Rodolfo Lucena

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Perfil Rodolfo Lucena é ultramaratonista e colunista do caderno "Equilíbrio" da Folha

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Motorista alucinado joga carro sobre corredores da Maratona do Rio

Por rlucena
30/07/14 10:49

A maratona do Rio de Janeiro, realizada no último domingo, foi uma beleza, pelo que me contam e pelo que eu vejo nas redes sociais. Muita gente conseguiu diminuir tempo na prova principal e na meia maratona.

O espírito esportivo, porém, não contaminou um certo motorista de um carro escuro não identificado.

Indignado com um bloqueio do trânsito, o cara não só meteu a mão na buzina como também invadiu a área dos atletas, assustando corredores –alguns caíram, sofreram arranhões e perderam o ritmo planejado para a prova.

Quem me contou o ocorrido foi Leandro Henrique Carvalho Malheiros, 53, aposentado. Diabético, Leandro usa a corrida e os exercícios físicos como parte de seu tratamento. Leia a seguir o depoimento dele.

“O acontecido foi quase chegando ao km 22, por volta das 9h40, num bloqueio embaixo do viaduto da Niemayer. Um doido começou a buzinar e a acelerar o carro. Furou o bloqueio e jogou o automóvel em cima dos corredores.

“O pessoal se assustou e alguns pularam para o lado, assim empurrando outros corredores. Nisso fui empurrado e caí num buraco no asfalto e torci meu tornozelo direito e o joelho esquerdo. Não cheguei a cair, foi só uma torção mesmo,consegui me segurar,mas teve uma mulher que caiu em cima do gelo baiano [divisor de pistas].”

Para Leandro, a responsabilidade não é da organização da corrida. A falha, segundo ele, foi dos agentes da companhia de tráfego do Rio, que não garantiram o bloqueio: “Eles estavam em cima do canteiro, rindo”.

Apesar do susto, o atleta seguiu em frente: “Isso prejudicou a minha corrida, para a qual tanto treinei. Consegui completar no peito e na raça, mas com um tempo horrível”.

Leandro terminou em 5h34min36.

Morre a ultramaratona BR 135; nasce a superultra BR 135+

Por rlucena
28/07/14 09:50

A notícia chocou a comunidade de ultramaratonistas brasileiros: depois de dez anos de desafios inclementes, morreu a BR135, considerada por alguns a mais difícil ultramaratona do país, realizada nas serras de Minas, passando também por território paulista.

Se foi a mais difícil, não posso dizer, pois não corri nenhumazinha de suas edições, cada uma com histórias fantásticas a transmitir –na primeira, por exemplo, houve apenas um participante, o próprio inventor da prova, seu idealizador, diretor e mantenedor ao longo de todo esse período, Mario Lacerda.

O que posso dizer, creio que sem medo de errar, é que provavelmente foi a mais importante prova do gênero do pais. Não pelo número de participantes, porque há outras ultras mais populosas, ainda que de gênero diferente. Mas sim pela repercussão internacional: durante um período, completar a BR 135 (Brazil  135) servia para carimbar o passaporte para dizer presente na Badwater 135, esta tida como uma das mais exigente provas do mundo.

Independentemente de ser a mais isso ou a melhor aquilo, o certo é que a BR 135 caiu no agrado dos ultras barra pesada do país, do pessoal que gosta de montanha, que enfrenta o sofrimento sorrindo, que corre para se divertir –estranha diversão essa, dirão alguns!

O 135 do nome se refere ao número de milhas do percurso –como falei antes, a prova fazia parte de um circuito internacional. Depois de alguns anos, surgiu no mesmo circuito, na mesma hora de largada, na mesma tudo (ou quase tudo), a Brasil 217, o número agora referente à quantidade de quilômetros (igual à de milhas, por suposto). A diferença é que a Brasil tinha tempo de corte maior do que a Brazil, e não era seletiva para a Badwater.

Houve também provas em duplas e trios.

Bueno, agora muda tudo. Em 2015, já não haverá a BR 135. O organizador, Mario Lacerda, me disse que já estava ficando tudo muito fácil, automático para ele, que resolveu colocar a si mesmo um desafio ainda maior: organizar prova ainda mais longa e, provavelmente, mais difícil.

