Rodolfo Lucena

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Perfil Rodolfo Lucena é ultramaratonista e colunista do caderno "Equilíbrio" da Folha

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É possível fazer eletrocardiograma de maratonistas em tempo real durante a prova, mostra estudo alemão 

Por Rodolfo Lucena
29/10/14 11:00

Pesquisadores alemães demonstraram que é possível realizar monitoramento das funções cardíacas de maratonistas em tempo real, com envio de dados de eletrocardiograma para um centro médico especializado.

O trabalho realizado foi o que os cientistas chamam de “prova de conceito” –ou seja, mostrar que dá para fazer e que os resultados podem ser importantes. Há um longo caminho a ser feito para que a tecnologia possa vir a ser implantada em provas no dia a dia.

O monitoramento em tempo real das funções cardíacas de maratonistas foi obtido pelo uso de um miniparelho de eletrocardiograma, que funcionou ao longo de todo o tempo da prova. Ele mandava sinais para um smart phone que o corredor carregava; os dados foram transmitidos ao centro de controle pela rede pública de celular

Segundo os pesquisadores, esse monitoramento em tempo real poderá permitir o diagnóstico instantâneo de desordens de ritmo cardíaco potencialmente fatais.

Esta é a primeira vez que estudo desse tipo é realizado, e os resultados vão ser apresentados nesta sexta-feira no primeiro Congresso Europeu em e-Cardiologia e e-Saúde pelos pesquisadores do Centro de Telemedicina Cardiovascular de Berlim.

Depois de testes com um total de dez corredores em duas maratonas, os cientistas consideram que a técnica é “promissora” e pode ser útil para prevenção de acidentes que, de outra forma, poderiam ser fatais. “No caso de arritmias que coloquem em risco a vida do atleta, os serviços médicos de emergência atuando na prova poderiam ser alertados com antecedência, facilitando o diagnóstico e o atendimento”.

Durante os testes, os dez participantes envolvidos, com idade média de 41,7 anos, passaram bem e concluíram a prova sem problemas, no tempo médio de 3h37. Já a qualidade do sinal do eletrocardiograma (ECG) não foi tão regular.

Na primeira experiência, em uma maratona com mais de 7.000 corredores e 150 mil participantes, a coisa desandou quase completamente. Praticamente não houve sinal aproveitável tanto por problemas na comunicação Bluetooth entre o mini-ECG e o celular quanto por falhas na rede pública celular.

Os pesquisadores deram um tempo para desenvolver melhorias no sistema e voltaram à carga seis meses depois, numa prova com mais de 15 mil corredores e 300 mil espectadores –ou seja, em tese, piores condições para garantia de precisão.

Mesmo assim, afirmam os cientistas, graças às mudanças no software a qualidade do sinal foi “excelente” .

Esse segundo resultado demonstrou que é possível manter boa qualidade de dados e transferência rápida entre os dispositivos carregados pelo corredor e o centro de monitoração.

Também mostrou que, mesmo com uma multidão usando a rede pública celular, a transmissão se manteve com qualidade.

Apesar desse investimento em prevenção de acidentes cardíacos, os pesquisadores afirmam que casos de morte súbita são raros entre maratonistas e outros atletas que participam de provas de resistência –em 2012, por exemplo, houve uma morte na maratona de Londres, o segundo caso no evento em três anos.

Apesar de relativamente pouco frequentes — um estudo de 2012 mostra incidência de 0,54 caso a cada 100 mil corredores—, os casos de morte em maratona ganham ampla divulgação. Vários países estão exigindo que participantes em provas de longa distância passem por exames prévios –a Itália tem uma política assim, notam os pesquisadores.

O monitoramente em tempo, real, porém, seria uma forma mais eficiente de prevenção. Mas ainda há muito a fazer, alertam os pesquisadores. É preciso um sistema capaz de acompanhar simultaneamente milhares de atletas e de identificar qual é o corredor em risco, no caso de receber sinais anormais.

Também será necessário criar um sistema de comunicação entre o centro de telemonitoramento e o pessoal do pronto-atendimento na prova.

Enfim, há muito há fazer. O estudo demonstrou que é possível o monitoramento em tempo real; agora, há que ver quais as melhores aplicações do método.

 

PS.: Obrigado ao doutor Julio Abramczyk, que chamou minha atenção para essa pesquisa

Fãs de Lance Armstrong perdoam trapaças feitas pelo ídolo

Por Rodolfo Lucena
27/10/14 08:00

Saiu hoje no caderno Esporte, da Folha, resenha que escrevi sobre o livro “CIRCUITO DE MENTIRAS”, escrito pela jornalista norte-americana JULIET MACUR. Na obra, ela expõe a fraude da construção do mito Lance Armstrong, deixando claro que empresas e dirigentes também estiveram envolvidos, coniventes ou lavando as mãos em relação ao doping. O texto publicado no jornal (AQUI) é uma versão mais curta do que a inicial. Por limitações de espaço, não inclui, por exemplo, a pesquisa que fiz na internet e mostra a reação dos fãs à fraude. Bueno, sem mais delongas, leia a seguir o texto original.

“Lance Armstrong foi o maior ciclista de todos os tempos. Não só venceu sete edições seguidas do Tour da França, mais importante e exaustiva prova do circuito internacional, como sobreviveu ao câncer que atingiu seus testículos. Sedutor e conquistador, divertiu-se com loiras estonteantes –uma delas é sua parceira atual, mãe de dois de seus cinco filhos. Também tem senso de humor: em homenagem ao órgão extirpado na cirurgia anticâncer, batizou de Juan Pelota (João Bola) o bar que mantém em sua sofisticada loja de bicicletas em Austin, Texas.

E é um mentiroso de marca maior.

Foi movido a substâncias proibidas que conquistou cada um de seus títulos na França –todos foram cassados quando o doping foi descoberto e Armstrong, que negou a fraude até o último momento, passou por longo e doloroso processo de perdas financeiras.

Mas as mentiras, as meias verdades, o engodo e a fraude no ciclismo internacional não são privilégio desse texano de 43 anos, que chegou aos píncaros da glória de 1999 a 2006. Empresários, agentes, entidades fiscalizadoras, imprensa –todos mentem em algum momento, sempre em nome do esporte, ou melhor, dos lucros que o esporte pode dar.

É o que demonstra de forma exemplar “Circuito de Mentiras”, livro em que a jornalista Juliet Macur, do “The New York Times”, mostra o circo armado ao longo de anos para proteger o doping do super-herói americano. Deixa evidente como era frágil o segredo de Armstrong, quantos e quantos estavam envolvidos no que a agência norte-americana antidopagem chamou de “o programa de doping mais sofisticado, profissional e bem-sucedido que o esporte já viu”.

