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Rodolfo Lucena

+ corrida

Perfil Rodolfo Lucena é ultramaratonista e colunista do caderno "Equilíbrio" da Folha

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Tribo de corredores descalços vira filme com Matthew McConaughey

Por Rodolfo Lucena
30/01/15 11:22

caballo matthewAdeptos da corrida descalça e dos calçados minimalistas, preparem-se! Vem aí mais uma super-hiper campanha de divulgação desse estilo, que proclama ser mais integrado com a natureza. Isso porque foi dada a largada para a produção de um docudrama baseado no livro “Nascido Para Correr”, que foi a faísca do movimento dos pés livres. E a estrela é ninguém menos que o queridinho de Hollywood Matthew McConaughey (foto Reuters).

Ele vai interpretar o jornalista Christopher McDougall, que escreveu o livro e também se coloca como personagem na história. Para quem não sabe, trata-se do relato da busca que faz o jornalista para encontrar os tarahumara, lendária tribo de índios mexicanos que vive a correr, sempre de pés descalços ou usando uma sandália que mal e mal protege os pisantes.

Nesse périplo, sua porta de entrada é por meio do não menos lendário Micah True, mais conhecido no meio dos ultramaratonistas como Caballo Blanco, que acaba sendo o fio condutor da história.

O livro se tornou um best-seller internacional, inspirando o movimento da corrida descalça e ajudando a vender os calçados minimalistas. Quanto ao filme, ainda não há data prevista sequer para o início da produção –menos ainda, portanto, para a entrada em cartaz.

caballo filme doc cartazEm contrapartida, no final do ano passado chegou à edição final um documentário sobre o próprio Caballo Blanco, que morreu em 2012 durante uma corrida solitária por trilha nos EUA.

As primeiras filmagens foram feitas em 2009, e há registros tanto de corridas de Micah quanto de treinos dos tarahumara, cenas das homenagens em memória de Caballo Blanco e da edição de 2013 da ultramaratona que ele idealizou e durante vários anos realizou entre os tarahumara.

Além de divulgar a filosofia dos corredores descalços, um objetivo do documentário “Run Free” é arrecadar fundos para a comunidade –coisa que, por sinal, era também a meta de Caballo Blanco. O filme deve estar pronto no final deste ano(fotos Divulgação).

Se você quer saber mais sobre a história de Caballo Blanco continue lendo. A seguir, copio reportagem que escrevi sobre ele pouco depois do anúncio de sua morte, em 2012. O texto foi publicado na revista “O2”, onde tenho uma coluna mensal em que apresento histórias de corredores e, de vez em quando, também conto coisas das minhas corridas. Agora, com você, Caballo Blanco.

caballo filme doc micah

 

CABALLO BLANCO, ADIÓS!

 Naquela manhã, o cachorro ficou. No dia anterior, Guadajuko tinha acompanhado seu dono por quilômetros sem fim nas trilhas selvagens da floresta de Gila, no Novo México. Suas patas estavam doloridas do cascalho e do terreno duro, precisava se recuperar para ter forças para seguir a jornada.

Caballo Blanco, porém, não deu descanso a seu próprio corpo. Como fizera todos os dias em que esteve na pousada de um casal de amigos, acordou cedo, tomou um café da manhã espartano e saiu para sua corrida matinal. Pretendia fazer em torno de 20 km, o dobro do treino do dia anterior. Saiu de calção e camiseta, levando apenas uma garrafa de água. Nunca mais voltou.

Era a manhã de terça-feira, 27 de março. À noite, quando o peregrino ainda não havia retornado, a inquietude tomou conta da pousada. Havia anos Caballo Blanco percorria as trilhas da floresta, não era um debutante incauto. Especialista em percursos selvagens, conhecia as normas de segurança, sabia dos riscos envolvidos nos percursos solitários por caminhos inóspitos, aonde não chegavam carros, motos ou bicicletas: eram trajetos que só o homem desbravava. Alguma coisa de errado havia acontecido. Alguma coisa muito errada.

Na manhã seguinte, nada de Caballo Blanco. A polícia foi avisada, chegaram os guardas florestais, a notícia se espalhou pela comunidade dos ultramaratonistas, grupo de corredores se somaram às equipes de busca. Ao lado de atletas anônimos, nomes famosos como os de Scott Jurek, campeão das ultras Badwater e Western States, e do escritor Christopher McDougall, autor de “Nascido para Correr”.

Não era para menos: seu livro é praticamente baseado na trajetória de Caballo Blanco, que, por sua vez, apesar de já ser então muito conhecido na comunidade dos ultras, foi alçado à categoria de mito, de lenda corredora, pela obra de McDougall.

Branco, de longos cabelos cada vez mais ralos, magro, forte, com mais de 1,80 m de altura, Caballo Blanco se transformou na encarnação do espírito da tribo mexicana conhecida como Tarahumara, que cultuam a corrida como uma espécie de religião e fazem das longas jornadas pelos cânions mexicanos uma espécie de trajetória rumo à paz e ao autoconhecimento. São os corredores de pés descalços (ou quase, pois usam sandálias primitivas feita de tiras de couro e borracha), cuja história, narrada em “Nascido para Correr”, alavancou a moda dos tênis minimalistas, da corrida dita “natural”.

Conhecidos há anos pela comunidade de vida alternativa, os Tarahumara começaram a ganhar as manchetes do mundo das corridas em 1993, quando um grupo deles participou da ultramaratona de Leadville, no Colorado. Suas aldeias tinham sido atingidas pela fome, o povo enfrentava doenças, sua pobreza milenar chegava a níveis da miséria; os atletas saíram do seu recanto perdido nos cânions das Barrancas Del Coble para enfrentar os gringos em troca de comida.

Na mesma prova, lá estava Caballo Blanco. No início do ano, sofrera um grave acidente enquanto andava de bicicleta, acabou em uma UTI de um hospital do Colorado. Quando se restabeleceu, resolveu correr uma ultramaratona para celebrar a vida –ele já vinha, então, participando de ultras havia vários anos.

Durante a corrida, conversou um pouco com Victoriano, o mais velho dos Tarahumara, com 55 anos, que vinha no passo lento, pouco a pouco ganhando terreno até vencer a prova. Foi seguido pelos conterrâneos Cirrildo e Manuel Luna, deixando para trás a elite dos ultracorredores norte-americanos.

