sola bem considerável (ainda que com cerca de metade da espessura do solado dos calçados que costumeiramente uso).

Então, deixei-o de lado nos treinos de corrida; nas caminhadas, com menor pressão e impacto, teve um bom desempenho, sendo confortável e, para o meu gosto, bonito, com cores vibrantes.

É bem possível que corredores mais leves e elegantes, com biodinâmica mais eficiente do que a minha, façam melhor proveito desse calçado, que custa R$ 499. O preço sugerido é alto, mas está na mesma faixa dos tênis de corrida de boa qualidade. Quem tiver chance de comprar no exterior certamente fará uma boa economia.

 PS.: Desculpe aí o desabafo sobre os maus serviços que venho recebendo da minha operadora de internet, mas isso está me deixando quase louco pois afeta por demais o meu trabalho. Espero poder continuar driblando essas dificuldades e seguindo firme na jornada até o último desses 460 km em homenagem ao próximo aniversário de São Paulo

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Com autor de “Divórcio”, corredor percorre alamedas da Saúde

Por Rodolfo Lucena
11/12/13 12:48

selo_rodolfo_correndoNo primeiro e-mail que ele mandou para mim, aceitando o convite para participar de uma das etapas do meu projeto 460 km por São Paulo, já avisava: “Meu romance `Divórcio` é de fato um livro de ficção. Eu não comecei a correr em 2011. Comecei a correr em 1999, no início do curso de mestrado na Unicamp. Em 2011, o que fiz pela primeira vez foi me preparar para uma prova, a São Silvestre. Portanto, minha experiência com a corrida não é obviamente a descrita no meu romance”.

Talvez você não conheça a história, então explico o fuzuê. O que o escritor Ricardo Lísias queria deixar claro é que ele, autor, não era o Ricardo Lísias personagem e narrador do livro “Divórcio”. Ou, por outra: que o livro é uma obra de ficção, não biografia ou vingança de amante traído.

Explico mais um pouco, resumindo a trama do romance (mesmo com o risco de superficialidade que os resumos têm): “Divórcio” conta a trajetória de um escritor que, quatro meses depois do casamento, descobre o diário da mulher, onde ela comenta suas traições e registra opiniões deletérias sobre o marido.

No processo de recuperação, o Ricardo Lísias personagem descobre a caminhada e, logo depois, a corrida, como forma de purgar o sofrimento e engendrar algum tipo de satisfação pessoal ou conquista.

Acaba participando da São Silvestre de 2011, experiência tão marcante que o livro é dividido em quilômetros. Naquele ano, o percurso da prova foi modificado, e os corredores tiveram de descer a Brigadeiro até o Ibirapuera depois de terem feito a subida em direção à avenida Paulista. Tudo sob uma chuva dos demônios.

1 lisias sao judas

Pois o Ricardo Lísias escritor, gente de carne e osso com quem conversei e corri na manhã de hoje, também fez sua primeira São Silvestre naquele ano. “A descida foi terrível”, lembra ele. “Vi muita gente escorregando, era bem perigoso.” Terminou esgotado, no barral que se formou na área da chegada, e voltou a pé até a Paulista, como muitos outros participantes.

Nossa corrida também poderia ser sob chuva, de acordo com as previsões. Ontem, Lísias ainda mandou um e-mail perguntando se sairíamos em quaisquer condições climáticas, já esclarecendo: “A mim a chuva não incomoda”.

A mim também não (aliás, ontem tomei um banho de chuva caminhando da estação de trem Ermelino Matarazzo à estação USP Zona Leste que nem te conto…). Assim nos encontramos na manhã de hoje, em uma esquina da rua Indianópolis, na zona sul da cidade.

Saímos a passo, para que meu joelho direito ganhe ritmo. Por causa da lesão, tenho manquitolado um pouco, fugindo da dor; médico e fisioterapeutas me dizem que isso é caminho certo para lesões mais graves, talvez até na lombar (não!!!!). É preciso tentar andar normalmente e correr de forma ainda mais normal.

A companhia me ajuda. Enquanto vamos acertando a caminhada, preparando para logo acelerar e começar a corrida, Lísias me conta que costumava correr à noite pela avenida, que atraia muitos corredores e ciclistas por causa de sua extensão, amplitude e topografia –é quase plana, as subidas e descidas são graduais e até agradáveis.

A avenida também é frequentada, à noite, por um exército de travestis. Na manhã ainda escura, final de madrugada, encontramos dois ou três que ainda não decidiram encerrar a noitada.

“Nunca me incomodaram”, diz Lísias. “No máximo, falam qualquer coisa. Um deles me disse que eu não precisava ficar correndo, que ele passaria o telefone do seu cirurgião plástico e pronto…”.

O escritor observa que, tal como na vida, a distribuição dos trabalhadores da noite segue uma estratificação social. “Lá para cima, parece, ficam os mais bem de vida. São uns cavalheiros.” É uma região em que também há mulheres na noite. Já na parte da avenida mais na baixada, na direção do parque Ibirapuera, ficam os que aparentam ser mais pobres: é uma área onde as coisas podem ficar mais violentas.

Para o corredor da noite, porém, o que incomoda mesmo são os clientes dos travestis, que chegam em carros, carrinhos e carrões. Enquanto estão na caça, rodam supervagarosos; quando acertam o programa, saem em alta velocidade, como se estivessem fugindo. “Parece que têm vergonha”, analisa o escritor, que é paulistano de nascimento, tem 38 anos e doutorado em literatura pela USP.

1 lisias carmelitas

Saímos do território das noitadas, descemos uma pequena lomba, encontramos o plano e engrenamos uma corrida ritmada até a estação Praça da Árvore do metrô. No caminho, passamos por um mosteiro, que ele diz ser de religiosas que vivem reclusas. “Eu vejo gente entrar, nunca vi ninguém saindo”, diz ele. “Já dá mote para um romance”, respondo.

Pela avenida Jabaquara, seguimos a jornada que vai nos levar novamente à Indianópolis. Antes, ainda outra casa religiosa, a igreja de São Judas. “Essa é grande”, diz Lísias, contando que, de vez em quando, a multidão toma conta de toda a calçada em frente à igreja. Pelo visto, há muitos desesperados em busca da intervenção do santo das causas perdidas…

Ao longo do caminho, de vez em quando “Divórcio” volta à baila, porque algumas resenhas teimam em casar na mesma pessoa narrador e autor. Lísias escritor, por exemplo, é enxadrista, tal como o Lísias narrador; mas o da vida real nunca “quase” ganhou uma vaga a um campeonato mundial da xadrez, uma das tantas questões que amargam a vida de seu personagem.

O jogo dos reis é uma paixão do escritor, que começou a praticar aos dez anos e ainda hoje faz aula uma vez por semana com um mestre do esporte. Quando adolescente, assistiu a uma apresentação de enxadristas soviéticos ocorridos exatamente na época em que a ex-URSS estava se desintegrando. “Eles ficaram muito tensos. De repente, não eram mais soviéticos, mas da Rússia, da Geórgia, da Armênia…”

A corrida lhe chegou mais tarde, quando fazia mestrado em literatura em Campinas. Sua orientadora recomendou que praticasse algum esporte regularmente. Chegou a tentar natação, mas não se deu bem. Então começou a dar voltas numa pista no campus universitário e descobriu que, de fato, como dissera a professora, aquilo contribuía para relaxar, desestressar (saiba mais CLICANDO AQUI para ver um vídeo que fiz com ele).

Hoje treina três vezes por semana e contabiliza duas São Silvestres e uma meia maratona. Para a prova mais longa, uma competição em São Francisco dedicada a mulheres, mas com 10% de vagas para homens, treinou com ajuda profissional pela primeira vez, sendo orientado por uma assessoria esportiva.

“Terminei muito bem”, lembra ele. “Acho que poderia correr ainda uns dez quilômetros.” A experiência fez com que começasse a pensar em uma maratona, mas ainda analisa a questão.

O que ele mais estuda, mesmo, são as pessoas. “Ela está completamente drogada”, comenta sobre um mulher que passa por nós, os olhos vidrados, falando a um celular. “O escritor precisa estar atento a tudo”, explica.