Não há, no livro e na vida, bons moços. Alguns tentam fugir ao doping, posando de vestais, mas sucumbem sob alegações esfarrapadas tipo “todo mundo faz” ou, ainda pior, “fui obrigado”.

Há os que participam de bom grado, com disposição, e depois, quando veem a casa pegando fogo, tratam de jogar gasolina na fogueira, fazendo acordos para denunciar ex-companheiros –não por acaso, Macur cita livros de ex-parceiros de Armstrong que encontraram na publicação uma forma de lucrar com a fraude em que haviam participado.

As fontes mais importantes da jornalista, porém, são gravações inéditas que ouviu e entrevistas que fez com dezenas de envolvidos na vida, na carreira e nas fraudes de Lance Armstrong. O próprio ex-ciclista, depois de anos de relação beligerante com a repórter, aceitou falar com ela sobre a débâcle. Mais que isso: convidou Macur para acompanhar seus últimos momentos da mansão de US$ 10 milhões que mantinha em Austin e da foi obrigado a abrir mão para fazer frente à montanha de processos em que ainda hoje está envolvido.

Com tudo isso, a repórter nem de longe faz um retrato isento dos envolvidos. Mostra os fatos, alinhava depoimentos e também deixa claro suas opiniões, posando às vezes como o que pode ser visto como baluarte da moral e da ética. Não lhe falta coragem, porém, para escancarar comportamentos  que considere inadequados, mesmo se de poderosíssimas corporações, como a Nike.

Patrocinadora de Armstrong ao longo de anos, a empresa “abandonou o navio” quando a fraude foi exposta e emitiu nota dizendo ter sido enganada por ele “por mais de uma década”. A jornalista desmonta o marketing: “É claro que a Nike tinha conhecimento dos rumores de doping de Armstrong, assim como todo o mundo”.

E ironiza a posição assumida pela corporação: “Era como se uma das empresas esportivas mais sofisticadas do mundo não soubesse nada sobre o doping no ciclismo, apesar de vários vencedores do Tour terem admitido usar drogas”.

Para os fãs de Armstrong, porém, nada disso importa. Até o último dia 22, nada menos que 2.431.981 pessoas haviam curtido a página do ex-ciclista em uma rede social. Há comentários críticos, mas a reação dos seguidores da lenda norte-americana é exemplar: “Vá viver a sua vida e deixe que ele viva a dele”, responde uma curtidora, que completa: “Todo mundo erra. Vamos em frente”.”

 

Vitória brasileira nas montanhas do Chile

Por Rodolfo Lucena
24/10/14 10:39

Conheci MANUELA VILASECA pela internet. Por e-mail, fiz uma entrevista com ela para reportagem que seria publicada na Folha. Já se passaram alguns anos. Dias atrás, ela me escreveu, perguntando se podia contar neste blog a história de sua mais recente aventura.

Aos 35 anos, essa empresária do Rio de Janeiro é ultramaratonista dedicada, experiente e vitoriosa. Sua ultima conquista foi nas escarpadas montanhas chilenas, que ele conta a seguir. Fiquemos então com o texto que ela mandou com exclusividade para a sua leitura (fotos Matias Donoso, enviadas pela própria Manuela, a quem agradeço pela colaboração).

24 manu de frente“Às quatro horas da manhã da sexta feira meu despertador tocou. Eu estava no meio de um sono profundo e ao escutar o alarme estiquei o braço para desligá-lo. Eu estava um pouco perdida e me perguntava, “Estou acordando para o que mesmo? Vou treinar, vou trabalhar?” Aí me veio a lembrança na cabeça: Eu estou acordando para correr 160km! Seria a primeira prova de cem milhas do The North Face Endurance Challenge, no Chile.

Na largada estávamos todos os 37 corredores –apenas seis mulheres– aglomerados embaixo do pórtico, com a certeza de que o que iríamos encarar pela frente não seria nada fácil. Apesar do número pequeno de mulheres, eu sabia que seria uma disputa e tanto. Eu vinha de fora e aquele terreno era desconhecido para mim; por outro lado, tinha a vantagem de me conhecer bastante. Assim larguei rumo à minha jornada.

Sempre que eu começo uma prova tão longa como essa, evito pensar que estou numa competição. Faço isso porque gosto de concentrar minhas energias em mim mesma, seguir meu ritmo e minha estratégia de alimentação e hidratação.

Já no começo da prova encaramos uma subida bastante dura. Eu larguei na fila de trás, mas logo busquei meu ritmo de prova e comecei a subir. As atletas Marlen Flores e Veronica Bravo, ambas chilenas, vinham na minha cola. Assim seguimos até o primeiro ponto de abastecimento. Saímos juntas e seguimos juntas.

Foi aí que eu comecei a perceber que eu ditava o ritmo. Se eu decidisse correr, elas corriam. Se eu decidisse caminhar, elas caminhavam. Isso era um pouco estranho para mim porque nunca havia acontecido antes. Seguimos assim durante muito tempo na prova. A posição na qual chegávamos ao PC se alternava um pouco, mas a distância entre nós era sempre muito pequena.

Quando cheguei ao PC4 da prova eu estava sozinha em primeiro. Minha equipe de apoio me recebeu com muita alegria e prontamente começou a acelerar minha transição. Nesse PC também estava o Nick Moore, diretor de percurso, que me olhou e me alertou para a minha grave perda de sal. Foi aí que reparei que a minha roupa e a minha mochila estavam todas brancas. Fazia muito calor e a quantidade de sal que eu havia perdido era enorme. Ele me disse que comesse algo salgado, então enchi a mão de biscoitinhos de sal e saí.

Comecei a encarar a subida seguinte e percebi que estava numa enrascada. As cãibras se espalhavam pelo meu corpo inteiro. Eu subia devagar e me sentia fraca, totalmente diferente de como estava me sentindo antes. Cada movimento eu fazia com muito cuidado para que não ativasse uma cãibra insuportável e me levasse ao chão. Mais uma vez a Marlen e a Verônica me alcançaram e seguimos juntas.

Eu não deixava meu ânimo baixar e seguia com elas. Quando chegamos ao topo perguntei à Marlen se ela tinha sal. Ela procurou em sua mochila e me disse que não. Em seguida a Vero chegou e fizemos a mesma pergunta. Ela tirou um ziplog com as cápsulas e me deu uma. Foi a minha salvação.

Seguimos subindo, dessa vez eu por último. Eu comia e me hidratava e aos poucos sentia que eu voltava a ganhar forças. Passei a Vero, mas a Marlen começava a abrir mais adiante. Depois disso veio uma longa descida, que nos levou rumo ao PC camp, que era aproximadamente a metade da prova. Cheguei ali com dois minutos de diferença para a Marlen, mas fiz uma transição mais rápida e saí em primeiro. Antes de sair o Nick me olhou nos olhos e me disse:

- Você está de volta.