Viraram manchete. No ano seguinte, 1994, Leadville encheu. Vinha gente de todos os cantos para correr com os Tarahumara. Desta vez, era um grupo diferente, mas sempre vestindo suas velhas sandálias e suas roupas tradicionais, mais parecidas com longos vestidos, que lhes davam um ar fantasmagórico. Caballo serviu de pacer para Martiniano, um dos guerreiros mexicanos, e também lhes deu dicas para enfrentar a prova: deviam perseguir “La Bruja”, Ann Trason, uma das maiores ultracorredoras da época, que estava lá para dar o troco dos corredores “de verdade” àqueles índios serenos e velozes.

No final das contas, ela assumiu a liderança, desafiando os Tarahumara: “Pergunte a eles como se sentem sendo passados por uma mulher”, teria dito ela quando tomou o primeiro posto. Mas uma ultramaratona de 160 km só acaba quando termina, e a vitória acabou sorrindo para os guerreiros mexicanos. O jovem Juan bateu o recorde da prova por quase 30 minutos, fechando em 17h30; Ann chegou em segundo, com novo recorde feminino (18h.04). E Martiniano completou em terceiro, em 19h40, tempo suficiente para os dois, ele e seu pacer, o gringo Caballo Blanco, ficarem amigos.

Caballo apaixonou-se pelo estilo de corrida dos Tarahumara, pelo seu jeito de ver a vida, e se mandou para os cânions mexicanos. Foi com a cara e a coragem, viver em um barraco nas profundezas do vale, correndo sempre que podia, vivendo do que lhe era possível.

A pobreza e a vida dura não eram novidade para o corredor. Lutar pela sobrevivência também não –aliás, na juventude, literalmente tirou dos punhos o ganha-pão, trabalhando como boxeador em lutas de exibição e em outras tantas para valer. De certa forma, o nomadismo lhe vinha do berço.

Filho de um sargento dos Fuzileiros Navais –os temíveis e temidos Mariners–, Caballo Blanco nasceu em 10 de novembro de 1953, em Oakland, Califórnia, e teve por nome Michael Randall Hickman. Por causa da profissão do pai, a família viajava muito, e a cada nova escola, o franzino Mike tinha de dar um jeito de não ser espancado pelos veteranos. Sua tática era entrar de imediato nas mais baratas aulas de boxe disponíveis, fossem na escola ou em alguma academia local.

Acabou usando os punhos para ajudar a pagar a faculdade –estudou religiões orientais e a histócia dos nativos norte-americanos. Com a alcunha de Gypsy Cowboy, participava de combates arranjados. Ganhou algum dinheiro, até que encheu e resolveu cair fora.

Seu espírito aventureiro o levou a andar de um lado para outro, viajando de carona, fazendo bicos para viver. Na primeira metade de seus 20 anos, viveu uns tempos no Havaí –chegou a morar em cavernas, contam algumas histórias. Teve uma espécie de iluminação e resolveu ser uma nova pessoa, Micah True, tomando por nome a identidade de um profeta citado no Antigo Testamento e por sobrenome o apelido que um cãozinho que com ele vivia.

No Havaí, encontro um eremita chamado Smitty, que o apresentou à arte de correr. Os dois percorriam quilômetros e mais quilômetros pelas florestas e montanhas havaianas, ganhando paz e autoconhecimento.

Não dava, porém, para viver por ali a vida toda. Gypsy Cowboy, agora Micah True, voltou ao Colorado, retornou aos combates e se manteve correndo. Uma desilusão amaroso pôs fim à sua ascendente carreira de boxeador, abriu espaço para que o nomadismo tomasse conta de seu espírito.

Vagou pela América Central. Nos caminhos perdidos da Guatemala, ganhou dos índiso o apelido de Caballo Blanco, aquele ser estranho, de pele clara, que corria por tudo sem cessar.

“Em meados dos anos 1980, eu estava correndo cerca de 8.000 km por ano, mas não chegava a participar de corrida. A primeira prova de que participei foi a ultra Rocky Mountain 50, de 80 km, que venci em 6h12. Comecei então a competir, e foi então que comecei a me machucar, quando eu passei a me levar muito a sério”, disse ele em uma entrevista ao “Running Times” em 2010.

Assombrado por lesões, resolveu parar de participar de provas e apenas correr como gostasse; de vez em quando, andava de bicileta. Até o tal acidente que o deixou quase à marte e que o levou novamente à ultra de Leadville e ao encontro com os Tarahumara, que chama de Raramuri.

Este, aliás, é o nome “certo” da tribo, é como eles se chamam. Tarahumara seria a palavra criada pelos invasores espanhóis, que não conseguiam pronunciar o nome índio. Significa povo que corre ou povo das passadas leves. Com eles, Caballo Blanco aprendeu a pisar com a parte da frente do pé, a usar sandálias baixas, a ser mais “natural” na sua passada e a ter na corrida um caminho para a paz, o autoconhecimento, a humildade, a sabedoria. Tudo sempre temperado por algumas cervejas, que ninguém é de ferro.

Depois de sua primeira estada com os raramuri, Cabllo voltou a Boulder, Colorado, onde vivia. Contou à cidade sobre o modo de vida daqueles índios e arrecadou algumas centenas de agasalhos para levar à tribo. Passou a viver assim: uma parte do ano entre os índios, outra na cidade norte-americana, onde trabalhava o suficiente para conseguir levar uma vida simples pelo resto do ano.

No início dos anos 2000, começou a pensar em novos jeitos de ajudar os índios para quema corrida era quase uma religião. Nasceu assim, em 2003, a Copper Canyon Ultramarathon, ujma corrida muito especial nos cânions mexicanos. Aos poucos, a corrida cresceu, ganhou a presença de mais gringos, até à famosa edição de 2006, que é retratada no livro “Nascido para Correr”, que teve a presença de Scott Jurek e de Ted Pés Descalços (Barefoot Ted), ultracorredor famoso por correr, sem tênis, distâncias insanas.

“Com a ultra, mais raramuris voltaram a correr”, disse Caballo Blanco em uma entrevista ao blog Flintland no final do ano passado. “Eles estão ganhando do ponto de vista material, mas também de formas mais profundas, porque estão recuperando suas mais antigas tradições. Estão retomando a corrida da bola (uma corrida especial dos raramuris). E têm condições nutricionais de fazer esse exercícios.”

A mais recente edição da ultramaratona aconteceu no início de março passado com a presença de cerca de 500 corredores.

“Do primeiro instante até o ultimo momento, o cânion de Urique esteve unido numa celebração da corrida”, escreve em seu blog o corridor canadense Flint. “Todas as diferenças desapareceram à medida que a longa e colorida linha de pessoas se movimentava morro acima e morro abaixo pelas trilhas ensolaradas. Os únicos sons ouvidos eram o eco dos gritos de incentivo de próprios corredores e as batidas de suas passadas pelos caminhos rochosos.”