O olhar clínico e o ouvido atento lhe ajudaram a criar personagens. Como pesquisa para “O Livro dos Mandarins”, que trata do mundo dos executivos, frequentou um café em que dirigentes de empresas costumam bater ponto. Ouvia as conversas das mesas ao lado para entender o repertório e o linguajar dos seus personagens.

Para “Divórcio”, fez coisa semelhante. Nas padarias da Saúde onde eventualmente se reabastecia durante os treinos noturnas, ouvia o papo dos travestis. “Não existe uma Ramona”, diz, referindo-se a personagem do livro que interage com o Lísias narrador. “Ramona são todos eles.”

Foi assim, por exemplo, que descobriu o termo “mariconete”. A palavra, na gíria dos travestis, identifica os desqualificados que passam de carro debochando, atirando objetos ou até ameaçando o pessoal que trabalha na rua.

Lísias, ele mesmo, nunca se sentiu ameaçado em seus treinos noturnos. É certo que toma precauções. Vai até uma praça que serve como espécie de limite entre a área mais bem de vida e uma favela incrustada entre as belas casas das franjas da avenida Indianópolis.

1 lisias praca

Mas não se arrisca a passar pelas vielas da comunidade, que já foram fechadas no tempo dos ataques do PCC e são dominadas pelo tráfico –ou, pelo menos, é o que parece, mas a prudência sugere que não se investigue mais.

Também em segurança –e sem um pingo de chuva– terminamos nosso passeio. Além da ótima conversa, termino feliz por ter conseguido, em boa parte do trajeto, acompanhar o ritmo do escritor, mancando muito pouco. Quem sabe, consigo me recuperar com mais algumas sessões de fisioterapia, gelo, musculação, alongamento e descanso. Afinal, ainda faltam mais de 300 km para completar minha jornada. Vamo que vamo!

DIA 11 – PROJETO 460 KM POR SÃO PAULO

Clique no mapa para acessar informações mais detalhadas sobre o percurso

Dia11 mapa

QUILOMETRAGEM DO DIA:13 km
TEMPO DO DIA: 2h02min45
QUILOMETRAGEM ACUMULADA:145 km
TEMPO ACUMULADO: 27h44min41
QUILOMETRAGEM A CUMPRIR: 315 km
DESTAQUE DO PERCURSO: avenida Indianópolis, convento das carmelitas, igreja São Judas

 

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Corredor descobre cores nas vielas de Ermelino Matarazzo

Por Rodolfo Lucena
10/12/13 19:36

selo_rodolfo_correndo“Quando conheci o pessoal fazia uns três meses que eu tinha saído da cadeia”, me conta Leandro, meu anfitrião na caminhada de hoje pelos meandros de Ermelino Matarazzo, bairro cravejado de favelas na zona leste de São Paulo. A história do jovem é semelhante à de muitos outros detidos por morarem em zona de invasão ou bairro menos favorecido pelo dinheiro e pelo poder.

No início da madrugada, ele acabara de sair da jornada noturna em uma tecelagem da região, onde trabalhava como ajudante. Ia passar na padaria para comprar o desjejum quando foi abordado por quatro policias, quase em frente à igreja da Cruz Preta, em um dos pontos mais altos da Vila Santa Inês.

“Disseram que eu tinha roubado uma moça, assalto a mão armada. Me deixaram pelado na delegacia, me bateram, mas eu não assinei, não tinha sido eu.” Quando falou onde morava, ouviu: “É da favela, foi você mesmo”. E tome porrada!

Acabou jogado no presídio Adriano Marrey, em Guarulhos, onde ficou três meses e passou por três audiências judiciais até que a vítima foi ouvida e disse que não tinha sido ele (Leandro tem uma mancha vermelha no rosto que o torna facilmente identificável).

Apesar das evidências, a ordem judicial de soltura ainda demorou cinco dias para chegar, sabe-se lá por quê. “Podia ter acontecido qualquer coisa, podiam até ter me matado”, diz ele, que entrou com ação contra o Estado, mas já não acredita em qualquer resultado: “Desapeguei”.

A prisão aconteceu quando ele tinha 18 para 19 anos. Hoje, Leandro Pereira Araújo, 25, nascido e criado em Ermelino Matarazzo, está na metade do curso universitário de artes plásticas e totalmente apegado ao Projeto Azu, uma iniciativa do artista plástico Élcio Torres que vem jogando cores nas vielas, escadarias e praças da favela Santa Inês, onde o ateliê tem sede (abaixo, o primeiro grande trabalho do grupo na comunidade).

3 escada abre 2

Foi lá, na rua Cinturão Verde, um fundo de vale perto da rua principal da comunidade, que nos encontramos no início da manhã de hoje para a décima jornada de meu projeto 460 km por SP. Começamos seguindo em direção a um território esquecido pela população local e pelas autoridades: ruínas de uma construção do século 16. Apesar de tombado pela Patrimônio Histórico, o Sítio Mirim parece totalmente abandonado, com grama alta no seu entorno e nenhum tipo visível de proteção (saiba mais AQUI).

Dali, rumamos para a estação de trem Ermelino Matarazzo, onde está montado o primeiro trabalho com que o Projeto Azu ganhou uma concorrência: um enorme painel de azulejos que conta um pouco da história da região.

1 leandro 1

Leandro mostra com orgulho o conjunto de 8,40 m por 3 m, onde aparecem a igreja da Cruz Preta, o pintor Mateus Santos –chamado “Poeta das Tintas”–, os edifícios das Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo e outros ícones do bairro.

A obra é de 2010, mas o Projeto Azu começou alguns anos antes. “Ouvi falar deles em 2007, um amigo me contou que tinha um pessoal fazendo azulejos no bairro. Fui ver o que era e comprei a ideia na hora.”

No início, era uma espécie de guerrilha azulejística. Torres, Leandro e outros artesãos militantes criavam suas obras e saíam pela favela, conversando com moradores, vendo quem aceitava montar um mosaico ou mesmo instalar uma peça no muro. “Teve gente dizendo que a gente estava marcando as casas para o tráfico, outros falavam que isso era coisa do demônio…”

Depois de trabalharem um mês em um mosaico destinado a enfeitar o muro de uma moradia da vila, conforme acertado com o filho do dona da casa, enfim conseguiram aprontar a obra. Bem satisfeitos, instalaram no muro a colagem de azulejos, em que se destacava um colorido cavalo marinho. Quando o dono de casa a viu, atacou a obra como se fosse um mostro do outro mundo, deixou as peças atiradas no chão.

“Pegamos tudo, recolhemos num balde, lavamos, dava vontade de chorar ver o trabalho destruído assim”, lembra. Uma vizinha do vândalo, que tinha visto a cena, convidou os garotos para montarem a obra no muro da sua casa, na frente da outra: “Assim ele vai ver o desenho todos os dias”, disse a senhora…

Os apoios são mais amplos e generosos que eventuais críticas. Além do reconhecimento do poder público, pela vitória em editais (o Projeto Azu tem ainda um painel na estação USP Leste), ganha o carinho da comunidade: crianças participam de oficinas, jovens ajudam a montar painéis.

1 estadio

“Aqui tivemos muitas mãos”, diz Leandro, apontando para uma escadaria totalmente modificada, enfeitada e colorida pela ação dos azulejistas. “Até bala levou”, conta, mostrando a marca de um tiro disparado por policiais durante uma perseguição pelos intestinos da favela.

Apesar de tudo, o que fica são as cores que adornam a Rua da Mocidade Alegre. E não se trata de arte pela arte: em uma praça abandonada, o Projeto Azu montou homenagem a Dona Neuza, uma das pioneiras da vila e líder comunitária marrenta (os gaúchos dizemos “de faca na bota”), que é uma referência para todo o movimento dos moradores da região em busca de melhores condições de vida.

É um jeito de ajudar a todos, diz Leandro, a “conhecer nossa história, conhecer o chão em que a gente caminha”. Vamo que vamo!