28 br135

Assim, no próximo janeiro, nasce a BR 135+, na distância de 175 milhas ou 281 quilômetros, indo de São João da Boa Vista até Campos do Jordão, Estado de São Paulo. Não há ainda detalhes do percurso, a não ser que deve passar pela Subida do Quebra-Perna, cujo nome é suficiente para ilustrar seu grau de dificuldade (a foto acima foi publicada nas redes sociais pelo embaixador da prova Jarom Lee Thurston).

Bueno, os interessados que se preparem. Tomara que tudo saia bem e que ninguém se machuque.

 

Sistema computadorizado inédito no Brasil analisa forma do corredor

Por rlucena
25/07/14 13:50

Participei na última quinta-feira de uma avaliação do meu estilo de corrida realizada por um sistema computadorizado inédito no Brasil. Trata-se de uma versão mais completa e sofisticada das análises do movimento, mesmo as realizadas com várias câmeras. O sistema analisa vários aspectos do estilo da corrida do atleta e os compara com padrões previamente definidos e considerados “ótimos”. A partir daí, dá sugestões para que o atleta melhore seu estilo para torná-lo mais seguro e/ou eficiente.

Claro que, como se trata de um sistema desenvolvido por uma fabricante de calçados de corrida, ele acaba por analisar também a passada e sugerir calçados e roupas que considera mais indicado para seu estilo. Apesar de os resultados virem escritos em linguagem clara, com ilustrações, acho difícil que corredores comuns consigam aproveitá-los efetivamente. O ideal, me parece, é que esses resultados sirvam para abastecer de informações técnico de corrida ou fisioterapeuta que possam, então sim, auxiliar o corredor com base em material bem concreto.

Dito isso, vamos às informações mais específicas.

O sistema se chama Form, sigla em inglês para otimizador da forma da metodologia da corrida, em tradução livre mais ou menos literal. A mensagem que eles querem passar é que o programa não é um mero analisador de corrida pois, além da análise, propõe mudanças no estilo de corrida e mesmo no ritmo de treinos do atleta.

O tal Form foi desenvolvido no Japão pela Mizuno ao longo de três anos, a partir de 2009. Os pesquisadores da empresa analisaram a corrida de centenas de atletas, profissionais e amadores, para chegarem a uma espécie de benchmark da forma ideal de corrida. Ou seja, a partir da observação e da análise computadorizada da marcha desse povo todo, criaram um padrão do que é a “corrida ótima”.

Esse padrão leva em conta cinco grandes áreas: segurança (o quanto seu estado físico e seu estilo de corrida podem ser fator de risco para a produção de lesões); postura; relaxamento; trajetória (que analisa o posicionamento do peso ao longo do movimento); e balanço, que analisa o movimento das pernas.

Há ainda uma comparação da forma da corrida, com críticas e sugestões. Imagens mostram a corrida do atleta avaliado e como ela deveria ser (ou como deveria ser a forma ideal, um bom exemplo). Veja abaixo o resultado; eu sou aquele sujeito balofo da linha de cima…

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Para fazer o teste, o atleta fica numa esteira e corre numa velocidade a que está acostumado, o seu ritmo médio, confortável de corrida. Mas cada testado pode escolher o ritmo; um colega que passou pelo teste depois de mim pediu para colocar a esteira em 20 km/h, quando soube que a filmagem durava menos de três minutos. Não sei se rolou…

Realmente o tempo na esteira é curto. Apenas alguns passados são efetivamente analisados, como acontece em outros testes semelhantes. Uma câmera lateral e outra colocada um pouco à frente, da diagonal, capturam as imagens; o programa transforma tudo em cenas 3D e, depois de um tempo, emite um relatório bem completo, de três páginas.