Embora eu sentisse que estava realmente recuperada, essas palavras foram de extrema importância naquele momento.

24 manu subindo

Saí e a Marlen veio logo em seguida. A Vero nós não vimos mais e seguíamos somente as duas. Encaramos uma subida bastante longa para um ponto onde acredito ter sido o mais bonito de todo o percurso. Já estava no fim do dia e a luz rosa iluminava uma enorme cadeia de montanhas em nossa frente. Para arrematar, uma cachoeira gigante terminava de compor a linda paisagem. Chegamos a mais um PC e iniciamos nossa descida até o ponto seguinte.

Uma outra montanha importante, e provavelmente mais dura do percurso, foi a seguinte. Ela era bastante inclinada e longa. A descida igualmente dura. Eu vinha um pouco mais adiante pois a Marlen tinha dificuldades nas descidas. Era bastante íngreme e técnica, o que torna tudo mais perigoso. Perdi a conta da quantidade de vezes que caí, e inclusive uma das quedas foi bastante dolorida, me deixando alguns minutos estirada no chão sem conseguir me levantar. Quando cheguei no PC seguinte brinquei com meus apoios de que tínhamos acabado de encarar “el cerro de la muerte.”

Nesse momento a Marlen ainda não havia descido e eu segui com o Max Keith, atleta do Chile. Fomos conversando e esse trecho passou bastante rápido até que chegássemos ao PC seguinte, base de mais uma subida, onde mais uma vez a Marlen me alcançou e seguimos juntas. Na minha cabeça eu me perguntava, “Como será que essa prova vai acabar? Será um sprint final na linha de chegada? Que loucura…”

Quando passamos mais essa montanha começamos a descida. Nas descidas eu ia mais rápido. Apesar de também ter dificuldades, com tanto cascalho e terreno escorregadio, eu caía e me levantava logo em seguida. Em alguns momentos era até impossível frear e eu descida embalada, escorregando. Com isso abri mais uma vez da Marlen, só que nem percebi porque o Max vinha atrás de mim e inicialmente eu pensava que era ela. Quando notei estávamos só os dois e seguimos juntos.

24 manu descendo

Nos PCs seguintes não perdi tempo. Eu já tinha vontade de chegar logo e já visualizava a linha de chegada. Estava super focada e me sentia bem. Fora isso estávamos percorrendo um trecho que já havíamos feito antes, então era muito mais fácil mentalmente. Eu sabia o quanto faltava percorrer. Os quilômetros se passavam e eu seguia na frente sozinha. O sonho de vencer a prova começava a se tornar real.

Quando saí da última trilha e cheguei à estrada que levava à linha de chegada, eu começava a ter a real noção do que estava acontecendo. Completar uma prova de cem milhas nunca é fácil. Seja lá qual for o tempo, qual for a colocação, sempre é um grande feito do qual devemos nos orgulhar. Eu sabia que podia ganhar, mas sabia o quanto seria difícil. Naquele momento eu percebia o quanto havia superado para conseguir vencer. Lembrava da queda de rendimento que tive no PC 4 e o quanto eu me mantive concentrada para que aquilo não me tirasse a vontade de seguir adiante. Poderia ter me tirado da prova, mas ao final deu tudo certo.

Quando fiz a última curva e visualizei aquele pórtico lotado de gente, uma emoção muito grande me veio ao coração. Meus grandes amigos me esperavam antes da linha de chegada, após haverem me apoiado ao longo de todos os quilômetros, gritando meu nome e me abraçando. Me senti extremamente querida, pois mesmo não estando no meu país, e correndo contra corredoras locais, tive um enorme apoio do público. Cheguei festejando muito. É uma felicidade enorme terminar minha temporada de 2014 com uma vitória tão importante.”

 

 

Nas corridas de longa distância, calor mata mais que coração, diz estudo de Israel

Por Rodolfo Lucena
20/10/14 11:17

Tenho visto muita gente se congratular como “guerreira” por ter enfrentado os mais de 30 graus registrados neste último domingo durante a maratona de São Paulo. Não tiro o mérito de ninguém, que todos o têm, mas diria que, mais do que guerreiros, são sobreviventes.

Falo isso baseado em investigação divulgada recentemente feita por pesquisadores de Israel. Reconhecendo a cada vez maior popularidade corridas de longa distância, de 10 km até a maratona, resolveram analisar os riscos a que são submetidos o corpo pelo esforço prolongado.

O resultado pode ser surpreendente: não são problemas cardíacos a principal causa de mortes ou hospitalizações para tratamento de condição agora em corredores. O vilão, querido leitor, estimada leitora, é o CALOR.

Os atletas de resistência, que correm provas de 10 km e mais longas, têm DEZ VEZES mais probabilidade (em relação a um grupo de controle), a sofrerem distúrbios provocados pelo calor.

O texto que li, em espanhol, fala de “ataques de calor severos”. O doutor Julio Abramczyk, grande amigo que me encaminhou o texto, explica o que é o problema: “Durante a maratona, em dias bem quentes pode surgir uma alteração na função cerebral de controle da temperatura corporal, elevando-a anormalmente. Em resumo: surge um distúrbio da temperatura corporal, cuja elevação anormal (febre bem alta) pode levar a um distúrbio cerebral, provocando a parada cardíaca que pode levar à morte”.

O estudo dos pesquisadores da Universidade de Tel Aviv alerta ainda que a complicação pode provocar a falência dos rins e de outros órgãos.

Para chegar a essas conclusões, os médicos analisaram dados sobre as mortes e internações hospitalares ocorridas em 14 corridas de longa distância (provas de 10 km) realizadas na capital de Israel de março de 2007 a novembro de 2013.

Dos quase 140 mil corredores envolvidos no evento, apenas dois tiveram de ser internados ou atendidos por causa de problemas cardíacos, o que surpreendeu os pesquisadores. Nenhum dos casos relacionados com o coração era potencialmente mortal.

Ao mesmo tempo, os pesquisadores encontraram 21 casos de pessoas  que sofreram o tal “golpe de calor”. Duas pessoas morreram e 12 tiveram de ser internadas em estado grave.

Os pesquisadores israelenses disseram acreditar que muitos casos provocados pelo calor possam ser confundidos com  problema cardíaco por terem sintomas muito similares, e a correta identificação da causa do problema precisa ser feita com medição da temperatura central.

Por isso, propõem que esse procedimento passe a ser incorporado à rotina dos paramédicos no atendimento de urgência. O tratamento imediato e adequado poderia, dizem, minorar ou cortar as consequências do golpe de calor.