DIA 10 – PROJETO 460 KM POR SÃO PAULO

Dia 10 - Projeto 460 km por SP
Clique no mapa para acessar informações mais detalhadas sobre o percurso
QUILOMETRAGEM DO DIA: 11 km
TEMPO DO DIA: 2h47min05
QUILOMETRAGEM ACUMULADA: 132 km
TEMPO ACUMULADO: 25h41min56
QUILOMETRAGEM A CUMPRIR: 328 km
DESTAQUE DO PERCURSO: vila Santa Inês, Ermelino Matarazzo, igreja da Cruz Preta

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Corredor se esbalda em trilhas e matas da zona oeste paulistana

Por Rodolfo Lucena
09/12/13 16:38

selo_rodolfo_correndoPrezado leitor, estimada leitora, esta é uma mensagem de emergência.
Minha casa está sem internet desde as oito horas da manhã de hoje.
Até agora fizemos todos os esforços para a reconexão, mas os serviços prestados pela operadora contratada são absolutamente lamentáveis. A solução final foi dizer que mandariam um técnico amanhã.
Se você estiver lendo este post, é porque consegui me conectar via telefone celular, o que também não era possível no momento em que escrevia este texto.
De qualquer forma, em algum momento isso há de se resolver, enquanto isso, deixe que lhe conte as novidades.
É simples e digo em voz calma, com a placidez que merecem as grandes revelações: hoje descobri o paraíso. Não foi um encontro messiânico muito menos a descoberta da paz celestial ou qualquer outra entidade de conotação religiosa, esotérica ou, de alguma forma espiritual. Uso a palavra em seu sentido mais comum, costumeiro, cotidiano, o de metáfora para lugar maravilhoso, esplendoroso, pacificador.
Corri por 15 km nas trilhas de asfalto, matão, terra virgem, grama cheirosa e orvalhada, cheias de sombra e ensolaradas do parque Anhanguera. Antes de sair, sabia que era o maior parque municipal, mas agora, sem a maldita conexão com a internet, não posso dizer mais muita coisa objetiva que o identifique, como área, idade e outros “dados pessoais”.
Em contrapartida, conto lá há uma Trilha dos Beija-Flores, ladeada por árvores e plantas que supostamente atraem os animaizinhos. Também há o bosque Sol Nascente, localizado de tal forma que o astro-rei beija suas árvores logo que amanhece.
A pista de asfalto que rodeia a área mais “civilizado” do parque tem 2 km, aproximadamente, e oferece algumas ondulações: cinco voltas ali, três ou quatro vezes por semana, já servem de razoável preparação para a São Silvestre.
Mas o bom mesmo são as trilhas mais selvagens que partem do circuito de asfalto. Zarpei por uma, subi morro, desci morro, meti o pé na grama, me perdi e me encontrei, me diverti.

2trilha
Tudo feito a duras penas, pois o meu joelho direito está cada vez pior. A dor retrocede e recrudesce, como se brincando com meus sentimentos. Sou obrigado a dar um jeito na passada, para tentar diminuir o impacto no joelho, e aí dessarumo todo o resto, que já não é grande coisa.
Pelo menos, parece que não é menisco, me disse hoje o médico. Mas pediu uma ressonância da área, o que continua me deixando assutado. Ainda tenho uns trinta e tantos dias de projeto 460 km por SP, cerca de 350 km pela frente, não dá para uma lesão me derrubar agora.
Vamos ver o que rola. Esta semana será muito importante para as definições de tratamento, que, prevejo, será meio ninja, tentando arrumar o corpitcho veio enquanto eu o vou desconjuntando pelas artérias paulistanas.
Se conseguir encontrar mais lugares tão aprazíveis e inspiradores como o de hoje, vai valer a pena.
Bueno, desculpe aí que o post não está completo. Eu lamento mais que todos, pois você não sabe o quanto escrevi, na minha mente, enquanto rodopiava pelo mato da zona oeste paulistana. Ia ser uma história de poesia pura, o corredor e a natureza, as trilhas e o coração selvagem.
Mas preciso ser econômica. Não tem mapa nem fotos. Volte outro dia (volte todos os dias) e terei conseguido dar um pouco mais de elegância a esta mensagem.
Por enquanto, fique com o resumo da empreitada e, por favor, torça comigo para que a minha operadora de internet comece a prestar um serviço melhor, mais decente, mais honesto. Do jeito que está, posso dizer que odeio minha operadora de internet de todo o coração (pelo jeito como ela me trata, parece que o sentimento é mútuo).
Azar. Vamo que vamo!
DIA 9 – PROJETO 460 KM POR SÃO PAULO

Dia 9 - Projeto 460 km  por SP
Clique no mapa para acessar informações mais detalhadas sobre o percurso
QUILOMETRAGEM DO DIA: 15 km
TEMPO DO DIA: 2h51min40
QUILOMETRAGEM ACUMULADA: 121 km
TEMPO ACUMULADO: 22h54min51
QUILOMETRAGEM A CUMPRIR: 339 km
DESTAQUE DO PERCURSO: parque Anhaguera, é pouco ou quer mais?

 

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Urbanista Raquel Rolnik passeia por SP com maratonista e analisa a cidade

Por Rodolfo Lucena
08/12/13 14:42

“A avenida Angélica foi minha estrada para a liberdade. Eu vivia num gueto: meus amigos eram judeus, ia a festas de judeus, sempre estudara em colégio judaico. Quando terminei o ginásio, disse não! Cheguei a fazer greve de fome para mudar de escola (durou um dia). Consegui. O colégio era na Paulista, eu subia de ônibus a Angélica, era uma espécie de passagem para um mundo novo.”

Quem conta é a arquiteta e urbanista Raquel Rolnik, 57, minha convidada-anfitriã neste oitavo dia do projeto 460 km por SP. Caminhamos por partes da cidade que lhe foram e são importantes na vida, observamos as mudanças na Paulicéia e ouvi dela análises sobre a situação da urbe.

Palavras críticas, em sua maioria, pois é essa mesma a função do observador/analista/urbanista: descobrir o que está errado e apontar direções, propor caminhos. É o que Raquel vem fazendo ao longo de seus quase seis anos de atuação como relatora especial das Nações Unidas para o direito à moradia.

A poucos meses do fim do seu segundo mandato, ela contabiliza visitas a mais de uma dezena de países, em que sua passagem nem sempre foi motivo de alegria dos governantes e poderosos de plantão. Um de seus estudos polêmicos avalia o impacto de megaeventos esportivos na situação da moradia, e o Brasil não se sai muito bem (leia mais AQUI).

Nosso passeio, no entanto, começa com elogios. Circulamos pela praça Dolores Ibarrury, no Alto de Pinheiros, e eu festejo a escolha da minha convidado, pois o local é também um dos meus prediletos. Gosto de enfrentar as ladeiras da praça, que tem vários níveis, e me emociono com a homenagem que a cidade fez à grande militante comunista espanhola, que passou á história com o apelido de La Pasionaria (saiba mais sobre ela AQUI).

1raquelapracalapasionaria VA

Rolnik destaca o paisagismo da praça, as boas soluções dadas para o problema oferecer ao público uma área de lazer num terreno em declive. Aponta (foto acima) o sistema de drenagem, que julga inventivo e efetivo, integrado à natureza do ambiente.

Já mendigo e moradores de rua não são bem-vindos –ou, pelo menos, não eram para quem inicialmente montou a praça. É o que indica o banco de cimento antimendigo, hoje modificado por intervenção de ativistas da região, que buscam humanizar a praça.

3humanizacaobancodepraca

O banco tem ondulações para tornar desconfortável a deitada nele, além de uma saliência feita para atacar a coluna lombar –tudo planejado para deixar a praça “limpa” de estranhos.

Mas a cidade não perdoa. Mesmo no território de bem-nascidos, chegam os tentáculos da violência urbana: ali na praça do silencioso e plácido Beco das Corujas, em que passeiam jovens mamães e seus rebentos, cavalheiros com seus cachorrinhos, alguém foi morto a tiros –a cruz improvisada funciona como memorial da tragédia.