A primeira –talvez a mais importante- é a avaliação propriamente dita. Em cada um daqueles itens, o sujeito recebe uma nota de zero a cem, conforme esteja mais ou menos distante do que é considerado ideal naquele aspecto (segurança, postura, relaxamento, trajetória, balanço). Daí recebe uma nota média, que é comparada com os resultados gerais já obtidos pelo sistema. Na minha categoria de ritmo de maratona, por exemplo, eu fui a 14ª pessoa analisada. Para deixar tudo simétrico, tive a 14ª pior nota…

O sistema já é usado no Japão desde o segundo semestre de 2012. Disponível em algumas lojas da Mizuno, custa cerca de US$ 30 (cerca de R$ 75, conforme a conversão usada). Até agora, cerca de 3.000 pessoas já passaram pelo Form no Japão; três delas tiveram média 100 na avaliação. Em geral, a média fica em torno de 70.

A minha média ficou abaixo de 50 (45,8 para ser exato). O mais importante, porém, é que os resultados apontados e as práticas sugeridas batem, de modo geral, como avaliações feitas por fisioterapeutas e especialista em corrida que me atendem ou já me atenderam: em suma, sou um caso perdido, mas continuo tentando até sei quando.

Aqui no Brasil, pelo menos por agora, o teste vai ser oferecido gratuitamente exclusivamente para participantes de corridas patrocinadas pela Mizuno (circuito de meias maratonas e uma maratona de montanha no Sul). Haverá um número limitado de inscrições e também convidados especiais da empresa. A estreia do serviço é neste domingo, na meia maratona Mizuno de Porto Alegre (para essa, porém, segundo entendi, as vagas para avaliação já estão totalmente ocupadas).

O meu balanço geral é que é um sistema bem legal, mais completo do que qualquer outro que já analisei ou em que fui analisado, mas que dificilmente será muito útil para o corredor comum se ele não tiver um acompanhamento especializado.

Sem acompanhamento, o que o corredor vai ter será um retrato de si mesmo e uma análise objetiva de seus pontos fortes e fracos na corrida (eu, por exemplo, só péssimo na segurança e muito bom no relaxamento). Claro que isso, por si só, já é uma mão na roda. Mas vai ser preciso interpretar e colocar em prática as recomendações feitas pelo sistema.

Sobre essas recomendações, claro que o melhor seria que fossem analisadas por um médico ou fisioterapeuta. Já percebi que praticamente cada um desses profissionais tem uma linha de trabalho, então provavelmente alguns vão considerar excelentes as avaliações e recomendações do Form, e outros talvez as considerem inadequadas. Pelo que conheço de mim, pelas avaliações que já passei e pelo trabalho que tento fazer para melhorar (sem muito sucesso, é verdade), tudo me pareceu bem razoável.

 

Celular com 2 chips e TV produz imagens de boa qualidade

Por rlucena
21/07/14 12:42

O primeiro celular da ex-Nokia hoje Microsoft com dois chips e TV digital já está sendo vendido no Brasil. Testei o aparelho por alguns dias, procurando analisar principalmente o desempenho da câmera, pois isso é o que mais me interessa na hora da corrida.

Lumia 630O Nokia Lumia 630 Dual SIM (com dois chips) é um aparelho bem simples, voltado para o mercado mais popular –na internet, os preços giram em torno de R$ 600 desbloqueado; provavelmente, sai mais barato se comprado em algum plano de operadora. Para comparação, o outro celular Nokia que testei –e vou falar dele mais para baixo—custa em torno de R$ 2.500.

Apesar de eu estar usando o nome Nokia, o aparelho já chega com a chancela da Microsft –o sistema operacional é uma nova versão do Windows 8 para celular. E, junto com o Guia de Início Rápido, chega um papelzinho com a informação: “A Microsft Mobile Ou adquiriu a divisão de dispositivos e serviços da Nokia. O Fabricante deste produto é a Microsoft móbile Ou ou uma de suas afiliadas, mesmo que Nokia Corporation ainda esteja visível nas embalagens de venda (…)”.

Então, vou seguir chamando o aparelho apenas de Lumia 630 DS. Bueno, vamos logo ao que interessa: a produção de imagens.

Ele não tem a câmera frontal, tão apreciada por quem gosta de produz ir autorretratos (os tais “selfies!”). Isso pode pesar contra na hora de decisão de comprar o aparelho, apesar de suas qualidades –e há várias.

