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Rodolfo Lucena

+ corrida

Perfil Rodolfo Lucena é ultramaratonista e colunista do caderno "Equilíbrio" da Folha

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Vanderlei Cordeiro recebe prêmio do Comitê Olímpico pelo conjunto da obra

Por Rodolfo Lucena
17/12/14 09:26

Vanderlei Cordeiro de Lima, bronze na maratona olímpica em Atenas-2004 e dono da medalha Barão de Coubertin pelo seu espírito esportivo, foi homenageado nesta terça-feira (16) pelo Comitê Olímpico Brasileiro. Na sessão de gala em que são premiados os melhores atletas do ano, Vanderlei recebeu o troféu Adhemar Ferreira da Silva pelo conjunto de sua carreira atlética e contribuição ao epsorte brasileiro e internacional.

O troféu, segundo diz a página do COB, foi criado em 2001  “como forma de homenagear atletas e ex-atletas que representem os valores éticos, esportivos e morais que marcaram a trajetória de Adhemar, um exemplo de eficiência técnica, esportividade, companheirismo, sentido de coletividade e respeito ao próximo”.

A cerimônia toda foi muito chata e formal, mas o momento da entrega do troféu a Vanderlei acabou sendo um pouco mais descontraído. O coitado do maratonista parecia metido numa camisa de força, amarrado num terno um tanto apertado. Digo isso porque Vanderlei apresentou uma certa dificuldade para erguer os braços e mostrar o troféu no alto –parecia que a roupa dificultava seus movimentos.

Como apreciador do atletismo –e da justa distribuição das coisas pelo mundo afora–, achei que esse esporte está subapreciado pelo Comitê Olímpico Brasileiro. Isso porque o COB seleciona apenas um “melhor atleta” na categoria, que tem tantas e tão diversas modalidades, da maratona ao salto em altura, do lançamento do martelo à corrida de obstáculos.

No caso do ciclismo, por exemplo, há prêmios para atletas nas modalidades BMX, mountain bike, estrada e pista; na canoagem, há prêmios para slalom e velocidade; a ginástica tem três modalidades.

Tudo bem que existam essas premiações, mas, tomando esses exemplos como base, o atletismo deveria premiar pelos menos três atletas –das modalidades de corrida, de lançamento e de salto. Talvez quatro, dividindo a corrida em provas de pista e de rua. De qualquer modo, está de parabéns a atleta premiada, a sempre simpática e certamente merecedora Fabiana Murer.

Voltando ao Vanderlei, quero fazer também aqui a minha homenagem a essa atleta. E a faço do meu jeito, contando sua história tal e qual ele me contou. O texto a seguir foi publicado originalmente na edição de setembro da revista “O2”.

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BRONZE DE OURO

Eu não acreditava no que estava vendo. Sozinho no asfalto, longe de tudo e de todos, o brasileirinho mirrado liderava a maratona olímpica.

A bem da verdade, já fazia tempo que minha incredulidade se irmanava ao meu ceticismo para dizer que aquilo não iria dar certo. Locutor e comentarista responsáveis pela transmissão da prova, naquela tarde de 29 de agosto de 2004, também pareciam não apenas incrédulos como também descrentes. Um brasileiro não poderia, nunca, jamais, em tempo algum, vencer a maratona olímpica.

Mas era isso que estava acontecendo. Desde o quilômetro 20, mais ou menos, Vanderlei Cordeiro de Lima havia tomado a liderança da prova do sul-africano Hendrick Ramaala, que, por sua vez, havia escapado do primeiro pelotão pouco depois do quilômetro 10.

Ao contrário do que acontecera com o rival, porém, o brasileiro seguia abrindo distância, mesmo depois de dez quilômetros correndo sozinho. Passou meia hora, passaram 40 minutos, e nada de o pelotão chegar. Na passagem do km 35, cerca de 45 minutos depois de sua arrancada, Vanderlei mantinha uma vantagem de 28 segundos sobre os perseguidores mais próximos.

Então deu-se o inacreditável. Por volta do km 36, acontece o ataque. As câmeras que transmitem a maratona não pegam o início da cena. Mas todos percebemos que algo muito errado está acontecendo porque vemos, com o olho da câmera, os olhos de Vanderlei.

O paranaense de Cruzeiro do Oeste, então com 35 anos, arregala os olhos fundos no rosto magro e tenta mudar o curso de sua trajetória de corrida, dá uma espécie de drible para a sua direita, uma ginga de corpo. Que raios acontece?, mal temos tempo de perguntar, enquanto as câmeras se perdem, e logo a cena muda: Vanderlei está caído entre público que acompanha a prova, e um sujeito grandalhão, barbudo, sai em seu socorro, tentando livrar o brasileiro de um atacante que ainda não conseguimos reconhecer.

Vestido com camiseta azul, bermuda e mocassim, ele alcança e empurra o agressor muito antes de um guarda que acompanhava a prova tivesse alguma reação. Vanderlei escapa da confusão e, mesmo meio atordoado, consegue ficar de pé, voltar para o asfalto e seguir sua corrida. O atleta parece não entender o ocorrido: para as câmeras que o acompanham, move a cabeça, abre os braços, como a dizer “O que foi isso?”.

No asfalto, o agressor está finalmente subjugado e não se livra de levar uns catiripapos da multidão furiosa e indignada. A polícia chega e recolhe o sujeito, que vestia um kilt (tipo de saiote para homens), barrete e meiões verdes. No colete, o homem grudara um cartaz em que dizia: “O padre do Grand Prix. A Bíblia diz que Israel cumprirá a profecia. A segunda vinda está próxima”.