Falta de água estraga corrida de Ouro Preto a Mariana

Por Rodolfo Lucena
17/10/14 10:40

17 ouro vista linda

São impressionantes e belas as montanhas onde se assenta Ouro Preto, cortada a cidade por veias que despencam ladeira abaixo e desempenam morro acima, virando palco para igrejas centenárias, históricas construções e o obelisco construído no local exato onde, há 242 anos, foi cravada num poste a cabeça decepada de Tiradentes.

São delicados os caminhos de Mariana, primeira capital de Minas, que abriga simpática praça central onde aos domingos a bandinha da cidade se apresenta na retreta. Separada que é da antiga Vila Rica, produtora de toneladas de ouro saqueado das terras brasileiras, une-se à metrópole regional por um belo caminho de ferro, hoje transformado em atração turística, e por estradas de asfalto.

Foi por uma delas, a que faz o caminho mais curto entre as duas cidades, que passou o trajeto da Corrida dos 12, cujo nome é múltipla homenagem: ao Dia da Criança, ao aniversário da Escola de Minas, pioneira na formação de geólogos no país, e à própria distância que os corredores iriam percorrer. Para completar o circuito, a prova é também parte das comemorações do ano do centenário da morte do Aleijadinho, escultor de anjos e santos e um dos tantos ilustres filhos da cidade.

17 ouro dados

Por tudo isso, é lamentável, triste e decepcionante que os organizadores do evento tenham fracassado em um serviço essencial à saúde e ao bom desempenho dos participantes: o fornecimento de água. Não digo “fornecimento adequado” de água, pois isso o regulamento já deixava prever que não aconteceria. Pois nem o prometido em letra de forma, escrito e assinado, os organizadores cumpriram. Faltou água no segundo dos dois insuficientes postos de abastecimento, acabando com a diversão dos corredores mais lentos e transformando um dia de prazer e alegria numa marcha de desânimo e raiva.

A jornada já começou errada. Quando o relógio da Escola de Minas bateu oito horas, nada estava pronto para a largada dos caminhantes, que percorreriam o mesmo trajeto a ser seguido, uma hora depois, pelos corredores. Mesmo se tivessem largado no exato horário, já seria tarde, dadas as condições climáticas, ainda que os organizadores não considerem céu claro, sol aberto e termômetros acima dos 25 graus como situação adversa para a prática esportiva.

Sobre isso, aliás, antes mesmo de me inscrever para a prova, consultei os organizadores, pois o horário me parecia tardio para esta época do ano. A resposta que tive foi a seguinte: “A nossa região é de um clima bem ameno…e a prova é de um  percurso relativamente fácil, dos 12.400 m só teremos 800 m de subida e dividido!! Pela nossa experiência na região, não teremos problema com a temperatura!”.

17 ouro caminhantes

Ledo e ivo engano. Os caminhantes afinal largaram, com 15 minutos de atraso, sem cerimônia, numa partida meio desacorçoada (acima). Nós outros, os corredores, ficamos espalhados pelas calçadas em volta da praça, buscando esconderijo nas sombras dos prédios coloniais. Quem precisasse aliviar a bexiga ou descarregar as emoções teria de procurar guarida em algum bar; não havia banheiros químicos disponíveis, pelo menos que eu conseguisse avistar.

Passado o tempo certo, fomos chamados para o pórtico. Cantamos o Hino Nacional, o que já garante emoção, e partimos na hora exata prometida, o que não significa adequada: eram 9h e a canícula já se fazia sentir com vigor ainda maior.

Os primeiros 200 metros, aproximadamente, são em subida, cuja dificuldade é aumentada pelo piso irregular, de perigosas e escorregadias pedras. Temeroso de queda, fui meio que saltitante nesse trajeto inicial e senti o coração velho responder ao esforço, logo aliviado pela vista do asfalto e início de uma das mais longas descidas que já percorri em uma corrida (na foto abaixo, gentileza de meu amigo das redes sociais que se apresenta como nilsonmp, ainda estamos “aquecendo”).

17 ouro rodolfo

17 ouro viagem de trem 2Diz o ditado que “para baixo todo santo ajuda”, mas conheço um bom número de fisioterapeutas e ortopedistas que divergem. A descida pode até ser mais fácil, mas castiga mais músculos e tendões, chacoalha os ossos e lança as mais diversas armadilhas para o corpo. Por isso fui descendo na boa, controlando o corpo e tentando aproveitar a vista, que de vez em quando se abria em precipícios e vales ou se erguia em montanhas (Foto Divulgação/Trem da Vale).

Mesmo com tanta economia, o corpo sentiu o esforço e eu abri o bico: no km 3 já estava ansioso pela chegada do primeiro posto de água, prometido para o longínquo km 4,8. Era o que estabelecia o regulamento da prova: “Seguindo as normas oficiais, haverá no percurso dois posto de água hidratação, o primeiro no km 4,5 e outro próximo ao km 09”.

O texto não esclarece a que normas se refere. A CBAt estabelece que os organizadores de corridas de rua devem “providenciar postos de água colocados a cada 4 ou 5km, nas provas com mais de 10km, ou a intervalos menores, de acordo com as condições climáticas”.

Não há, portanto, definição pétrea de intervalo, mas sim um chamado ao bom senso. Em uma recente e bem organizada corrida noturna em que participei, no Rio, havia postos a cada dois quilômetros no percurso de 7,5 km. Pela minha experiência sofrida, o trajeto mineiro comportaria pelos menos quatro postos bem fornidos de água gelada.

Na primeira estação, pelo menos, o líquido estava em ótima temperatura, e foi um bálsamo para mim. Pude até acelerar um pouco e apreciar a paisagem, notando até a entrada de uma das boas atrações turísticas da região, a Minas de Passagem, que oferece um passeio para as entranhas da terra (saiba mais AQUI).

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O visitante percorre túneis onde até meados do século passado se escavava em busca de ouro. É curioso, instrutivo e, para alguns, terreno de diversão aventureira: a maior parte da mina está alagada pelo lençol freático, e o soturno lago serve para passeios em que podem participar apenas mergulhadores experimentados.

Cá pela superfície, nem minha experiência em longas carreiras ajudava a enfrentar o calor. Com a boca seca, e a saliva já transformada em grumos branquicentos sobre os lábios, reclamava para mim mesmo da equivocada distribuição dos postos de hidratação, enquanto via, esperançoso, se aproximar o bendito km 9.

17 ouro agua 2 boa verticalMaldito, sim, é o que ele foi. Pouco depois da placa que informava a distância, vi dois tanques azuis de plástico, e estranhei não haver ninguém em volta deles, oferecendo os benfazejos copinhos.