“Todos são vencedores”, disse Caballo Blanco aos participantes. Depois da prova, voltou para sua cabana, onde ficou por mais alguns dias até iniciar sua jornada de volta para os braços de sua namorada, Maria Walton, La Mariposa, que conhecera também pelas corridas da vida.

Ultramaratonista, ela certa vez mandou e-mail para Caballo Blanco pedindo dicas para melhorar sua corrida. Os dois acabaram virando um casal.

Agora, antes de encontrar-se com ela, Caballo fez sua tradicional parada no Novo México. “Ele fazia isso há mais de 16 anos”, me disse por e-mail seu agente e amigo Scott Leese. “Conhecia profundamente a floresta de Gila, conhecia as trilhas, o terreno, a topografia…”

A estada no Novo México era uma espécie de férias para Caballo Blanco. Ao longo do ano, ficava cerca de seis meses nas Barrancas Del Coble tratando da organização da prova e trabalhando com o povo Raramuri –ele também participava de uma ONG que levantava recursos para ajudar a proteger a cultura e a vida dos índios da região.

Quando estava em Boulder, no Colorado, costumava levantar de madrugada, por volta das 4h. Checava mensagens no computador, entrava nas redes sociais, comia um pouco de aveia, frutas, tomava café e saía para correr. O treino podia ser de 16 km ou de 32 km, o que lhe desse na veneta. Voltava, descansava, conversava, tratava de fazer o que fosse necessário para a corrida.

“Ele levava uma vida simples”, diz Leese. “Todas as suas propriedades cabiam no porta-malas de sua caminhonete: uma mochila com algumas roupas, seu laptop e comida para Guadajuko. Ele não enchia sua vida de coisas. Nunca foi muito ligada em nada física, a não ser Maria e seu cachorro. Simplicidade é coisa dos gênios…”

Mesmo os gênios têm seus problemas. Até o fechamento desta edição, não era conhecida ainda a causa da morte de Caballo Blanco, que tinha 58 anos. Seu corpo só foi encontrado no final da tarde de sábado, 31 de março, em um local de difícil acesso.

“Acho que ele já fazia o caminho de volta da corrida quando não se sentiu bem e sentou-se em uma rocha –normalmente, ele nunca parava durante suas corridas. Então alguma coisa aconteceu, e ele teve morte súbita”, diz Leese.

O anúncio da morte provocou uma onda de dor no mundo das ultramaratonas. Nos Estados Unidos e onde quer que Caballo Blanco fosse conhecido, multiplicaram-se as corridas em homenagem a ele.

Para lhe render tributo, será erguido um Memorial, e a Fundação Caballo Blanco seguirá realizando a prova que é sua herança para os corredores do mundo todo. Caballo Blanco corre entre nós.

 

 

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Recorde mundial de um brasileiro nos 100 km completa 20 anos em 2015  

Por Rodolfo Lucena
28/01/15 17:43

Mais para a frente, quando estivermos perto da data exata, pretendo contar a história com mais detalhes. Mas não posso deixar de lembrar que neste 2015 comemoram-se 20 anos do que talvez seja o primeiro recorde mundial de um brasileiro em provas de longa distância. Disse talvez porque sempre pode haver alguma marca menos divulgada –mas eu não a conheço.

O recorde é na modesta distância de 100 km, e o recordista é o santista Valmir Nunes, que completou neste janeiro 51 anos.

Pois no dia 16 de setembro de 1995, na cidade holandesa de Winschoten, ele correu a distância em 6h18min09. É a quarta melhor marca de todos os tempos, e Nunes é o terceiro cemquilometrista mais veloz da história –à frente dele estão o recordista mundial, o japonês Takahiro Sunada (6h13min33 em 1998, no Japão), que também é dono da terceira melhor marca, e o belga Jean-Paul Praet (6h16min41).

O tempo de Valmir ainda é recorde sul-americano –de fato, é a melhor marca das Américas, mas IAAF divide nosso supercontinente em duas regiões.

O que não quer dizer que o melhor ultramaratonista brasileiro faça sempre tudo certo. Neste último domingo (25), por exemplo, ele abandonou uma corrida de 160 km por desidratação –ou seja, não soube administrar os recursos que tinha ou não conseguiu avaliar a tempo a gravidade da situação em que se encontrava.

Liderou as 100 Milhas Coldwater, no Arizona (EUA) até a metade do percurso. Já vinha mal, porém, e não conseguiu prosseguir.

“Com 65 km, estava bem distante do segundo, cerca de 6 km à frente, comecei a sentir sede e os postos de hidratação eram distantes. Senti os braços formigarem e dificuldade para respirar, até para caminhar, isso com 80 km. Pensei em todos que me ajudam a fazer o que amo, como a Kelly (esposa) e a Natasha (filha), pedi ajuda e apaguei”, contou Valmir, segundo material distribuído por sua assessoria de imprensa.

Ele teve de ser hospitalizado. “No hospital, foi constatado pelos médicos que meu corpo não tinha água. O susto foi grande, mas já estou bem”, disse.

Ele apela para a filosofia: “A vida é assim. Vivemos o dia a dia. Um dia feliz, outro triste e tudo passa”. E não joga a toalha: dia 7 de março volta aos Estados Unidos para as 100 Milhas da Carolina.

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Inscrição para a maratona de SP custa R$ 50 até a semana que vem

Por Rodolfo Lucena
26/01/15 10:23

Esta é uma promoção que vale a pena para quem acha que vale a pena correr a maratona de São Paulo: as inscrições para todas as modalidades do evento saem por R$ 50 até o próximo dia 3 de fevereiro (terça-feira da semana que vem).  A oferta só vale para pagamentos por boleto bancário.

O preço cheio para a maratona e as provas de 15 milhas (24 km) e 5 milhas (8 km) é de R$ 130. Depois do período desse desconto de lançamento –após o dia 3.2, portanto— ainda possibilidade de registro sem pagar o preço cheio. Vai depender da época em que o interessado fizer sua inscrição e da forma de pagamento (confira tudo certinho tintim por tintim no site oficial, AQUI).

O preço de R$ 50 é mesmo muito bom, mais baixo do que o cobrado por muita prova de 10 km por aí, menos da metade do valor da inscrição para a última São Silvestre. O que cada um tem de avaliar, é claro, é se a prova vale a pena.

O horário previsto para a largada geral é “a partir” das 7h30. Não é ainda uma boa hora para começar maratonas no Brasil, mas é melhor do que nove da manhã.

A maratona de São Paulo é a segunda maior do país em número de concluintes, ficando atrás da prova do Rio de Janeiro. Não é uma prova muito rápida: no ano passado, metade dos concluintes homens chegou em mais de 4h33min46, enquanto metade das mulheres chegou em mais de 4h56min34.