Era Cornelius Horan, um ex-padre irlandês conhecido por ter invadido, no ano anterior, a pista do Grande Prêmio da Inglaterra, em Silverstone, também levando uma mensagem religiosa. Na ocasião, fora condenado a dois meses de prisão. Mas, pelo jeito, não aprendeu: diante de um tribunal em Atenas, depois da maratona, disse que esperava ser perdoado “no Juízo Final”.

Crendices à parte, Vanderlei seguiu tentando manter o equilíbrio. Mas a queda, o estresse e os segundos perdidos na confusão aos poucos cobraram juros. O brasileiro acabou alcançado pelos seus perseguidores, agora reduzidos ao italiano Stefano Baldini e Meb Keflezighi, que conseguem superar Vanderlei quando faltam, cerca de três quilômetros para o final.

Mesmo assim, o brasileiro não desiste. Entra no estádio Panathinaikos, palco na primeira edição dos Jogos Olímpicos de nossa era, sob os aplausos da multidão. Rosto pleno de alegria, o ex-bóia-fria manda beijos para a multidão, enquanto cruza a linha para conquistar o bronze mais dourado da história olímpica.

Num show de empolgação –e demonstração de resistência—faz aviãozinho na pista depois de completar a prova, que fechou em 2h12min11, um minuto e 16 segundos depois de Baldini ter se sagrado campeão da primeira maratona olímpica deste século.

Vanderlei é ovacionado, enquanto o Comitê Olímpico Brasileiro prepara moção de protesto e reivindica o ouro para o brasileiro –seria uma segunda medalha de vitória, sem tirar a do italiano.

O pedido é negado, mas o Comitê Olímpico Internacional oferece um prêmio talvez ainda maior. Dá a Vanderlei a medalha Barão Pierre de Coubertin, em reconhecimento pelo seu espírito esportivo –até então, apenas quatro atletas haviam recebido a comenda, um deles o maratonista tcheco Emil Zatopek.

Dez anos depois, na manhã do último dia 28 de julho, converso com Vanderlei por telefone. Ele tinha chegado havia pouco a Maringá, onde vive com a família. Havia estado por alguns dias no sítio que tem em sua cidade natal, Cruzeiro do Oeste.

Talvez ainda descansado pelos dias de pescaria e trabalho na terra, o maratonista mantém o espírito esportivo e a tranquilidade que o caracterizam. “Ih, rapaz, é mesmo, já foram dez anos, nem parece que passou tanto tempo. A velocidade do tempo é cruel”.

Mas a lembrança é boa, alegre: “O que vem na memória é a corrida, a conquista. De Atenas só tenho boas recordações.”

O jornalista, cético, não acredita. Vanderlei, pergunto eu, não sobra nem uma raiva do padre? O maratonista não cai na provocação, responde quase a mesma coisa que falou há dez anos, em Atenas: “Foi um incidente, claro que não fazia parte do decorrer da prova, foi um episódio externo. Mesmo diante daquela situação, ainda me superando e enfrentando a dificuldade da corrida, sempre naquela busca constante, ainda conseguimos um grande objetivo. Então vejo dessa forma: a minha conquista da medalha de bronze é muito mais significativa do que a lamentação por não ter ganhado a medalha de ouro devido ao incidente. Essa superação, acreditar que era possível, é muito mais um retorno positivo”.

Claro, o mundo homenageou Vanderlei. Mas ele não teve o gostinho da vitória. Naquele mesmo 29 de agosto de 2004, pelos dias que se seguiram e, aposto, a cada vez que a história é lembrada, debatedores mergulham em cálculos. Vanderlei vinha com X segundos de vantagem, os perseguidores tinham conseguido diminuir a vantagem em Y segundos, faltavam Z quilômetros para final, o brasileiro seria alcançado, o brasileiro não seria alcançado…

Deixemos que o brasileiro em questão diga o que pensa, fale dos seus cálculos. Para responder, Vanderlei mais parece um diplomata, cheio de talvezes e veja-bens. Lembro que os perseguidores vinham se aproximando e pergunto se ele acredita que, de qualquer forma, seria campeão.

A resposta começa com um “veja bem”. Então vejamos o que diz Vanderlei: “Aconteceu o incidente. Acabei voltando para a prova. É claro que você não se recupera assim instantaneamente para retomar a prova. Na verdade, eu me superei ali para me manter na prova. Mas jamais iria voltar a correr no ritmo em que estava antes”.

O que não aliviou de imediato as coisas para seus perseguidores: “Mesmo diante de todos os problemas que eu enfrentei depois do incidente, os caras demoraram dez minutos para me ultrapassar, me ultrapassaram no km 39”.

A quem ouve Vanderlei falar, a impressão que dá é que o atleta confia que seria o campeão. Ele, porém, nunca cedeu aos convites para a fanfarronada, nem no calor do pós-prova nem na distância de dez anos depois:

“Em condições normais, com a diferença que eu tinha, é difícil apontar para você, falar que a vitória era minha, com certeza. Eu não vou ser tão imprudente quanto foi o Baldini, quando deu uma entrevista. O repórter perguntou se ele tinha plena certeza de que seria o campeão, e a resposta dele foi que, independentemente de qualquer coisa que tivesse ocorrido na prova, ele seria o campeão de qualquer forma. Eu jamais, numa resposta à sua pergunta, vou subestimar os meus adversários. Eu teria tudo, pela minha sensibilidade, para ganhar a medalha de ouro se nada tivesse acontecido. Mas eu não posso afirmar, seria imprudente dizer que eu seria o vencedor de qualquer forma. Teria todas as possibilidades de chegar à medalha de ouro. O que aconteceu foi um fator externo que acabou tirando essa grande chance.”

Chances que não surgiram do acaso. Ao longo da década anterior, Vanderlei e seu técnico, Ricardo D`Angelo, haviam programado sua carreira, planejado os passos, construído avanços. O brasileiro, quando chegou a Atenas, era muito maior que a força, a resistência e a velocidade que suas pernas podiam dar ao corpo pequeno, apenas 55 quilos distribuídos em 1,64 m de altura.

