Rodolfo Lucena

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Perfil Rodolfo Lucena é ultramaratonista e colunista do caderno "Equilíbrio" da Folha

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Pulseira high-tech mede passos e batimentos cardíacos, mas não fala com a internet

Por Rodolfo Lucena
01/09/14 14:02

01 gear abre

Ela avisa quando alguém liga, contabiliza o número de seus passos e batimentos cardíacos, registra detalhes de suas corridas, controla o andar das músicas que tocam no seu fone de ouvido e até monitora seu sono. Cafezinho e beijo na boca, que é bom, necas –mas pode servir de assunto de conversa durante um cafezinho com alguém que lhe dê beijim.

Estou falando da Gear Fit, combinação de relógio high-tech e pulseira da boa forma lançada recentemente pela Samsung. Testei o equipamento durante as últimas duas semanas, e ele me causou boa impressão.

Claro que, como outras pulseiras atléticas ou da boa forma lançadas por um batalhão de empresas nos últimos tempos, não substitui o relógio com GPS. Isso significa que não é indicado para um corredor que queira ter registros precisos de seus treinos ou deseje usar o relógio como parceiro de treinamento.

Entretanto, como já falei a respeito da pulseira semelhante lançada pela Garmin, pode ser uma boa parceira para quem esteja tentando sair do sedentarismo. Pode ser útil para quem gosta simplesmente de dar corridinhas ou caminhadas sem compromisso, sem preocupação com treino.

Com uma elegante tela curva de pouco menos de cinco centímetros, é mais bonita e oferece mais recursos que pulseiras assemelhadas que já testei. Também é mais cara, mas a diferença de preço é relativamente pequena, considerando a oferta maior de serviços.

Sua principal lacuna, cá no meu entender, é a falta de comunicação com a internet. Seria interessante ver os registros em tela grande, poder fazer análises etc., assim como fazemos com os dados capturados por outros equipamentos, como os relógios com GPS.

Por certo, oferece um substituto, o aplicativo S Health, que cumpre a função de consolidar e armazenar as informações em algum celular Samsung –a pulseira funciona “casada” com o telefone, em comunicação permanente com ele via Blutooth. Com ele, porém, como é óbvio, o usuário fica restrito ao universo Samsung –aliás, a pulseira só funciona com celulares da marca, como seria de esperar.

01gear de costas VAUma inovação muito boa é o sistema de monitoramento dos batimentos cardíacos, que não exige o uso da famosa e nem sempre confortável cinta com sensores para captar os movimentos do coração –isso é feito por um sensor ótico localizado na traseira do aparelho.

Algumas resenhas feitas por sites americanos reclamam da falta de acuidade do frequencímetro do Gear Fit. Não cheguei a comparar a medição feita por ele e a por cinta de monitoramento cardíaco, mas os resultados que o aparelho deu em vários treinos e, especialmente, em uma corrida em que participei, foram compatíveis com meu histórico.

Falando em corrida, é aí que mora o perigo quando se trata de precisão. Todos os registros do Gear Fit foram diferentes dos dados capturados pelo meu Garmin e também de um outro relógio com GPS que testei naquela oportunidade –o teste será publicado aqui na próxima segunda-feira.

Meu ritmo médio, por exemplo, foi de 6min19/km segundo o GPS, e 5min56/km no Gear Fit, que registrou a distância percorrida como 5,26 km (no relógio, foi 4,87 km). Outros índices, como velocidades máxima e mínima, também foram discrepantes.

Ainda que a falta de precisão seja um problema, a mim parece que as dificuldades de manejo do aparelho durante uma corrida é que efetivamente dificultam (tornam desconfortável? inviabilizam?) seu uso como parceiro de corridas. Os resultados não aparecem instantaneamente, e há que ficar batucando na tela de um lado para outro para obter as informações.

Funções que não exigem precisão ou acionamento de comandos têm melhor desempenho. A que controla o sono, por exemplo, me informou que passei imóvel 86% de minha noite de descanso; não tenho ideia que bem me faz essa informação, mas está lá…

Comunicando-se com o celular, pode controlar a mídia do aparelho, tocando músicas, avançando as faixas etc. Espero que, se o usuário fora aproveitar esse recurso, que não o faça enquanto estiver correndo na rua.

Também avisa sobre ligações telefônicas e torpedos, e pode dar respostas simples pré-gravadas. Tem cronômetro, temporizador (contador regressivo de tempo) e pedômetro.

O preço sugerido no Brasil é R$ 699, mais caro do que um modelo básico de relógio com  GPS, mas razoável se comparado com outros modelos de pulseira da boa forma.

Antes de encerrar devo dizer que, como a pulseira só funciona em parceria com um telefone Samsung, usei, durante o período de testes, o celular Galaxy S5. Deste, sim, posso dizer que gostei muito. É leve, elegante, rápido e tem uma câmera fotográfica muito boa –que é o principal aspecto que avalio, pois deixei de carregar câmera durante meus treinos e corridas, usando sempre a do celular.

Além de boa definição, com imagens de 16 Mpixels, o software que controla a traz diferentes modos que são acessíveis e inteligíveis até por um taipa como eu. As imagens produzidas foram muito boas, de modo geral, mesmo em condições adversas. Os vídeos também estiveram a contento.

Festival de falta de educação precede corrida em shopping

Por Rodolfo Lucena
31/08/14 11:19

Saí atrasado, cheguei atrasado, é claro. Mesmo assim, às 6h35 entrei na Marginal Tietê rumo ao estacionamento do shopping Center Norte, onde iria participar de uma corrida de cinco quilômetros. Seria minha primeira participação no circuito Track&Field em toda a história, porque considero muito caras as corridas desse circuito. Para a de hoje, fui a convite.

Apesar de atrasado, confiava que ainda conseguiria pegar meu chip. Afinal, faltavam uns 300 metros apenas para a entrada do estacionamento, e o rigor cronométrico não costuma pautar as barracas onde é feita a entrega; os caras sempre dão uma chance para eventuais retardatários.