Chegando mais perto, percebi que as duas garotas que provavelmente haviam feito esse trabalho se afastavam do local, buscando a proteção de uma sombra próxima. Foi quando vi que um dos recipientes havia virado lixão em que foram jogados restos de caixas –provavelmente, as que traziam os copinhos. O outro estava vazio, com uma poça de água suja, talvez sinais de gelo derretido.

Reclamei para as moças, que responderam qualquer coisa, a legando que a organização tinha sido avisada, mas não providenciara reposição.

Cheio de raiva, tive vontade de parar, esperar o ônibus-prego (no caso, van-prego), mas a irritação e a revolta me fizeram prosseguir. Na saída da passarela para pedestres em que circulávamos então (acho que parte de um parque), havia policiais, para quem também reclamei e pedi que avisassem aos organizadores. Nada.

Enfim entrei na área urbana de Mariana e, algumas dezenas de metros depois do km 10, encontrei um salvador posto de gasolina, com uma mais salvadora ainda loja de conveniência, que tinha geladeiras repletas de líquidos muito mais salvadores e gelados. Outros corredores já haviam chegado antes de mim, como um trio de moças que também expressou sua revolta contra a lamentável falha da organização.

17 ouro meninas

Trocamos algumas palavras lamentando o ocorrido e lembrando que a falha ocorreu apesar do apoio à prova dado pelas prefeituras de Ouro preto e Mariana e dos preços da inscrição (de  R$ 60 a R$ 100, dependendo da época; só na última e mais cara maiores de 60 anos poderiam comprar com o desconto garantido por lei, o que me parece uma maneira ardilosa de fazer os mais velhos pagarem quase o mesmo valor do preço cheio inicial).

Àquelas alturas, só me restava tentar chegar. Combinando trotes curtos e caminhadas mais prolongadas, fui carregando meu corpo cansado pelo piso agora totalmente irregular, de seixos rolados. Para piorar as coisas, depois do km 12 (sim, a prova seguia ainda um pouco além), havia uma descida do cão, íngreme e traiçoeira, que consegui driblar sem ir ao chão.

Passei pela monumental igreja principal da cidade e afinal vi o pórtico de chegada. Só então ensaiei um arremedo de corrida para cruzar a linha com os braços erguidos e receber enfim o beijo de minha amada, que tinha caminhado todo o percurso e chegara havia pouquinho.

Descansamos na sombra da praça principal, invadida por brincadeiras de crianças e pelos sons de uma animada bandinha…

17 ouro banda

Depois seguimos para a estação de ferro, onde tomaríamos o trem de volta a Ouro Preto. No caminho, passamos por uma cavalhada, homenagem à Nossa Senhora de Aparecida; o bloco de cavalos e gente era até bonito de ver, mas foi seguido por uma estridente carreata em que um carro de som gritava músicas religiosas num volume que espantaria o crente mais piegas…

17 ouro cavalos

Entre mortos e feridos, salvamo-nos todos (nem todos: depois fiquei sabendo que, a milhares de quilômetros dali, em uma corrida no Mato Grosso do Sul, um atleta morreu pouco antes de chegar ao fim da prova –saiba mais aqui mesmo neste blog, rolando a página depois de terminar este texto).

Agora é catar os cavacos que sobraram e preparar o corpo para outra. Para provas organizadas pelo pessoal que fez essa corrida em Ouro Preto, porém, não volto mais.

Corredor encontra em Chicago a “maratona perfeita”

Por Rodolfo Lucena
15/10/14 06:15

O publicitário RICARDO CHESTER é um apaixonado pelas palavras; afinal de contas, é delas e com elas que constrói seu sustento. Na década passada, porém, descobriu na corrida uma nova paixão. Realizou em 2008 sua primeira corrida de rua e, aos poucos, chegou à maratona. Hoje, aos 47 anos, já tem dez delas para contar histórias. A mais recente foi em Chicago, sua preferida, que descreve, no texto abaixo, como “a maratona perfeita”.

Agradeço ao CHESTER pela colaboração e, sem mais delongas, abro espaço para o que ele tem a dizer.

15 chester“Para o atleta que corre por hobby, a maratona ideal precisa ter alguns componentes.

“Uma expo grande e organizada, um trajeto na sua maior parte plano, que comece e acabe no mesmo ponto, uma logística de percurso eficiente, um clima frio, muita torcida na rua e, se possível, uma cidade bonita.

“A Maratona de Chicago oferece exatamente tudo isso. E, certamente por isso, é um dos eventos mais procurados pelos corredores amadores de todo o mundo.

“No último domingo foi realizada a 37ª edição da prova, uma das seis grandes do circuito mundial, ao lado de Londres, Boston, Berlim, NYC e da recém-chegada Tóquio.

“Estive pelo sexto ano seguido em Chicago. Procuro essa prova porque ela é a maratona perfeita. E neste ano não foi diferente. Os números divulgados pela organização ajudam a dar a sua dimensão. São mais de 45 mil inscritos, cerca de 1,7 milhão de espectadores, 12 mil voluntários e US$ 254 milhões injetados na economia local só por conta da prova.

“Os habitantes de Chicago participam da festa de maneira fundamental. Se você escreve seu nome na camiseta recebe incentivo genuíno pelos 29 bairros dos 42 km do percurso.

“E isso, inclusive, é um dos pontos altos para quem é um corredor amador.

“Uma maratona como Chicago te coloca num verdadeiro karaokê do esporte. Você é um atleta amador cuja pretensão, na maioria das vezes, é concluir a prova. Só que acaba tomando parte de um evento no mesmo dia e com as mesmas condições do queniano que, eventualmente, pode quebrar o recorde mundial da distância. São poucos os esportes que oferecem essa oportunidade e experiência.

“A prova deste ano, disputada com céu aberto e 9ºC, teve uma característica diferente dos outros anos em que estive lá: um vento forte de frente durante boa parte da corrida e muitos atendimentos médicos, especialmente depois da linha de chegada.

“Se o leitor pretende fazer sua estreia nos 42 km numa maratona internacional, pode aguardar a abertura do sorteio para a Maratona de Chicago.

“Vale cada metro que você vai correr por lá.”

Corredor de 30 anos morre em meia maratona no Mato Grosso do Sul

Por Rodolfo Lucena
12/10/14 19:07

Mais uma desgraça enluta o mundo da corrida no Brasil.

No Mato Grosso do Sul, um corredor morreu enquanto participava da 6ª Meia Maratona Internacional do Pantanal Volta das Nações na manhã deste domingo, 12 de outubro.

Segundo relato publicado no jornal eletrônico mediamaxnews, Juliano Batista, de 30 anos, sofreu uma parada cardiorrespiratória a cerca de um quilômetro da chegada. Foi socorrido, mas não resistiu.