Os cálculos foram feitos por Danilo Balu, do blog Recorrido, em parceria com o treinador Nelson Evêncio. Confira AQUI outros números das maratonas brasileiras.

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Jennifer Lopez é a corredora que mora ao lado

Por Rodolfo Lucena
23/01/15 14:33

jlo filme

Bem, para nos atermos exclusivamente aos fatos, o título do filme é “O Rapaz que Mora ao Lado” ou “O Vizinho” ou sabe-se-lá-qual nome será dado em nosso país para “The Boy Next Door”, suspense carregado de erotismo, estrelado por Jennifer Lopez, que chega nesta sexta-feira (23) aos cinemas nos EUA.

Pelo que li a respeito, a fita não tem agradado muito aos críticos –é bem capaz de o público adorar–, mas não é por sua qualidade (ou falta de) que o filme estrela as páginas deste blog.

Acontece que a personagem interpretada por Jennifer Lopez, uma professora traída pelo marido e rumo ao divórcio, tem como hobby a corrida. Por desejo ou raiva, sai pelos campos afora tentando expurgar do corpo o sofrimento. Em algumas corridas, termina esgotada, tem de parar e se dobra toda como na cena capturada na imagem do alto (Reprodução).

Claro que, no filme, a corrida importa muito pouco. Mas acho que os editores gostaram das artes de J-Lo em roupas esportivas, pois o trailer disponível na internet abre exatamente com uma corrida pelos campos, no áudio apenas o bufar, resfolegar e gemer de La Lopez (confira AQUI).

O filme desembesta quando ela conhece um rapaz mais novo que está passando uns dias na casa ao lado (Jennifer, por sua vez, como parece evidente, é a corredora que mora ao lado…).

Os dois têm uma breve paixonite, mas o garoto fica fissurado na atlética vizinha, e a fita vira uma espécie de “Atração Fatal” às avessas –ih, talvez você não conheça esse filme, que é do século passado; nele, Glenn Close fica doidona por Michael Douglas e ultrapassa todos os limites do bom senso para ter o homem que deseja.

Bueno, deu para entender a relação, imagino eu.

Voltando à estrela do momento, o legal é que Jennifer Lopez tem mesmo um viés esportivo. Gosta de fazer caminhadas, dá suas corridinhas e chegou até a participar de um triatlo em 2008, como mostram as imagens abaixo (AFP).

jlo triatlo 2008 afp malibu

Confira AQUI outras cenas daquela momentosa competição, que teve ainda a presença do astro de Hollywood Matthew McConaughey, que na época estava bem mais fortinho do que nos últimos tempos, quando emagreceu um monte para participar do filme “Clube de Compras Dallas” (ótimo, por sinal) e da série televisiva “True Detective”.

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Conheça os riscos de correr no calor e saiba como se proteger

Por Rodolfo Lucena
21/01/15 10:19

Vou lhe dizer: eu sou um sujeito azarado. Apostas, loterias, prêmios, rifas, tudo isso passa longe de mim. Para não dizer que nunca ganhei nada, lembro-me de ter sido premiado em uma rifa em festa da escola, no quarto ano do ginásio (aposto que você nem tinha nascido ainda…). Foi um bolo confeitado. Nem comi.

Conto tudo isso para dizer que, justo no dia que escolhi para escrever sobre o impacto do calor em nossa corrida de cada dia, calhe de ficar nublado aqui em São Paulo. E, segundo me dizem os meteorologistas, vem por aí uma frente fria. O que vale é que as altas temperaturas voltarão, e fevereiro será um forno.

Não que eu fique satisfeito com isso –prefiro clima mais ameno. Mas, pelo menos, não perco a viagem; quero dizer, as pesquisas que fiz para produzir este texto.

Bueno, todo mundo sente na pele as consequências do forte calor. A gente se cansa mais rápido, às vezes fica agoniado, se sente sujo, pegajoso, quer banho a toda hora, não tem vontade de se movimentar e por aí vai. O corredor, porém, tal como o sertanejo, é antes de tudo um forte: se o treino pede X, a gente vai para a rua para fazer X e nem um pentesilhésimo a menos, qualquer que seja a marca no termômetro.

Isso é um erro! Uma c****** das boas, que pode ter consequências desastrosas para a saúde. Quem adverte é nada menos do que a Associação Internacional de Maratonas e Corridas de Longa Distância (AIMS). Em documento de orientação sobre os aspectos médicos da prova, lembra que os riscos de dano provocado pelo calor aumentam muito com temperaturas acima de 21ºC e 50% de umidade; acima de 28ºC, as condições são consideradas muito severas.

A entidade montou um sistema de bandeiragem para classificar o grau de risco das condições climáticas. Temperaturas acima de 28 graus recebem bandeira preta: a prova deve ser suspensa ou os competidores devem ser alertados para não participar do evento. Claro que são linhas gerais de orientação; o próprio texto (AQUI, em inglês) nota que, se essas recomendações fossem seguidas à risca, muitas provas em Mundiais e mesmo em Olimpíadas teriam deixado de ser realizadas.

Se as provas não são suspensas, o que se dirá então de nossos treinos. Nesta semana, por razões profissionais, estive no parque Ibirapuera por volta do meio-dia. Fiquei impressionado com a quantidade de gente treinando, correndo, suando em bicas, vermelhões etc. e tal.

Olha, como você sabe, não passo de um corredor interessado. Não sou treinador nem especialista em fisiologia, mas já corri muito pelo mundo e já conversei e entrevistei um enorme rol de especialistas. Vou lhe dizer: a gente não ganha nada com esse tipo de treino. Só se perde tempo e dá menos ajuda ao corpo para se recuperar do esforço.

Falo isso para quem está treinando com um determinado objetivo, que tem uma prova alvo ou uma meta definida no tempo. A razão: o objetivo do treinamento é preparar o corpo para enfrentar, em um determinado momento no futuro, um enorme grau de estresse concentrado –a prova alvo.

Para isso, são organizadas sessões progressivas de esforço, seja de volume de corrida, seja de intensidade. Entre elas, é preciso dar descanso para o corpo não apenas se recuperar, mas ficar mais forte; esse é um dos princípios básicos do treinamento. Se o esforço é demais, na hora errada, e o descanso é de menos, a equação se desmonta…

Acredito, porém, que a maioria das pessoas que correm por aí o faça por pura diversão, para desestressar, perder peso, entrar em forma ou qualquer outra razão, menos competir. E correm quando podem, muitas vezes rasgando o asfalto na folga do almoço.