“Para você se preparar para uma Olimpíada ou para qualquer prova que você vai competir, não importa apenas estar bem fisicamente. Acho que a força mental do atleta, do atleta individual, é importantíssima. Não só para romper as barreiras que vai encontrar durante uma corrida, mas para lidar com fatos que possam surgir ao longo da prova. Ninguém vai ser um campeão, um recordista mundial, só fisicamente. A cabeça faz parte do todo esse conjunto. Temos vários e vários atletas que têm potencial, mas não têm cabeça para direcionar sua carreira, direcionar seu treinamento, direcionar uma prova. Então muitas vezes num erro de uma tática em uma prova ele acaba perdendo a prova ou talvez a oportunidade da vida dele.”

Ele revela que a preparação para Atenas fechou um ciclo de 12 anos: “Fizemos todo um planejamento, usando todo o conhecimento que tínhamos da prova, do clima e dos nossos adversários. Eu estava muito preparado para essa prova, não só fisicamente, mas mentalmente também. Isso me deu uma condição diferenciada para vivenciar a volta para a prova depois do episódio e para conduzir o fato pós-corrida, que eu acho que foi a maior grandeza e maior demonstração de força, não só física, mas também demonstração dos valores do esporte”.

Foi longe aquele menino mirrado, que acompanhava os pais no roçado e catava mamoma para conseguir um dinheirinho extra e comprar doces que os pais não podiam lhe dar.

Vanderlei é o sétimo filho de seu Zé Pequeno (José Cordeiro de Lima) e dona Aurora, um casala de retirantes que nos anos 1960 se instalou no Paraná, fugindo da seca que castigava o nordeste. Nasceu no dia 4 de julho de 1969 em Cruzeiro do Oeste, interior do Estado do Paraná –o registro oficial carimba a data como 11 de agosto.

Ainda menino, com seis anos, mudou-se com a família para Tapira, uma cidade próxima, onde os pais trabalhavam como boia-fria. Muito cedo, a partir dos oito anos, Vanderlei começou a criar calos nas mãos empunhando a enxada:

“Na parte da manhã eu estudava. Quando chegava em casa, ia levar a comida para meu pai e já ficava ajudando. Meu pai sempre incentivava, dizia assim: vamos brincar um pouquinho, pega uma enxadinha ali, vai catando uma mamona ali no chão… Era aquilo, sempre tinha uma coisa para fazer. E meu pai sempre plantava, assim, um pedacinho de roça, quando arranjava espaço na terra dos outros. A gente sempre plantava mamona. Plantava feijão. Eu catava mamona debaixo dos pés. Se quisesse comprar um doce ia na roça, catava dois, três quilos de mamona, vendia para às vezes comprar um docinho, alguma coisinha assim pequena…”

Foi na escola que descobriu o jeito para o esporte.

“Um menino que vive numa pequena cidade no interior do Brasil não tem muitas perspectivas. Quando comecei a praticar esporte na escola, nos Jogos Escolares, era assim uma forma de brincadeira. E a visão minha era a de que o esporte poderia me proporcionar uma condição diferente para eu poder viajar. Esse sempre foi meu grande propósito, começar a correr para poder viajar. Nesse momento não me passava muita coisa pela cabeça, eu nem conhecia o atletismo direito. Na verdade, o meu objetivo primeiro era realmente me locomover.”

E olha que o cara conseguiu se locomover como ninguém. Fez as tais corridinhas na escola e logo passou a representar a escola Estadual Presidente Castelo Branco em Jogos Escolares, primeiro na cidade, depois nos Jogos Regionais e assim foi, como ele mesmo conta:

“Depois dessa fase de Jogos Escolares, passei a treinar com um amigo, meio sem noção. Nos fins de semana, ia com ele participar de corridas. Comecei a me destacar na região. Mesmo sendo juvenil, chegava entre os primeiros entre os adultos. Em 1987, aos 18 anos, fui para Maringá, que é a cidade onde eu resido hoje. Passei a ser federado pela Associação Atlética Ingá, e pude disputar o campeonato paranaense de atletismo. Comecei a me destacar, ganhar prova de 1.500 m, 5.000 m, 10.000 m, e batendo recordes. Em 1988, recebi um convite da Eletropaulo para vir para São Paulo.”

A vida mudou. Ele passava a ser um atleta, vivia do que ganhava para correr. O que não significa que fosse uma vida fácil.

“Eu morava lá no Largo do Socorro (zona sul de São Paulo), num alojamento no ginásio de esportes da Eletropaulo. Saía de lá às cinco e meia, horas da manhã, vinha muitas vezes pendurado nos ônibus. Naquela época os ônibus andavam de porta aberta, era muita gente nos ônibus, a gente andava pendurado pelo lado de fora. Vinha cedo para o Ibirapuera para treinar.”

Quando chegava a hora do almoço, tinha de fazer mais exercício: “Às 11h a gente saía, ia até o Cambuci, caminhando, para almoçar no restaurante da Eletropaulo. Depois voltava para o Ibirapuera, descansava um pouco, começava a treinar às 15h30. Aí quando dava cinco e meia, seis horas, voltava para o Largo do Socorro”.

Chegava ao alojamento mais ou menos na hora em que uma perua da empresa levava a comida para os atletas: uma marmita para o jantar e um saquinho com um pão e uma caixinha de leite que seriam usados no café da manhã.

Estava valendo a pena: no mesmo ano em que saiu de Maringá iniciou sua trajetória internacional. “Tive de participar de um campeonato brasileiro, eu já peguei a seleção brasileira de atletismo, fui escolhido para disputar o Mundial de atleta. Imagina, eu, havia dois três anos estava na roça, naquele mundinho pequeno, e agora iria fazer minha primeira viagem internacional. Consegui me classificar, ser escolhido para a seleção Brasileira para disputar o Mundial de atletismo júnior no Canadá. Foi em Sudbury, em 1988, fui disputar os 10.000 m e os 20 km de estrada.”

