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Rodolfo Lucena

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Perfil Rodolfo Lucena é ultramaratonista e colunista do caderno "Equilíbrio" da Folha

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Narcotráfico mata oito pessoas às vésperas da ultra Caballo Blanco

Por Rodolfo Lucena
03/03/15 11:02

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Hoje tenho mais informações sobre os acontecimentos na cidade de Urique, onde seria realizado no último fim de semana a emblemática ultramaratona Caballo Blanco, que segue trilhas percorridas pelos índios tarahumara, que se tornaram conhecidos como “corredores descalços”.

Nos dias que antecederam a corrida, a cidade e a região serrana, no Estado de Chihuahua, foram ocupadas por narcotraficantes, que lançaram o terror sobre a população e mataram várias pessoas. A falta de segurança provocou o cancelamento da corrida; os atletas visitantes foram escoltados para local seguro com o apoio de forças do Exército.

A primeira informação que recebi foi de que três homens haviam sido sequestrados e executados pelos traficantes. Mais tarde, um jornal mexicano confirmou a identificação de dois corpos, um jovem de 26 anos e outro de 29 anos, encontrados a cerca de 20 km da cidade.

Ao mesmo tempo, diversos sites passaram a noticiar que a corrida tinha sido realizada e que tudo estava tranquilo na cidade.

Procurei cotejar diversas fontes de informação e descobri que o governo municipal organizou uma corrida, que chamou de Ultra Caballo Blanco, para fingir que estava tudo bem. O mesmo governo havia negado ter ocorrido invasão de bandidos, coisa que a imprensa mexicana desmentiu: o ataque, de fato, ocorreu.

A minha fonte, desde o início, foi o organizador da prova, Josue Stephens, apontado como herdeiro de Caballo Blanco por sua dedicação à causa dos índios tarahumara e à corrida dita natural.

Depois da primeira mensagem que recebi, logo cedo pela manhã, ficamos sem contato por várias horas. Mais tarde, ele confirmou o que eu já tinha descoberto por meio do cotejamento das notícias divulgadas por diferentes sites: houve mesmo uma tentativa de maquiar o ocorrido a fim de não assustar os turistas.

No final do dia, Stephens mandou para mim uma terceira carta, na qual ele dá mais detalhes do ocorrido. Publico a seguir alguns dos trechos do depoimento dele:

SOBRE O CANCELAMENTO DA PROVA: “Nós cancelamos a ultra Caballo Blanco por falta de segurança. A prefeitura realizou um evento alternativo que não foi a Cabllo Blanco. Essa foi uma tentativa de encobrir o que estava acontecendo, por medo de que a violência prejudicasse o turismo na região”.

VIOLÊNCIA E MORTES: “As autoridades municipais me disseram que não havia razão parque a prova fosse cancelada porque ninguém tinha se ferido até então.Não é verdade. Eu mesmo vi bandidos arrastarem vários homens, que depois foram mortos. Vi a mãe de um deles correndo, chorando e gritando, pedindo que a vida do filho fosse poupada.

“Dos três homens mortos fora da cidade, dois eram policiais. Eu vi a polícia ser desarmada por forças do cartel (narcotraficantes). Ontem (sábado, 28.2) nós ouvimos tiroteio e explosões de granada na região durante todo o dia.

“Os bandidos são homens que não se importam com coisa nenhuma além de seus próprios interesses e atiram em qualquer um que se coloque contra eles.

“No sábado mesmo, forças do Exército chegaram à cidade, dando uma falsa sensação de segurança. Mas já era tarde. Pelo que eu soube, nos últimos três dias [NR.: de quinta a sábado] mais de oito pessoas foram mortas na região. Supostamente, elas tinham algum tipo de envolvimento com o cartel do tráfico.”

“Por isso, decidimos cancelar a prova 12 horas antes da largada. “Conseguimos segurança para fazer a evacuação e pedimos que todos os corredores saíssem na manhã seguinte [de domingo, 1.3].

“Os corredores locais não entenderam nossa decisão, eles vivem com medo sempre e queriam correr de qualquer forma, sentiam-se seguros por causa da presença dos militares.

“Mas não era isso que nós queríamos, não foi isso o que oferecemos aos atletas. Nós não viemos para ficar no meio de uma guerra, nós viemos para correr em paz.

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“Então, sem falar conosco, o prefeito, que tinha ficado escondido pelos últimos três dias, apareceu e disse que a cidade estava segura e que a corrida estava mantida.

“Eu estava num restaurante quando ouvi o prefeito fazer esse anúncio na praça. Havia uma multidão lá, toda a cidade e mais os corredores.

“Num momento que me parece agora surreal, eu corri até lá, subi no palco, peguei o microfone e falei que aquela corrida não era legítima, que a situação não estava segura e que o governo municipal iria fazer a prova sem a participação dos organizadores.

“Muita gente me aplaudiu e concordou comigo, afirmando que não havia segurança e que não iriam correr.

“Nós não queríamos essa divisão. O cancelamento da prova havia sido decidido por nós juntamente com o secretário de Turismo, mas então o prefeito passou por cima desse acordo.

“Maria Walton [viúva de Caballo Blanco], que é codiretora da prova, já tinha saído. Eu pedi para alguém chamá-la e fui novamente me reunir com  as autoridades na Prefeitura.

“Enquanto isso, continuava rolando bebida na praça. Representantes do governo municipal pegaram o microfone e gritavam que não precisavam dos gringos medrosos, que a corrida era deles e que eles correriam sem os estrangeiros.

“Nossa reunião com o prefeito e seus secretários foi tensa, eles disseram que manteriam a prova porque a presença do Exército garantia a segurança, ainda que grande parte do percurso estivesse bloqueada por causa do tiroteio e dos enfrentamentos, que ainda estavam ocorrendo.

“A multidão na praça estava ficando mais açulada, enquanto outros corredores estrangeiros chegaram para conversar conosco. Nós informamos a todos a situação e decidimos dormir e ir embora na manhã seguinte, como planejado.

“Na manhã de domingo, ajudei os corredores estrangeiros nas providências para a saída, e depois meu filho e eu pegamos um pequeno avião para sair da região.”

A corrida organizada pelo governo municipal acabou sendo realizada, segundo os sites que eu consultei. As informações divulgadas pelo governo local dão conta de que houve participação de 450 corredores, inclusive atletas estrangeiros.

O certo é que a situação do México está cada vez mais dramática, e a ação dos narcotraficantes se amplia a cada dia.

Reportagem publicada no jornal “Valor”, edição de hoje, diz o seguinte: “Os cartéis do narcotráfico controlam boa parte do território, extorquindo donos de empresas, comprando autoridades e paralisando setores importantes, como o da agricultura e o do turismo”.

Foi o que aconteceu na longínqua, pobre e bela Urique, na serra Tarahumara (as fotos são do site oficial de turismo, e eu as usei aqui apenas como ilustração, elas não foram feitas nos últimos dias; as crianças correndo não estavam participando da corrida de domingo último).

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Narcotráfico mata três em Urique, e ultra Caballo Blanco é cancelada

Por Rodolfo Lucena
02/03/15 13:24

ueA ultramaratona Caballo Blanco, uma das mais emblemáticas corridas do planeta, realizada no território dos índios mexicanos tarahumara, foi cancelada sábado (28.2) porque a cidade-sede fora invadida por narcotraficantes, que mataram três pessoas. O ataque é mais uma evidência de que a guerra do tráfico se estende mesmo a remotas regiões rurais do país.

Os organizadores da prova (confira AQUI o site oficial) conseguiram com que todos os corredores que lá estavam voltassem em segurança para seus locais de origem. Pretendem realizar a corrida em outra data, mas, agora, estão todos ainda chocados com os acontecimentos, lembrando que a segurança vem em primeiro lugar.

Eu recebi na manhã de hoje (2.3) mensagem de Josue Stephens, que organiza a prova junto com Maria Walton, viúva de Caballo Blanco. Ele faz um relato do que foram os últimos dias na serra Tarahumara (Estado de Chihuahua, norte do México).

Publico a seguir o e-mail que Stephens mandou para mim.

“A violência da guerra dos narcotraficantes finalmente chegou a Urique. Nos 13 anos em que nossa corrida foi realizada, Urique sempre foi uma cidade pacífica, e nunca ninguém foi ameaçado [NR.: trata-se de uma cidade histórica e linda; veja AQUI o site oficial].

Neste ano, os narcotraficantes invadiram a cidade, desarmaram a polícia e executaram três pessoas na última sexta-feira.

Uma parte do percurso da prova foi mais tarde fechada pelo Exército. Houve tiroteio e explosões de granadas durante todo o dia, fora da cidade.
Muitos corredores –inclusive eu—viram explosões bem à sua frente.

O prefeito da cidade e seus assessores se esconderam, esperando a chegada do Exército, ainda que, em tese, eles mesmos devessem combater os traficantes.

Urique estava em guerra, mas nós estávamos lá para correr em paz.

As coisas ficaram ainda piores no sábado. Como organizadores, Maria Walton e eu, não poderíamos manter a corrida sabendo que a segurança dos corredores estava em risco. Então, cerca de 12 horas antes da largada, tomamos a difícil decisão de cancelar a prova.