A câmera tem baixa resolução em comparação com as de outros aparelhos mais caros da Nokia (Microsoft). Mas seus 5 Mpixels são os mesmos da câmera do iPhone 4 e não fazem feio; em todos os testes que fiz, o desempenho foi bastante bom.

Com pouca luz, com muita luz, cenários abertos, imagens fechadas, no lusco-fusco (como a cena abaixo), sempre me pareceram mais do que razoáveis. Além disso, há uma série de recursos de fácil utilização, como o disparo contínuo; usando o aplicativo Nokia Câmera, há a sequência inteligente: várias fotos são tiradas, a câmera escolhe a melhor e ainda dá outras opções, como foco no movimento. O resultado é bem legal.

lumia2 VA

Os vídeos que fiz também ficaram muito bons para o meu gosto. Produzi em condições adversas de iluminação, e as imagens ficaram razoavelmente estabilizadas. A captação do som ambiente também foi boa, o que é importante para quem pretende filmar cenas de corrida ou festas familiares (veja um exemplo bem curtinho AQUI).

Não mesmo importante, o aparelho vem com sintonizador de TV digital que é muito bom. Testei nas condições mais adversas (andar subterrâneo) e não tive problemas na captação.

O Windows Phone 8.1, como seu antecessor, é bem bom. Para quem precisa abrir documentos enquanto está longe do computador, o fato de ter uma versão do conjunto de programas de escritório (Office) é uma mão na roda. O chato é que o navegar padrão é o Internet Explorer, que fica bem aquém dos concorrentes (não lembro de ninguém que use o IE por vontade própria…). Aliás, o aparelho deu umas engasgadas na hora de usar o Gmail no navegador; na configuração do aplicativo de correio eletrônico, não houve problema.

Em suma, um celular bastante bom pelo preço, ainda que este não reflita o custo total: a caixa não traz cabo de dados, que precisa ser comprado à parte. E o fato de não ter câmera frontal pode afastar uma parcela de compradores.

Lumia 1520Já o outro aparelho que testei é um portento. Se o 630 peca pela falta de alguns recursos, o Lumia 1520 é totalmente exagerado, praticamente um phablet, apelidado que está sendo dado aos telefones grandões, com funções de tablet, e às tabuletas eletrônicas menores, com funções de comunicador de voz.

Claro que o destaque maior do 1520 é seu tamanho: sua tela tem nada menos do que seis polegadas (cerca de 15 centímetros). Não dá para levar no bolso da calça nem acomodá-lo confortavelmente na jaqueta…

A lente frontal é um portento: Zeiss com PureView, produz fotos de 20 Mpixels que raramente ficam tremidas graças ao sistema de establização de imagem. Ele também funciona na captura de vídeos de alta resolução plena (1.080 p).

O preço também é portentoso, em torno de R$ 2.600. E, apesar das ótimas imagens, não é bom para levar em treinos ou corridas. Nos testes que fiz, tive de levar uma pochete enorme, bem maior do que a que uso normalmente, e, mesmo assim, ficava justo para tirar ou guardar o telefone. O tamanho também faz com que ele não seja muito prático de usar.

Enfim, imagino que exista público para ele. Não é este corredor.

GPS da Suunto para corrida é bom, mas tela pode melhorar

Por rlucena
14/07/14 10:01

Nas últimas semanas, testei o Ambit2 R, relógico com GPS especial para corrida desenvolvido pela Suunto, empresa finlandesa conhecida por seus relógicos esportivos e equipamentos de alta tecnologia voltados para esportes de aventura.

O aparelho é muito bom, em alguns aspectos até melhor que concorrentes da mesma faixa de preço. Seu ponto mais fraco, porém, pode fazer que um eventual candidato a comprador desista da aquisição: a qualidade da tela e a apresentação dos resultados.

Vamos por partes.

14suunto1Para meu gosto, o relógio é lindo. É um pouco maior e mais pesado do que o GPS que uso normalmente (aproximadamente 70 gramas contra 50 gramas do meu), mas não é mangolão. Homens de pulso mais fino e mulheres que prefiram aparelhos mais delicados provavelmente não vão gostar; uma opção na cor branca dá impressão de mais leveza, mas obviamente tamanho e peso são os mesmos.