Pois logo percebi que talvez não desse certo. Isso porque a fila em que eu estava simplesmente não andava; pela configuração do percurso ali na marginal, era a fila certa, a principal, em que estava a maioria dos carros que iriam entrar no estacionamento.

O problema é que, como acontece em outros locais, onde há filas há furadores de filas. E nossa querida comunidade de corredores, seres supostamente bacanas, apreciadores da paz e da tranquilidade e respeitadores de seus semelhantes, também tem sua parcela de gente que quer levar vantagem em tudo.

Vai daí que, em plena marginal, de repente estavam formadas três filas: a “certa”, digamos assim, mais a dos espertinhos que pretendiam chegar antes roubando espaço pela direito, e ainda a dos supostos motoristas de Fórmula 1 que ultrapassavam a todo pela esquerda para tentar uma vaguinha na fila principal três ou quatro carros à frente.

Para completar a balbúrdia, os corredores-motoristas em carrões importados achavam que só eles queriam chegar ao local da partida da prova antes de soar a corneta da largada. E, além de furarem filas e fazerem ultrapassagens perigosas, se grudavam nas buzinas como se a alaúza fosse  fazer os carros andarem mais rápidos….

Finalmente consigo dobrar à direita na rua que, ela sim, vai dar acesso à entrada do estacionamento. Agora são duas filas; a”certa” e a dos fura-fila. Já são 6h45 passadas, deixo para lá a ideia de pegar o chip –pelo menos, estou com o número na camisa—e torço para conseguir entrar logo no portão que fica a uns 50 metros da marginal.

Estou quase pronto para embicar quando fecham aquele portão. Me senti prejudicado, mas, de fato, os caras que cuidavam do acesso demoraram muito para tomar a medida. Afinal, a redução de velocidade e a parada naquele portão, o mais perto da marginal, eram as causas da bagunça na avenida, ampliada pela falta de educação dos corredores-motoristas.

Um fulano do shopping ou da segurança se postos naquele acesso, encaminhando os carros para um segundo portão, este em uma rua lateral a uma distância de uns 400 metros.Isso acelerou o fluxo dos veículos, mas, quando a gente virou na rua lateral, novamente a fila principal ficou demorada, novamente pela ação deletéria dos fura-fila.

Eu ficava lá pensando: uma gente tão bem de vida, em carros tão bacanas, pagando essa fortuna para correr 5 km (ou 10 km), e tão mal educada, tão desesperada para chegar a um portão um segundo antes do vizinho.

A entrada ficava ainda mais demorada porque cada motorista precisava entregar ao guardador do acesso um ticket, papelzinho descartável que veio grudado no número peito. Imagino que a organização tenha lá suas razões para criar esse sistema, provavelmente algum tipo de controle contratual, mas isso acabou contribuindo para a lentidão do acesso.

É bom que se diga que foi dado tempo de sobra para quem quisesse chegar com tranquilidade ao local da prova: o estacionamento abriu as portas às 5h. Quem chegou tarde foi porque quis, dormiu demais ou, tendo acordado cedo, resolveu fazer tudo devagar, já que tinha bastante tempo –foi o caso deste seu blogueiro.

É óbvio que a organização não é responsável pelo atraso de ninguém. Mas a empresa organizadora é experiente nesses eventos e sabe que boa parte dos corredores chega em cima da hora. Quando esses corredores assumem a dupla-personalidade de corredor-motorista, é um prato cheio para confusão.

Faltou rapidez em tomar providências quando a confusão no acesso ficou evidente.

Aquela medida de fechar o acesso mais próximo da marginal, por exemplo, poder ia ter sido tomada dez ou quinze minutos antes. Pelo que vi, é bem provável que contribuísse para diminuir ou mesmo evitar a bagunça na avenida. Essa história do bilhetinho de acesso me parece dispensável –de novo, imagino que os caras tenham alguma razão; do ponto de vista do usuário, porém, ele não é razoável: só provocou mais demora na entrada.

Com tudo isso, a largada atrasou mais de dez minutos (veja AQUI trecho de vídeo produzido por Eleonora Lucena).

O sistema de som na largada não estava bom. A voz da locutora –pelo que me lembre, é raro ter mulher como mestre de cerimônia de corrida—não chegava longe e seu volume era insuficiente para prover de informações todo o grupo. Mesmo assim, consegui perceber quando ela anunciou que a largada seria em cinco segundos.

Levei ainda uns dois minutos para passar pelo pórtico, largando às 7h14 para o percurso de cinco quilômetros. Gostei do trajeto, apesar de dar um monte de voltas e ser basicamente no estacionamento do shopping e em algumas ruas do entorno. Isso porque o relevo era bem variado, ainda que descidas e subidas fossem leves, com exceção de uma inesperada rampinha um pouco mais forte.

Houve água em abundância, servida em copinhos. Os que peguei estavam bem gelados.

31 corridaNo final, meus GPS marcavam distâncias diferentes.

Os GPS em relógio, que acionei no instante da passagem sob o pórtico de largada e desliguei imediatamente ao chegar, marcavam 4,87 km e 4,88 km, demonstrando que ambos estão bem calibrados na comunicação com o satélite, ainda que sejam de marcas diferentes.

Demorei um pouco para acionar e desligar os GPS utilizados por programas de celular, devido à minha incompetência no manejo desses programas e à falta de compreensão, por parte deles, dos meus toques desesperados (foto Eleonora Lucena). Um deles marcou 5,26 km e o outro, 4,96 km. Ambos estavam conectados remotamente a pulseiras chamadas “atléticas” ou “esportivas.

Se você ficou curioso sobre o motivo que me levou a usar tantos aparatos tecnológicos, saiba que fiz isso pensando em você: estou testando alguns produtos recém-lançados; minhas avaliações serão publicadas ao longo dos próximos dias.