Fizemos o anúncio público de nossa decisão e realizamos uma cerimônia pela paz, com os corredores. Pedimos que todos ficassem na cidade até a manhã seguinte, quando forças do Exército iriam escoltar a população para fora da região.

Distribuímos aos corredores suas medalhas e informamos aos tarahumara que o milho prometido não deixará de ser distribuído ao seu povo, como combinado.

Maria e eu ajudamos os corredores, que partiram na manhã seguinte. Meu filho estava comigo, e eu tinha também de cuidar dele.

Nós estamos muito tristes.

Não sabemos o que o futuro nos reserva, mas gostaríamos muito de continuar transmitindo a mensagem de Micah True [Caballo Blanco], realizando a corrida que ele lançou há 13 anos.

Até agora tivemos muito pouco tempo para pensar em tudo o que aconteceu, mas esperamos que a paz volte aos cânions. O governo do México precisa fazer alguma coisa, pois a violência está ficando cada vez pior nas áreas rurais.

Pedimos a todos que dediquem suas corridas à paz no mundo.”

ATUALIZAÇÃO

AUTORIDADES LOCAIS NEGAM CANCELAMENTO

Apesar do anúncio de cancelamento feito pelos organizadores da ultramaratona Caballo Blanco, que é realizada por uma entidade privada, as autoridades locais negaram a existência de qualquer problema.

Mais: o governo do Estado de Chihuahua  emitiu comunicado dizendo que a prova foi realizada. Mais tarde, novo despacho oficial deu conta de que a corrida de 80 km fora vencida pelo mexicano Ranulfo Sánchez.

O comunicado também afirma que a corrida faz parte do festival Internacional de Aventura e que participaram competidores da China, Japão, EUA, Argentina e Holanda, além de corredores mexicanos e atletas de origem da tribo rarámuri (tarahumara).

Ao que parece, as autoridades locais realizaram a competição, que foi cancelada pelos organizadores oficiais.

A guerra de informações e a tentativa de esconder o ataque dos narcotraficantes a Urique já vinha de antes, segundo registra o diário “Presente”, que traz notícia confirmando a narrativa feita na mensagem que Josue Stephens mandou para mim e que você leu acima.

A notícia afirma que dois homens (não três, como informou Stephens) foram executados, o comandante da Polícia Municipal, Ramónm Sáenz, desapareceu, e outros policiais locais foram desarmados. Na quinta, os corpos foram encontrados a cerca de 20 km da cidade; os mortos, segundo o jornal apurou, eram Israel Castillo Torres, 26, e David Israel Herrera Castillo, 29.

O jornal informa que as autoridades municipais negaram o desaparecimento do comandante da polícia e o desarme dos agentes, mas os fatos foram confirmados pela população. Testemunhas ouvidas pela reportagem do “Presente” disseram que os narco também levaram uma caminhonete e uma ambulância. Há forças do Exército na região.

Para mais detalhes, confira AQUI a íntegra da reportagem em espanhol, que mostra que já há mais tempo Urique e a região têm sido palco de ações do narcotráfico.

Na falta de mais dados, mantive no título deste texto as informações enviadas por Stephens, a quem já entrevistei várias vezes ao longo dos últimos anos.

ATENÇÃO ATENÇÃO ATENÇÃO

NOVA ATUALIZAÇÃO

Às 18h55 de hoje recebi nova mensagem de Josue Stephens, a quem tinha questionado a respeito das notícias divulgadas em sites mexicanos.

Ele disse o seguinte: “O governo local realizou uma corrida alternativa que NÂO foi a Ultra Caballo Blanco. Foi uma tentativa de disfarçar, esconder o propblema que estava acontecendo, por medo de a violância prejudicar o turismo na região. Autoridades municipais me disseram que não havia razão para cancelar a porva porque ninguém tinha sido ferido ainda. O governo tentou ocultar os fatos porque elees ganham muito dinheiro com o turismo que envolve a prova.”

A nova carta que recebi de Stephens tem muito mais detalhes, mas ele não deixou claro se eram todos para divulgação. Voltei a entyrar em contato com ele e, assim que tiver mais dados, publico tudo aqui.

 

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Primeira etapa do Ranking CBAt de Corredores tem chegada apertada

Por Rodolfo Lucena
02/03/15 11:26

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Com apenas três segundos de vantagem sobre o segundo colocado, o campeão pan-americano de maratona conquistou neste domingo o título da Meia Maratona de São Paulo, que abre a disputa pelo Ranking CBAt de Corredores. Na última curva, já dentro do funil de chegada, o melhor brasileiro na São Silvestre deu um gás para tentar alcançar e superar Solonei Rocha da Silva, mas o esforço não foi suficiente. Mesmo assim, Giovani dos Santos ficou nos calcanhares de Solonei –sua mão direita aparece na foto do alto (Sérgio Shubuya/MBraga Comunicação), atrás do campeão.

Solonei, que trabalhava como gari em Penápolis antes de virar corredor profissional, completou em 1h04min36 o circuito que tem largada e chegada na praça Charles Miller, em frente ao Pacaembu. O trajeto passa por alguns pontos turísticos da região central de São Paulo –incluindo a esquina das avenidas Ipiranga com São João.

No feminino, a paranaense Joziane Cardoso voltou a mostrar um desempenho consistente com seus últimos resultados. Campeã da Volta da Pampulha e melhor brasileira no ano passado, a paranaense tornou-se bicampeã da prova, que fechou em 1h17min45.

Como Solonei, Joziane avaliou que o novo percurso da prova é mais exigente, com mais sobe-e-desce. Ela agora vai se dedicar a tentar conseguir o índice para o Pan.

ATUALIZAÇÃO

A CBAt não vai considerar os tempos cravados na meia maratona, porque o percurso não seguiu o trajeto oficialmente marcado. Para não prejudicar os atletas, as classificações serão válidas para o ranking.

A boa notícia (se é que dá para considerar boa notícia) é que os participantes correram mais do que a distãncia oficial de 21.097 metros; portanto, qualquer que seja o rasultado obtido, ele seria menor na distãncia oficial…

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Família de herói olímpico processa fabricante de tênis minimalistas

Por Rodolfo Lucena
26/02/15 11:24

fev 26

A família do corredor etíope Abebe Bikila, uma das maiores lendas do atletismo mundial, está processando a fabricante de tênis Vibram, criadora de um dos mais emblemáticos modelos de calçado minimalista, o Vibram Five Fingers.

Os filhos de Bikila, que correu descalço e venceu a maratona dos Jogos de Roma-1960 (foto AP), entraram com ação na Justiça Federal norte-americana alegando que a empresa está usando o nome do atleta sem permissão. O maratonista, que voltaria a vencer a maratona olímpica em 1964, então usando calçados, morreu em 1973.

A Vibram usou o nome Bikila para identificar alguns dos modelos que fabrica; também incluiu o nome no registro de marcas de sua propriedade.

Agora a família quer pelo menos US$ 15 milhões em compensação pelo que considera abuso. “O legado de Bikila precisa ser respeitado”, disse o filho do atleta, Teferi Bikila, 45, às agências internacionais.

Já a companhia não respondeu ao questionamento feito pelas agências de notícias.

Esta não é a primeira vez que a Vibram é sofre um processo judicial. No ano passado, a empresa aceitou pagar US$ 3,75 milhões para encerrar uma ação em que corredores alegavam ter se lesionado por causa do uso do modelo Vibram Five Fingers.

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Saiba quem foi o primeiro brasileiro a competir nos Jogos Olímpicos

Por Rodolfo Lucena
23/02/15 06:24

Os registros oficiais dão conta da presença brasileira nos Jogos Olímpicos apenas a partir de 1920, mas investigações feitas por pesquisadores da USP afirmam que o verde-amarelo esteve presente já na segunda edição dos Jogos de nossa era, em 1900, em Paris.

O representante nacional foi ADOLPHE CHRISTIANO KLINGELHOEFFER, que nasceu em 5 de maio de 1880, em Paris, filho do vice-cônsul brasileiro na França. Manteve sua nacionalidade brasileira até 1940, conforme revelou o historiador Alain Bouille, segundo pesquisas feitas pela equipe da Universidade de São Paulo que acaba de concluir a “Enciclopédia Olímpica Brasileira”.

Trata-se de um monumental trabalho com informações sobre os Jogos e sobre todos os quase 1.800 brasileiros que representaram o país em olimpíadas de 1920 a 2012.

A íntegra do verbete sobre nosso amigo ADOLPHE diz o seguinte:

“Pode ser considerado o 1º atleta brasileiro a participar de uma edição olímpica em 1900. Isso porque ele nasceu em 05 de maio de 1880, em Paris, filho do vice-cônsul brasileiro na França. Embora seja citado como francês nos documentos olímpicos, o historiador Alain Bouille revelou sua nacionalidade brasileira, mantida até os anos 1940. Inscreveu-se como atleta nos Jogos Olímpicos em um período no qual os atletas podiam se inscrever na competição independentemente dos Comitês Olímpicos Nacionais. Entre 1899 e 1904, conquistou seis títulos nacionais de atletismo: quatro nos 110 metros com barreiras e dois nos 400 metros com barreiras. Jogava rúgbi e fez parte da equipe do Racing Club de Paris, campeão nacional em 1902. Inscreveu-se em três provas nos Jogos Olímpicos de Paris em 1900: 60 metros rasos, 200 metros rasos e 110 metros com barreiras. Fez carreira no mundo financeiro e foi chefe da Câmara de Comércio Brasileira em Paris, cargo que exerceu até pouco antes de sua morte, aos 76 anos, em 1956.”