Não dá para sair usando de saída. É preciso, no mínimo,  ler o Guia Rápido de operação para entender qual botão faz o quê. São cinco, dois do lado esquerdo e três do direito e, surpresa!, nenhum deles é liga/desliga; o Suunto fica ligado direto, funcionando como relógio normal quando não em tarefa de corrida.

Os botões mais usados são os da direita, para iniciar, parar e gravar corrida (o do alto), trocar de tela, selecionar tarefas e dar Ok (o do centro) e iluminar a tela e bloquear a tela (o de baixo). Os botões superior e inferior também funcionam como navegadores nos menus.

Donde você já percebeu que, diferentemente de boa parte dos GPS lançados mais recentemente, o da Suunto não tem tela sensível ao toque. Para mim, tudo bem: os modelos com tela sensível ao toque que testei funcionaram bem, mas exigem muito mais cuidado e precisão no acionamento do que os de botão.

Gostei muito do fato de que, na primeira operação, não é preciso dar muitas explicações ao aparelho. Na verdade, não se faz nenhuma configuração com os botões. Apenas aciona-se o botão de partida, que abre o menu Exercício; com o botão central, seleciona-se a atividade (Corrida, no caso).

Antes de abrir a tela específica, o aparelho procura o sinal do satélite e faz o emparelhamento com a cinta de monitoramento cardíaco (bem confortável, similar às mais novas da Garmin, ainda que de design diferente). Isso leva alguns segundos. Quando volta a tela de corrida, basta apertar o botão de superior, do lado direito, e sair correndo.

A sequência também é simples. Para interromper a cronometragem, basta um leve toque no mesmo botão; outro toque a faz recomeçar. Quando terminar, aperte o botão e segure um pouquinho. O aparelho arquiva automaticamente o exercício.

Daí vem a parte mais demorada do processo de relacionamento com o Suunto. É preciso fazer criar uma conta no serviço online da empresa (Movescount) e apresentar o relógio para o sistema. Uma vez feito isso, o usuário passa a ter um sistema muito confortável e prático para configurar o aparelho: é tudo feito via computador, usando seu teclado grande e/ou o mouse.

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Parar mim, foi ótimo, muito melhor do que fazer a configuração via botões, na telinha do relógio. Em outros aparelhos, é preciso fazer esdrúxulas combinações de toques nos vários botões para mexer nas configurações. Claro que já decorei o do meu, que é bastante simples, mas, de qualquer forma, o do Suunto é muito confortável.

E o site é ótimo, comparável aos melhores momentos do sistema da Garmin; do ponto de vista da apresentação, é até mais bonito e modernoso, na avaliação deste vivente.

No site, dá para fazer gato e sapato com o relógio. Mostra todos os dados, tanto expandindo uma tela para cada um, com gráficos (velocidade ou altimetria, por exemplo), quanto colocando tudo numa imensa e completíssima tabela, que facilita a comparação dos diversos itens examinados.

O site é também a porta de entrada para compartilhar os dados, se você quiser, e para dar um enorme banho de loja no seu relógio, enchendo o bicho de aplicativos gratuitos.

Você pode ter um treinador virtual ou um corredor fantasma, que o desafia no treinamento (a Garmin também tem isso); há aplicativo para medir a eficiência da corrida e um calculador de tempo da maratona, baseado no desempenho no treino.

14suuntobalncoHá aplicativos divertidos, como o que calcula quantas cervejas você pode tomar, sem ganho de peso, depois de um determinado exercício; há um similar para vinho, mas não encontrei um para chocolate… Ah, o usuário pode também criar seu próprio aplicativo modelo disponível do site (eu nem tentei…).

Entre as tantas configurações disponíveis, o usuário pode modificar e organizar as informações que quer ver na tela. Com o que chegamos ao que me pareceu o ponto mais negativo do Ambit2 R.

A tela é grande, maior do que a do Garmin 210, o que permitiria apresentar números de bom tamanho. Não é, porém, o que faz a Suunto.

Por padrão, a tela tem três divisões. A mais importante é a central, com algarismos grandes, maiores do que o similar da Garmin; nas outras subdivisões –a superior e a inferior–, o tamanho dos algarismos despenca, ficando menor do que os apresentados na tela do concorrente.