O irmão de Juliano, Reinaldo Francisco, contou que este é o segundo ano em que eles participam do evento. Disse que, perto do final da prova, alcançou o irmão e perguntou se estava tudo bem. “Ele disse que estava cansado, então falei pra ele diminuir o ritmo, por causa do calor”, afirmou. Metros à frente, Juliano passou mal e caiu.

O Corpo de Bombeiros informou que o atleta foi socorrido no local, mas as tentativas de reanimação não deram resultado. Ele morreu ali mesmo, na avenida Hiroshima, e logo a PM assumiu o local, esperando o carro do IML.

Juliano era de Várzea Grande, no Mato Grosso, e foi à corrida com uma equipe. Élcio Paiva, 37, um dos treinadores da equipe, disse ao jornal eletrônico que o evento teve falhas. Defendeu que provas na região começassem no máximo às 7h.

E alertou: “O clima é muito seco e isso causa um desgaste muito grande para o corredor. A maioria das equipes se preparam à noite para as corridas”, diz.

Também afirmou que em alguns pontos da corrida não eram distribuídos copos de água. “A organização deveria repensar algumas coisas. Isso foi uma fatalidade, não digo que é culpa dos organizadores, mas é uma prova longa e que desgasta muito o corredor”, disse Elcio.

A organização do evento ainda não se manifestou sobre a morte do participante, segundo o jornal eletrônico que citei.

Dada a notícia, permita que eu faça meu comentário. O treinador tem toda a razão: provas longas, de mais de 15 km, com certeza deveriam começar no máximo às 7h durante a temporada de calor no Brasil, que é muito mais longa que o verão e que, em alguns Estados, dura o ano inteiro.

O fornecimento de água, pela minha experiência, também costuma ficar aquém do desejado em boa parte das corridas. Deveríamos ter água gelada a cada 3 km ou mesmo 2 km, conforme o trajeto da prova.

Hoje mesmo participei de uma prova em Minas que tinha tudo para virar tragédia, não fosse a distância curta (12 km). Começou tarde (9h), com sol fortíssimo, e a organização não foi capaz de manter abastecido o segundo dos dois postos de água do percurso, deixando sem água os corredores mais lentos (inclusive este que vos fala).

A São Silvestre, mais importante corrida do país, é useira e vezeira em mau serviço. Se for citar, é uma fieira de problemas.

Por outro lado, nós corredores devemos também tomar nossos cuidados. A CORRIDA É UM ESPORTE DE RISCO. Seja em provas curtas ou longas, o coração é muito exigido. Precisamos nos preparar direito, fazer exames regularmente e, nas corridas, realizar o que foi treinado. Consultar médico regularmente e ouvir o corpo: dores frequentes são sinal de perigo, cansaço sem explicação também.

Isso não exime da responsabilidade os organizadores de prova que, pela minha experiência, estão abusando da paciência e colocando em risco a saúde dos corredores. Provas cada vez mais caras e serviços cada vez mais precários, com algumas e honrosas exceções.

Enfim, termino aqui deixando minha solidariedade para a família, amigos e parentes de Juliano Batista, corredor nosso irmão. Tomara que, pelo menos, sua morte sirva de alerta para todos nós.

Recorde mundial e interplanetário na lagoa Rodrigo de Freitas

Por Rodolfo Lucena
06/10/14 15:15

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“Parem as máquinas!”, gritaria o suado chefe de redação, fedendo a cigarro e com um leve bafo etílico, mandando suspender a rodagem do dia seguinte para incluir a notícia chegada de última hora, depois do fechamento do jornal.

“Cesse tudo que a antiga musa canta, que outro valor mais alto se alevanta”, responderia o poeta já cego de um olho pelo flamejar da reverberante e estrombólica conquista.

Seja qual for a reação do vivente ouvinte ou espectador, o fato é o mesmo, esplendoroso e relampejante: na Corrida das Torcidas, realizada no Rio de Janeiro na noite do último sábado de setembro, fui o mais rápido, o mais veloz, o torcedor do Grêmio recordista mundial e interplanetário na volta de 7,5 km em torno da bela lagoa Rodrigo de Freitas.

Foi o que constatei ao conferir no dia seguinte, sob o sol, na tela de minha tabuleta eletrônica de antepenúltima geração, os resultados oficiais da dita prova pedestre.

Fiquei satisfeito, “por supuesto”, como diria algum eventual leitor portenho, ainda mais que toda a minha participação não tinha começado muito bem –depois melhoraria.

Quando saiu o anúncio de local e horário da entrega dos kits –vem disseminando essa péssima prática de definir esse só quando a corrida está próxima, talvez porque envolve negociações de patrocínio e eventuais propagandas, sei lá–, fiquei desanima. Tudo seria feito num só dia, exatamente cujo o qual eu não estaria no Rio, mas ainda cá por São Paulo.

Liguei para os organizadores, mandei e-mail, tentei me comunicar com eles de alguma forma e, para minha surpresa, a resposta veio logo. Animadora, mas não efetiva: me diziam que iriam resolver o caso, mas não diziam como nem quando. Um dia antes de eu viajar para o Rio, já imaginando que iria na pipoca apesar de ter regularmente pago a inscrição, os organizadores me dizem como, quando e por quê. Beleza.

Terei número no peito e chip amarado ao cadarço do tênis, mas não sei se conseguirei correr. Recorrentes dores nas costas e uma potente inflamação no pé esquerdo, para não falar de outros perrengues, são constante ameaça para este seu blogueiro corredor.

Vamo que vamo. Coloco no tênis uma palmilha especial, prendo com esparadrapo o segundo e o terceiro dedos e já lá estou na linha da largada, na escuridão das oito da noite, iluminada por intermitentes luzes de rua e faróis especiais colocados no pórtico de largada, que mais me deixam tonto do que permitem ver meu entorno.

É uma multidão acotovelada por algumas dezenas de metros numa estreita faixa de asfalto –a pista de bicicleta e caminhada na volta da lagoa. Por certo, é uma temeridade fazer uma corrida ali, penso comigo mesmo, já calculando que, no máximo, conseguirei caminhar rápido pelo engarrafamento humano.

Na largada, é assim mesmo que acontece (foto Divulgação). Saímos todos em marcha lenta, tentando não bater no cara da frente nem ser atropelado pelos detrás. Depois de uns cem metros, o risco é outro: ser jogado para o lado e cair numa redezinha protetora que parece cheia de pontas e fios soltos, prontinha para espetar o infeliz que escorregar.