Mesmo esses podem se beneficiar de algumas medidas básicas para defender o corpo do calor. Vamos a elas, que são recomendadas pela IAAF (a Fifa do atletismo), livremente adaptadas e interpretadas por este que vos escreve.

  1. Procure correr nos horários mais frescos do dia. Para quem está com uma programação organizada de treinamento, vale a pena acordar ainda mais cedo para fugir da maior unidade e calor. Se ainda estiver escuro e você treinar nas ruas, tome medidas para ficar bem visível. Se seu único horário disponível for o meio-dia e você não quiser abrir mão dele, confira as dicas a seguir.
  2. Refresque-se antes de começar o treino. Trata-se de tentar reduzir o calor corporal –a Deena Kastor, por exemplo, usou um colete térmico (gelado, é claro) enquanto esperava, na sombra, a largada para a maratona olímpica em Atenas-2004. Para nós outros, vale tomar água gelada antes de partir ou passar uma toalha molhada na nuca, que é sempre refrescante.
  3. Mantenha-se hidratado. Isso vale para o dia inteiro, antes, durante e depois dos treinos. Cada um tem uma exigência diferente de hidratação; eu costumo tentar beber um copinho de 200 ml ou 300 ml a cada meia hora, 40 minutos. Tim Noakes, um dos mais célebres estudiosos da corrida, recomenda de 400 ml a 800 ml por hora—as maiores quantidades são indicadas para corredores mais lentos ou mais pesados.
  4. Reduza a intensidade do treinamento. Diminua o tempo e/ou o ritmo da puxada. Só o poder do calor vai fazer com que seu ritmo se reduza em cerca de 20%; não lute contra isso. Troque sessões de treino de velocidade, por exemplo, por rodagens mais leves em que você possa prestar mais atenção ao seu estilo. Quem corre de forma mais econômica rende mais e gasta menos energia –portanto, sofre menos com o calor.
  5. Use roupas adequadas. Parece óbvio por demais, mas a gente vê cada coisa por aí…

Bom, essas são as cinco grandes linhas da IAAF. Acrescento que é bom não esquecer o protetor solar.

Em resumo, não derreta, por favor. Beba mais água, vá com calma e aproveite.

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Ex-mexicano olímpico vira campeão norte-americano da meia maratona

Por Rodolfo Lucena
19/01/15 13:54

Diego Estrada, que defendeu o México nos 5.000 m na Olimpíada de Londres-2012, sagrou-se neste domingo campeão norte-americano da meia maratona. Ele venceu a prova realizada em Houston, Texas, com o respeitável tempo de 1h00min51.

Visto em perspectiva histórica, essa marca não é grande coisa: a meia maratona já foi corrida em menos de uma hora mais de cem vezes. Neste ano, porém, iguala o melhor tempo até agora registrado pela IAAF (a Fifa do atletismo) no mundo; e é o melhor tempo de um norte-americano nesta década –Ryan Hall fez59min43 em 2007.

Estrada, que nasceu no México em 1989 e migrou com a família para os EUA quando tinha 13 meses, fez seu debute da distância. O que significa que ainda pode melhorar muito, aprendendo a dosar melhor suas forças.

“Eu sabia que poderia correr rápido as primeiras dez milhas (16 km) porque tinha feito isso em treinamento. As outras três (ou últimos 5 km) é que eram desconhecidas. Quando o pelotão reduziu o ritmo na primeira delas, eu pensei: `Legal, esta corrida é minha. Se alguém quiser vencer vai ter de correr muito`.”

Ninguém conseguiu, e ele só aumentou a diferença, fechando com quase um minuto de vantagem sobre o segundo colocado. Agora, vai tentar mais uma vez o sonho olímpico.

Estrada se naturalizou norte-americano em 2011, querendo representar os EUA nos Jogos de Londres. Por questões burocráticas, acabou sem ter permissão das autoridades do atletismo do país e representou seu país natal na Olimpíada. Agora, pretendo vir ao Rio-2016 por sua pátria de escolha.

Por seu lado, a nova campeã norte-americana da meia maratona também tem experiência olímpica. Como Estrada, Kim Conley disputou a prova dos 5.000 m nos Jogos de Londres. No domingo, venceu em 1h09min43. Tanto ela quanto o campeão levaram mais de US$ 13 mil em prêmios. Pode não parecer muito em relação aos prêmios das grandes maratonas, mas é melhor que nada…

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Corrida ajudou a suportar a dor, diz herói de filme de Angelina Jolie

Por Rodolfo Lucena
15/01/15 11:17

invencivel cena

Está em cartaz em São Paulo (acho que também em boa parte do país) o filme “Invencível”, biografia do corredor olímpico e herói da Segunda Guerra Mundial Louis Zamperini. O longa é dirigido por Angelina Jolie, no seu segundo trabalho por trás das câmeras (leia AQUI crítica que escrevi e foi publicada na Ilustrada).

invencivel livroO filme é muito bom, baseado no excelente livro de Laura Hillenbrand (que já comentei por aqui). A história do cara é sensacional: garoto-problema, faz da corrida uma válvula de escape para suas energias e se torna tão bom que integra a equipe de atletismo dos EUA que participa dos Jogos de Berlim-1936.

Não ganha nada nos 5.000 m, mas sua última volta foi tão fantástica que levantou o estádio e deixou boquiaberto até mesmo Hitler.

Depois de Pearl Harbor, entra nas Forças Armadas dos EUA e se transforma em às da artilharia aérea. Em missão de resgate, dias depois de ter participado de um heroico ataque às posições japonesas, seu avião se esborracha no mar.

invencivel naufrago

Passa 47 dias à deriva, quase dobrando o recorde anterior de sobrevivência no mar, e é resgatado pelo inimigo. Vira prisioneiro de guerra e passa dois anos enfrentando torturas.

“A corrida aumentou minha capacidade de suportar a dor”, me disse ele em entrevista por e-mail realizada em 2012, quando ele tinha 94 anos. Zamperini morreu no ano passado, aos 97 anos, deixando uma história que é exemplo de resistência e capacidade de recuperação. Aliás, ele participou ativamente dos processos que levaram à filmagem, tendo tido várias conversas com Angelina Jolie sobre sua vida.

invencivel jolie

O que o cara levou de porrada na vida não foi fácil, não só as da tortura, mas também as da depressão, do alcoolismo e4 das drogas, em que ele se enterrou por um período depois da Guerra.

Bueno, recomendo enfaticamente que você assista ao filme (fotos Divulgação) e leia o livro, que acaba de receber nova roupagem para aproveitar a divulgação da fita.