4 morto na praca VA

Seguindo caminho pelo coração da Vila Madalena, passamos por uma pouco movimentada zona eleitoral: neste domingo se realizam eleições para o também pouco conhecido Conselho Participativo Municipal (saiba mais sobre esse órgão AQUI).

Comentamos o episódio, mas nossa atenção  está mais dirigida para a Vila, que já foi território livre de artistas e artesãos, estudantes com pouco dinheiro e empreendedores desabridos. Ainda que modificado pelo tempo, há bastiões desse espírito: a galeria de arte alternativa Casa da Xiclet é um dos bastiões de resistência, encravada das franjas da Fradique (saiba mais AQUI).

Logo à frente, uma turma monta mais uma versão da feirinha da Vila Madá, mas não temos interesse em compras. Rumamos  para o início da Fradique, onde faremos uma parada memorialística. Naquele primeiro quarteirão, há mais de 30 anos, existia um conjunto de casinhas de fundo de lote que virou uma espécie de república universitária.

Um espaço naquele território livre da juventude foi a única coisa que Raquel conseguia pagar quando saiu de casa. E lá ficou até que o dono do conjunto cansou da bagunça universitária e tratou de vender as casinhas. Não contava, porém, com a resistência do grupo, que descobriu irregularidades nos procedimentos do barão imobiliário e foi buscar seus direitos nos tribunais.

Um acordo garantiu à turma mais seis meses de residência –sem pagar aluguel. Os estudantes também teriam direito aos escombros –Raquel usou parte do material de demolição para construir sua casa própria, a mesma onde mora hoje. Depois de várias reformas, ainda há algumas portas sobreviventes da casinha da Fradique.

Nossa jornada pela memória urbana da urbanista prossegue passando pelos Jardins. Subimos a Gabriel Monteiro da Silva enquanto conversamos sobre as atividades dela como relatora especial da ONU (confira AQUI o blog Moradia é um Direito Humano, em que Raquel fala sobre o trabalho da relatoria e abre espaço para denúncias e consultas sobre o tema).

Chegamos ao topo da Paulicéia, na Paulista com Consolação, e tomamos o rumo da Angélica, que lhe é tão querida. “No colégio, conheci paulistas pela primeira vez. Tinha gente de outros bairros, outras cidades, do interior. Para o judeu, não há interior: há São Paulo, Rio, Buenos Aires, Nova York. No máximo, ia ao Guarujá, não sabia o que era o interior.”

Um dos primeiros amigos de Raquel no colegial morava na Freguesia do Ó, galáxias de diferença do mundinho onde vivia. “Um dia fui numa festa na Freguesia, tinha cerveja, música, gente. Era um paraíso”, recorda a hoje professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP.

8praca buenos aires

Enquanto falamos sobre paraísos, passamos por um oásis na urbe: a praça Bueno Aires, em plena Angélica. Na manhã dominical, famílias do entorno fazem dali seu parque de diversão, encontro com a natureza.

Os prédios da avenida suscitam sua memória profissional: “Esse é do Artacho Jurado”, aponta, elogiando o design de um edifício idealizado pelo homem que ainda hoje é incensado por muitos arquitetos (saiba mais sobre ele AQUI).

Cruzamos sob o Minhocão, que merece o repúdio e a ira da urbanista (conheça mais sobre as ideia dela no BLOG pessoal que ela mantém), mas logo passamos por outra construção que a empolga. Para mim, não passa de um predinho branquela e feio, mas Raquel se entusiasma: “É um dos primeiros exemplos da arquitetura moderna em São Paulo”, diz, destacando que a área de serviço está na parte da frente do edifício.

Enfim chegamos a nosso destino, a esquina das ruas Vitorino Carmilo e Eduardo Prado, onde nasceu a anfitriã-convidada do passeio de hoje. “Isso não era assim”, diz ela, apontando para as grades e o arame farpado que cercam o prédio construído por um dos tios de Raquel.

11 casa original ponto final

“Além de nossa família, moravam aqui vários parentes. Eu vivia brincado com meus primos, subindo e descendo escadas no edifício.”

Depois, foi construir sua vida mundo afora. Vamo que vamo, que amanhã tem mais.

DIA 8 – PROJETO 460 KM POR SÃO PAULO

mapa08dez2013

Clique no mapa para acessar informações mais detalhadas sobre o percurso

QUILOMETRAGEM DO DIA: 10 km

TEMPO DO DIA: 2h27min59

QUILOMETRAGEM ACUMULADA: 106 km

TEMPO ACUMULADO: 20h03min11

QUILOMETRAGEM A CUMPRIR: 354 km

DESTAQUE DO PERCURSO: praça Dolores Ibarruri, Vila Madalena, avenida Angélica, Minhocão

 

 

 

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Corrida por flores e pela memória de um imigrante na Paulicéia

Por Rodolfo Lucena
07/12/13 13:31

selo_rodolfo_correndo“E aí, ô meu, vai querer sair daqui sem esse baguio?! Cai fora”, disse o “nóia”, vindo em minha direção. Ele se referia ao meu celular, com que fotografava um grupo de moradores de rua, aparentemente drogados, estirados no chão em frente ao terminal de ônibus Santa Isabel, no centro de São Paulo.

Magricelo, vestido em trapos sujos, o sujeito de cabelos oxigenados carregava um cachimbo de crack numa mão; a outra, erguia contra mim em seus passos ainda trôpegos. Era o mais acordado do grupo, tinha recém dado um soco na perna de um colega. Dificilmente conseguiria me agredir, acho eu, mas não esperei para ver: respondi qualquer coisa e segui caminho rumo ao fim da minha primeira jornada de hoje.

No sétimo dia de meu projeto de 460 km por São Paulo, para homenagear o próximo aniversário da cidade, não descansei. A lesão no joelho direito ainda está viva e dolorida, mesmo para caminhar; ainda sim, forcejo para botar um pé na frente do outro.

Pensei numa caminhada alegre para este sabadão, começando e terminando junto a flores e cores. Passo primeiro pelo mercado de flores da avenida Doutor Arnaldo, que já se prepara para o Natal. Quando cruzo por ali, vendedores ainda estão arrumando os pinheirinhos para as vendas do dia.

5florVALE

Ana Moura, 48, há 20 anos no Araçá (o cemitério quem empresta sua calçada para os floristas), não tem medo de fazer força, carregando pequenas árvores para deixá-las em exposição.

Desço a Consolação, onde tantas vezes corri durante disputas da São Silvestre. Ali no alto, perto da Paulistas, é a própria Rua dos Lustres: montes de lojas de lâmpadas, lustres, abajures e assemelhados. Algumas também vendem objetos de decoração, como os bibelôs inspirados em super-heróis (fico imaginando quem gostaria de ter um deles na sala… talvez os personagens da série televisiva “Big Bang Theory“…).

Uma, duas quadras à frente e já estou nos domínios do cemitério da Consolação, o mais antigo e chique da cidade. Sei que há muitas obras de arte por suas alamedas (saiba mais AQUI), mas prefiro investigar o que está de fora.

Em uma esquina, protegida do sol, dona Maria Lúcia lê jornal, ladeada por seus cachorrinhos, enquanto aguarda algum freguês. Aos 73 anos, está há mais de 50 em São Paulo e vende flores em frente ao cemitério da Consolação desde o final dos anos 1990. Pergunto a ela o que quer da vida, e ela me diz que não pretende colocar botox (clique na foto abaixo para assistir à breve entrevista).

9 maria 3

Continuo em direção ao Centro. Desço a gloriosa Rego Freitas, onde fica o Sindicato dos Jornalistas e também a Matilha Cultural, que aos domingos realiza uma feira de adoção de cães sem dono. No Matilha, entrevistei o segurança, Edson, que contou um pouquinho sobre o trabalho da entidade (veja o vídeo AQUI)  .

Descendo a rua tal qual quem escarafuncha na memória, lembrei que naquele primeiro quarteirão também funcionou, nos anos 1980, a gafieira Sandália de Prata (acredite, cheguei a dar umas rodopiadas no salão, apesar de minha proverbial falta de ginga).