Independentemente da distância marcada, o mais importante para mim foi o ritmo que consegui impor nesse pequeno percurso, minha primeira corrida de verdade depois de longos meses de lutas contra lesões e dores diversas em vários pontos de meu corpo quase sexagenário. Nos 30min42 que a prova me tomou, consegui manter média de 6min17, o que é praticamente voar, considerando minha presente condição atlética. Melhor ainda: não tive dores nos pés, nas costas, no glúteo, em lugar nenhum.

Talvez o “intenso” ritmo empregado não tenha dado tempo para as dores acordarem… Sei que amanhã ou depois estarão de volta, mas acho que vai dar para encarar. Qualquer hora dessas eu melhoro, talvez um dia fique bom.

Me aguardem.

Ah, eu disse lá em cima que corri essa prova a convite. A gentileza foi da Mercurochrome, uma das patrocinadoras do evento.

 

 

 

Treinador de Vanderlei Cordeiro de Lima relembra trajetória do medalhista olímpico

Por Rodolfo Lucena
29/08/14 12:04

Hoje se completam dez anos do maior feito corredores de rua do Brasil: a conquista da medalha de bronze na maratona dos Jogos Olímpicos de Atenas-2004, por Vanderlei Cordeiro de Lima. Para celebrar o fato, fiz uma longa entrevista com o maratonista; trechos dela foram publicados na Folha (leia AQUI) e uma versão mais ampla vai sair na edição de setembro da revista O2.

Ontem, Vanderlei foi homenageado ao São Paulo e até deixou lágrimas caírem ao receber placa comemorativa não só à sua conquista, mas também (principalmente?) ao seu fabuloso espírito esportivo, que fez com que ele seguisse correndo mesmo depois de ter sido atacado por um ex-padre doidão…

Sobre o atentado e suas possibilidades, voltou a dizer o que havia comentado na entrevista comigo, que você leu no jornal: “Eu poderia não ganhar o ouro, mas a disputa iria para o fim da prova. Demoraram quase dez minutos para me ultrapassar depois do incidente. Mas não posso afirmar que seria o campeão. Acho que o Baldini foi infeliz ao dizer que seria campeão de qualquer jeito. É uma dúvida que vai ficar, mas posso dizer que me foi tirada a oportunidade de ganhar o ouro”.

Agora, trago com exclusividade outra entrevista, esta com o treinador de Vanderlei, Ricardo D`Angelo, que acompanha o atleta há mais de 20 anos. Conhecido como Bombeiro, apelido recebido aos 15 anos, quando costumava usar um agasalho vermelho que ganhara de presente da mãe, Ricardo tem 53 anos e foi atleta nas décadas de 1970 e 1980.

Mestre em ciências da motricidade e doutor em ciência do esporte, começou a treinar atletas de ponta em 1988; seus pupilos já conquistaram uma medalha olímpica –Vanderlei–, quatro medalhas em Pans e duas em Mundiais de atletismo.

Nesta entrevista ele fala de sua trajetória ao lado de Vanderlei e traz a visão do treinador sobre a atuação do maratonista.

Quando o senhor conheceu Vanderlei?

Conheci pessoalmente o Vanderlei quando fui contratado para trabalhar como treinador na antiga União Esportiva Funilense, clube de atletismo do empresário Sérgio Luis Coutinho Nogueira. Embora já o conhecesse das seleções juvenis e soubesse de seu potencial talento para o fundo, até então não tinha contato com ele, uma vez que vivia no interior e eu em SP. Nosso primeiro contato foi na antiga Pizzaria Macedo, na zona sul. Jantamos lá e quem nos apresentou foi o doutor Sérgio. Foi em julho de 1991. Naquela época eu jantava com o doutor toda terça feira naquela pizzaria. Na ocasião o Vanderlei estava indo viajar para uma temporada de competições nos EUA e nos acompanhou no jantar. Ele ficou quase que calado todo o jantar, mas fomos bastante cordiais um com o outro.

 Quando o senhor passou a treinar Vanderlei? O que causou essa aproximação?

Iniciei minha orientação ao Vanderlei em abril de 1992 por conta de uma fatalidade. Conforme descrevi acima, fui contratado para treinar atletas jovens e em desenvolvimento na UE Funilense em julho de 1991. Trabalhava com o professor Asdrúbal Ferreira Batista, treinador dos principais atletas de fundo da equipe, incluindo o Vanderlei. Em abril de 1992, o professor Asdrúbal sofreu um ataque cardíaco fulminante e veio a falecer. Dessa forma, quase todos os atletas que eram orientados por ele passaram a ser orientados por mim, incluindo o Vanderlei.

Como foi o trabalho com ele?

Foi uma experiência incrível, sobretudo pelo profissionalismo, disciplina, dedicação e foco que o Vanderlei demonstrou ao longo de toda a sua carreira. Ele sempre foi muito atento às principais tarefas do treino, nunca deixando que nenhum fator externo à pista viesse a interferir no seu desempenho.

É um atleta com elevado potencial físico e extrema habilidade para maximizar seus pontos fortes. Entendia e compreendia seu papel no esporte, sabia onde estava e onde queria chegar. Tem elevada capacidade de raciocínio prático, com “insights” de oportunidade. Perfil dogmático, humilde e caráter ilibado, construído a partir da educação dada pela sua família, a qual se referia sempre com grande apreço. Aprendi com ele mais do que ensinei.

Como foi a progressão dele, das provas em pista para a maratona?

Estávamos fazendo isso de forma gradual, didática e pedagógica em 1994, entretanto, por conta de uma oportunidade para fazer coelho na Maratona de Reims, França, ele completou o percurso e venceu a prova com o tempo de 2h11min06. Esse resultado foi o suficiente para que ele demonstrasse seu potencial e aptidão para a maratona.