Com exclusividade para sua leitura neste blog, trago a seguir o texto que escrevi  em 2012, depois de ter feito a entrevista com o corredor herói de guerra.

“SEMPRE FUI REBELDE”

+CORRIDA – O senhor enfrentou muito sofrimento ao longo da vida. Qual foi o período mais difícil?

LOUIS ZAMPERINI – Os 43 dias que eu passei em Kwajelin (“Ilha das Execuções”) foram os mais duros. Tudo era muito ruim, a comida era atirada na sujeira, um buraco na minha cela servia como latrina, e eu tinha de ficar com a cabeça perto da latrina a noite toda. Havia insetos por toda a parte. Eu rezava para que fosse possível voltar ao bote no mar [onde quase morreu por inanição ao ficar 27 dias à deriva sem água nem comida]…
+CORRIDA – O que fez com que o senhor sobrevivesse a todas as dificuldades?

LOUIS ZAMPERINI – Eu sempre fui um sujeito rebelde e cresci aprendendo a ser durão. Também estava bem preparado para enfrentar as dificuldades por causa de meu aprendizado nos escoteiros e nos cursos de sobrevivência [no Exército].
+CORRIDA – Qual a importância da corrida para sua sobrevivência como prisioneiro de guerra?

LOUIS ZAMPERINI – Acho que aumentou a minha capacidade de suportar a dor.
+CORRIDA – Qual foi a importância da corrida na sua vida? Qual sua melhor e pior corrida.

LOUIS ZAMPERINI – A corrida me tirou de uma vida de confusão [quando começou a correr, na adolescência, era um garoto rebelde e se encaminhava para uma vida transviada]. Minha melhor corrida foi quando eu ainda era estudante,no campeonato estadual de cross country. Em ganhei de todo mundo, até mesmo de rapazes mais velhos e mais experientes,e estabeleci novos recordes estudantis. Minha pior corrida foi um desafio de duas milhas contra um colega, Cal Berkley, quando eu desmaiei depois da prova, sem saber que um dos meus pulmões estava cheio de pus, por causa de uma doença chamada pleurisia.

+CORRIDA – O senhor ainda corre ou faz exercícios?

LOUIS ZAMPERINI – Hoje em dia, já não corro, mas faço exercícios como subir escadas ou fazer flexões apoiado no armário da cozinha.

+CORRIDA – Qual é a sua atividade atual?

LOUIS ZAMPERINI – Eu venho fazendo palestras, ensinando às pessoas como enfrentar o estresse, a raiva e a hostilidade. Eu procuro ficar animado em quaisquer circunstâncias, porque acredito que todas as coisas acabam contribuindo para o bem. Eu aconselho o meu público a ser durão. Por ser durão eu quero dizer que as pessoas devem desenvolver a capacidade de resolver seus próprios problemas. Assim, a gente se torna mais capaz de enfrentar outros tipos de problema.

+CORRIDA – Qual foi o impacto do sucesso de “Unbroken” na sua vida?

LOUIS ZAMPERINI – Eu não estava preparado para o “assalto” à minha agenda, que agora está sempre lotada, mas estou adorando receber os convites para palestras. Eu falo a grupos em todo o país, umas duas ou três vezes por semana. O melhor é que estou viajando de primeira classe, sou muito bem recompensado e ainda passo a conhecer muita gente interessante.

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A incrível e amedrontadora experiência de correr com o braço entalado

Por Rodolfo Lucena
14/01/15 07:16

Pois corri. Os pontos no local da cirurgia estão grossos, escuros de sangue velho. A mão toda anda meio boba, e o ferimento de vez em quando deixa escapar algumas gotas de sangue. Qualquer movimento errado pode jogar por terra as conquistas feitas até agora. E eu não sei exatamente o que qualifica como movimento errado. Mesmo assim, fiz no dia 13 de janeiro minha primeira corrida como ex-operado, paciente cirúrgico, o homem dos cotos suturados, do tendão.

Foi uma aventura, mas programada, planejada e devidamente autorizada pelo cirurgião João Carlos Nakamoto. “É melhor a gente botar logo você para correr, antes que a depressão prejudique a recuperação”, ele disse (não gravei, mas a frase foi mais ou menos essa).

De fato, eu já estava mais por baixo que c* de cobra (perdoe mon fraçais, s`il vous plait). Não tanto pela dor, mas pela vergonha e humilhação de ter me cortado do jeito que me cortei. Num descuido estúpido, a faca escorregou e rasgou metade do meu dedo indicador esquerdo. O médico que fez o atendimento de urgência, de forma inacreditável para seus colegas que me viram depois, não percebeu que um dos tendões havia sido cortado.

O resultado é que, quando o ferimento foi adequadamente examinado, tive de ir em seguida para a cirurgia. Cada hora perdida era uma hora a mais de cicatrização dos cotos do tendão –quanto mais cicatriz, mais difícil o conserto. Mas a operação é simples, ainda que delicada e exigente de muita precisão: encontrar as pontas do tendão rompido e costurá-las.

Isso foi feito. Mas não há nenhuma certeza de que o dedo vá recuperar os movimentos perdidos. Os cuidados na assepsia do local e a dedicação aos exercícios de reabilitação, executados corretamente e amiúde, é que vão dizer. Erro para trás, erro para a frente, excesso de força, força de menos, e o tendão rompe ou cola em algum lugar indevido. Fica tudo com dantes ou pior.

Por isso, desde o dia da cirurgia, na semana passada, estou com uma tala que imobiliza a mão e o punho. Ela vai ficar comigo pelos próximos três meses, em que vou ter de aprender a viver, trabalhar e correr com apenas uma mão ativa.

corte vale blog

Os exercícios começaram na segunda. À noite, quase não dormi pensando na corrida que eu faria, imaginando o trajeto, escolhendo a roupa que iria usar, pensando em como fazer para levar o relógio –não cabe no pulso esquerdo, e não teria como acioná-lo se o colocasse no direito. Preocupações que os donos de duas mãos ativas nem sequer sonham existir.

São muitos os problemas e os cuidados. Ao acordar, por exemplo, não posso me espreguiçar. Isso tensiona o antebraço, onde começam os tendões da mão, e qualquer tipo de esforço do tendão está proibido. Às cinco e meia de ontem, parei o movimento em cima do laço: o braço direito já estava se estendendo, o esquerdo começava a se mover, eu ia tentar fechar a mão sem lembrar do ferimento.