Quem me passou a informação foi a professora KATIA RUBIO, que liderou os trabalhos desenvolvidos ao longo de 15 anos para construir essa obra monumental –o livro de 600 páginas deve sair em maio próximo.

Entrevistei Rubio na semana passada e fiz uma reportagem sobre a enciclopédia que foi capa do caderno Esporte da Folha neste último domingo (LEIA AQUI), quando também publiquei aqui no blog a íntegra de minha conversa com a pesquisadora.

Se você não chegou a ver, aproveite: reproduzo a seguir, mais uma vez, aquele texto (acho que facilita sua vida mais do que colocar um link aqui…).

“ATLETA OLÍMPICO INSPIRA AS NOVAS GERAÇÕES”, DIZ CRIADORA DA “ENCICLOPÉDIA OLÍMPICA BRASILEIRA”

Vidas, conquistas, palavras e emoções dos quase 1.800 atletas olímpicos brasileiros estão registradas na “Enciclopédia Olímpica Brasileira”, empreitada liderada pela professora Katia Rubio que está prestes a ser concluída. Depois de 15 anos de trabalho, a obra de 600 páginas enfim está em processo de produção industrial, e o livro deve ser lançado em maio.

Na edição da Folha deste domingo, reportagem de minha lavra conta um pouco do processo de construção desse trabalho monumental. A reportagem foi resultado de uma entrevista com Katia Rubio, que me atendeu às vésperas de uma viagem para Londres, onde está agora para proferir uma série de palestras na universidade de Birmingham. O tema das conferências é o mesmo da nossa conversa: a enciclopédia.

Fiquemos, pois, com a entrevista que fiz com ela na mesma sala, no quarto andar de um prédio na Cidade Universitária (zona oeste de São Paulo), onde Katia e sua equipe trabalharam por horas sem conta para finalizar a obra.

RODOLFO LUCENA – O QUE É A ENCICLOPÉDIA OLÍMPICA BRASILEIRA?

KATIA RUBIO  - A Enciclopédia Olímpica Brasileira é uma publicação que sintetiza 15 anos de trabalho, que começou no final de meu doutorado, em 200. No meio do meu doutorado, eu comecei a ver que queria estudar o atleta olímpico. O trabalho resume, sintetiza essas mais de 1.300 entrevistas que nós fizemos –trabalho com um grupo—com atletas olímpicos brasileiros.

Nós temos 1.797 atletas olímpicos. Desse total, há cerca de 340 mortos; houve também alguns que não nos receberam para dar entrevistas ou simplesmente não foram encontrados. E há aqueles que nos abriram suas histórias, suas memórias, seus corações, suas preciosidades, suas surpresas todas para a gente fazer um trabalho inédito, que é contar a história do esporte olímpico brasileiro pela ótica do atleta.

Os atletas que não conseguimos entrevistar, trabalhamos com material de acervo, como documentos oficiais, jornais de época, biografias, entrevistas com familiares, técnicos e companheiros de época. A gente procurou ser o mais fiel possível à história, à trajetória do atleta.

QUEM SÃO OS ATLETAS OLÍMPICOS?
Todos os atletas que foram aos Jogos representando o Brasil, de 1920 a 2012. Nesse cenário também consideramos um atleta que foi aos Jogos de 1900, que não é reconhecido pelo COB como sendo brasileiro, mas que, no momento histórico em que ele foi não havia ainda comitês olímpicos nacionais. Ele era um filho de um francês com uma brasileira e tinha cidadania brasileira.  Então a gente considera esse sujeito como um brasileiro que foi aos Jogos Olímpicos.

Há também o caso de um brasileiro que em 1924 participa daquilo que era chamado na época de Olimpíada Cultural. Os Jogos Olímpicos não eram só uma atividade esportiva; também tinha lá concurso de poesia, concurso de projeto arquitetônico, concurso de obra literária. Um brasileiro que participou, muito provavelmente com pseudônimo. Encontramos muito pouca coisa sobre ele, há a obra dele, mas não sabemos exatamente quem foi J.A. Alvar.

COMO SE CONCRETIZA A ENCICLOPEDIA OLÍMPICA BRASILEIRA?
É um volume, um livro de 600 páginas, ilustrado com fotos que os atletas nos mandaram e também fotos gentilmente cedidas pela Editora Três. Volume único, que teve o patrocínio do Bradesco por meio da Lei Rouanet, uma verba que também nos ajudou na coleta final dos dados, ao longo de 2013 e início de 2014. O livro está em fase final de produção e a expectativa é que seja lançado em maio.

FORAM 15 ANOS DE PESQUISA. E QUANTO TEMPO PARA ESCREVER?

Foi no ano passado, uma produção intensa de março a agosto. Eu não vi a Copa do Mundo do Brasil. Foi um trabalho que envolveu quase 20 pessoas nesta sala, no Centro de Estudos Sócio-culturais do Movimento Humano, da Escola de Educação Física da USP, onde nós temos alocado o Grupo de Estudos Olímpicos, que tem a participação de 15 pessoas fixas e uma população flutuante, que ajudou na coleta de dados. No ano passado, chegamos a trabalhar 18 horas por dia para fechar o trabalho, poder cumprir o cronograma.

O QUE VOCÊS GANHAM COM ISSO?
A primeira edição, como manda Lei Rouanet, ela não será vendida. A tiragem é de 3.000 exemplares, dos quais 1.797 exemplares serão distribuídos aos atletas ou a suas famílias;  outros para bibliotecas públicas, escolas. Haverá um número de exemplares em inglês e outros em espanhol também, para poder fazer. Aí, quem sabe, se tiver um outro patrocinador, vamos poder pensar em outra edição, numa segunda, terceira, para que isso possa ser multiplicado.

POR QUE FAZER UMA ENCICLOPÉDIA OLÍMPICA BRASILEIRA?

Para manter viva a memória do esporte olímpico brasileiro. É muito curioso, do ponto de vista do espectador, o acesso que ele tem à imagem do atleta no momento olímpico e que, passados dez anos, o atleta já se torna passado e se torna invisível. Essas histórias se tornam fundamentais para o próprio desenvolvimento do esporte.

POR QUÊ?

Porque as pessoas se inspiram em algo ou alguém para se tornar alguma coisa. Quando uma criança vê um atleta superando inúmeros obstáculos e fazendo um esforço sobre-humano para alcançar um resultado, aquilo é fonte de inspiração. Não apenas para aquele moleque ou aquela menina correr, saltar, arremessar, lutar, mas do ponto de vista de sua identidade humana. O esporte é uma fonte de inspiração para o ser humano ser melhor, para ele ver que não existe resultado sem um grande esforço por trás. Sem isso não há novas gerações de atletas. Preservar o que essas pessoas fizeram é tão fundamental para o esporte quanto ter boas estratégias de treinamento.

ALGUM DESTAQUE?
São muitas histórias inspiradoras. E muitas histórias desconhecidas, porque o foco é sobre os atletas que ganham medalha. Só que, dos 1797 atletas olímpicos, temos 342 medalhistas. O que foi feito com os outros atletas? Essas histórias são muito inspiradoras. Temos um grande número de atletas que ficaram em quarto, quinto, sexto lugares, que chegaram a finais olímpicas, e a história deles é tão importante e fundamentalpara o esporte como a dos que ganharam ouro, prata ou bronze.

O QUE ACONTECEU COM ELES?
Muitos tocaram suas vidas. Estudaram, tiveram suas carreiras profissionais e carregam essa experiência como uma preciosidade, uma jóia em sua própria história. Outros continuaram vinculados ao esporte, como técnicos, dirigentes. E outros não conseguiram se desprender dessas identidade que um dia tiveram, que lhes proporcionou muitas glorias, e não conseguiram refazer a carreira em outra identidade profissional , que lhes desse tanto orgulho.

MUITOS EMPOBRECERAM…

Muitos. Não necessariamente porque foram atletas. O atleta é um ser humano. A gente tem uma ideia de que são sobre-humanos, mas ele pode ter sido sobre-humano naquele fazer específico do esporte, mas era demasiadamente humano nas outras questões relacionadas à vida: gerenciamento da própria casa, da conta bancária, do futuro… Assim como em outras profissões, outros fazeres, em que as pessoas se planejam ou não, colhem os frutos ou não, o atleta vive a mesma mazela. Porém, quando ele era visível, tinha-se a expectativa de que viesse a ser um cara tão bem sucedido como era no esporte. Mas não. Quem se preparou para ávida depois da carreira atlética, hoje tem vida consolidada, com mais ou menos dinheiro. Quem não se prepaprou para isso, como em outras profissões, colhe um presente amargo, que envolve, sem dúvida alguma, solidão, descaso, depressão. As pessoas mal sucedidas são colocadas à margem inclusive pela própria família.

QUAL FOI O PERSONAGEM MAIS DIFÍCIL DE ENTREVISTAR?