Não conseguiu nada no Mundial, mas se destacou em uma competição prévia. “Uma semana antes, fomos disputar um torneio nos Estados Unidos. Cheguei entre os três primeiros, fui um dos atletas que se destacaram. Aí vai crescendo uma expectativa de que realmente a vida possa ser diferente. A partir desse momento que eu comecei a sonhar.”

Os sonhos foram construídos no asfalto, virando realidade a cada passo. Depois de dois anos na Eletropaulo, Vanderlei passou para a Funilense (antecessora do Clube de Atletismo BMFBovespa). Em 1992, na nova equipe, conquistou o quarto lugar na São Silvestre e ganhou projeção no exterior.

Naquele ano mesmo, já passaram por uma temporada nos Estados Unidos. No ano seguinte, pegou pódio em uma meia maratona no Japão. Em 94, fez uma temporada na Europa e veio o convite para um trabalho extra: ser coelho na maratona de Reims, na França.

“Eu já estava no final da temporada, meio cansado, correndo provas de dez milhas, meia maratona, 10 km. Não tinha nada a perder e ainda ia ganhar um dinheiro”, lembra ele, que voltaria para o Brasil na semana seguinte.

Chovia muito, e ele tinha a responsabilidade de dar o ritmo para o primeiro pelotão até a metade. “Aí deu vontade de correr. Resolvi correr até os 25, mas daí estava indo bem, decidi ir até os 30, pensando em abandonar ali com o outro coelho, pegar o carro que nos esperava e ir embora.”

Que nada! O atleta que ele estava puxando começou a perder o ritmo, foi ficando para trás. “Eu me empolguei. Acabei indo até o final e ganhei a prova, fiz 2h11min06. Mas sem nada planejado”, lembra Vanderlei.

A partir daí, as maratonas passaram a ser o foco da carreira de Vanderlei. Em 1996, fez o que lembra como prova mais emocionante –sem contar o bronze de Atenas, é claro.

“Eu nem estava posicionado como favorito, acabei surpreendendo todo mundo. A maratona foi disputada até os últimos metros. Nos últimos cem metros, houve o sprint final entre eu o Antonio Pinto, de Portugal, que tinha ganhado em Londres, tinha feito uma ótima marca lá… Nós dois, nos últimos cem metros, peito a peito ali, ninguém sabia quem ia ganhar. Naquele dia eu fiz duas horas, oito minutos e 38 s, e ele também fez 2h08min38, o relógio cravou o mesmo tempo dos dois, a diferença foi de milésimos. São boas lembranças, pela garra e determinação que eu tive ali no final para brigar pela conquista. Foi algo muito emocionante. É até gostoso de lembrar e ficar pensando como foi aquele momento. Muito gratificante.”

Em contrapartida, até hoje lamenta a dor que o levou a abandonar a maratona do Pan-2007, no Rio de Janeiro. “Era o grande momento, queria buscar o tricampeonato dos Jogos, eu já era bicampeão do Pan… Infelizmente, devido a uma lesão, acabei abandonando a prova no quilômetro 37. E eu estava entre os primeiros. Mesmo assim, não foi nada que estivesse ao meu alcance. Foi algo que estava além de meu poder.”

Quando as coisas estão dentro do alcance, porém, ele vai atrás, levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima, como fez no asfalto fervente de Atenas. Chega a fazer filosofia: “Ao longo da minha vida, as vitórias foram importantes, mas o aprendizado com a derrota é algo que você não esquece e que te fortalece a cada passo”. E completa: “Eu não fui um atleta grande vitorioso. Eu fui um atleta que me superei. Eu não nasci atleta, eu me fiz atleta”.

 

 

 

Conheça as cinco maratonas mais rápidas do planeta

Por Rodolfo Lucena
12/12/14 16:32

O título deste post é verdadeiro. Se você ler estas linhas, em breve vai saber exatamente quais são as cinco mais rápidas maratonas do planeta.

Só tem um porém.

Elas não são as mais rápidas maratonas do planeta.

Ou, dizendo de outra forma, elas são as mais rápidas do planeta, mas –ah, essa bendita (ou maldita) conjunção adversativa)– segundo um determinado critério. É possível que, seguindo outros critérios, encontremos outros resultados.

Mas, como esse aqui já estava pronto, resolvi obedecer à lei do menor esforço e trazê-lo logo para sua leitura e avaliação. Afinal, sempre pode ser um tópico de conversa depois de um treinão de fim de semana ou na mesa de um bar que sirva sucos naturais para corredores.

Bueno, sem mais delongas, vou logo contando quem é o pai da criança. Trata-se de um veterano corredor italiano, Orlando Pizzolato, bicampeão da maratona de Nova York (1984-1985). Se pá, você nem era nascido ainda…

Bueno, e eu fiquei sabendo da tabela que ele compilou via rede social ao ver um post em uma rede social; peço desculpas ao dono da mensagem original, pois já não consegui encontrá-lo para fazer aqui a devida citação. De qualquer forma, se aparecer, eu conto aqui.

Depois de todo esse prolegômeno, já está na hora de revelar as cinco maiores. Não sem antes esclarecer os critérios de seleção feitos pelo nosso amigo Pizzolato: ele fez a média dos dez melhores tempos na história de cada uma dessas maratonas.

Outros critérios possíveis: a média do total dos concluintes, a mediana dos concluintes, a média da média do total dos concluintes nos últimos dez anos. Enfim, cada cabeça uma sentença.