 Como surgiu o convite para ele ser coelho dessa prova?

Foi em outubro de 1994. Ele estava fazendo um temporada de corridas de rua na França (Paris e região), provas de 10 km, 10 milhas e meia maratona quando surgiu a oportunidade de fazer coelho para 21 km em Reims. Ele topou e foi junto com o outro coelho, o belga Vincent Rousseau, até o km 30, quando o belga abandonou. Vanderlei estava mais de 30 segundos à frente do segundo colocado, que poderia vir a ser vencedor. Foi quando ele percebeu que poderia vencer a prova indo até o final e foi o que fez, brilhantemente.

Como é hoje sua relação profissional com o Vanderlei?

Eu coordeno os projetos esportivos do Instituto Vanderlei Cordeiro de Lima (IVCL). Um deles é a Equipe Orcampi, tricampeã brasileira juvenil de atletismo (2012, 2013, 2014), entre outros títulos. O IVCL tem uma “pegada” mais social, usando o esporte (atletismo) como um instrumento da educação e da formação integral do jovem. Sou também coordenador técnico do Clube de Atletismo BM&F BOVESPA, e o Vanderlei é ainda patrocinado pela instituição, sendo o patrono do Clube por conta da sua importância e simbologia.

Como é o trabalho de um treinador de corredor de elite internacional? Em que é preciso prestar atenção? Como fazer para motivar o atleta?

As competências para treinar atletas de nível internacional se estendem por várias esferas, transitando do campo profissional até o pessoal. O envolvimento e sinergia entre atleta e treinador são responsáveis pelo desempenho do atleta e, consequentemente, pelo seu sucesso. Ambos devem estar comprometidos com os mesmos objetivos, o que é raro nos dias atuais. O treinador deve saber tratar com habilidade os agentes externos de influência negativa para, de toda maneira, não permitir que, nesse casos, o desempenho seja prejudicado. As tarefas do treinamento propriamente dito são elaboradas em grau de exigência muito elevada, com desafios constantes, para estimular os atletas, em cada sessão de treino, à autossuperação.

 O que o senhor lembra da maratona de São Paulo, quando Vanderlei quebrou o recorde da prova?

Tenho boas lembranças dessa prova. Inicialmente a organização não estava depositando muita confiança no Vanderlei, tanto que na sua inscrição lhe deram o número 83 (ou algo assim, lembro que era de 80 para cima…). Minutos antes da largada, coisa de cinco minutos, nos levaram o número 1 e o Vanderlei trocou seu número de peito. Naquela prova, planejamos a passagem da meia para 65min40 (3:07/km), e o coelho para o qual pedimos ajuda (Daniel Lopes Ferreira) levou o Vanderlei até o 21 km em 65min37. Ele ultrapassou o atleta marroquino que liderava no km 28 e se manteve em ritmo forte até o final, marcando 2h11min19, recorde da prova até hoje. Sua apresentação naquele dia foi perfeita, acertou em tudo, estava bem preparado física e mentalmente.

E como foi a maratona olímpica?

Eu estava assistindo à prova em um bar ao lado do estádio Panathinaikos, junto com um grupo de agentes, uma vez que não estava na seleção brasileira como treinador oficial e não tinha ingresso para a área do estádio.

A prova se desenrolou como tínhamos combinado. O Vanderlei deveria tentar se distanciar do grupo em algum ponto entre o km 25 e o km27, trecho de aclive do percurso, justamente para diminuir o número de competidores desse grupo. No entanto ele fez isso no km 19, já que percebeu que, nas duas saídas de outros atletas nos quilômetros anteriores, o grupão de corredores não respondera à mudança de ritmo.

Naquele momento os agentes que assistiam à prova comigo comentaram, de forma irônica, que era muito cedo para essa saída. Mas, depois de passados 11 km, quando verificaram que na marca dos 30 km o Vanderlei estava 50 segundos à frente do segundo grupo (apenas Baldini, Keflezighi e Tergat), mudaram seus comentários.

Até ganhei um ingresso do [agente de atletas internacionais] Jos Hermens para entrar no estádio. Ele disse: “Tome Ricardo, hoje você vai ao estádio”. Após isso ocorreu o acidente com o padre. Fiquei chocado, assim como todos, e logo imaginei todo o trabalho que tínhamos feito sendo destruído por uma ação externa, que não tínhamos como controlar.

A partir daí, apenas torci para que o Vanderlei conseguisse manter a diferença e chegar pelo menos em terceiro, e foi o que aconteceu. Recebi muitos cumprimentos dos agentes pelo desempenho e estratégia utilizada na prova. Por fim, entrei no estádio e consegui, com a ajuda de um segurança, dar um abraço de 30 segundos no Vanderlei e dizer a ele: “Conseguimos!!”.

Luisa molha o cabelo e enfrenta arame farpado em corrida de obstáculos

Por Rodolfo Lucena
27/08/14 11:21

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Hoje trago para você mais uma aventura de minha amiga LUISA, jovem corredora que, na vida civil, é editora-assistente de Comida e Turismo na Folha. Vidão, não é? Vivert de viagens, acepipes deliciosos e doces fulgurantes. Na real não é bem assim, mas tudo bem.

De sobrenome ALCANTARA E SILVA, LUISA tem 31 anos e já correu quatro meias maratonas. A seguir, a história que ela nos conta. Obrigado, Luisa, pela colaboração.

27 luisa1“Luisa, vamos fazer uma corrida de obstáculos?”, perguntou o meu treinador, André Pereira, quando resolvi voltar a treinar após um novo longo intervalo, agora por causa da Copa e de seus bares e festas.

“Olhei para ele com aquela cara de interrogação, pensando de onde ele tinha tirado a ideia de que eu conseguiria fazer aquelas provas da Olimpíada, com cavaletes. E ele: “Não, esses obstáculos são lama, atravessar um rio… Corrida de aventura”. “Ahh”, eu disse, interessada na novidade (nunca tinha corrido uma).