Demorei oito anos para conseguir entrevistar o Rodrigo Pessoa [cavaleiro, ouro em Atenas-2004, tricampeão mundial de hipismo]. Anos de espera, de contatos, de telefones de assessores não respondidos… Um dia fui para um congresso na Alemanha, um professor belga me convidou para passar uma semana no país. Eu disse que iria desde que ele me ajudasse a encontrar um atleta olímpico que morava na Bélgica. Esse professor conseguiu o contato, e o Rodrigo me recebeu no haras do Doda Miranda, que fica na Holanda. Quando ele me recebeu, foi de uma fraternidade, de uma disposição.. E aí fizemos uma entrevista maravilhosa.

Há situações de atletas que não me receberam, que a assessoria não permitiu que eu chegasse dizendo que ele tinha acabado de lançar biografia e não precisava da Enciclopédia.

No Rio Grande do Sul, pilotei um Fiat 1.0, fiz 1.300 km em dois dias e voltei dessa viagem com sete entrevistas… Passei em Caxias (dois), um em Gramado, um em Bento Gonçalves.

QUEM PAGOU ESSE TRABALHO TODO?

Ao longo dos anos, tivemos projetos financiados, apoio das agências de fomento à pesquisa, a Fapesp, a Capes e o CNPq. Tive auxílios-pesquisas com duração de dois anos, renovados com temas semelhantes. Até que terminou o último, e o novo projeto não foi aprovado, e em junho de 2013 fiz uma campanha de financiamento coletivo, um crowdfunding… Mais de uma vez usei meu décimo-terceiro… Depois tivemos o aporte do Bradesco.

ÁO LONGO DOS ANOS, O QUE MUDOU E O QUE NÃO MUDOU NO ESPORTE OLÍMPICO BRASILEIRO?

O que não mudou é a falta de recursos. Aliás, a falta de estrutura… Isso não há nem no futebol. O futebol é uma miséria neste país. A gente não pode confundir os grandes clubes de São Paulo, Rio, Minas e Rio Grande do Sul com o resto do país, que é uma miséria. Pelos olímpicos do futebol, eu pude perceber isso.

O que falta é um projeto de esportes. Os resultados são alcançados muito mais por determinação pessoal de atletas que tomam aquilo como um projeto de vida do que por causa de uma política de esporte.

O que a gente observa a gente nunca teve tanto dinheiro para o esporte como tem hoje, mas a falta desse projeto leva a um derramamento desnecessário de dinheiro em coisas que não são tão importantes.

POR EXEMPLO?

Quando você não tem um planejamento de longo prazo, o dinheiro se vai nas questões pontuais de curto prazo. Então há equipamentos abandonados, construídos e depois abandonados porque não tem estrutura.

SE HOUVESSE ESTRUTURA TALVEZ O BRASIL PUDESSE COMEMORAR MAIS MEDALHAS…

Quanto você olha para a trajetória desses atletas..

A história do esporte brasileiro é marcada pela ausência de uma estrutura pública para o esporte e pela construção de carreiras olímpicas associadas aos clubes privados.

Assim como no resto do mundo, o esporte começa como uma prática aristocrática.

No pós-Segunda Guerra, há uma mudança nisso, porque a ampliação da estrutura esportiva nas escolas começa a fazer pipocar projetos e pessoas como foi o caso de Adhemar Ferreira da Silva, Vanda dos Santos, de boxeadores… E aí a gente começa a observar um aumento do tamanho da delegação brasileira e do número de modalidades que, no início, eram natação, atletismo, polo derivado da natação, pentatlo (por causa dos militares).

No pós-guerra, as mulheres começam a reivindicar participação, mas a gente tem uma política pública que impede as mulheres de praticar esporte. Isso vai se refletir nos Jogos de 56, 60 e 64, quando a gente tem uma mulher na delegação: a Mary Dalva nos saltos ornamentais em 1956, a Vanda dos Santos em 60 e a Ida dos Santos em 1964.

Atleta olímpico não vai para passear. Nenhum atleta que chega ao nível olímpico se satisfaz com a mera participação. Mas ele é reflexo de tudo aquilo que é o esporte no país.

Quando chega a década de 1980, quando a gente tem um processo de profissionalização da estrutura do esporte brasileiro, a gente tem uma alteração drástica, não apenas no aumento do número de modalidades esportivas como na qualidade do atleta brasileiro. Ou seja, está mais do que evidente que, em havendo estrutura de treinamento e acesso à informação, nós temos técnicos muito capacitados para fazer um bom trabalho e temos atletas talentosíssimos em condições de chegar a uma final olímpica.

Agora, ainda assim, a gente ob serva que na estrutura das federações, confederações e do próprio comitê olímpico brasileiro falta uma estratégia de longo prazo para que aquelas 10 mil horas necessárias para se produzir um atleta olímpico passam de fato contribuir para produzir um atleta de fato competitivo em âmbito internacional. Que lá da base ele ouça, desde pequeno, que está treinando para ser um campeão, não para apenas ir à Olimpíada. Isso faz uma diferença brutal entre o atleta que ganha medalha e o atleta que vai para participar.

Muitos atletas se sentem campeões só por irem aos Jogos, pois foi tanta dificuldade que enfrentaram que estar lá já é o prêmio. Agora o atleta medalhista ele tem, no seu planejamento, ganhar uma medalha. E ele vai mover montanhas por isso.

HÁ UMA MODORRA NAS FEDERAÇÕES?

A estrutura de gestão do esporte brasileiro segue de perto um modelo que vem de cima, que é o do Comitê Olímpico Internacional.

Quando o Pierre de Coubertin imaginou o COI, ele não estava imaginando fazê-lo de forma democrática. Ele inclusive acredita que a democracia era falha. Ele montou uma estrutura em que prevalecia o modelo de autoindicação, que depois se desdobra nos comitês olímpicos nacionais e daí para as confederações.

A democracia e a transparência não eram a ideia inicial do COI, não mesmo. Só que o mundo mudou. Enquanto o mundo corre num carrão de fórmula 1, o COI vive ainda dentro de  uma carroça. A velocidade com que as transformações acontecem no movimento olímpico está muito longe de acompanhar o ritmo da sociedade.

Hoje, não só no Brasil, mas no mundo, se clama por transparência. A corrupção no esporte chegou num nível tamanho,refletindo a estrutura dos diversos países em que ela transita, que é preciso repensar o modelo antes que ele se acabe. Parece que o Thomas Bach, o atual presidente do COI, está muito ligado nisso, e já começou a promover mudanças profundas na estrutura do esporte olímpico, antes que ele sucumba.

A SENHORA JÉ TEVE DIVERGÊNCIAS COM O COMITÊ OLÍMPICO BRASILEIRO…

O COB me notificou por usar a palavra “olímpico” na capa de um livro para crianças, “Esporte, Educação e Valores Olímpicos”. Isso foi imediatamente após a escolha do Rio de Janeiro como sede , em janeiro de 2010, e foi um grande equívoco. Eles reconheceram isso depois.

Uma coisa é os senhores dos anéis cercearem o uso dos símbolos olímpicos, outra é cercear o conhecimento. A minha produção não visa lucro, tem um cunho social imenso, e acho que o COB reconheceu isso de alguma forma, me “permitindo” usar a palavra “olímpicos..

Entrevistei o Nuzman [Carlos Arthur Nuzman, presidente do COB] depois disso, porque ele foi atleta olímpico. Tivemos uma entrevista bastante cordial, em que ele retoma esse caso.. É isso, vida que segue. Não guardo rancor.

QUAL SUA EXPECTATIVA EM RELAÇÃO AOS JOGOS DO RIO?

Vejo com muita cautela a participação brasileira.

Para um atleta chegar a ser olímpico, precisa em média de 10 mil horas de treinamento. Não tem sorte, não tem mágica, tem trabalho. E o tempo é implacável nesse sentido. Se não se começou lá atrás, não tem como chegar a 2016 e a gente brigar por alguma coisa que a gente não trabalhou para ter.

Acho que não vamos ter muitas surpresas positivas. Temo que possa reduzir o número de medalhas. E temo a expectativa que se criará sobre aqueles atletas que de alguma forma já nos deram resultados e que serão repositários da fé, da esperança, da expectativa do desejo dos brasileiros.

Espero que as  federações tenham um pouco de dignidade de não ficarem nacionalizando estrangeiros para competir pelo Brasil só para fazer bonito, pois isso será uma zombaria.

QUAL É O FUTURO DA ENCICLOPÉDIA OLÍMPICA BRASILEIRA?

Continua depois. Mais do que um objeto de pesquisa acadêmica, ele é um projeto de vida. O meu objeto se renova a cada quatro anos. A cada quatro anos tenho pessoas que vou descobrir, que vou entrevistar. E assim abasteço meu baú de preciosidade e me afirmo como uma grande contadora de histórias de olímpicos brasileiros.

./././././.

BOM, aqui termina a entrevista com KATIA RUBIO. A seguir, algumas informações sobre ela

Nascida em 13 de junho de 1962, na Freguesia do Ó, em São Paulo

Casada, tem um filho e quatro enteados

20 livros publicados sobre estudos olímpicos e psicologia do esporte

Ex-presidente da Associação Brasileira de Psicologia do Esporte, integra a Academia Olímpica Brasileira

Foi atleta na época de escola, joguei vôlei em clube, tinha sonho de ser uma atleta olímpica. “Não pude, mas me tornei uma pesquisadora olímpica”, diz ela.