Nada de mal acontece. Parece que correr acalma os ânimos de todos. Quase todos, pois alguns descem da calçada e se arriscam pela rua para tentar ganhar uma frente de poucos metros. Guardinhas motorizados, protetores, alertam para o perigo e instam os apressados a que voltem para a estreiteza da pista para gente.

06 jpoelhoEnquanto presto atenção nos que vão pela rua, esqueço de olhar o piso, tropico e não dá outra: CHÃO! Primeiro tombo explícito de minha carreira de corredor –que, se não é a mais longa do mundo, também não é a mais ínfima do planeta—em plena Cidade Maravilhosa. Me estatelo de prancha, mas o joelho esquerdo velho de guerra chegou antes ao solo, protegendo o resto do conjunto com maestria (na foto, a situação da rótula uma semana depois do fato).

Em segundos estou de volta sobre duas pernas, mas o primeiro quilômetro está perdido: vou completá-lo em quase oito minutos. Os dois que se seguem são um pouco melhores, mas o trânsito humano ainda está pesado, e não consigo desenvolver a contento todo o meu “enorme” potencial de velocidade.

Passada metade da prova, já não há engarrafamento, mas há dores. Há que conviver com elas: talvez forçar um pouco o ritmo ajude, penso eu com aquele raciocínio de jegue que me caracteriza. Com galhardia, faço um quilômetro em cerca de seis minutos, o que já é praticamente voo solo para os meus padrões.

Que beleza. Passa o km 5, penso em aliviar até o seis para retomar depois, daí mudo de ideia. Não tem tu vai tu mesmo, digo-me, e lá me vou! Estou bem hidratado, pois havia água em penca no percurso, e não temo outros acidentes no trajeto –os locais mais perigosos também foram assinalados por pessoas da organização portando o que parecia ser sabres de luz.

Nos metros finais, corro como se não houvesse amanhã e completo a volta de 7,5 km (7.430 m no meu GPS) em 48min35. Fico satisfeito, mas a alegria maior vem quando, no dia seguinte, nas areias de Copacabana, confiro os resultados oficiais.

Ainda meio tonto das peripécias da noite de sábado e com a leitura prejudicada pela luz sobre a tela de minha tabuleta digital, descubro: há flamenguistas, vascaínos, fluminensistas e banguenses na minha frente, até um cruzeirense e torcedores de outros times que nunca foram campeões do mundo, mas gremista, gremista mesmo, torcedor do Grêmio que diz o nome e corre de camiseta, nenhum, none, nihil na minha frente…

E nem depois, para dizer a verdade.

Não importa. O fato é que, para todo o sempre, sou e serei o primeiro torcedor do Grêmio recordista nacional, mundial e interplanetário na Corrida das Torcidas, Volta da Lagoa Rodrigo de Freitas.

Tragam já a coroa de louros! Toquem as fanfarras! Cantem loas! Eu que nunca fui campeão de nada, apenas tantas vezes reles, tantas vezes vil, ridículo, absurdo, com os pés enrolado publicamente nos tapetes das etiquetas (quem primeiro disse tudo isso foi Fernando Pessoa, para que fique claro), agora sou recordista mundial e interplanetário.

É nóis!

Mas alto lá! Antes de escrever esta peça, volto ainda mais uma vez aos registros para me felicitar novamente pelo desempenho. Vagarosamente passo os olhos pelo registro, sem o sol de Copacabana, sem tela ofuscada e ofuscante. Então me dou conta: houve, sim, um torcedor do Grêmio mais rápido, veloz e recordista interplanetário na Corrida das Torcidas da noite do último sábado de setembro de 2014. Mas não fui eu.

Toquem as fanfarras! Tragam a coroa de louros! Cantem loas a Luiz Peixoto, um jovem de 32 anos que completou a volta noturna em 40min25. Torce pelo Grêmio e como gremista se registrou na prova.

Eu, que aqui fico, sou apenas vice-recordista gremista nacional mundial e interplanetário. Pode não ser  lá essas coisas, mas é melhor do que nada, né?

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Câmera do K Zoom é ótima, mas celular pesa na pochete

Por Rodolfo Lucena
01/10/14 10:22

Adorei o modo noturno da câmera do celular Samsung Galaxy K Zoom. Desculpe aí caro leitor, atenta leitora, se a primeira frase deste texto não segue os cânones do lide jornalístico tradicional. Optei por falar logo do item que mais me impressionou nessa máquina, que é renomada por outra função: a capacidade de, com sua lente retrátil, aproximar objetos mantendo a qualidade da imagem (daí o zoom incluído no nome).

01 kzoom lenteDevo notar que esse recurso não é exclusivo do K Zoom nem novo; já estava disponível em outros modelos do Galaxy, mas eu nunca o havia testado.

De qualquer modo, comparando com modos semelhantes que já experimentei em outros aparelhos, o modo noturno é excepcionalmente bom.

A diferença, acredito eu, é o sistema de estabilização de imagem que faz parte do coração do K Zoom. Além, é claro, de seu poder de processamento. Com isso, mesmo em condições adversas, o resultado pode ser surpreendente, artístico, quiçá poético.

Peço desculpas novamente ao leitor, pois não é de meu feitio ficar fazendo elogio desse jeito, ainda que ele seja merecido. O que me fez mudar de opinião foi uma sequência de fotos que fiz. Trago como exemplo as imagens a seguir.

Antes de mostrá-las, permita que eu diga: nas duas imagens, a câmera está colocada no mesmo lugar, segura nas minhas mãos um pouco acima do painel de um carro em movimento, do lado do carona. É a hora do lusco-fusco e chuvisca.

Eis a imagem obtida com a câmera no modo automático.

01 automatica 18h32

Claro que cada foto reproduz um cenário diferente, pois o carro está em movimento. A foto seguinte foi batida com diferença de poucos segundos em relação à anterior –no minuto seguinte, segundo os registros da câmera.

01 noturna 18h33

Seja você mesmo o juiz.

Posso ser ingênuo na avaliação das imagens –afinal, meus testes não são os de um técnico, mas de um amador interessado em fotografia, um usuário comum experimentando os recursos de um aparelho e vendo de sua utilidade para registrar momentos de suas corridas. Não lembro, porém, de ter tido resultado semelhante com outros aparelhos que testei.

Bom, quanto ao zoom da câmera do K Zoom, posso dizer que também impressiona. Trata-se de aproximação ótica, conseguida por meio da lente retrátil –como as de uma luneta–, inesperada num celular.

Não é o primeiro exemplo de celular com esse recurso: o antecessor desse modelo já tinha a lente expansível. Mas agora o processador mais potente e a tela de melhor qualidade tornam o resultado muito mais legal.