“Entrei no site da prova, Iron Race. Seria em Guararema (a 79 km de São Paulo). Eu escolheria entre 5 e 10 km. Como não conhecia esse tipo de prova, fui na menor.

“Um dia antes, entrei no site da prova para pegar o endereço. Foi quando eu vi a estampa da camiseta. O desenho de uma caveira com as palavras Iron Race – Corrida de Obstáculos Militarizados… Ai…

“Último domingo (dia 24), às 8h30, a primeira bateria está para largar (com atraso). Para chegar ao portal da largada, os participantes precisam pular um obstáculo de madeira quase da minha altura –tenho 1,65 m. É só o que dá para ver.

“Pouco depois, é a minha vez. Não consigo ultrapassar sozinha o tal do primeiro obstáculo, pré-prova. Meus braços não têm força para me puxar para cima. Peço ajuda a um corredor, que se agacha e me “cede” a coxa como degrau.

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“A prova começa. Logo no início, temos que correr agachados por uns 10 m, sob um tecido que forma uma espécie de tenda coberto por uma fumaça e com luzes de flash piscando. Continuamos por uma linha de trem, em um terreno bem pedregoso. Com medo de tropeçar e rolar morro abaixo, corro na parte com mais pedras.

“Outro obstáculo: rastejar em um terreno com arames farpados amarrados a menos de 50 cm do chão. Pular barras. Fácil. Mais um: trepa-trepa. Tento, mas caio logo no início. Para continuar, tenho que “pagar” fazendo 15 polichinelos.

“Subida. Opa, essa é a minha prova! Um monte de gente andando? Estou gostando! Mas continuo correndo, mesmo que bem devagar… Ainda é cedo para parar de correr.

“Alguns outros obstáculos e chega o mais legal: atravessar o rio. O que não sabíamos é que teríamos que entrar com o corpo todo na água. Sim, molhar o cabelo.

27 luisa rio“Com os braços, tínhamos que ir puxando uma corda até a outra margem. Detalhe: todo mundo tinha que colocar colete salva-vidas ali; a correnteza estava bem forte naquele trecho. Saí do rio, cheia de lama, corri mais uns poucos metros e rio de novo –desta vez, sem o colete. O rio gelado foi bom para refrescar.

“Mais alguns obstáculos, como atravessar um emaranhado de elásticos, já com as pernas pesadas, e os 5 km acabam. Termino em 47 min. “Considerando que em alguns obstáculos tínhamos que esperar o corredor da frente passar, e considerando que me considero uma corredora meio tartaruga –e que todos que me conhecem também me consideram!– achei meu tempo razoável.

“Foi muito legal ter feito a prova, diferente de qualquer outra que já tinha feito. O tempo não importa; a força e o pique valem muito mais. Já estou me programando para fazer a próxima!”

 

 

PS.: A moça lá do alto não é a Luisa (veja nos comentários quem é ela); a foto mandada pela assessoria da prova, assim como a do rio; o crédito é Tatiana Mello/Divulgação

Confira dicas para correr nas ruas com mais segurança

Por Rodolfo Lucena
25/08/14 13:32

Vestir roupas claras e chamativas, rodar na contramão e nunca usar fones de ouvido são algumas das medidas de segurança que corredores devem tomar quando usam as ruas das cidades como palco de treinamento.

É o que diz a minha experiência, corroborada pela sabedoria de vários treinadores com quem conversei: Vanderlei Severiano, o “Branca”, talvez o principal técnico de ultramaratonistas do país; o experiente Wanderlei Oliveira  e o também veterano Luís Eduardo Tavares, além de Nélson Evêncio, presidente da ATC, a Associação dos Treinadores de Corrida de São Paulo.

Cada um falou uma coisa; algumas dicas se sobrepuseram. Ao fim e ao cabo, a receita de medidas a tomar para reduzir os riscos de correr na rua ficou assim:

1. Estar sempre visível (roupas claras, refletivas), principalmente se for correr de madrugada ou à noite

2 – Evitar usar fone de ouvidos, pois reduz a atenção trânsito

3 – Correr sempre na calçada (requer alguns cuidados e atenção com as elevações), é mais seguro e faz com que o ritmo seja mais devagar

4 – Quando a calçada não estiver em condições e você for correr em alguns pontos na rua, observe qual sentindo mais seguro em que deverá correr. De preferência no sentido contrário da via. Observe se a via não é muito estreita.
5 – Evitar dar as costas para o trânsito em vias muito movimentadas (a visualização pode ajudar caso algum motorista perca a direção)

6 – Atravessar as ruas sempre na faixa de pedestres

7 – Respeitar a sinalização de trânsito, especialmente os semáforos; mesmo o semáforo estando vermelho para o veículo, você deve aguardar
que os veículos parem para você atravessar. Não confie somente nos
sinais, observe o fluxo de veículos

8 – Nunca confiar totalmente nos condutores de veículos. A prioridade é a sua segurança física. Corra sempre na defensiva e tente prever o que pode acontecer em cada momento em que passar: cruzamentos, curvas, descidas etc.

9 – Levar celular e xerocópia de documentos, mais algumas
informações básicas, como endereço e contato em caso de emergência

10. Avisar alguém qual o percurso que planeja seguir

Emoção e espírito fraterno marcam homenagem a corredor morto na USP

Por Rodolfo Lucena
23/08/14 12:37

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Uma cerimônia emocionante, na manhã deste sábado, celebrou as homenagens de amigos, parentes e corredores em geral à memória do maratonista Alvaro Teno, atropelado e morto na semana passada enquanto treinava nas alamedas da Cidade Universitária.

A manifestação começou logo cedo, quando a viúva e os filhos de Teno, mais amigos e colegas de clube, saíram do Paineiras, no Morumbi, em caminhada em direção à USP. Em silêncio, mas carregando cartazes em memória do amigo perdido, o grupo fez o percurso em segurança. A maioria vestia camiseta preta estampada com a foto do senhor Teno.