Resultado: tchan-tchan-tchan-tchan-tchan… A montanha pariu um rato… Por esse critério, claro que a maratona de Berlim, onde cinco recordes mundiais foram quebrados nos últimos dez anos, tinha de ser a primeira. A média dos dez melhores resultados lá obtidos é de 2h03min55.

A seguir vem Chicago, com 2h04min40, seguida de perto por aquela que alguns podem considerar a surpresa da lista: Dubai, com 2h04min46.

Completando as cinco primeiras vêm Roterdã, com 2h04min52, e Londres, com 2h05min04.

Elas lideram o ranking porque têm percurso plano, são realizadas em clima em geral favorável à corrida de longa distância, e seus organizadores sabem escolher muito bem seus atletas convidados. E pagam muito bem.

Sempre há chances de imprevistos: já tivemos tempo quente em Chicago e Berlim, por exemplo. Mas claro que são provas muito legais para quem gosta de mandar ver. Outras opções também rápidas são as provas de Frankfurt, Amsterdã e Paris. Boston aparece à frente delas, mas é por causa de alguns resultados muito fora da curva que ocorreram lá.

Se você quiser ver todos os resultados compilados pelo corredor italiano, o site dele está AQUI. Recomendo a visita, pois o site é cheio de coisas. E vale a pena conhecer um pouco mais desse campeão de décadas passadas.

Percurso da São Silvestre muda para melhor

Por Rodolfo Lucena
09/12/14 08:41

blog ss

Gente, é tão difícil encontrar algo bom quando se fala da organização da São Silvestre que eu até me surpreendi hoje ao abrir o mapa do percurso.

Tudo bem, estou abrindo tarde, talvez você já o tenha visto.

Mas é de lei que eu faça algum comentário.

E aqui está: melhorou!

Não se anime muito: a maldita descida da Major Natanael, pouco depois do primeiro quilômetro, continua lá, firme e forte. É preciso ter cuidado para não cair e economizar no ritmo para não sofrer mais tarde.

Mas, depois de passar o estádio do Pacaembu, as coisas melhoram bem.

Tiraram aquela voltinha besta na Mario de Andrade, onde no ano passado caía o km 6. Agora, o corredor apenas desce a avenida Pacaembu, entra na rua Margarida, dá aquela quebrada de subida e descida entre as ruas Olga, Tagipuru e passa em frente ao Memorial da America Latina para voltar diretamente à Pacaembu.

Isso é uma melhora importante, do ponto de vista psicológico. O atleta sai daquele enrosco de voltinhas e já vê chão à frente, já pode começar a desenvolver melhor, sem aquele ir e vir acotovelado que existiu no ano passado.

Outra mudança é lá à frente, calculo que depois do km 8 (no mapa não estão marcados os quilômetros, falo de memória). No ano passado, a gente saía da Rio Branco para cair na Duque, indo por ela até o Largo do Arouche.

Neste ano, não. Sobe-se pela avenida Rio Branco até a Ipiranga, seguindo-se por ela até a avenida São João, onde se desce em direção ao Arouche. E aí se passeia pelo centro, voltando até a esquina da Ipiranga com a São João, por onde, portanto, o atleta vai passar duas vezes (pode cantar “Sampa” quanto quiser…)

Coloco aqui um corte do mapa para que fique mais claro esse trecho do percurso.

blog ss detalhe

Prestem atenção nesse trajeto, porque deve ser um dos mais bacanas  e interessantes do percurso, desembocando no Teatro Municipal e depois pegando o Viaduto do Chá. Há que aproveitar ali o centrão paulistano porque logo depois vai começar a temida subida da Brigadeiro (que nem é tão terrível assim, mas exige treino específico, especialmente se você está acostumado a correr no plano).

Enfim, vai ser legal. Aproveite muito a corrida, beba a cidade com os olhos, abrace São Paulo com suas passadas.

E fique ligado neste blog, que ao longo dos próximos dias trarei mais dicas sobre a São Silvestre, a mais importante  e tradicional corrida de rua do país.

Maratonista brasileiro gosta mesmo é da Argentina

Por Rodolfo Lucena
05/12/14 14:11

O universo das maratonas no Brasil, sabemos todos os que militam na área, é complexo, para dizer o mínimo. Diferentemente do que ocorre em outros países, o número de participantes não cresce, cresce muito pouco ou só aumenta em alguma prova específica.

O calor, que faz da distância um sofrimento ainda maior, pode ser uma das explicações. Experiências negativas em provas mal organizadas também pode ser outra. Enfim, há muito chão para debate que talvez nunca chegue a lugar algum.

O certo é que cada corredor, de acordo com suas possibilidades de tempo e dinheiro, busca a prova que mais retorno lhe dará em diversão, conforto e possibilidade de bom desempenho.

Tudo isso está presente da maratona de Buenos Aires, a corrida estrangeira de 42 km que mais brasileiros conquistou neste ano, segundo levantamento inédito e sensacional feito por Danilo Balu, que publicou números completos em seu blog Recorrido (está AQUI; recomendo a leitura).

Eu aqui vou tomando carona em alguns dos números compilados por Balu, que está se transformando, ao lado de Nélson Evêncio (presidente da Associação dos Treinadores de Corrida de São Paulo), em referência quando se fala de dados sobre corridas no Brasil.

Bom, a maratona portenha cativou nada menos que 751 atletas verde-amarelos, ganhando por pouco daquela que muitos consideram a mais divertida maratona do mundo, a da Disney, que teve a presença de 729 brasileiros. Em terceiro lugar ficou a maior maratona do mundo, Nova York.

Balu ainda aproveitou para fazer um comparativo dolorido: tirando as quatro grandes maratonas brasileiras (Rio, São Paulo, Porto Alegre e Porto Alegre), as outras realizadas em território nacional têm menos concluintes do que o número de brasileiros em diversas maratonas gringas.