Não medi com régua nem os algarismo do Garmin nem os do Suunto; as informações que dou são de impressão da visualização, que é o que importa para o corredor. Talvez o mais importante, na verdade, não seja exatamente o tamanho dos algarismos, mas sim a tipologia usada, o  contraste e a definição da tela.

Em tudo isso, o Suunto deixa a desejar. Com 57 anos, já não tenho a visão de outros tempos e uso óculos para leitura; nos treinos, vou sem óculos, mas não às cegas. Consigo ver os números com muito mais facilidade no meu GPS do que no Suunto testado.

Imaginei que, se ficassem apenas dois campos na tela, o sistema automaticamente dividiria o espaço em dois, deixando por conseguinte algarismos maiores. Não consegui fazer isso; também não encontrei no Manual disponível na internet orientação para tornar isso possível.

De qualquer modo, destaco que mesmo o campo principal da tela, com algarismos grandes (maiores do que os do meu relógio), são menos claros, mais difíceis de ler.

Outras operações do Suunto são muito fáceis. O sistema de carregamento e comunicação com o computador é por meio de um cabo USB, que se fica ao relógio por clipe.

Uma vez conectado ao computador e estando o site na tela, ele transmite  automaticamente as novas informações ao Movescount e também recarrega a bateria.

Nos treinos, não tive nenhum problema. Como todos os outros GPS que testei, o Ambit2 R também tem problemas quando o corredor troca brutalmente de ritmo, da corrida para a caminhada, por exemplo, ou de um trote para um tiro de 200 metros; do mais rápido para o mais lento a transição também não é automática.

Resumo da ópera: o Ambit2 R é um relógio GPS bem competitivo. Com preço de lista de R$ 1.199 (inclui carregador e cinta de monitoramento cardíaco), é tão bom quanto modelos de preço similar produzidos por marcas tradicionais.

Goldman Sachs erra (quase) tudo nesta Copa

Por rlucena
11/07/14 08:19

Prometo que esta é a última vez que falo de futebol aqui neste blog durante esta Copa do Mundo. Mas não poderia me furtar a resgatar as previsões de um dos maiores bancos de investimentos do mundo a respeito do que rolaria nos gramados brasileiros.

Já fiz alguns textos a respeito, agora é a vez do balanço geral. Trata-se de um documento sério, produzido pelo Goldman Sachs:  The World Cup and Economics 2014, a Copa do Mundo e a Economia. Usando poderosos programas de computador especializados em análise de probabilidades e de riscos, a instituição montou um quadro com as chances de cada um dos times passar às etapas seguintes da competição e vir a ser campeão.

A chance de o Brasil ser finalista era de 60%, e a de ser campeão, 48%. Fazendo todas as devidas correlações, o Goldman Sachs chegou à conclusão de que, neste domingo, 13 de julho, o Brasil estaria enfrentando a Argentina no Maracanã pelo título mundial. E sairia vencedor pelo placar de 3 a 1.

Tudo bem, não é desdouro nenhum errar uma previsão, mesmo usando programas sofisticados e tendo a experiência em análises que o Goldman Sachs tem.

O problema é que os caras erraram tudo, tudinho da silva.

Ah, tá bem, tudo, tudo mesmo é muita coisa. Afinal, acertaram que a Argentina estaria na final. Mas erraram o caminho dos hermanos até o Maracanã.

Do Brasil, então, nem se fala. A crer nas previsões do GS, a pátria em chuteiras enfrentaria a Holanda nas oitavas e passaria pelo Uruguai, sempre pelo animado placar de 3 a 1. Nas semifinais, uma bola dentro: acertaram o nosso adversário. Já o resultado, na planilha do banco, nananina: 2 a 1 para o Brasil!! Sabe de nada inocente!!

No documento do banco, o caminho da Alemanha até enfrentar o Brasil e ser derrotada foi superar os belgas nas oitavas e a França nas quartas (outra bola dentro).

A Argentina, por seu lado, de acordo com as previsões do Goldman Sachs, chegaria à final contra o Brasil depois de derrotar nas semifinais a Espanha, que nem sequer passou da fase de grupos…

Quanto aos 7 a 1, nem uma palavra (nem era esperado que houvesse, claro).