Enquanto isso, na USP, o treino de grande número de corredores também valia como homenagem ao atleta morto. Muitos vestiam preto, alguns com a palavra “luto” escrita na camiseta.

Às 9h, corredores avulsos e o pessoal da caminhada se encontraram na praça do Relógio, onde aconteceu a concentração (na foto, filhos e a vúva de Teno). Nos cartazes, a mensagem que todos traziam no peito: “Respeito ao atleta de rua” e “Não à impunidade no trânsito”.

Um dos organizadores da homenagem disse algumas palavras, destacando que aquele movimento era uma manifestação pacífica, sem vínculos políticos nem preconceitos, em defesa da vida e da paz. Depois os manifestantes se deram as mãos e fizeram juntos uma oração.

A família, abraçada, foi para o centro do grupo. E os corredores todos, a pequena multidão ali reunida, se deram os braços e, como se fossem um só corpo, abraçaram a viúva e os filhos de Alvaro Teno.

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Corredores fazem ato de solidariedade às vítimas de atropelamento na USP

Por Rodolfo Lucena
20/08/14 16:08

Amigos e conhecidos do maratonista Álvaro Teno, que foi atropelado e morto no sábado passado, quando treinava nas alamedas da Cidade Universitária, vão realizar um ato em homenagem ao veterano corredor e em solidariedade às demais vítimas do atropelamento.

O ato está sendo chamado de Black Run (corrida de preto) e tem como adendo: “Respeito ao atleta de rua – Luto pelo atropelamento criminoso de 16 de agosto”.

A seguir, coloco a íntegra do texto da convocação do evento, já com modificações feitas pelos organizadores.

“Devido à repercussão da BLACK RUN – RESPEITO AO ATLETA DE RUA, eu em conjunto com a ATC (Associação dos Treinadores de Corrida) e companheiros de treino do Sr. Álvaro Teno, tomamos algumas providências visando a segurança de todos e principalmente, O RESPEITO AOS AMIGOS E FAMILIARES.
“Muitos se solidarizaram e querem prestar uma merecida homenagem ao Sr. Álvaro.
“Para tanto, não queremos aglomerações que ponham em risco nós, o Campus e a própria homenagem em si.
“Dentro da USP NÃO haverá mais caminhada ou corrida ou qualquer tipo de evento que obstrua as vias do Campus (devido à quantidade de pessoas esperadas).
“No lugar do cronograma antigo, as coisas funcionarão da seguinte forma:
“Complementando a rotina de treinos dos atletas do Clube Paineiras, com quem o Sr. Teno treinava, a partir das 7:30h se reunirão em frente ao clube, saindo às 8h00 em direção a PRAÇA DO RELÓGIO na USP onde 9h00 faremos uma homenagem em conjunto, abraço coletivo ou uma oração e então eles retornarão ao clube Paineiras.

“Estão todos convidados. Como o próprio Alvaro dizia: “Quanto mais gente melhor “
“Como no início, pedimos que todos usem preto.
“Aos atletas que forem treinar normalmente na USP, pedimos que usem preto também.
“As questões mais “políticas” e canais importantes que foram abertos estão sendo trabalhados junto com a ATC – que já tem diversas propostas em andamento com a Prefeitura do campus. Vamos fazer uma linda homenagem e conscientização sobre o Atleta de Rua.
“Nos vemos sábado.”

O texto é assinado por Karen KaKa Riecken,  e você encontra a convocação original AQUI. Assim que tiver outras informações sobre o evento, publicarei atualizações nesta página.

Enterro de corredor atropelado na USP é neste domingo às 17h

Por Rodolfo Lucena
17/08/14 11:16

O maratonista Alvaro Teno, 67, atropelado e morto ontem enquanto treinava nas alamedas da Cidade Universitária, será enterrado neste domingo, às 17h, no cemitério do Araçá. O velório transcorre a partir das 12h, segundo informações que me foram transmitidas pelo treinador do senhor Teno, Carlos Cherpe.

Analista de sistemas, Teno corria havia mais de 30 anos. Agora estava se preparando para a meia maratona de Buenos Aires, no mês que vem; depois faria a maratona de São Paulo.

“Era uma pessoa muito dedicada, sempre com objetivos muito claros”, me disse Cherpe, que orientava os treinos de Teno havia seis anos, no grupo de corridas do clube Paineiras.

O veterano corredor foi o primeiro a ser atingido por um carro Toyota Corolla prata, dirigido por um motorista bêbado, segundo registro policial. Desgovernado depois de atingir Teno, o carro conduzido pelo pedreiro Luiz Antonio Machado, 43 –que foi preso em flagrante—ainda acertou três pessoas. Um quinto corredor conseguiu escapar do choque, mas levou um tombo e bateu a cabeça.

“Lembro de um carro prata atingindo um senhor e depois vindo para cima da gente, não due para fazer nada, ele estava muito perto”, me disse na manhã de hoje uma das vítimas, a biomédica Anelive Torres, 35, mães de dois filhos.

Torres estava se preparando para estrear na maratona –pretendia correr a prova de Buenos Aires em outubro—e corria com a amiga Eloisa Pires do Prado, 43, e com o treinador das duas, Andre Lyra Parmagnani.

A mais gravemente atingida foi Eloisa, que foi levada de helicóptero para o hospital Samaritano, onde passou por longas horas de cirurgia ao longo da tarde de ontem. No final do dia, segundo informações que recebi da assessoria de imprensa do hospital, ela foi para a recuperação.

O ex-treinador dela, Luiz Fernando Bernardi, esteve no hospital e informou: “As notícias são de que ela teve fraturas múltiplas nas duas pernas, rompimento de todos os ligamentos de um dos joelhos, fratura num dos ossos da face e na região do queixo. No quadril, teve perda de pele …Vai no futuro ter que fazer outras cirurgias reparadoras desses machucados”.