É formada em jornalismo pela Cásper Líbero, trabalhou dez anos em publicidade. Na crise do Plano Collor, largou a empresa de propaganda em que era sócia e resolveu mudar de rumos. Fez psicologia na PUC e seguiu carreira acadêmica, que culminou com a entrada na USP, onde é professora associada. Fez mestrado na Escola de Educação Física e Esporte da USP, doutorado na Escola de Educação da USP, pós-doc em psicologia social na Universidade Autônoma de Barcelona.

Em 2010, percorreu 200 km no Caminho de Santiago, ao longo de 15 dias. Sonha voltar para fazer o percurso completo

COMO DEFINE SEU TRABALHO: “Meu foco sempre foi estudar a figura do atleta. O que é, como é ser atleta. Nessa busca, não me restringi apenas às questões de ordem emocional, queria ver o atleta no contexto social, levando em consideração as questões de ordem histórica, sociais, psicológicas. Foi o que me levou a buscar o atleta olímpico, por imaginá-lo fator de inspiração para as novas gerações.”

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“Atleta olímpico inspira as novas gerações”, diz criadora da “Enciclopédia Olímpica Brasileira”

Por Rodolfo Lucena
21/02/15 14:18

Vidas, conquistas, palavras e emoções dos quase 1.800 atletas olímpicos brasileiros estão registradas na “Enciclopédia Olímpica Brasileira”, empreitada liderada pela professora Katia Rubio que está prestes a ser concluída. Depois de 15 anos de trabalho, a obra de 600 páginas enfim está em processo de produção industrial, e o livro deve ser lançado em maio.

Na edição da Folha deste domingo, reportagem de minha lavra conta um pouco do processo de construção desse trabalho monumental. A reportagem foi resultado de uma entrevista com Katia Rubio (foto também de minha lavra), que me atendeu às vésperas de uma viagem para Londres, onde está agora para proferir uma série de palestras na universidade de Birmingham. O tema das conferências é o mesmo da nossa conversa: a enciclopédia.

Fiquemos, pois, com a entrevista que fiz com ela na mesma sala, no quarto andar de um prédio na Cidade Universitária (zona oeste de São Paulo), onde Katia e sua equipe trabalharam por horas sem conta para finalizar a obra.

RODOLFO LUCENA – O QUE É A ENCICLOPÉDIA OLÍMPICA BRASILEIRA?

21fev 21 katia rubioKATIA RUBIO  - A Enciclopédia Olímpica Brasileira é uma publicação que sintetiza 15 anos de trabalho, que começou no final de meu doutorado, em 200. No meio do meu doutorado, eu comecei a ver que queria estudar o atleta olímpico. O trabalho resume, sintetiza essas mais de 1.300 entrevistas que nós fizemos –trabalho com um grupo—com atletas olímpicos brasileiros.

Nós temos 1.797 atletas olímpicos. Desse total, há cerca de 340 mortos; houve também alguns que não nos receberam para dar entrevistas ou simplesmente não foram encontrados. E há aqueles que nos abriram suas histórias, suas memórias, seus corações, suas preciosidades, suas surpresas todas para a gente fazer um trabalho inédito, que é contar a história do esporte olímpico brasileiro pela ótica do atleta.

Os atletas que não conseguimos entrevistar, trabalhamos com material de acervo, como documentos oficiais, jornais de época, biografias, entrevistas com familiares, técnicos e companheiros de época. A gente procurou ser o mais fiel possível à história, à trajetória do atleta.

QUEM SÃO OS ATLETAS OLÍMPICOS?
Todos os atletas que foram aos Jogos representando o Brasil, de 1920 a 2012. Nesse cenário também consideramos um atleta que foi aos Jogos de 1900, que não é reconhecido pelo COB como sendo brasileiro, mas que, no momento histórico em que ele foi não havia ainda comitês olímpicos nacionais. Ele era um filho de um francês com uma brasileira e tinha cidadania brasileira.  Então a gente considera esse sujeito como um brasileiro que foi aos Jogos Olímpicos.

Há também o caso de um brasileiro que em 1924 participa daquilo que era chamado na época de Olimpíada Cultural. Os Jogos Olímpicos não eram só uma atividade esportiva; também tinha lá concurso de poesia, concurso de projeto arquitetônico, concurso de obra literária. Um brasileiro que participou, muito provavelmente com pseudônimo. Encontramos muito pouca coisa sobre ele, há a obra dele, mas não sabemos exatamente quem foi J.A. Alvar.

COMO SE CONCRETIZA A ENCICLOPEDIA OLÍMPICA BRASILEIRA?
É um volume, um livro de 600 páginas, ilustrado com fotos que os atletas nos mandaram e também fotos gentilmente cedidas pela Editora Três. Volume único, que teve o patrocínio do Bradesco por meio da Lei Rouanet, uma verba que também nos ajudou na coleta final dos dados, ao longo de 2013 e início de 2014. O livro está em fase final de produção e a expectativa é que seja lançado em maio.

FORAM 15 ANOS DE PESQUISA. E QUANTO TEMPO PARA ESCREVER?

Foi no ano passado, uma produção intensa de março a agosto. Eu não vi a Copa do Mundo do Brasil. Foi um trabalho que envolveu quase 20 pessoas nesta sala, no Centro de Estudos Sócio-culturais do Movimento Humano, da Escola de Educação Física da USP, onde nós temos alocado o Grupo de Estudos Olímpicos, que tem a participação de 15 pessoas fixas e uma população flutuante, que ajudou na coleta de dados. No ano passado, chegamos a trabalhar 18 horas por dia para fechar o trabalho, poder cumprir o cronograma.

O QUE VOCÊS GANHAM COM ISSO?
A primeira edição, como manda Lei Rouanet, ela não será vendida. A tiragem é de 3.000 exemplares, dos quais 1.797 exemplares serão distribuídos aos atletas ou a suas famílias;  outros para bibliotecas públicas, escolas. Haverá um número de exemplares em inglês e outros em espanhol também, para poder fazer. Aí, quem sabe, se tiver um outro patrocinador, vamos poder pensar em outra edição, numa segunda, terceira, para que isso possa ser multiplicado.

POR QUE FAZER UMA ENCICLOPÉDIA OLÍMPICA BRASILEIRA?

Para manter viva a memória do esporte olímpico brasileiro. É muito curioso, do ponto de vista do espectador, o acesso que ele tem à imagem do atleta no momento olímpico e que, passados dez anos, o atleta já se torna passado e se torna invisível. Essas histórias se tornam fundamentais para o próprio desenvolvimento do esporte.

POR QUÊ?

Porque as pessoas se inspiram em algo ou alguém para se tornar alguma coisa. Quando uma criança vê um atleta superando inúmeros obstáculos e fazendo um esforço sobre-humano para alcançar um resultado, aquilo é fonte de inspiração. Não apenas para aquele moleque ou aquela menina correr, saltar, arremessar, lutar, mas do ponto de vista de sua identidade humana. O esporte é uma fonte de inspiração para o ser humano ser melhor, para ele ver que não existe resultado sem um grande esforço por trás. Sem isso não há novas gerações de atletas. Preservar o que essas pessoas fizeram é tão fundamental para o esporte quanto ter boas estratégias de treinamento.

ALGUM DESTAQUE?
São muitas histórias inspiradoras. E muitas histórias desconhecidas, porque o foco é sobre os atletas que ganham medalha. Só que, dos 1797 atletas olímpicos, temos 342 medalhistas. O que foi feito com os outros atletas? Essas histórias são muito inspiradoras. Temos um grande número de atletas que ficaram em quarto, quinto, sexto lugares, que chegaram a finais olímpicas, e a história deles é tão importante e fundamentalpara o esporte como a dos que ganharam ouro, prata ou bronze.

O QUE ACONTECEU COM ELES?
Muitos tocaram suas vidas. Estudaram, tiveram suas carreiras profissionais e carregam essa experiência como uma preciosidade, uma jóia em sua própria história. Outros continuaram vinculados ao esporte, como técnicos, dirigentes. E outros não conseguiram se desprender dessas identidade que um dia tiveram, que lhes proporcionou muitas glorias, e não conseguiram refazer a carreira em outra identidade profissional , que lhes desse tanto orgulho.

MUITOS EMPOBRECERAM…

Muitos. Não necessariamente porque foram atletas. O atleta é um ser humano. A gente tem uma ideia de que são sobre-humanos, mas ele pode ter sido sobre-humano naquele fazer específico do esporte, mas era demasiadamente humano nas outras questões relacionadas à vida: gerenciamento da própria casa, da conta bancária, do futuro… Assim como em outras profissões, outros fazeres, em que as pessoas se planejam ou não, colhem os frutos ou não, o atleta vive a mesma mazela. Porém, quando ele era visível, tinha-se a expectativa de que viesse a ser um cara tão bem sucedido como era no esporte. Mas não. Quem se preparou para ávida depois da carreira atlética, hoje tem vida consolidada, com mais ou menos dinheiro. Quem não se prepaprou para isso, como em outras profissões, colhe um presente amargo, que envolve, sem dúvida alguma, solidão, descaso, depressão. As pessoas mal sucedidas são colocadas à margem inclusive pela própria família.