Por ali desemboco enfim no Arouche, onde pensava em terminar a caminhada do dia, entre as flores. Agora já não há mais vendedores na rua, estão todos em uma gaiolona de vidro. De qualquer forma, o colorido e o cheiro são gostosos.

11 arouche

Talvez tanta beleza tenha me entusiasmado, fazendo com que resolvesse seguir mais um pouco. O Centro é cheio de memórias, não cabem nem mesmo no poço sem fundo internético. Sigo em silêncio meditabundo, passando por locais que frequentei ou sobre os quais escrevi.

Passo pelo palácio dos Campos Elíseos, hoje em obras, e me lembro da única vez que estive em seu suntuoso interior: fui cobrir a cerimônia de posse do ex-ministro Severo Gomes como secretário de Ciência e Tecnologia de São Paulo, lá no início dos anos 1980.

É quando encontro o grupo de homens atirados ao chão, imagem que se repete em vários pontos daquela área do centro, no entorno da chamada Cracolândia.

As ameaças do “nóia” oxigenado são vazias. Sigo meu caminho, circundando a praça Princesa Isabel, também usada por viciados em drogas, e vou em direção ao local onde se erguia a antiga rodoviária de São Paulo. O prédio tinha telhado e coberturas em acrílico colorido, e as paredes eram cobertas de pastilhas cerâmica em que predominava o amarelo.

Foi lá que coloquei o pé na cidade de São Paulo pela primeira vez. Vinha para uma reunião clandestina do movimento estudantil, em meados dos anos 1970, e era um completo capiau.

Desci do ônibus sem conhecer nada e fui obrigado a cometer uma infração às regras de segurança: puxei conversa um sujeito que eu conhecia e que, por certo, vinha participar do mesmo encontro. Por coincidência, chegamos os dois no mesmo ônibus.

Tínhamos passado a viagem toda nos evitando, fingindo que um não conhecia o outro. Éramos de grupos diferentes, que estavam em algum tipo de negociação na época. A necessidade, porém, acabou sobrepujando os cuidados: faltavam horas para os nossos “pontos”, como chamávamos os locais de encontro e acabei indo para a casa de uma amiga do sujeito.

No fim deu tudo certo.

17 rodviaria

No lugar de meu primeiro porto paulistano, há hoje terreno baldio cerca. Um campo de futebol improvisado, lixo na grama e no areião.

17 noias

Encostada à cerca de arame, uma favela cresce. Eu filmo um pouquinho os barracos (veja o vídeo AQUI) e dou tchau. Vamo que vamo.

 

DIA 7 (primeira etapa) – PROJETO 460 KM POR SÃO PAULO

mapa dia 7dez2013

Clique no mapa para acessar informações mais detalhadas sobre o percurso

QUILOMETRAGEM DA ETAPA: 8 km

TEMPO DA ETAPA: 1h49min27

QUILOMETRAGEM ACUMULADA: 90 km

TEMPO ACUMULADO: 16h50min21

QUILOMETRAGEM A CUMPRIR: 370 km

DESTAQUE DO PERCURSO: comércio de flores do cemitério do Araçá e do largo do Arouche, área da antiga rodoviária de São Paulo

PS.: Meu dia não terminou. No final da tarde deste sábado, sétima etapa de meu percurso, participo de uma corrida em benefício do projeto Arrastão. Mais tarde coloco no ar o mapa da corrida e totalizo os dados do dia.

SEGUE O BAILE. A corrida do Projeto Arrastão (saiba mais sobre a prova AQUI) foi muito legal, ainda que cheia de meandros: com cercas, os organizadores criam voltas artificiais na praça Charles Miller, a fim de que o percurso seja cumprido. Ninguém dá muita bola para a repetição de trajeto porque é um evento beneficente, e a turma está para gostar, não para criticar.

Eu também gostei, apesar de ouvir meu joelho gritando no meu ouvido o tempo todo; foi um experiência nova, ficar mudando de passada cada vez que vinha uma dor, tentando ver se havia jeito de enganá-la. Pelo menos, consegui correr o tempo todo, ainda que muita gente não considere corrida uma média de 7min/km. Azar é deles, para mim é um esforço danado, me faz suar e alegra o coração. Então, confira abaixo a soma do sétimo dia.

DIA 7 (segunda etapa) – PROJETO 460 KM POR SÃO PAULO

mapa segunda etapa corrida arrtatao 07dez2013

Clique no mapa para acessar informações mais detalhadas sobre o percurso

QUILOMETRAGEM DO DIA: 6 km

TEMPO DO DIA: 44min51

QUILOMETRAGEM ACUMULADA: 96 km

TEMPO ACUMULADO: 17h35min12

QUILOMETRAGEM A CUMPRIR: 364 km

DESTAQUES DO PERCURSO: praça Charles Miller e interior do estádio Pacaembu

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Sonho de corredor voa em torno de Congonhas

Por Rodolfo Lucena
06/12/13 16:49

selo_rodolfo_correndo“Neste local, em 17 de julho de 2007, ocorreu a maior tragédia da aviação civil brasileira. Para os familiares das 199 vítimas do voo TAM JJ 3054, o solo onde está implantado este memorial é sagrado. A realização desta obra resulta da vontade e empenho das famílias atingidas e da iniciativa da Prefeitura de São Paulo de homenagear aqueles que hoje brilham no céu com estrelas e de lembrar –junto desta árvore sobrevivente– que a Vida é mais importante do que tudo.”

Esse é o texto gravado na placa de bronze instalada no anel de cimento que circunda a dita árvore no Memorial 17 de Julho, em frente ao aeroporto de Congonhas, em meio a uma área cheia de prédios altos e densamente povoada de São Paulo.

Estou do outro lado da rua, no encontro das avenidas Bandeirantes e Washington Luís. Ali começo meu sexto dia da jornada de 460 km para homenagear os mesmo tantos anos da cidade. Vou abraçar o aeroporto –quando cheguei aqui, há mais de 30 anos, bastava dizer isso para saber que se estava falando de Congonhas (o de Cumbica, em Guarulhos, só seria inaugurado em 1985 e o Campo de Marte, bem, era chamado diretamente pelo nome).

6melhor foto

Começo a caminhada/corrida imaginando se o local, palco de tão dolorosas tragédias e de tantos desmandos, merece um abraço afetuoso. Fico em dúvida, mas lembro que ele é também porta de entrada de um bando de sonhos, como bem destacou o escritor gaúcho Moacyr Scliar (1937-2011) em belíssima crônica publicada pouco depois do acidente.

“Precisamos, de uma vez por todas, descobrir qual o caminho que, afinal, deve o nosso país seguir, para melhorar a existência de seus cidadãos. (…) precisamos nos reconciliar com nossos símbolos. Congonhas era, com suas limitações, uma imagem do progresso brasileiro, um lugar dinâmico, mesmo que confuso. Não pode ficar na história do país como um cenário de holocausto. Precisamos dar asas aos nossos sonhos. Mas precisamos assegurar que eles possam pousar em segurança”, escreveu em “A Tragédia Vista de Porto Alegre” (leia a íntegra AQUI).

Na época, a capital gaúcha, de onde o voo 3054 saiu para se esborrachar no cimento e no asfalto de São Paulo, ficou em prantos. Não havia pessoa com quem se falasse que não tivesse um parente, colega, amigo, filho ou filha de conhecido a chorar alguma perda. Jornais e serviços on-line produziram milhões de palavras para contar a tragédia, com números, gráficos, depoimentos, análises (leia AQUI um desses especiais, como os jornalistas chamamos esse tipo de produção).

Por certo, nada dá conta do sofrimento dos que ficaram. Muito menos uma corrida. Mas é o que tenho a oferecer.

Circundo Congonhas e vou descobrindo que seu perímetro está longe de ser um retângulo bem definido. Sua frente tem quase dois quilômetros, mas a primeira quebrada a esquerda, para marcar o limite da lateral sul, me mostra que o passeio será de emoções.