Anelive Torres, com quem conversei hoje me manhã, rompeu os ligamentos do joelho esquerdo, teve fratura na tíbia direita e várias escoriações. Provavelmente terá de passar por outras cirurgias até começar a se preparar novamente para a estreia na maratona, adiada, mas não abandonada.

Ela teve alta do hospital ontem à noite.  E me disse que o treinador da dupla está bem; quebrou o braço, pelo que ela soube, e já saiu do hospital.

O outro corredor atingido foi o taxista Ulisses Ramos, 43, que corre há 13 anos e há dois anos treina com a equipe Branca Esportes.

Eis o depoimento de Ulisses: “Oi, Rodolfo, foi muito horrível. O carro veio em alta velocidade para cima da gente. Eu pulei para a calçada. Na hora que levantei vi as pessoas no chão, fiquei com as moças conversando. Elas estavam conscientes, mas a médica estava muito machucada principalmente as duas pernas. Muito machucada. Eu fiz uma tomografia e estou bem, mas a imagem não sai da minha cabeça”.

Grupos de corredores e entidades da área estão preparando manifestação de apoio às vítimas e de protesto contra o acidente. Assim que eu tiver informações mais sólidas, concretas e confirmadas, publico neste blog.

Volto a dizer que atropelamento provocado por motorista alcoolizado não é acidente, é crime! Quem dirige bêbado assume o risco de perder o controle do veículo, atropelar, machucar e matar alguém.

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Corredor veterano morre atropelado na USP

Por Rodolfo Lucena
16/08/14 13:16

Um acidente na manhã de hoje na USP matou um corredor e deixou feridos pelos menos outros três atletas que faziam exercícios nas alamedas da Cida Universitária, na zona oeste de São Paulo.

Eles foram atropelados por um carro; o motorista, segundo algumas pessoas com quem conversei, estaria bêbado.

16 usp 5 alvaro tenoO senhor Alvaro Teno, de 67 anos, não resistiu aos ferimentos e morreu, segundo me disse seu treinador, Carlos Cherpe, que cuidava da orientação de Teno havia seis anos. O veterano atleta treinava com o grupo de corridas do clube Paineiras, o Scorp.

Sobre ele, o treinador Diego Lopes colocou em sua página em uma rede social: “Conheci o Sr. Álvaro no final da década de 90… ele competia na época as provas da Corpore contra um atleta nosso, Frei Orlando. Atualmente com mais de 60 anos, era um dos corredores mais fortes que eu já conheci… exemplo de vitalidade… e agora nos deixa após ser atropelado covardemente em um dos seus treinos rotineiros hoje na USP. Estou inconformado…”

Os outros atingidos foram um personal trainer e duas de suas alunas, conforme informações que obtive com Luiz Fernando Bernardi, da Find Yourself, ex-treinador de uma das atletas feridas.

Essa ex-aluna dele é a médica Eloísa Pires do Prado, especialista em otorrinolaringologia que atuava no Hospital São Camilo. Bernardi me contou que chegou a ficar com ela, segurando a mão da atleta, nos últimos momentos dos primeiros socorros. A corredora ferida teve de ser levada para o hospital de helicóptero. Naquele momento, ela estava consciente, mas seu estado era grave, tinha fraturas múltiplas.

A doutora Eloísa passou por longa cirurgia e, por volta das 20h, já tinha sido levada para a recuperação. Bernardi foi ao hospital, conversou com o marido da atleta e com um médico e divulgou as seguintes informações: “As noticias são de que ela teve fraturas múltiplas nas duas pernas, rompimento de todos os ligamentos de um dos joelhos, fratura num dos ossos da face e na região do queixo. No quadril, teve perda de pele …Vai no futuro ter que fazer outras cirurgias reparadoras desses machucados”.

Segundo as informações que Bernardi obteve, a médica não corre risco de morte. Ele escreveu em sua página nas redes sociais: “Vamos torcer por sua RECUPERAÇÃO … Elô .. sempre GUERREIRA … vai vencer esse desafio que encontrou na VIDA …. “.

A outra corredora é Anelive Torres, que foi atendida e, pelo que pude apurar, está fora de perigo. O personal delas, de quem ainda não tenho notícias, é Andre Lyra Parmagnani, segundo me disse Cleide Bernardi, da Find Yourself.

Outro corredor atingido foi o taxista Ulisses Ramos, 43, que corre há 13 anos e há dois anos treina com a equipe Branca Esportes.

Eis o depoimento de Ulisses: “Oi, Rodolfo, foi muito horrível. O carro veio em alta velocidade para cima da gente. Eu pulei para a calçada. Na hora que levantei vi as pessoas no chão, fiquei com as moças conversando. Elas estavam conscientes, mas a médica estava muito machucada principalmente as duas pernas. Muito machucada. Eu fiz uma tomografia e estou bem, mas a imagem não sai da minha cabeça”.

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Essas foram as informações que consegui apurar com fontes próximas aos feridos. Há muita coisa sendo publicada nas redes sociais. Cito aqui uma delas, sem incluir o nome do autor, porque não consegui confirmá-la. Fica o registro, porém: “Estava por lá, muito forte as cenas, muito triste o fato. Motorista bêbado e quase linchamos o desgraçado que estava rindo de tudo e todos”.

O perfil Divas que Correm publicou uma foto do momento do socorro e o comentário: “Manhã MUITO TRISTE na USP. Quatro corredores atropelados. Um foi levado inconsciente. Três imobilizados na maca, sendo duas mulheres que tinham o sonho de correr a Maratona de Buenos Aires pela primeira vez. O motorista bêbado foi preso rindo. Os corredores, revoltados, gritam e jogam pedras no carro completamente destruído. A polícia isola a área e pede calma. Até quando vamos conviver com isso?”