QUAL FOI O PERSONAGEM MAIS DIFÍCIL DE ENTREVISTAR?

Demorei oito anos para conseguir entrevistar o Rodrigo Pessoa [cavaleiro, ouro em Atenas-2004, tricampeão mundial de hipismo]. Anos de espera, de contatos, de telefones de assessores não respondidos… Um dia fui para um congresso na Alemanha, um professor belga me convidou para passar uma semana no país. Eu disse que iria desde que ele me ajudasse a encontrar um atleta olímpico que morava na Bélgica. Esse professor conseguiu o contato, e o Rodrigo me recebeu no haras do Doda Miranda, que fica na Holanda. Quando ele me recebeu, foi de uma fraternidade, de uma disposição.. E aí fizemos uma entrevista maravilhosa.

Há situações de atletas que não me receberam, que a assessoria não permitiu que eu chegasse dizendo que ele tinha acabado de lançar biografia e não precisava da Enciclopédia.

No Rio Grande do Sul, pilotei um Fiat 1.0, fiz 1.300 km em dois dias e voltei dessa viagem com sete entrevistas… Passei em Caxias (dois), um em Gramado, um em Bento Gonçalves.

QUEM PAGOU ESSE TRABALHO TODO?

Ao longo dos anos, tivemos projetos financiados, apoio das agências de fomento à pesquisa, a Fapesp, a Capes e o CNPq. Tive auxílios-pesquisas com duração de dois anos, renovados com temas semelhantes. Até que terminou o último, e o novo projeto não foi aprovado, e em junho de 2013 fiz uma campanha de financiamento coletivo, um crowdfunding… Mais de uma vez usei meu décimo-terceiro… Depois tivemos o aporte do Bradesco.

ÁO LONGO DOS ANOS, O QUE MUDOU E O QUE NÃO MUDOU NO ESPORTE OLÍMPICO BRASILEIRO?

O que não mudou é a falta de recursos. Aliás, a falta de estrutura… Isso não há nem no futebol. O futebol é uma miséria neste país. A gente não pode confundir os grandes clubes de São Paulo, Rio, Minas e Rio Grande do Sul com o resto do país, que é uma miséria. Pelos olímpicos do futebol, eu pude perceber isso.

O que falta é um projeto de esportes. Os resultados são alcançados muito mais por determinação pessoal de atletas que tomam aquilo como um projeto de vida do que por causa de uma política de esporte.

O que a gente observa a gente nunca teve tanto dinheiro para o esporte como tem hoje, mas a falta desse projeto leva a um derramamento desnecessário de dinheiro em coisas que não são tão importantes.

POR EXEMPLO?

Quando você não tem um planejamento de longo prazo, o dinheiro se vai nas questões pontuais de curto prazo. Então há equipamentos abandonados, construídos e depois abandonados porque não tem estrutura.

SE HOUVESSE ESTRUTURA TALVEZ O BRASIL PUDESSE COMEMORAR MAIS MEDALHAS…

Quanto você olha para a trajetória desses atletas..

A história do esporte brasileiro é marcada pela ausência de uma estrutura pública para o esporte e pela construção de carreiras olímpicas associadas aos clubes privados.

Assim como no resto do mundo, o esporte começa como uma prática aristocrática.

No pós-Segunda Guerra, há uma mudança nisso, porque a ampliação da estrutura esportiva nas escolas começa a fazer pipocar projetos e pessoas como foi o caso de Adhemar Ferreira da Silva, Vanda dos Santos, de boxeadores… E aí a gente começa a observar um aumento do tamanho da delegação brasileira e do número de modalidades que, no início, eram natação, atletismo, polo derivado da natação, pentatlo (por causa dos militares).

No pós-guerra, as mulheres começam a reivindicar participação, mas a gente tem uma política pública que impede as mulheres de praticar esporte. Isso vai se refletir nos Jogos de 56, 60 e 64, quando a gente tem uma mulher na delegação: a Mary Dalva nos saltos ornamentais em 1956, a Vanda dos Santos em 60 e a Ida dos Santos em 1964.

Atleta olímpico não vai para passear. Nenhum atleta que chega ao nível olímpico se satisfaz com a mera participação. Mas ele é reflexo de tudo aquilo que é o esporte no país.

Quando chega a década de 1980, quando a gente tem um processo de profissionalização da estrutura do esporte brasileiro, a gente tem uma alteração drástica, não apenas no aumento do número de modalidades esportivas como na qualidade do atleta brasileiro. Ou seja, está mais do que evidente que, em havendo estrutura de treinamento e acesso à informação, nós temos técnicos muito capacitados para fazer um bom trabalho e temos atletas talentosíssimos em condições de chegar a uma final olímpica.

Agora, ainda assim, a gente ob serva que na estrutura das federações, confederações e do próprio comitê olímpico brasileiro falta uma estratégia de longo prazo para que aquelas 10 mil horas necessárias para se produzir um atleta olímpico passam de fato contribuir para produzir um atleta de fato competitivo em âmbito internacional. Que lá da base ele ouça, desde pequeno, que está treinando para ser um campeão, não para apenas ir à Olimpíada. Isso faz uma diferença brutal entre o atleta que ganha medalha e o atleta que vai para participar.

Muitos atletas se sentem campeões só por irem aos Jogos, pois foi tanta dificuldade que enfrentaram que estar lá já é o prêmio. Agora o atleta medalhista ele tem, no seu planejamento, ganhar uma medalha. E ele vai mover montanhas por isso.

HÁ UMA MODORRA NAS FEDERAÇÕES?

A estrutura de gestão do esporte brasileiro segue de perto um modelo que vem de cima, que é o do Comitê Olímpico Internacional.

Quando o Pierre de Coubertin imaginou o COI, ele não estava imaginando fazê-lo de forma democrática. Ele inclusive acredita que a democracia era falha. Ele montou uma estrutura em que prevalecia o modelo de autoindicação, que depois se desdobra nos comitês olímpicos nacionais e daí para as confederações.

A democracia e a transparência não eram a ideia inicial do COI, não mesmo. Só que o mundo mudou. Enquanto o mundo corre num carrão de fórmula 1, o COI vive ainda dentro de  uma carroça. A velocidade com que as transformações acontecem no movimento olímpico está muito longe de acompanhar o ritmo da sociedade.

Hoje, não só no Brasil, mas no mundo, se clama por transparência. A corrupção no esporte chegou num nível tamanho,refletindo a estrutura dos diversos países em que ela transita, que é preciso repensar o modelo antes que ele se acabe. Parece que o Thomas Bach, o atual presidente do COI, está muito ligado nisso, e já começou a promover mudanças profundas na estrutura do esporte olímpico, antes que ele sucumba.

A SENHORA JÉ TEVE DIVERGÊNCIAS COM O COMITÊ OLÍMPICO BRASILEIRO…

O COB me notificou por usar a palavra “olímpico” na capa de um livro para crianças, “Esporte, Educação e Valores Olímpicos”. Isso foi imediatamente após a escolha do Rio de Janeiro como sede , em janeiro de 2010, e foi um grande equívoco. Eles reconheceram isso depois.

Uma coisa é os senhores dos anéis cercearem o uso dos símbolos olímpicos, outra é cercear o conhecimento. A minha produção não visa lucro, tem um cunho social imenso, e acho que o COB reconheceu isso de alguma forma, me “permitindo” usar a palavra “olímpicos..

Entrevistei o Nuzman [Carlos Arthur Nuzman, presidente do COB] depois disso, porque ele foi atleta olímpico. Tivemos uma entrevista bastante cordial, em que ele retoma esse caso.. É isso, vida que segue. Não guardo rancor.

QUAL SUA EXPECTATIVA EM RELAÇÃO AOS JOGOS DO RIO?

Vejo com muita cautela a participação brasileira.

Para um atleta chegar a ser olímpico, precisa em média de 10 mil horas de treinamento. Não tem sorte, não tem mágica, tem trabalho. E o tempo é implacável nesse sentido. Se não se começou lá atrás, não tem como chegar a 2016 e a gente brigar por alguma coisa que a gente não trabalhou para ter.

Acho que não vamos ter muitas surpresas positivas. Temo que possa reduzir o número de medalhas. E temo a expectativa que se criará sobre aqueles atletas que de alguma forma já nos deram resultados e que serão repositários da fé, da esperança, da expectativa do desejo dos brasileiros.

Espero que as  federações tenham um pouco de dignidade de não ficarem nacionalizando estrangeiros para competir pelo Brasil só para fazer bonito, pois isso será uma zombaria.

QUAL É O FUTURO DA ENCICLOPÉDIA OLÍMPICA BRASILEIRA?

Continua depois. Mais do que um objeto de pesquisa acadêmica, ele é um projeto de vida. O meu objeto se renova a cada quatro anos. A cada quatro anos tenho pessoas que vou descobrir, que vou entrevistar. E assim abasteço meu baú de preciosidade e me afirmo como uma grande contadora de histórias de olímpicos brasileiros.

./././././.