A bela e plana maratona de Florianópolis, por exemplo, fica em modesto quarto lugar no ranking combinado montado por Balu.

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Corredor encontra beleza e dureza em meias maratonas no Nordeste

Por Rodolfo Lucena
01/12/14 13:03

Como você sabe –ou, se não sabe, vai ficar sabendo neste instante–, sou um gaúcho apaixonado pelo Nordeste, suas riquezas, seu sol seu vento, seu mar e todo aquele povo sensacional. Infelizmente, por restrições de tempo e orçamento, nem sempre consigo realizar as viagens desejadas e participar de provas que “namoro” há tempos.

Para compensar, de vez em quando leitores contam suas histórias de belas provas nordestinas. Deixam a gente com água na boca. Mas, pelo menos do ponto de vista jornalístico, digamos assim, fica o registro.

Agora, quem nos manda relato precioso é LIA CAMPOS, leitora e colaboradora bissexta deste espaço. Funcionária pública, ela corre há dez anos e se dedica especialmente às meias maratonas –tem mais de 30 delas no currículo. A partir de agora, ficamos com a descrição que ela faz de duas provas do gênero, uma em Maceió, outra em Teresina.

01 lia Maceio

A Meia Maratona Caixa da República, em Maceió, teve no dia 15 de novembro sua sexta edição. Como o nome diz, a corrida é em comemoração à Proclamação da República do nosso país, que, por sinal, para quem não lembra, foi proclamada pelo alagoano Deodoro da Fonseca.

É uma prova bastante organizada.

Largada pontual às 6h45, um lindo visual, água à vontade e gelada a cada 2,5 km, trânsito bem organizado, percurso praticamente 100% plano e se realiza quase totalmente na orla da belíssima Maceió (foto Arquivo Pessoal).

Fácil, né?

Né não!!!

Não existem sombras ao longo dos 21 km, portanto, quem quiser encarar imagine o sol nordestino onipotente e onipresente durante toda a duração da sua prova. Nos termômetros da orla, eu vi registrados 32ºC. Duro, muito duro!

Já a 5ª. Meia Maratona do Sertão, na capital piauiense, Teresina, onde eu esperava um calor bem maior, me surpreendeu.

01 lia teresina

Não que não estivesse quente, mas, como o percurso segue por uma área rural (foto Arquivo Pessoal), existem sombras em abundância, o que facilita em muito a vida do atleta em um percurso cheio de subidas.

Essa prova foi idealizada por um corredor em comemoração ao seu aniversário. Tem largada em frente ao Parque Zoobotânico e chegada em um sítio, com frutas e banho de piscina. A organização disponibiliza um ônibus para levar os participantes de volta ao ponto da partida.

Neste ano foram abertas 400 vagas e tudo foi muito bem organizado.

Com largada às 7h, tem água gelada a cada 2km e dois postos de isotônico em saquinhos. O trânsito não é fechado para os corredores, que são apenas acompanhados por motos com policiais, o que não chegou a atrapalhar em nada pois o movimento de carros na estrada é pequeno.

A Meia Maratona do Sertão é uma prova feita por corredores, para corredores, e termina em uma grande confraternização com premiação com troféu por categoria de 5/5 anos.

São duas boas opções para quem quer correr no Nordeste em provas diferentes e bem organizadas e aproveitar para conhecer essas duas capitais brasileiras.

Aproveito o espaço, uma vez que o blog é bastante lido por corredores de todo o país, e peço a quem souber de provas em Rio Branco-AC e Porto Velho-RO, por favor as indique. Estou com um projeto pessoal de correr uma prova em cada capital do Brasil (saiba mais AQUI), e essas duas capitais são as únicas de que ainda não tenho indicação de corridas.”

Ator Shia LaBeouf faz metamaratona na Holanda

Por Rodolfo Lucena
28/11/14 14:30

28 shia AFP Jan  Hennop

Você sabe o que é uma metamaratona?

Se não sabe, não fique triste. Eu também não tinha a menor ideia até minutos atrás, quando me deparei com a notícia que deu origem a este texto.

O famoso ator de Hollywood Shia LaBeouf, estrela de “Transformers” e com atuação em filmes como “Wall Street” e “Ninfomaníaca”, também conhecido por suas performances, realizou uma metamaratona em Amsterdam.

Não encontrei no dicionário definição de metamaratona, mas, conhecendo o prefixo, dá para ter uma ideia do significado: trata-se de uma maratona sobre uma maratona. E foi isso o que fez nosso ilustre enfant terrible.

Eis senão quando o museu Stedelijk resolveu fazer um seminário intensivo sobre a momentosa temática “A percepção do mundo pela geração dos anos 1980, bombardeada pela midia social onipresente e pelo culto às celebridades”.

Já se viu que o assunto é profundo. Mais ainda a turma envolvida: o simpósio de 12 horas, intitulado #metamodernismo, teve a presença de 600 filósofos, pensadores e artistas do mundo todo.

E o LaBeouf tratou de corporificar essa maratona de debates correndo uma maratona particular, fazendo nada menos que 144 voltas em torno do museu.

Em muitas delas, foi acompanhado por pessoas do público, como na foto acima (AFP/Jan Hennop), em que veste calças de corrida justinhas azuis (nos textos que vi, chamavam a cor de púrpura, mas nananina) e camiseta regata verde, com número de peito e tudo, como se estivesse em uma prova.

O ator carrega nas mãos um bastão como os usados em corridas de revezamento e passa a cada volta pelo pórtico de largada e chegada.

Tudo isso aconteceu em setembro passado, mas eu só vi a história há pouco, quando estava fazendo uma pesquisa na internet e não sei por que cargas d`´agua o buscador sugeriu esse item de notícia.

Então, como para mim é novidade, tratei de compartilhar a história com você.