16 usp 2 carro

De fato, é uma tragédia, mas, como em outros casos semelhantes, que fique claro: NÃO FOI ACIDENTE. Quando alguém bêbado assume a direção de um carro está assumindo também o risco de provocar eventos terríveis como o da manhã de hoje na USP.

Deixo meu abraço a todas as vítimas, amigos e parente do senhor Teno. Peço desculpas por eventuais erros de grafia em nomes ou mesmo sobre as idades; todas as pessoas com quem falei estavam bastante abaladas, como é natural. Este texto tem o que de melhor consegui obter de informações até agora.

Reportagem da Folha atualizada às 13h18 de hoje diz o seguinte: “Luiz Antônio Conceição Machado, 43, que dirigia o Toyota Corolla prata que atropelou as cinco pessoas, foi preso em flagrante. Ele será indiciado sob suspeita de embriaguez ao volante e homicídio culposo (sem intenção). De acordo com policiais, o motorista disse ter perdido o controle após cochilar ao volante. “Fizemos o teste do bafômetro, que marcou 0,54 decigramas de álcool, acima do limite”, disse o cabo Jeferson Dias, que deteve o motorista”.

O texto também informa: “Segundo a PM, por volta das 9h, o motorista do carro perdeu o controle e atingiu cinco pessoas que corriam na rua, próximo ao portão 1, o principal do campus. Após atingir as pessoas, o veículo invadiu a calçada e bateu numa árvore. De acordo com Dias, testemunhas relataram que ele tentou da marcha ré para sair com o carro, mas foi impedido por frequentadores do campus.”

Uma corredora afirmou: “Nossa, agora que estou lembrando. Travei a imagem da minha memória. Eu vi um rapaz sair de maca, com a perna toda enfaixada e o rosto todo machucado, mas de olhos abertos e espertos”. Também disse que havia mais do que quatro ambulâncias no atendimento.

16 usp 3 ambulancias

 

As fotos aqui publicadas foram produzidas por uma das editoras do perfil Divas Que Correm, que fez comentário sobre o meu texto e autorizou o uso das imagens. No perfil “Divas…” , no Facebook, há outras fotos. O retrato do senhor Alvaro Teno foi publicado originalmente no perfil da jornalista Roberta Palma.

A Folha publicou vídeos produzidos por corredores que estavam no lacal. Veja a reportagem e as cenas clicando AQUI.

Lembro que fiz este texto logo que soube do caso e fui fazendo edições e alterações ao longo do dia, sempre com a melhor informação conseguida no momento. Continuamos na torcida pela melhora dos feridos. Fica a solidariedade aos amigos e familiares do senhor Teno

Quarentona e mãe de dois filhos, corredora se torna a mais velha campeã europeia de atletismo

Por Rodolfo Lucena
13/08/14 10:00

13 jo pavey quarentona Menos de um ano depois de ter dado à luz seu segundo filho e 39 dias antes de completar 41 anos, a britânica Jo Pavey deu um show de resistência e velocidade ao vencer na noite desta terça-feira (11) a prova de 10.000 m no Campeonato Europeu de atletismo (foto AP).

Com a vitória na competição, realizada no Letzigrund Stadium, em Zurique, ela se torna a mais velha campeã europeia  de atletismo da história.

Há dez dias, Pavey já tinha mostrado que não estava ali para brincar: conquistara a medalha de bronze nos 5.000 m.

Feliz da vida depois do ouro na prova mais longa, ela ainda deu a volta olímpica carregando nos braços a sua mais nova bebê, Emily, de 11 meses.

Na prova, a atleta resolveu escapar do pelotão quando ainda faltava uma volta para o final. Ao longo dos 400 metros decisivos, sofreu o ataque da francesa Clemence Calvin, mas conseguiu resistir às investidas da corredora, 16 anos mais jovem do que a campeã.

Assim, Pavey desbanca a russa Pavey desbanca a russa Irina Khabarova como mais velha medalhista de ouro nos 80 anos do Europeu de atletismo. Khabarova intregou a equipe russa que venceu o 4x100m em 2006, quando tinha 40 anos e 27 dias.

Apesar da evidente alegria pelo recorde, a britânica foi contida na hora de comentar: “É um índice muito bacana de conquistar. É uma grande honra”, disse ela.

Pavey é a própria mãezona, mesmo nos treinos, costumeiramente feitos em família. Os exercícios são orientados por seu marido, também seu técnico, que costuma levar Emily no colo. Enquanto issso, o mais velho, Jacob, 4, imita a mãe fazendo arrancadas e tiros rápídos numa pista secundária.

Estavam todos em Zurique. “Foi muito emociontante tê-los comigo”, disse ela, que é uma competidora muito consistente: nunca terminou em posto abaixo do quinto em todas as provas anteriores que disputou em campeonatos europeus.

Na prova deesta terça, era a quinta mais rápida, mas, como já se sabe, retrospecto não ganha jogo. Ela correu por fora, na pista dois, a maior parte do tempo. Ficou um tempão no pelotão perseguidor e, com duas voltas para o final, alcançou o terceiro posto. Ao som do sino, mandou ver. O resto é história.

Apesar da alegria e de seu espírito discreto, não deixou de contar a guerra que ocorre no meio do pelotão: “Aposto que muita gente está me criticando por ter corrido por fora a maior parte do tempo, achando que eu poderia fazer um tempo melhor. Acontece que eu levava pisadas cada vez que tentava entrar no pelotão. Cheguei a ficar preocupada…

Sobre a última volta, ela comentou: “Comecei segurando, tentando fazer uma volta mais controlada, para não perder o gás na reta final. Mas eu não sabia onde as outras meninas estavam, então disse para mim mesma: manda ver e vai com tudo, que você não vai se arrepender”.

De fato. O tempo cravado, 32min22s39, e a medalha de ouro provam o acerto de sua decisão.

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