Levantei e tentei fazer sozinho o máximo possível. Escovar os dentes é moleza, todos nós usamos apenas uma mão para isso. Mas como um maneta coloca a pasta na escova de dentes? Eu primeiro encostei a escova na borda da bacia da pia, usando a caixinha de fio dental para mantê-la na posição. Depois deitei o tubo na pia e fui pressionando para que a pasta ficasse bem na ponta. Daí segurei o tubo com dois dedos e usei um terceiro para erguer a tampa. Finalmente, pressionei o conjunto para que a pasta saísse. Até agora não consegui ser preciso nisso: sempre que corto o fluxo, cai um pouco de pasta para os lados, sujando a pia. Para limpar, uso num pedaço de papel higiênico: cortá-lo com uma mão só também é um exercício de paciência…

Fazer o chá também é fácil, desde que a gente fique atento e tome todos os cuidados, fazendo uma operação de cada vez: pegar a chaleira, levar a chaleira para a pia, tirar a tampa da chaleira, abrir a torneira, fechar a torneira, colocar na chaleira o sachê de chá, tampar a chaleira, levar a chaleira ao fogão, acender o fogo…

Aliás, um salve geral para quem inventou o mecanismo de acendimento automático do fogão! Cada vez que vou para a cozinha e tenho de ligar o fogo nessa minha nova condição, lembro-me de uma sensacional entrevista feito pelo pessoal do “Pasquim” com um sambista carioca.

É, eu sou velho assim, de ter lido o “Pasca” no original. E também para ser incapaz de recordar o nome do cantor ou compositor entrevistado. O certo é que se tratava de um sujeito sem braço, pois o detalhe que me ficou na memória é que, a certa altura da entrevista, o artista deu “uma sensacional demonstração de como acender um fósforo com uma mão só”.

Nem sonho em chegar a esse grau de habilidade, mas pretendo, pelo menos, ser capaz de amarrar os cadarços dos tênis. Quem sabe um amigo meu, que não tem parte de um braço e é triatleta com sonhos paraolímpicos, possa me dar umas aulas…

Pois tirando a tal amarração, consigo me vestir sozinho, descascar banana com os dentes e os dedos e preparar minha meleca matinal (banana amassada com granola). Assim fiquei pronto para meu primeiro treino.

Deveria ser mais curto e menos intenso do que sessões anteriores, para que eu pudesse prestar atenção no braço, cuidar do dedo e garantir (???!!!) que o tendão não sofresse nenhuma tensão involuntária nem recebesse ordens descuidadas.

Foi muito bom. Comecei caminhando 400 metros em ritmo acelerado, completando o primeiro bloco de 1.500 m com um trote leve de 1.100 m, no asfalto plano e razoavelmente seguro do parque Villa Lobos, na zona oeste paulistana.

Não sei se o corpo todo se compadeceu do dedo, o certo é que não tive dores outras. Fiz o segundo bloco descansado e até me desafiei no terceiro –coisa que me era proibida, mas como correr sem criar metas, contendas, lutas consigo mesmo? Corri um dos quilômetros “limpos” (sem interferência da caminhada) em 6min21, e meu relógio novo, que carreguei na mão direita, me presenteou festejando o que ele disse ser um novo recorde pessoal para a distância.

Bobagem! Meu prêmio estava no meu suor….

Vamo que vamo!!!

 

 

PS.:  Desta vez não comecei o texto pedindo desculpas por, novamente, trazer à sua vida minhas questiúnculas pedestres; o que faço agora, adiantando que espero parar por aqui esses relatos de cunho tão particular. Não posso deixar de agradecer, porém, a você e a todos os leitores que, neste espaço ou nas redes locais, mandaram votos de rápido restabelecimento. As mensagens alegram este velho corredor, esquentam o coração e dão incentivo para que a luta continue. Aliás, aproveito para anunciar que, em breve, vou poder divulgar uma novidade no terreno do desafio pessoal. Sua companhia, como sempre, será muito importante.

 

 

 

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Para corredor operado, volta ao asfalto começa na cama do hospital

Por Rodolfo Lucena
12/01/15 09:05

Pois então, estimado leitor, prezada leitora, entrei na faca. Bisturi, para ser exato.

Com medo ou sem medo, foram menos de 24 horas entre a consulta que confirmou o rompimento de um dos tendões de meu dedo indicador esquerdo e a cirurgia de reconstrução do dito cujo.

Sem ele, a gente fica com o dedo duro. A pontinha não se mexe, e o resto de conjunto sofre as consequências: a força é menor, assim como a precisão dos movimentos.

A cirurgia foi um sucesso. O doutor João Carlos Nakamoto, do Instituto Vita, habilmente capturou os cotos do tendão rompido (abaixo, um dos momentos da cirurgia), deu-lhes um nó nos cornos, colocou tudo de volta e fechou a bagunça.

cirurgia 2 va

Fiquei sedado todo o tempo e abobado a maior parte do dia, depois que acordei.

O problema é exatamente o depois. Não estou inutilizado, mas vou ficar ainda pelo menos uns dez dias sem correr. Depois, vai ser tudo muuuito devagar.

É que o processo de recuperação é muito complicado: qualquer coisinha, o tendão rompe de novo e todo o trabalho se perde. Há que fazer muita fisio e tomar muito cuidado para não acionar a área atingida.

Por isso, o processo de recuperação começou pouco depois de eu acordar da cirurgia, com a mão e o punho imobilizados. Tenho de aprender a não mandar ordens de movimento para o local atingido. Quanto mais quieto, por enquanto, melhor. Daqui a pouco a coisa muda.

Espero conseguir voltar logo, pois tenho uma maratona no coração, um grande projeto sonhado para tentar sair desta lama. Logo, logo, vou contar tudo para você, que será muito importante nessa empreitada.

Enquanto eu passava de repouso, o fim de semana foi de muita ação nos EUA, onde centenas de brasileiros participaram dos dias de corrida da Disney. Tem tudo quanto é tipo de evento, até desafios de Pateta e Dunga, entre outros, que envolvem correr duas ou mais provas em dias seguidos.

O multicampeão brasileiro Adriano Bastos não conseguiu voltar a vencer, o que não deixou menos verde-amarelo o pódio: no masculino, os brasileiros fizeram barba cabelo e bigode, liderados por Fredison Costa, que venceu com 2h18min06.

No feminino, Giovanna Martins cravou 2h50min19 para conquistar o título.

Parabéns aos vencedores e a todos os conquistadores de medalhas que estampam seus peitos engalanados pela internet afora.

Vamo que vamo!

3

A importância do dedo indicador esquerdo para a corrida de longa distância

Por Rodolfo Lucena
08/01/15 08:56

Perdão, prezado leitor, estimada leitora, mas esta mensagem tem caráter pessoal. Volto a compartilhar com você um pouco das agruras de minha vida de corredor constantemente machucado –e constantemente em busca de recuperação.