E você, já fez uma metamaratona?

Ou metaqualquercoisa?

Acho que o mais comum é termos metassonhos, sonhos em que sonhamos estar sonhando; os quadrinhistas gostama de fazer histórioas em quadrinhos sobre histórias em quadrinhos, em que os personagens de histórias em quadrinhos acham que estão numa história em quadrinho.

Bueno, já deu para entender a mensagem.

Meta-abraço para você!

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Brasil fica longe do pódio no Mundial de ultramaratona

Por Rodolfo Lucena
24/11/14 16:23

A equipe brasileira de ultramaratonistas ficou em 13º lugar no Mundial de ultramaratona (100 km), disputado na última sexta-feira (21) em Doha, no Catar. Participaram cerca de 200 atletas representando 38 países, de modo que o time verde-amarelo ficou na terça parte mais rápida. Se é que isso serve de consolo.

Individualmente, o atleta brasileiro mais bem colocado foi Márcio Batista de Oliveira, que ficou em 50º lugar, completando 20 voltas no circuito de 5 km em 7h49min56.
“Estou muito feliz por ter feito o percurso e por ter integrado, pela primeira vez, uma equipe brasileira completa. Passei mal, tive de parar três vezes, mas me despeço com orgulho das provas de 100 quilômetros”, disse o atleta de 46 anos. “É duro competir contra adversários que têm a metade de sua idade, mas me sinto recompensado”, completou, segundo despacho distribuído pela Confederação Brasileira de Atletismo.
Marcos Paulo Espírito Santo terminou em 67º lugar (8h02min36), enquanto Eduardo Silvério Calisto ficou em 91º (8h32min03) e Sinval Moreira Aguiar completou em 9h08min18, terminando na 109ª colocação. Somando os tempos dos três primeiros colocados da equipe, o Brasil totalizou 24h24min35.
A equipe norte-americana foi a campeã no masculino, com tempo total de 20h08min05; o Japão ficou com a prata, com 20h55min09, e a Grã-Bretanha completou o pódio, com 20h57min50.
No individual, o vencedor foi Max King, dos EUA, com 6h27min43. O sueco Buud Jonas ficou com a prata, com 6h32min04, e o espanhol José Antonio Requejo veio em seguida,com 6h37min01.
No feminino, o time britânico levou o ouro, com 22h56min27. Japão (23h22min32) e Rússia (23h53min31) completaram o pódio. A vencedora, no individual, foi a súdita da rainha Ellie Greenwood, com 7h30min48, seguida pela japonesa Chuyuki Mochizuki (7h38min23) e por sua compatriota Joasia Zakrzewski (7h42min02). As  britânicas, por sinal, paparam três dos quatro primeiros lugares.
Dito isso, queria pedir um minuto a mais de sua atenção para a gente pensar junto: você tem ideia do esforço que significa correr seis horas e meia a um ritmo de 3,9min/km???.
Eu não sei você, mas o melhor quilômetro de minha vida foi algo em torno de 3min45 (nem me lembro direito) num tiro só, depois de vários treinos específicos, e eu terminei quase morto. Minha melhor média por quilômetro, em uma corrida, foi de 4min30 em uma prova de 8 km há uns 15 anos. Claro que eu não sou nenhum parâmetro de resistência nem de velocidade, mas esses dados servem para dar uma ideia da distância que separa o corredor comum dessas máquinas de correr que são os ultramaratonistas de elite.
Outra questão legal de discutir na mesa de bar ou em roda de corredores é o fato de que, diferentemente do que ocorre nas maratonas, nas ultras não há domínio absoluto de um país ou grupo de países. Mais especificamente, não são quenianos e etíopes os eternos donos do pódio.
Cá para mim, acho que isso não tem menos a ver com biotipo, genética ou coisa que o valha e sim como o fato de que a ultramaratona não oferece prêmios e patrocínios como as maratonas.

Outra coisa: um leitor comentou que “parece exagerado” o fato de a delegação brasileira teve mais gente no apoio (treinadores, coordenador, nutricionista etc.) do que corredores propriamente ditos. Nos atuais tempos de busca de completa transparência dos órgãos públicos, seria muito bom que a CBAt explicasse suas razões para a montagem da delegação.

CORREÇÃO E ESCLARECIMENTO

No texto original, informei que o time brasileiro havia ficado em 14º lugar. O dado, divulgado pela CBAt neste texto AQUI, que usei como base para a publicação acima, está errado.

Acabei de consultar a página oficial da Associação Internacional de Ultramaratonistas, com os resultados completos (você pode conferir AQUI).

Na verdade, de acordo com a página da IAU, a seleção brasileira completou no 13º posto, e não no 14º. O tempo informado está correto.

As colocações individuais citadas acima se referem à classificação geral (homens e mulheres). Entre os homens, os quatro atletas brasileiros ficaram, respectivamente, nos lugares 43º, 53º, 69º e 80º.

Lance Armstrong não completa corrida cervejística de menos de 2 km

Por Rodolfo Lucena
21/11/14 11:27

O ex-multirrecordista da Volta da França tranformado em triatleta e maratonista Lance Armstrong volta à cena midiática com mais um fracasso –ou algo assemelhado.