Fiz várias experiências com o zoom, que tem uma aproximação de 10x (ou seja, é como se o objeto focado estivesse a um décimo da distância em que efetivamente está). Os resultados foram muito bons –melhores quando eu fiquei bem parado, segurando firme a câmera.

Veja, por exemplo, a imagem abaixo, produzida no modo automático. Preste atenção nas ferramentas que estão mais ou menos no meio do quadro.

01 sem zoom

Com a câmera na mesma posição, puxei o zoom focando nas tais ferramentas. O resultado foi este:

01 com zoom

Do pondo de vista de qualidade da imagem, portanto, o Galaxy K Zoom se sai muito bem. Já em relação à usabilidade por um corredor, não é o mais ágil do mundo –pesado e gordinho, é meio desengonçado.

Tentar fazer o zoom apenas passando os dedos sobre a tela sensível ao toque não vai dar certo –pelo menos, se você quiser uma aproximação instantânea. É preciso fazer uma certa ginástica, segurando firme o telefone/câmera com uma das mãos enquanto a outra aciona o zoom.

O mais simples é usar o botão de zoom, segurando o aparelho com as duas mãos.

01 kzoom lente VANos treinos e corridas que fotografo, procuro usar uma pochete impermeável e acolchoada para proteger o equipamento. Ela é leve e justa, digamos assim –se eu colocar uma careira comum, mesmo se recheada apenas com os documentos e cartões de praxe, a coitada vai ficar estufada.

Apesar de o K Zoom caber folgadamente no comprimento, sua espessura torna mais difícil tirá-lo da pochete e guardá-lo novamente durante uma corrida. A diferença de peso, ainda que pequena, também é sensível –tem 200 g contra 140 do celular que uso.

Já o impacto na carteira é bem mais considerável: seu preço de lista é R$ 2.099. Isso é muito caro em relação à renda da maior parte da população brasileira: dá quase três salários mínimos. Mas é razoável se considerada a concorrência: um já ultrapassado iPhone 5 com câmera de menor resolução (8 Mpixels contra 20,7 Mpixels do K Zoom) é encontrável em promoção por R$ 2.199 –preço de lista 2.799.

 

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Novo recorde da maratona mostra que menos é mais

Por Rodolfo Lucena
29/09/14 16:29

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Dennis Kimetto provou: é possível ao homem correr uma maratona em menos de duas horas e três minutos. No último domingo, a maratona de Berlim voltou a ser palco para uma quebra de recorde na distância –ali a marca então em vigor já foi derrubada por nomes como Wilson Kipsang, Paul Tergat e Haile Gebrselassie, para citar apenas alguns.

Kimetto (foto AP) também demonstrou, no asfalto, que é válida e verdadeira a tese de muitos cientistas do esporte e especialistas em maratona: quem guarda tem e, se você for errar no ritmo, é melhor errar para mais do que errar para menos –ou seja, é melhor correr mais devagar do que o previsto do que correr mais rápido.

Ainda que obviamente o erro não tenha sido planejado, foi isso o que aconteceu no domingo em Berlim. Erros nos primeiros blocos de cinco quilômetros podem ter sido, se não decisivos, pelo menos úteis na quebra do recorde mundial.

Exemplos do contrário, temos tido aos montes em provas –mesmo experiente especialistas, quando forçam muito cedo ou vão muito rápido em tentativas de quebra de recorde, acabam pagando o preço da ousadia.

No domingo, o começo ficou aquém do que, em tese, deveria ser uma tentativa de quebra de recorde. A passagem do km 10 foi em 29min23.7, cerca de sete segundos pior do que a marca de Kipsang quando estabeleceu seu recorde no ano passado.

Mesmo com esse alerta, os caras pareciam estar dormindo no ponto. Os cinco quilômetros seguintes só pioraram a situação: a passagem do km 15 foi 24 segundos mais lenta do que a cravada por Kipsang.

Daí os caras mandaram ver. Cruzaram pela marca da meia maratona em 1h01min45, o que indicava que precisariam fazer o que se chama de split negativo, completar a segunda etapa em menos tempo do que a primeira.

Pediu, levou.

Emmanuel Mutai puxou a frente, Kimetto respondeu, e os dois passaram a travar o duelo mais rápido da história da maratona.

Para ninguém dizer que falo sem provas, basta este exemplo: na passagem dos 30 km, Mutai estabeleceu novo recorde mundial para a distância, cravando 1h27min37, um segundo a menos do que Patrick Makau correu quando quebrou o recorde da maratona, também ali em Berlim.

Quem voasse menos dançaria. E os dois fizeram os cinco quilômetros seguintes, do Km 30 ao km 35, em 14min10!!

Chegou a hora da decisão. No km 38, Kimetto deu o bote e escapou. Não fugiu, não desapareceu. Mutai ficou no seu encalço, obrigando o compatriota a manter o ritmo forte. No final, os dois terminaram, em tempo menor do que o antigo recorde, 2h03min23.

Kimetto, o campeão e novo recordista, cravou 2h02min57, e parecia pronto para outra. Mutai, sua sombra, completou em 2h03min13, e deixava evidente no rosto e nos sinais corporais o quanto o esforço lhe tinha sido penoso. Logo estava botando os bofes para fora, até receber ajuda.

Logo, porém, estava em condições de comentar o desenlace: “Estou satisfeito com a conquista. Lutei para vencer, mas meu colega foi mais forte. Talvez eu vote no ano que vem e possa esmagar seu recorde mundial.”

29 kimetto recorde reutersKimetto (toto Reuters), por seu lado, enrolado em uma bandeira do Quênia, era só alegria: “Estou muito feliz. Vamos ter uma grande festa lá em casa”.

Aos 30 anos, ele é relativamente novato em disputas internacionais –ou mesmo nacionais, para ser mais preciso. Costumava treinar sozinho no Quênia, participando de vez em quando dos longões coletivos que os corredores costumam fazer na região em que moram –no caso, Kapng’tuny . Num desses, deixou então já conhecido internacionalmente Geoffrey Mutai comendo poeira.

G. Mutai, que não é parente de Emmanuel e também não é nenhum bobo, convidou o cara para participar de seu grupo de treinamento. Para encurtar a história, em 2012 os dois protagonizaram aquela estranha final na maratona de Berlim, em que Mutai venceu Kimetto por um segundo, apesar de seu pupilo parecer claramente em melhores condições (eu escrevi sobre isso na época, leia AQUI).

Bom, o certo é que a corrida mudou na vida do agricultor e dono de algumas poucas cabeças de gado. Com os prêmios que recebeu nos últimos anos, comprou mais gado, está de carro novo e casa nova. Também garantiu o estudo dos filhos. E quer mais:

“Eu acho que é possível fazer uma maratona em duas horas”, disse ele.

Quem viver verá.

 

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