Que a maratona não perdoa a falha, o descuido, o desleixo ou mesmo a incompetência, já sei há muito tempo. Foi um aprendizado à base de cicatrizes. Descobri recentemente –e da pior maneira possível—que falhar ao preparar o jantar da família também pode impactar profundamente o ato de correr.

Estava eu nos prolegômenos de um assado quando o desastre se deu. A enorme faca de churrasco escorregou nas gorduras da costela, derrapou na curva das nervuras expostas e só parou ao encontrar a carne macia e suculenta de meu dedo indicador esquerdo. Foi só a pontinha, talvez um pouco mais, mas, com a força que vinha, a ponta da faca abriu um rasgão de bom porte, de onde espirrou sangue para inundar a cozinha.

Devo deixar claro: não foi acidente. Fiz tudo errado desde o início. Dava para ver que o enorme pedaço de costela não caberia inteiro no pirex escolhido para conter o assado. Mesmo assei, coloquei a carne lá,  no fundo já devidamente azeitado. Quando resolvi dividir a peça para que o cozimento fosse mais homogêneo e a apresentação do prato ficasse melhor, resolvi não perder tempo com coisas de somenos, como buscar uma tábua para corte…

Segurei o touro pelos cornos, digamos assim, sustentando com a mão esquerda a costela dobrada ao meio. Com a mão direita, segurei firmemente o facão novo, que estava para ser inaugurado naquele jantar, ajeitei o dito cujo sob a dobra da costela, com o corte para cima, e o empurrei com vigor e entusiasmo.

Deu-se o que se deu. O primeiro instante não foi nem de dor: foi de estupor. O que eu tinha feito?, perguntei a mim mesmo enquanto olhava o sangue a jorrar sem saber o que fazer. Conferi para ver se não tinha sido cortada alguma peça que fosse visivelmente muito importante, se o dedo estava inteiro, e tratei de colocar a mão sob um forte jato de água.

Dói, arde e não alivia em nada, não para a sangueira!. Coloquei o dedo para cima, para o lado, apertei o pulso: nada. Panos de pratos limpos foram ficando encharcados de sangue, enquanto eu resistia aos apelos da família para ir direto ao pronto socorro. Em instantes, percebi que aquilo não iria se curar sozinho, e lá fomos nós em busca de conserto para a c***** do cozinheiro.

A bem da descrição factual, não era um pronto socorro, mas uma pequena clínica 24 horas –a única da localidade em que eu estava–, onde há 25 anos milita o mesmo médico, um simpático e conversador setentão de barba e cabelos muito mais brancos que os meus.

Não vou entrar em detalhes nem fazer acusações. O certo é que, graças aos cuidados iniciais –e ao bom trato posterior que eu mesmo dei ao pobre dedo–, o ferimento não infeccionou nem apodreceu nem fedeu nem supurou. Mas também não ficou curado, pois –e isso o médico do pronto atendimento não percebeu problema não era apenas o corte, mas a consequência do corte.

Ao rasgar pele, carne e vasos sanguíneos, a faca também atorou um dos tendões que são os responsáveis pelos movimentos dos dedos. Em consequência, fiquei incapaz de controlar o movimento da ponta do indicador da mão esquerda: ele fica lá, impávido colosso e, por mais que eu comande: Dobra! Dobra!, continua em riste.

Nunca antes na história deste corredor eu tinha percebido a importância da pontinha do indicador esquerdo. O pior é que os outros dedos, acostumados à garbosa companhia, demoram um tempão para aprender a assumir funções por ele exercidas: passar fio dental, por exemplo, se transforma numa ginástica;  acionar o desodorante vira verdadeira musculação para o dedo médio.

Pode parecer risível, mas tente para ver como é.

Bom,  resumo da história. Ontem me encontrei com uma turma de ortopedistas que, antes mesmo de me cumprimentarem, já tinham percebido o defeito do dedo. Mal eu sentei à mesma, já recebi o diagnóstico: tem de operar. E com urgência. Já havia se passado mais de uma semana do acidente (não foi acidente, foi erro), cada hora era um prejuízo a mais para as chances de recuperação, pois o tendão atorado estava em processo de cicatrização (dói bastante, o dedo incha, a mão fica avermelhada, quente…). Se isso se consolida, às vezes nem uma simples cirurgia resolve; o processo de conserto pode envolver várias operações.

E assim é que daqui a poucas horas estarei mais uma vez em uma sala de cirurgia –as outras operações foram há mais de 40 anos e já estão perdidas na memória, ainda que o corpo carregue suas cicatrizes. Estou louco de medo da anestesia geral e com mais medo ainda da dor que vou ter depois  –o cirurgião me garantiu que terei dor no ferimento…

O pior é que isso me deixa mais uma vez sem poder treinar. Já não bastou a semana que fiquei de molho enquanto o ferimento começava a fechar (fiquei com o dedo protegido, entalado, sem movimento –tudo errado, segundo os médicos que agora me atendem), agora será mais uma semana sem ação.

Depois, tudo vai recomeçar aos poucos, de forma supercontrolada. E a mão ficará imobilizada. Qualquer movimento do dedo provocará o rompimento dos pontos, novo estouro do tendão, com prognósticos sobre os quais nem é bom pensar. Será um mês de tala, sempre sob essa ameaça.

Talvez pela metade da semana que vem eu possa girar na bicicleta estacionário, mas sentado, de modo que a mão fique para cima. Vai ser um saco. Vou engordar mais ainda. O humor, a autoconfiança e a autoestima, que já não estão lá essas coisas, vão para a sarjeta, nuvens negras dominam o horizonte mental e é melhor nem continuar escrevendo sobre essa seara…

O pior é que a gente não aprende nada com isso. “Viu, você deve cortar a carne sobre uma tábua”, diz alguém; “o fio da faca deve ficar sempre na direção oposta ao corpo”, recomenda outro. Alguém acha que eu não sabia ou não sei isso? Durante 57 anos nunca me feri manuseando equipamentos perigosos nem deixei cair objetos cortantes, pontiagudos ou pesados. Agora, errei e tenho de conviver com isso.

A experiência está me ajudando em um ponto, talvez. Posso entender com mais clareza o esforço que fazem os atletas com necessidades especiais. Vendo o quanto um defeito na ponta do dedo indicador da mão esquerda impacta minha habilidade de atuar, correr e viver, posso ter uma pálida ideia do que sofrem e de quão enorme é a conquista dos amputados e de todos os homens e mulheres que enfrentam no dia a dia a luta por uma vida plena, mesmo que seus corpos não sejam inteiros. A todos eles, meu respeito e admiração.

Vamo que vamo!

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