E dores. Meu joelho direito já deu uma melhoradinha depois de repetidas sessões de atendimento intensivo, mas nem de longe está disposto a enfrentar correndo qualquer quantidade de quilômetros. Vou explicando para ele que a vida é assim mesmo, algum sacrifício há que se fazer: corro um pouco, caminho outro tanto, vou a passos cuidadosos em qualquer lugar que se assemelhe a descida.

Não são poucas, como você pode perceber no gráfico abaixo. A volta completa em torno do aeroporto dá um pouco mais de 8 km, incluindo idas e vindas em ruelas sem saída que pululam no entorno.

altimetria congonhas

Pois o aeroporto não é circundado por ruas. Na maior parte do seu perímetro, prédios comerciais e, especialmente, casas e mais casas –às vezes, barracos—estão construídos diretamente colados ao talude onde foi implantado o aeroporto.

Numa dessas quebradas, há até uma pequena favela, uma espécie de triângulo invertido deitado sobre o morro –a parte mais estreita está junto à calçada; conforme sobre o morro, mais se alarga a área em que se empilham as precárias construções, com microvielas por onde escorre esgoto…

O enclave é visto do alto por grande prédio comercial; do outro lado, casinhas de classe média se enfileiram na rua simples.  Quanto mais ando, mais me convenço de que o aeroporto de Congonhas é uma excrescência, não cabe mais na urbe de hoje.

Deixo o sonho voar. Imagino que, depois de 77 anos de operações (saiba mais AQUI), Congonhas bem que poderia se aposentar. Aquela maravilhosa área de mais de 1,6 milhão de metros quadrados (semelhante ao terreno do parque Ibirapuera) seria então entregue ao público.

Em vez de estacionamento caríssimo, barulho e confusão, um parque com bibliotecas, cinema, área para shows, locais para caminhadas, brinquedos para a criançada… Êta, nóis!!

A realidade é menos alegre: encaro o trânsito e as buzinadas dos motoristas impacientes. Completo a volta e sigo um pouco mais além, circulo pela praça que funciona de teto do novo prédio do estacionamento e encontro um quero-quero, pássaro-símbolo da gauchice, mas que, como os gaúchos, está espalhado por todo o Brasil.

4queroquero

Cruzo a movimentada Washington Luís usando a passarela de pedestres, driblo obras na região e volto ao local onde caiu o 3054, para me reencontrar com o Memorial.

No caminho, lembro de outra tragédia de Congonhas, que ficou conhecida como a queda do Fokker 100. Cerca de dois minutos depois da decolagem, o avião desabou, caindo sobre casas próximas ao aeroporto: morreram os 96 passageiros e tripulantes e ainda três moradores das casas atingidas (saiba mais sobre o desastre AQUI).

Então dou adeus às vítimas do voo 3054 e, de carro, sigo até a região onde caiu o outro avião, também da TAM (meu cronômetro fica desligado no trajeto, se algum engraçadinho se deu ao trabalho de engendrar aleivosias…).

Sei que o caso está vivo na memória de muitos, pois até gerou a criação de uma entidade de parentes de vítimas de acidentes aéreos (saiba mais AQUI). Na rua Luís Orsini de Castro, porém, falo com um e outro e me parece que a lembrança do desastre não é tão presente (percepção semelhante teve a reportagem da TV Folha, veja vídeo AQUI). Enfim encontro um senhor que me mostra onde aconteceu a queda.

O Fokker 100 bateu em um prédio de dois andares e depois atingiu várias casas da Orsini de Castro. Hoje, não há –ou, pelo menos, eu não vi— sinais do acidente. Corri várias vezes a rua de cima a baixo e não notei placa, memorial ou qualquer outro registro do caso que movimentou a região.

O que não muda minha opinião, de que o aeroporto deveria ser tirado do coração da cidade. Com certeza, não fui o primeiro nem serei o último a desenhar projetos nas nuvens de fumaça deixadas pelos aviões de por lá circulam. Não faz mal. Sigo correndo. Vamo que vamo!

DIA 6 (primeira etapa) – PROJETO 460 KM POR SÃO PAULO

mapa 1 2013dez06

Clique no mapa para acessar informações mais detalhadas sobre o percurso

QUILOMETRAGEM DO PERCURSO: 12 km

TEMPO DO DIA: 1h49min01

QUILOMETRAGEM ACUMULADA: 81 km

TEMPO ACUMULADO: 14h48min56

QUILOMETRAGEM A CUMPRIR: 379 km

DESTAQUE DO PERCURSO: aeroporto de Congonhas, Memorial em homenagem às vítimas do voo TAM 3054

DIA 6 (segunda etapa) – PROJETO 460 KM POR SÃO PAULO

mapa 2 2013dez06

Clique no mapa para acessar informações mais detalhadas sobre o percurso

QUILOMETRAGEM REALIZADA: 1 km (total do dia: 13 km)

TEMPO DO PERCURSO: 11min58

QUILOMETRAGEM ACUMULADA: 82 km

TEMPO ACUMULADO: 15h00min54

QUILOMETRAGEM A CUMPRIR: 378 km

DESTAQUE DO PERCURSO: rua em que caiu o voo TAM 402

 

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Para aliviar os joelhos, corredor roda por ruas ricas de São Paulo

Por Rodolfo Lucena
05/12/13 15:50

selo_rodolfo_correndoAs subidas e descidas da encabritada e gigantesca avenida Sapopemba, na zona leste de São Paulo, cobraram imposto alto de meus músculos, tendões, ligamentos e articulações. Desde o final dos 20 quilômetros lá percorridos, meu joelho direito dói que só o Cão, as panturrilhas empedraram e a musculatura posterior da coxa está em alas. Sem falar dos pés –ah, os pés!, melhor deixar para lá.

Para tentar minorar o problema, ontem fiquei só na caminhada pelas não menos encabritadas artérias da vibrante Heliópolis. Depois do exercício, passei por completa sessão de fisioterapia de emergência, tratado com laser, ultrassom, pomadas e milagrosa terapia manual para soltar os músculos.

Não tão milagrosa que me deixasse cem por cento (se ficasse oitentinha já estava bom, mas estou ainda aquém disso). O que me levou a procurar, para o percurso de hoje, território mais plano e benfazejo para as articulações. Vai daí que meu percurso, no quinto dia da jornada de 460 km que faço em homenagem ao aniversário da cidade, incluiu a badalada Oscar Freire e suas ricas adjacências.

Começando a manhã, sou saudado por uma sorridente Mônica instalada em frente a uma livraria da alameda Lorena, que faz parzinho com a Oscar Freire na riqueza e no trânsito –uma dá mão para lá, outra dá mão para cá. Foi a primeira estátua da “Monica Parade” que vi na cidade; antes, só acompanhei pelos jornais e internet a epopeia da festança, que inclui roubo e sequestro de algumas das divertidas esculturas da querida personagem criada por Mauricio de Souza.

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A Lorena e a Oscar Freire têm dupla personalidade: um território de altíssimo luxo e quadras menos aquinhoadas, ainda que também longe do misere da periferia. Há calçadas detonadas, mas também há passeios arrumadinhos, como os dos poucos quarteirões que os lojistas da rua mandaram consertar.

3calcadaoscarfreire

Nesse território, entre a Augusta e a Consolação, as mais famosas grifes internacionais dizem presente, assim como restaurantes caríssimos e lojas descoladas (confira AQUI lista do comércio oscariano). Já apareceu entre as dez ruas mais luxuosas do mundo, e o metro quadrado é dos mais caros da cidade, mas, mesmo assim, as casas dali também fazem promoção.

Me encantei com uma, que oferecia: leve quatro peças e pague três. Pensei: se eu fosse comprar três peças de qualquer coisa daquela loja, não ia sobrar dinheiro para a comida; aliás, dependendo da loja, três peças garantem dívida por meses sem conta…

Como não vou comprar nada, posso me divertir com a decoração. Uma vitrine expõe até manequins em pose de corrida, e gosto da imagem construída com os reflexos.