Mesmo depois de perder todos os seus títulos do Tour de France por causa de doping e de estar às voltas com processos movidos por ex-patrocinadores, Lance não perde a pose e não deixar de atrair fãs para suas aventuras.
No início de dezembro, será realizado nos Estados Unidos a Beer Mile World Championship, que consiste em uma prova de quatro voltas na pista de 400 metros, cada volta combinada com uma cerveja.
Ou seja, faz a volta, bebe uma cerveja, encara a pista de mais 400 metros, bebe outra e assim por diante.
Talvez pensando nisso e considerando que nesse tipo de evnto não há teste antidoping, Lance resolveu fazer um treininho às ganhas, digamos assim, participando de uma prova do gênero para ver se tinha chance de encarar o Mundial.
Nana-nina. Deu uma voltinha na pista, tomou a gelada e ficou por ali mesmo, descansando ao lado da pista de atletismo em Austin, Texas. “Dei DNF”, disse ele, usando a sigle que, em inglês, significa “não completou”.
Vários sites norte-americanos fizeram comentários jocosos sobre a falta de preparo do superespecialista em resistência física, mas não sei, não, talvez tenha sido ele a brincar com todos.
Afinal, depois do dito “fracasso”, correu mundo a foto em que aparece sentado, descansando, com uma cerveja na mão, com a marca da “loira” devidamente em destaque.
Donde se conclui que…
Nada não, longa vida a Lance Armstrong.

Mundial de ultramaratona tem presença recorde; Brasil tá na área

Por Rodolfo Lucena
18/11/14 11:10

18 ultras

Com a participação recorde de cerca de 200 atletas de 39 países, será realizado nesta sexta-feira (21) o Mundial de Ultramaratona, prova de 100 km reconhecida pela IAAF (a Fifa do Atletismo). A prova vai acontecer em um circuito de 5 km em Doha, no Catar, e terá presença brasileira.

Na segunda-feira última, o Quarteto fantástico nacional embarcou para a jornada: partiram Marcio Oliveira, Eduardo Calisto, Marcos Espírito Santo e Sinval Aguiar (da esquerda para a direita na foto do alto/Divulgação/CBAt).

Como treinadores, foram Herói Fung e Mariano Silvério de Moraes e Herói Fung, com coordenação de Oscar Francisco Prisco Silva e Cláudio Levi. Leonardo Lucas de Freitas e Marcos Antonio Gonçalves Junior cuidarão da infra (água, alimentação, suplementação, apoio psicológico).

Dos quatro brasileiro, Márcio Batista de Oliveira é o dono do melhor tempo, com marca de 6h47min28. Isso está longe da melhor performance mundial deste ano (o britânico Steven Way, com 6h19min20, mas não deixa de ser competitivo porque a segunda melhor marca do ano é de 6h44min04 (Zach Bitter) e a terceira é de 6h47min43 (Alberico Di Cecco).

Se retrospecto valesse, portanto, o Brasil sairia com uma medalha no individual. Mas a vida não é assim: cada dia é um dia, cada prova é uma prova.

A largada para os 100 km do Mundial será às 18h de Doha (13h de Brasília), para tentar proporcionar temperaturas menos desgastantes –com dia de sol, a temperatura de sexta-feira deve chegar aos 30 graus C.

O calor, de qualquer forma, é parte do desafio em ultramaratonas, que costuma oferecer condições terríveis para a prática do esporte. Mas os brasileiros são experientes nesse tipo de empreitada. Eduardo Silvério Calisto, por exemplo, participou no ano passado da Ultramaratona do Deserto do Vale da Morte –o nome já indica o tamanho do problema. Calisto chegou na 36ª posição entre cem competidores, mas a prova tinha 217 km.

Tomara que tudo saia bem para os atletas brasileiros. Deixo a eles meu abraço e o grito de guerra: Vamo que vamo!

Correr é pura poesia: há que ter fúria, engenho e arte (e um tantão de amor)

Por Rodolfo Lucena
17/11/14 10:33

E agora?, me pergunto eu, no meio de uma corrida: que é que eu estou fazendo aqui? É a hora em que as dores batem, os músculos repuxam, a idade pesa, a sede castiga, o suor resfria, a respiração se entrecorta, o coração solavanca, e a mente, apesar de tudo, comanda: vamo que vamo!!!!

A corrida tem dessas coisas, exige da gente engenho e arte, fazer das tripas coração, como se diz nas ruas, e buscar dentro de si alguma coisa de bom que ainda reste depois do cansaço, do desânimo e do fracasso. É quando, sem mais nem porquê, a gente se vê sorrindo, rindo, dando até um salto no ar e dizendo: pernas, para que te quero (a gramática não é escorreita, mas as pernas entendem o chamado geral).

A corrida, lembro-me agora quando consigo, aos poucos, voltar a treinar alguns quilômetro sem parar, é um ato de entrega, uma declaração de amor à vida. Vamos às ruas sem lenço nem documento, sem gravata, carteira recheada, títulos honoríficos ou galardões empresariais: cada um é simplesmente o que resta de si quando ninguém está olhando.

Por isso, há tanta alegria e descoberta. Muitos de nós nos vemos seres melhores, mais capazes de entender as pequenas (e as grandes também, por suposto) falhas do dia a dia, ver que nem sempre tudo da certo –mas que, quando da certo, há que aproveitar até a última gota.

Apesar disso, correr não faz, por si, gente mais bacana. Há entre os corredores políticos corruptos, patrões gananciosos e empedernidos, chefes brutais, homens violentos, mulheres trapaceiras e um sem número de pequenos escroques e criminosos de todo o tipo, como motoristas que invadem o acostamento e maratonistas que cortam caminho.

Também há os generosos, os apaixonados, os solidários, trabalhadores anônimos que construímos um mundo em que vale a pena viver, apesar de todos os percalços. Há o povo que avisa quando alguém está com o cadarço desamarrado, há a mulher que dá o braço para quem tropeçou, o homem que massageia o coração de alguém que passa mal.

Somos, então, de tudo um pouco. Em cada treino, nos descobrimos perdedores e vencedores, em cada prova nos saímos campeões; e, se a pegada for mais dura, difícil, complicada, dolorosa, encontramos no fundo do peito um resto de fúria que nos reergue no asfalto, na trilha, na areia.

É quando, sem olhar para trás, a gente diz mais uma vez: vamo que vamo!

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