BOM, aqui termina a entrevista com KATIA RUBIO. A seguir, algumas informações sobre ela

Nascida em 13 de junho de 1962, na Freguesia do Ó, em São Paulo

Casada, tem um filho e quatro enteados

20 livros publicados sobre estudos olímpicos e psicologia do esporte

Ex-presidente da Associação Brasileira de Psicologia do Esporte, integra a Academia Olímpica Brasileira

Foi atleta na época de escola, joguei vôlei em clube, tinha sonho de ser uma atleta olímpica. “Não pude, mas me tornei uma pesquisadora olímpica”, diz ela.

É formada em jornalismo pela Cásper Líbero, trabalhou dez anos em publicidade. Na crise do Plano Collor, largou a empresa de propaganda em que era sócia e resolveu mudar de rumos. Fez psicologia na PUC e seguiu carreira acadêmica, que culminou com a entrada na USP, onde é professora associada. Fez mestrado na Escola de Educação Física e Esporte da USP, doutorado na Escola de Educação da USP, pós-doc em psicologia social na Universidade Autônoma de Barcelona.

Em 2010, percorreu 200 km no Caminho de Santiago, ao longo de 15 dias. Sonha voltar para fazer o percurso completo

COMO DEFINE SEU TRABALHO: “Meu foco sempre foi estudar a figura do atleta. O que é, como é ser atleta. Nessa busca, não me restringi apenas às questões de ordem emocional, queria ver o atleta no contexto social, levando em consideração as questões de ordem histórica, sociais, psicológicas. Foi o que me levou a buscar o atleta olímpico, por imaginá-lo fator de inspiração para as novas gerações.”

 

 

 

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Livro traz memórias e emoções de 50 corredores

Por Rodolfo Lucena
20/02/15 10:28

Será lançado na próxima quinta-feira, dia 26, em São Paulo, o livro “Eu Amo Correr”.

Ele traz, segundo explica o subtítulo, “50 histórias de quem ama enfrentar limites passo a passo”.

No site da editora, a apresentação diz ainda: “Uns correm pra não perder a hora, outros pelo prazer de suar a camisa. Tem quem corra pra ir ao trabalho e quem seja profissional da corrida. E há também os que apenas planejam começar a praticar esse esporte”.

Não tenho a lista completa dos participantes da publicação, mas sei que está lá a história de Carlos Dias, ultramaratonista brasileiro que se notabilizou por criar grandes desafios solitários, como correr do Oiapoque ao Chuí ou fazer a travessia dos Estados Unidos de costa a costa.

A festa de lançamento, com sessão de autógrafos, começa às 19h na livraria Saraiva do shopping Eldorado.

Bora lá, pessoal.

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Erro na corrida leva maratonista ao colapso, mas ela chega engatinhando

Por Rodolfo Lucena
18/02/15 11:31

Uma série de erros cometidos ao longo do percurso da maratona de Austin, Texas, no último domingo (15.2), acabou transformando a queniana Hyvon Ngetich em novo exemplo de determinação e bravura no imaginário maratonístico. Médicos e especialistas em corridas, porém, alertam que o caso não deveria servir de exemplo para ninguém, especialmente corredores amadores.

Aliás, até alguns amadores concordam: “Levar o corpo à completa exaustão não pode ser positivo”, escreveu um comentarista, voz quase solitária em meio às exclamações de “orgulho inspirador” e outras lorotas do gênero.

Vamos aos fatos. A queniana de 29 anos estava dando um banho de bola na concorrência, prestes a chegar sozinha com vantagem superior a 500 metros sobre a segunda colocada –uma queniana dez anos mais jovem que acabou se tornando a eventual campeã.

Quando faltavam 50 metros para a chegada, Ngetich desabou. Caiu ao chão, mas conseguiu ficar de quatro. O pessoal da organização e dos serviços médicos chegou oferecendo ajuda, até uma cadeira de rodas foi trazida, mas tudo ela recusou (foto Reprodução).

18  maratonista engatinha reprodução

Engatinhando lentamente, levou cerca de dez minutos para cruzar o meio quarteirão que a separava da linha de chegada. Viu a jovem compatriota Cynthia Jerop cruzar para vencer a prova em 2h54min21; quando estava prestes a completar, foi ultrapassada pela ex-terceira colocada.

Mais uma mão, mais um joelho, mais um pé; outro, mais outro, mais outro. Fim! Completou em 3h04min02, sob os gritos de entusiasmo e aplauso emocionado do público que acompanhava a corrida. O que lhe valeu até um prêmio extra…

“Você correu a corrida mais corajosa e engatinhou com bravura como eu jamais havia visto em uma maratona”, disse o diretor da prova, John Conley. “Foi uma demonstração de honra e coragem que merece se recompensada”, completou, anunciando que ela receberia, pelo terceiro lugar, os mesmos US$ 2.000 pagos à segunda colocada (o dobro, portanto, do prometido para o terceiro lugar).

O vídeo da chegada de Ngetich correu o mundo. Se você ainda não viu, pode clicar AQUI para conferir.

Claro que ela merece todos os elogios que recebeu e, de fato, sua chegada é demonstração de uma força de espírito e de uma determinação acima do que estamos acostumados a ver.

O que pouco se fala é que tudo isso foi também causado por uma série de erros da corredora ao longo do percurso.

Não encontrei nenhum texto que falasse sobre a ingestão de água ou suplementos alimentares, mas uma declaração dela já é suficiente para perceber que, no mínimo, ela é culpada de não ter ouvido os sinais de exaustão dados pelo seu corpo.

“Não lembro nada do que aconteceu nos últimos dois quilômetros”, afirmou ela. “Não sei como passei a linha de chegada”. Mas sabe por que resolveu engatinhar: “Eu podia ganhar. Olhei para trás e não vi ninguém.”

Está claro que ela falhou na hidratação ou no reabastecimento de carboidrato, pois a queniana nem correu muito para seus próprios parâmetros. Iria vencer em cerca de 2h50, um monte de tempo mais lento do que seu recorde pessoal –2h34min42 na maratona de Santiago do Chile em 2011.

Mas isso fica perdido em meio à demonstração de coragem, que lembra as cenas da chegada da primeira maratona olímpica feminina, em Los Angeles, em 1984.

E se ela não tivesse chegado? Se o desmaio ou mesmo algum problema cardíaco mais grave tivesse sido a punição pelos erros? Estaria ela, ainda assim, sendo elevada aos píncaros da glória?

Creio que não, e lembro aqui o caso bastante semelhante da brasileira Lucélia Peres, que em 2006 liderava a meia maratona do Rio com ampla vantagem. Foi quando começou a andar torto, cruzar as pernas e acabou por desabar na guia da calçada sem conseguir completar a prova.

Diversos fatores estiveram envolvidos no colapso de Peres. Entre outros, a falta de alimentação ao longo da prova.

Seu treinador, Edilberto Barros, foi transparente ao afirmar, conforme a imprensa registrou na época: “Nós tivemos um problema com o repositor [energético] e não conseguimos colocá-lo à disposição para ela ingerir na prova”.

De qualquer forma, a chegada de Ngetich se transformou –e é—em história de bravura e determinação. O que leva médicos especialistas em esporte a arrancar os cabelos, como diz a diretora médica da maratona de Cleveland, Laura Goldberg, ouvida pela imprensa norte-americana.

“Para os corredores amadores, nada justifica engatinhar até o final da corrida. Fico nervosa ao pensar em como histórias como essas são absorvidas pelo público em geral.”

Desidratação, excesso de calor e câimbras são algumas das causas possíveis para o problema vivido pela queniana, na opinião da médica.

Ela alerta que corredores amadores nunca deveriam sequer tentar seguir o exemplo da incensada Ngetich.

Caminhar ao sinal de algum problema ou mesmo parar, desistindo da prova, são as medidas sensatas e saudáveis quando o corpo começa a dar sinais de que o sofrimento está sendo grande demais.

Alguns sinais de alerta vermelho são parar de suar e sofrer calafrios, câimbras contínuas e aumento da frequência dos batimentos cardíacos. Às vezes também a gente fica meio bobo, sente tonturas, dores no peito ou dificuldade para respirar: parar na hora é a ordem médica.

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Florence Kiplagat bate recorde mundial da meia maratona

Por Rodolfo Lucena
16/02/15 11:30

16 kiplagatNas mesmas ruas de Barcelona onde bateu o recorde mundial da maratona do ano passado, a queniana Florence Kiplagat estabeleceu neste domingo (15.2) nova melhor marca para a distância. Ela venceu a Mitja Marató de Barcelona em 1h05min09 (foto Divulgação).

Conseguiu tirar três segundos de sua marca anterior e ainda quebrou os recordes nas distâncias de 15 km e 20 km em provas de rua. Sem querer parecer ave de mau agouro e considerando acontecimentos recentes entre a elite feminina queniana, é bom esperar os resultados do antidoping…

Para estabelecer a nova marca, Kiplagat contou com coelhos masculinos, que a levaram em ritmo forte por mais da metade da prova. Ela sentiu-se obriga a reduzir, fazendo os últimos cinco quilômetros em 20 segundos a mais do que no ano passado.

“Já no quilômetro 11 eu percebi que daria para quebrar o recorde e fiquei ainda mais confidante na passagem do km 15. Mas achei melhor dar uma segurada porque estou me preparando para a maratona de Londres”, disse ela, esbanjando saúde.