5corredores

Em outra, a árvore de Natal é construída com pisantes vermelhos. A ideia me pareceu bacana…

6arvore2

A passo, vou conseguindo enfrentar as dores. Os músculos estão enrijecidos, e a caminhada não flui como eu gostaria, o que me faz aumentar o ritmo um pouquinho.

Assim, subo e desço transversais, cruzo por restaurantes notáveis por cobrar fortunas enormes por minúsculas porções. No meu caminho, ainda não há clientes das casas dos Jardins; por enquanto, chegam os funcionários, tomam café na rua, conversam com taxistas, cumprimentam seguranças. Tenho tempo de observar, numa viela, a árvore florida beijada pelo sol.

É hora de trocar de rumo. Chego  à Gabriel Monteiro da Silva e viajo pelas alamedas da lembrança: há mais de 20 anos, um segurança assassinou a tiros um garoto que cometeu o “crime” de sentar em uma corrente que cercava a propriedade protegida por defensores armados. Acompanhei o caso, que saiu em reportagem de capa no caderno Cidades da Folha (hoje Cotidiano).

reportagem pichador assassinado

Essa morte e outras tantas relatadas nos jornais mostram que a gaiola de ouro dos Jardins (região em que fica a Oscar Freire) não tem só alegria, borbulhas de champanhe e brilho (apesar do proclamado por um cartaz de uma loja, que dizia “só o brilho importa”, em inglês –aliás, ao que parece, o idioma de escolha da área).

Na Gabriel, me desafio a trotar. Não há dor forte, ainda que as pernas se movimentem de jeito estranho: engulo um quilômetro de asfalto e mais outro, já dá até para suar  (é bom suar, garante a música interpretada por Pepeu e Moraes Moreira).

A alameda é outra exposição de lojas de luxo, grande parte delas dedicada a produtos de decoração e mobiliário (veja AQUI uma relação das casas gabrielísticas).

No meu trotinho dolorido, chego a uma das praças mais gostosas que conheço, a Coronel Pires de Andrade, ladeada por mansões. Por favor, não conte para ninguém, mas um dia cheguei a pesquisar preços de casas na região e me encantei com uma vivenda instalada em uma das esquinas em frente ao quadrilátero arborizado –foi por certo delírio de grandeza, mas me diverti sonhando com a reforma que faria (vai dizer que, de vez em quando, você não imagina ter ou fazer coisas impossíveis…).

Além de bela, a praça é bem cuidada –há cadeiras e guarda-sóis para seguranças em vários pontos—e superarrumadinha. O gramado é limpo e a grama não é aparada, mas sim manicurada: olhando aquele verde, dá vontade de sair pastando…

8grama

Eu saio é correndo, ainda que por apenas algumas centenas de metros, Logo tenho de seguir a passo para fugir da dor e defender a musculatura –por certo ainda caminharei muito entre os trotes e corridas até completar meus delirantes 460 quilômetros por São Paulo.

Rodo pela avenida Faria Lima, outro templo do consumo, com vários shoppings –inclusive um que se alinha entre os maiores, mais luxuosos e, por via de consequência, mais careiros de São Paulo. É impressionante a expansão do número desses centros de compras: quando vim morar em São Paulo, em 1981, conseguia dizer o nome de todos ou quase todos, dava para contar nos dedos. Hoje são mais de 50, devendo chegar a quase 60 até 2015.

Investimentos à parte, eu precisava seguir para superar os incômodos musculares. Passo um clube frequentado pela elite paulistana, dou um adeusinho de longe para um dos museus mais bacanas da cidade, o da Casa Brasileira (vá lá um dia, é muito legal: aos domingos e feriados, a entrada é gratuita; nos outros dias, adultos pagam R$ 4).

Quando cruzo por ele, o museu ainda está fechado. Desço em direção à Marginal Pinheiros e encontro um “parente rico” dos prédios redondos que ontem visitei na comunidade de Heliópolis.

9redondos

A parada para foto me revigora, sei que me destino está próximo. Acelero um pouquinho (fico sempre testando a musculatura), mas atravesso a passo a passarela que se ergue sobre a avenida Cidade Jardim e me leva até o parque do Povo –o chão treme, a passarela sacode com o movimento dos veículos que por baixo dela cruzam; dá até um medinho, mas a sensação principal é de curiosidade, estranheza. Fico com vontade de rir…

10passagem

Gosto do parque do Povo, já corri muito por ali. É um pouco ensolarado demais para quem já percorreu alguns tantos quilômetros, como em geral acontece quando lá atraco, mas há territórios com sombra, bebedouros públicos e banheiros limpos.

Elegantes moradores da região fazem exercícios, babás passeiam com carrinhos bacanas, madames andam com seus lulus, executivos exibem sua musculatura. A volta para correr é pequena, pouco mais de 1.500 m, mas levemente ondulada, o que lhe empresta graça e dá mais sal ao exercício.

Minha preferência, porém, é olhar o entorno, céu aberto em plena região central do São Paulo. Os edifício não escondem o sol, mas montam guarda ao redor do parque, com seus perfis envidraçados que sempre necessitam de cuidados especiais de limpa-vidros acrobatas e dão reflexos que atraem a câmera deste corredor.

11pqpovo1

Faço quase uma volta inteira no trote. Quando tento repetir a dose, sou obrigado a reduzir para caminhada. O corpo pede descanso, cuidado, atenção. Tudo isso lhe será dado, prometo a mim mesmo, e termino a passo a jornada do dia. Amanhã tem mais. Vamo que vamo!

DIA 5 – PROJETO 460 KM POR SÃO PAULO

mapa2013dez05

Clique no mapa para acessar informações mais detalhadas sobre o percurso de hoje

QUILOMETRAGEM DO DIA: 15 km

TEMPO DO DIA: 2h40min02

QUILOMETRAGEM ACUMULADA: 69 km

TEMPO ACUMULADO: 12h59min55

QUILOMETRAGEM A CUMPRIR: 391

DESTAQUE DO PERCURSO: comércio de luxo das ruas Lorena e Oscar Freire, lojas da Grabriel Monteiro da Silva, shoppings e parque do Povo

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Em caminhada, maratonista descobre desafios e conquistas de Heliópolis

Por Rodolfo Lucena
04/12/13 19:21

selo_rodolfo_correndo“Não quero mais morar em barraco, não posso mais morar em barraco, NÃO VOU mais morar em barraco!”, gritava para si mesmo, em silêncio, a menina de 17 anos, saindo da casa pobre em que morava com pai, mãe e quatro irmãos, amontoados todos em pequeno espaço. Não chorava: caminhava quase em desespero pelas vielas de chão batido até que viu ao longe uma pequena multidão.

Aprochegou-se e ainda ouviu uma jovem senhora de sotaque nordestino e fala decidida dizer: “A terra é nossa!”, fechando um discurso em que convocava a favela a lutar por melhores condições de vida e moradia. “É com esses que eu vou”, pensou a garota, então não chorosa nem raivosa, mas determinada.

Já lá se vão mais de 30 anos –33, para ser exato. Antonia Cleide Alves hoje tem casa que ajudou a construir. De certa forma, é herdeira daquela paraibana que conduzia as lutas comunitárias nos anos 1980: há décadas militante de movimentos populares, está no segundo mandato como presidente da Unas, a União de Núcleos, Associações e Sociedade de Moradores de Heliópolis e São João Clímaco.

Foi ela a minha anfitriã de hoje, me levando pelos caminhos da maior favela de São Paulo –comunidade carente, no dizer politicamente correto. No terreno de 1 milhão de metros quadrados, vivem cerca de 220 mil pessoas, segundo a líder comunitária –o censo oficial, contando apenas os bolsões irregulares, dá números diferentes, cerca de 40 mil moradores.

1Helioentrada

Cheguei pouco depois das sete horas, muitos ainda saíam para pegar ônibus na Estrada das Lágrimas, uma das avenidas que limitam a comunidade. Partindo de uma das instalações da comunidade, quase na entrada de Heliópolis, Cleide me leva para o quarto dia de meu percurso de 460 km por São Paulo.

1Heliocingapura

Cada metro da favela esconde e revela uma história de dor e luta. “Aqui eram os barracões onde a gente vivia”, diz ela, apontando para um prédio retangular azul e cinza, o primeiro Cingapura da comunidade (acima). Mais para a frente, outro conjunto se ergue onde antes era só lixo ou terreno baldio.

2helioloiruda

E assim vamos, percorrendo ruas asfaltadas e mal traçadas, entrando por becos e vielas de uma comunidade que está cada vez mais organizada: tem escolas, creches, biblioteca –com acervo escolhido por Antônio Cândido–, áreas de atendimento médico, postos policiais.

19visaogeral VA

Tudo resultado de lutas dos moradores, que muitas vezes tiveram de enfrentar armas de capangas ou da polícia. “Os grileiros diziam que a gente tinha de pagar aluguel”, conta Genésia Ferreira de Miranda, 56, que chegou à favela em 1979 e logo começou a organizar outras mães de família em defesa da posse da terra.

Foi o discurso de Genésia que Cleide ouviu, há 33 anos. Era uma das primeiras assembleias para mobilizar os moradores, o embrião da hoje poderosa Unas. (Confira AQUI um vídeo que fiz com Genésia)

Na época, a terra não tinha dono mesmo. Fora de propriedade do conde Sílvio Álvares Penteado, que gostava de carros e balões –foi o primeiro homem a voar sobre São Paulo. Nos idos de 1920 a 1940, empregados do aristocrata paulistano viviam em 36 moradias construídas nas glebas da região sudeste da cidade. Já em 1942, porém, as terras são compradas por um instituto de previdência e, ao longo dos anos, acabam em mãos do governo federal.

No início dos anos 1970, em plena ditadura militar, Heliópolis começa a ser uma espécie de depósito de favelados. Para ali são transferidas 153 famílias que a Prefeitura desalojara de uma comunidade em Vila Prudente. Mal chegam, tratam de lutar pela vida; aos poucos, viceja o processo de união: hoje a comunidade abriga, em casas de material, filhos e netos daqueles pioneiros.

10cabelereiro

O cabeleireiro Silas Santos, 25, nasceu ali mesmo. Hoje não estava trabalhando: esperava o andamento da reforma que seu pai, um dos veteranos de Heliópolis, fazia nas instalações de seu salão de beleza.

Ele só tem elogios para a comunidade, mas há quem tenha reclamações fortes a fazer. Uma comerciante se esconde da fotografia enquanto reclama do barulho que festeiros fazem em noitadas de som alto e muito consumo de bebidas e drogas numa viela onde se veem espalhados cartazes avisando “Proibido som alto”.

Em vez de chamar a polícia, em muitos casos os moradores preferem ficar quietos, temendo eventuais represálias de traficantes. “O que a associação faz é tentar ocupar os locais, fazer projetos nos terrenos onde há mais problemas”, diz Cleide.

8neguinhaVA

Um exemplo é a casa da Criança e do Adolescente, que recebe jovens fora do horário escolar. É lá que encontro Neguinha da Unas, moradora da região desde 1983. “Quem me trouxe foi Dona Chica da Vila Prudente”, explica ela enquanto informa sua atividade de hoje: “Faço políticas públicas”. De fato, é uma das candidatas da entidade ao Conselho Participativo Ipiranga.

Seguimos a jornada, e o fôlego de Cleide me impressiona. Fala sem parar enquanto caminha, o que parece pouco comum para uma trabalhadora sedentária –além de dirigente comunitária. Ela explica que não chega a fazer esportes regularmente, mas participa, como caminhante, da corrida anual que a comunidade organiza: “Faço quatro quilômetros em uns 40 minutos”, diz.

Seus feitos atléticos, porém, parecem não lhe importar. O que valem são as conquistas conjuntas. “Isso aqui era uma lagoa”, aponta. Urbanizado, o terreno roubado ao esgoto hoje tem casas e a sede da rádio comunitária, a Heliópolis FM, também fruto do trabalho coletivo dos moradores.

12 serralheiro

“A antena foi eu que construí”, diz Francisco Sabino Soares, 63, que dirige pela viela em direção ao trabalho. “É o melhor serralheiro da região”, elogia Cleide. Logo entramos na rádio.

Naquela hora, o prédio é ocupado por apenas uma pessoa, que trabalha sem parar no estúdio, se dividendo entre o microfone, o telefone, a operação de som e do computador: Liberalino Santos, 61, coordenador de programação e produtor de “Roberto Carlos e Convidados”.

12radio

Basta sair e avisto exemplo de empreendedorismo e bom humor, a hamburgueria MEC Favela, que sofreu até processo por causa do nome, segundo me diz Cleide. Pelo jeito, sobreviveu às querelas jurídicas.

14mecfavela

Nos letreiros, procura deixar claro que não tem nada a ver com algum outro estabelecimento cujo nome porventura soe parecido; trata-se de uma sigla que significa Minha Estrela Central – Favela lanches.

Para Cleide, a “estrela central” é outra: a filha Rafaela, mais velha de seus rebentos (tem ainda Gabriel, que está entrando na adolescência). É ela que nos abre a porta da casa onde mora a família.

5cleide efilha VA

Orgulhosas, as duas posam numa escada do prédio, que hoje tem dois pavimentos, construídos ao longo de anos, mas já foi mais modesto. “Construí minha casa no mutirão de 1992. Foram 192 famílias, cada uma com um terreno de 5 m por 15 m, 75 metros quadrados. Ninguém ganhou dinheiro, a prefeitura dava os matérias, tudo pré-moldado, para fazer casas de 24 metros quadrados.” Saímos, não sem antes ela voltar a mostrar Rafaela, dizendo baixinho, não sem sorrir: “Essa não nasceu em barracão”.

Claro que não é vergonha nenhum nascer em barracão, palafita ou molambo qualquer. A frase de Cleide me pareceu pontuar uma vida de lutas, de conquista de condições melhores para viver e construir família.

20sapato blog

É o mesmo sorriso da vendedora de calçados Vanessa Marlen da Silva, 33, que há três meses abriu uma lojinha em frente a um riachão hoje parcialmente canalizado, onde há algum tempo se amontoavam casebres de papelão, madeira velha e zinco. Vanessa morava em um deles; hoje vive em apartamento num dos prédios redondos projetados por Ruy Ohtake (saiba mais aqui). E faz sucesso vendendo sapatos de saltos estratosféricos, como o modelo “meia pata” que mostra na foto acima.

21redondos

Os prédios redondos são emblemáticos: simbolizam a um só tempo luta e conquista. Também demonstram que as campanhas de Heliópolis não são apenas da comunidade, mas pertencem a toda São Paulo, a todos. E há ainda muita mobilização necessária, diz Cleide neste vídeo AQUI, em que também explica a origem das lágrimas da estrada que serve de limite a Heliópolis.

24arvore va MESMO

Com uma visita à tal figueira-benjamina que testemunhou adeuses de famílias paulistanas em tempos idos, encerro meu caminho na comunidade. Com certeza, não conheci a face mais violenta da região, que há poucos meses foi atingida por incêndio de origem duvidosa que deixou três mortes (leia mais AQUI). Aliás, já no ano passado um dos líderes da Unas alertava sobre o estranho caráter desses sinistros (confira AQUI).

Mas isso não me apoquenta agora. A vida vale mais. Saio entusiasmado com os exemplos de construção de cidadania que vi ao longo de quase três horas de caminhadas, paradas e conversas. Vamo que vamo!

17heliopolisavante

DIA 4 – PROJETO 460 KM POR SÃO PAULO

dia 4 mapa heliopolis2013dez04

Clique no mapa para acessar informações mais detalhadas sobre o percurso de hoje

QUILOMETRAGEM DO DIA: 6 km

TEMPO DO DIA: 1h58min27

QUILOMETRAGEM ACUMULADA: 54 km

TEMPO ACUMULADO: 10h19min53

QUILOMETRAGEM A CUMPRIR: 406 km

DESTAQUE DO PERCURSO: passeio pela comunidade Heliópolis, área na zona sudeste de São Paulo com 1 milhão de metros quadrados e 220 mil moradores

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