Apesar dessa performance esplêndida, não há nada que garanta que ela possa desafiar o recorde mundial da maratona ou mesmo a segunda melhor marca do planeta. Ambas foram estabelecidas por Paula Radcliffe, que correu 2h15min25 em 2003 e 2h17min18 em 2002. A britânica, por sinal, voltará a correr a maratona de Londres em abril, na sua despedida do maratonismo profissional.

No ano passado, por exemplo, quando quebrou o recorde da meia maratona em Barcelona, acabou Mem segundo lugar na maratona de Londres, com 2h20min24. Aliás, nenhuma mulher c orreu a maratona em menos de 2h20 no ano passado; em 2013, apenas Rita Jeptoo conseguiu a façanha, mas ela está agora com suas marcas em risco porque foi pega em exame antidoping, como você já leu neste blog (se não leu, confira AQUI).

Afinal, como se sabe, não bastar multiplicar por dois o tempo na meia maratona para calcular o resultado na prova mais longa. Ainda que vários atletas da superelite internacional consigam fazer o que é conhecido como “split negativo” (fazer a segunda metade em menos tempo do que a primeira), a maioria perde força e energia, reduzidno o ritmo.

Tanto é assim que calculadoras automática de tempo de conclusão da maratona estimam em 2h15min49 a marca de chegada para quem passa a meia em 1h05min09 (o recorde que Kiplagat acabou de estabelecer). Ou seja, ficaria aquém do tempo de Radcliffe. Outra calculadora, baseada em diferentes critérios, prevê marca ainda pior: 2h17min07.

Mas tudo isso é papel, lápis e computador. Na hora do vamo ver, o que vale mesmo é a borracha queimando o asfalto.

Vamo que vamo!

 

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Corredor merece mais respeito, diz tetracampeã de ultramaratona

Por Rodolfo Lucena
11/02/15 11:00

Olá prezado leitor, estimada leitora. Para quem duvidava, aviso que este blog está firme e forte.

Várias pessoas me perguntaram como ficaria o +Corrida depois do lançamento do VAMOQUEVAMO!!!

Ih, você nem sabe que o VAMOQUEVAMO!!! existe?

Pois existe: é um blog que lancei para contar minhas aventuras depois de aposentado. Para dizer a verdade, contando em segredo só para você: foi um jeito de enfrentar as tristezas que chegam quando a gente vai ficando mais velho.

Lá no blog eu escrevi assim: “Os últimos meses de dores me deixaram mais gordo, mais fraco, menos determinado, menos capaz, mais triste. Preciso virar o jogo. Por isso inventei este desafio: a primeira maratona como aposentado. Tendo a corrida como meta, vou tentar enrijecer e emagrecer, ficar mais flexível e mais feliz, mais forte e mais rápido. Se tudo der certo, em junho próximo estarei na largada de uma prova no Alasca.”

Se você quiser saber mais, apareça lá. Basta clicar AQUI para chegar à página principal, que tem esta cara:

fev11 vamoquevamo

Bom, mas aqui, no +Corrida, não é lugar de ficar falando dessas coisas. Nosso assunto, como sempre, é corrida de modo geral.

Hoje, aproveito um texto da colega jornalista e brilhante ultramaratonista Daniela Santarosa para trazer ao debate uma questão que sempre me apoquenta quando participo de alguma corrida: a falta de respeito dos organizadores para com os corredores, seus clientes e, de certa forma, parceiros.

Há corridas que nos maltratam por falta de água, em outras o percurso está mal sinalizado, mais curto ou mais comprido… Há camisetas vagabundas, medalhas feiosas, troféus desconjuntados. Sem falar no descaso com a massa, corporificado na falta de premiação para as faixas etárias. E na ausência de prêmios em dinheiro para as categorias.

Claro que há corridas excelentes. E não fazem mais do que a obrigação, como todos nós, que trabalhamos nas mais diversas áreas, criamos produtos vendemos lanches, dirigimos empresas: cada um no seu quadrado procura (ou deveria procurar) a excelência. Não só para agradar e manter seu cliente ou seu salário, mas por puro orgulho e amor próprio.

Pois a Daniela escreveu com elegância autoridade sobre esse tema no ótimo blog que dirige, o SANTA CORRIDA. Falo autoridade porque ela é uma corredora amadora de alto desempenho. Basta dizer que, no mês passado, conquistou o tetracampeonato da Travessia Torres-Tramandaí, uma prova de mais de 82 km no litoral norte do Rio Grande do Sul.

Eu fiz essa prova em um revezamento, há alguns anos, e adorei. Mas claro que corri na massa e meu nível de exigência era praticamente nenhum. Afinal, estava correndo em praia gaúcha, o que por si só já servia para me deixar alegra. A Daniela, que tem 38 anos e corre já há cerca de duas décadas, tem uma visão mais crítica, que deve ser ouvida e debatida.

A seguir, o texto que ela escreveu. O título original era “TTT 2015: por que eu não vou correr em 2016”, mas usei de minhas prerrogativas de editor para fazer outro. A foto grande é da chegada de Daniela na TTT, de mãos dadas com o filho, Francisco, de seis anos; a menor não precisa de legenda, não é?

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“EXIGIR QUALIDADE É NOSSO DIREITO”

“Dizem que uma das sabedorias necessárias para qualquer atleta é planejar quais competições irá participar e, mais a longo prazo, qual o momento exato de sair de cena. Para profissionais (o que não é meu caso, e o da maioria), isso é mais difícil e doloroso. Fico imaginando a frustração de ter ido ao auge e, em função de lesões ou desgaste físico e também psicológico, ter que anunciar a aposentadoria.

“No dia 31 de janeiro, quando corri pela quarta vez a Travessia Torres-Tramandaí (TTT) na categoria solo (82km pela beira da praia), pensei muito sobre isso. Conquistei um tetracampeonato bonito, sofri, chorei e me diverrti para caramba. Porém, quando cheguei em casa e olhei para o troféu feioso de 1° lugar, cinzento e sem graça, me questionei se realmente valeu a pena tanto esforço.

fev11 daniela santarosa 2Nessa e em outras competições realizadas no Rio Grande do Sul (e creio que o mesmo ocorre em outras regiões brasileiras), somos tratados como meros coadjuvantes em “festas promocionais” mal organizadas. Pagamos inscrições com valores altos, investimos em equipamentos, em toda infraestrutura para fazer bonito.

Treinamos feito doidos o ano inteiro. Ficamos ansiosos, abrimos mão de uma série de coisas para correr.

E o que ganhamos em troca?

Não estou tirando o mérito de quem cria e realiza tais eventos. Sei que dá trabalho. Mas é um negócio: e um negócio cada vez mais lucrativo. Hoje a corrida é o segundo esporte mais praticado do País. Do Oiapoque ao Chuí, milhares de corredores de todas as idades e classes sociais invadem as ruas com seus tênis coloridos e gastam uma babilônia de grana para alimentar esse “vício” do bem.

Mas a meu ver – e me corrijam se estiver errada -, nos contentamos com migalhas. No caso de um evento como a TTT, que reuniu mais de 2.000 corredores (que desembolsaram, cada um, 130 paus), as falhas ficaram evidentes e decepcionaram muita gente. Falando com colegas que correram a prova, foram apontados muitos problemas.

Eu percebi erros graves nos pontos de hidratação (como estava na dianteira, notei que o staff não conseguiu sequer oferecer água gelada em vários pontos, sobretudo após o meio-dia, após a plataforma de Atlântida), algo essencial e básico para todo ultramaratonista. O kit da prova, mais uma vez, decepcionou muita gente. E a premiação, então…sem comentários.

Após correr 82km em 7h44min, batendo o recorde da prova, ganhei um troféu igual a todos os demais (nada criativo e muito feio, no formato da bandeira do Rio Grande do Sul. Mais brochante, impossível). A impressão que tive é que foi feito sem um tesão. Muito, mas muito aquém da dimensão dada pelo público ao evento.

O que ganhei de premiação? Um boné.

Quando digo isso a leigos, que nada entendem de corrida, o espanto é geral. “Mas como pode? Não pode ser! Correr 82km e ganhar um boné! Como tu ainda vai nisso?”, me perguntaram ontem.

Eu não soube responder.

Será que o que vimos no último final semana no litoral não vale para uma reflexão?

O quanto estão valorizando quem se dedica tanto a esse esporte? Onde está o profissionalismo, a consideração com os atletas? Será que merecemos comer pão seco com queijo, quando merecemos (e pagamos para ter) um rango que tenha o sabor da superação, gostoso como um croissant quentinho?

É por essa e outras que, em 2016, decidi não correr mais essa competição e todas as demais que, ao meu ver, não primam pelo profissionalismo e deixam a desejar em vários aspectos.

Quer ver como funciona? Vá para qualquer evento esportivo na Europa e Estados Unidos ou, mais perto ainda, na Argentina.

Somos os principais personagens. E exigir qualidade não é ofensa ou crime. É nosso direito.

Espero que tenhamos uma evolução nos próximos anos, pois do jeito que as coisas andam, dá mais vontade de investir essa grana preta das inscrições em um bom vinho – pelo menos, o retorno é garantido.”

 

 

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