Para o bem dos clientes do Goldman Sachs, espero que as previsões do banco no terreno financeiro sejam bem melhores que as apostas no terreno futebolístico.

Brincadeira, pessoal. Além dos prognósticos sobre a Copa, o estudo do GS traz um interessante quadro das economias dos países participantes, um por um. Se você quiser ler com mais vagar, o original em inglês está AQUI.

Lesão antiga é maior fator de risco para ter lesão nova

Por rlucena
07/07/14 11:55

Amigo corredor, amiga corredora, se você já sofreu alguma lesão em seus anos de corrida, já enfrentou alguma das malditas “ites” da vida, fique esperto, tome tento: é grande a chance de você vir a se machucar de novo.

Mais do que isso: ter sofrido uma lesão nos últimos 12 meses é o principal fator de risco de novos problemas musculares ou mesmo ósseos. Quem diz isso não sou eu, mas a sabedoria científica acumulada mundo afora.

A conclusão é resultado de análise e revisão sistemática de mais de 7.500 artigos científicos, com o objetivo de reunir os principais estudos que investigaram os fatores de risco para lesões entre corredores. No total, os estudos analisados registraram 60 tipos de fatores, com base na avaliação de 4.000 corredores.

O trabalho foi feito pelo mestrando Bruno Saragiotto e coordenado por Alexandre Lopes, professor dos programas de Mestrado e Doutorado em Fisioterapia da Unicid (Universidade Cidade de São Paulo). Pelo que viram, o fator de ter tido uma lesão nos últimos 12 meses aumenta em 2,5 vezes a chance de surgir uma nova lesão. Ou, dito de outra forma: quem teve lesão nos últimos 12 meses tem 2,5 vezes mais chances de se machucar do que corredores que não tiveram problemas.

“A associação entre a lesão anterior e o desenvolvimento de uma nova lesão ou uma lesão similar de maior magnitude tem sido relatada como um fator de risco para o esporte em geral, e não só para corrida. Além disso, alguns autores sugerem que a associação entre lesões anteriores e novas lesões se baseia na recuperação incompleta da lesão anterior, assim como em alterações do padrão de movimento de execução da corrida numa tentativa de proteger a região que sofreu a lesão”, diz o professor Lopes.

Há outros três fatores importantes de risco de lesão, de acordo com o levantamento feito: o ângulo Q (ângulo formado entre o músculo quadríceps e o tendão da patela, que determina a posição dos joelhos e das pernas durante o movimento), além da distância e a frequência semanal dos treinamentos.

Corredores que percorrem mais de 64 km por semana ou praticam a atividade de três a sete vezes por semana têm maior probabilidade de desenvolverem lesões musculoesqueléticas.

Em relação ao tal ângulo Q (correr com as pernas em X, com as coxas para dentro e as pernas para fora), quanto maior também maior é o risco de lesão.

Sobre a associação entre lesão e tempo e distância corrida, ela parece óbvia. Há mais de dez anos, um médico me disse que o risco de lesão crescia desproporcionalmente (dava um salto) quando se passava de 45 milhas por semana, o que dá 72 km.

Os estudos revistos pelos pesquisadores da Unicid apontam o divisor de águas em 64 km, mas é evidente que isso é uma média; você pode ter como limite 42 km e seu vizinho, 86 km…

Outra questão que deve ser levada em consideração é o fato de que há muito poucos estudos que analisam essa questão especificamente e eles são muito antigos (os examinados na pesquisa aqui citada têm mais de 20 anos). Ao longo do tempo, podem ter surgido fatores que joguem esses limites de tempo e espaço para cima ou para baixo.

De qualquer forma, prevenção e cuidado são as melhores formas de se proteger contra eventuais lesões. Há que fazer fortalecimento da musculatura, buscar aumentar a flexibilidade e organizar os treinos de forma gradualmente progressiva. O pior é que, mesmo fazendo tudo isso, ninguém está livre de torcer o pé, levar um tombo ou exagerar uma vezinha apenas e se quebrar para valer…

Vamo que vamo!

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Zamperini, o Invencível, morre aos 97 anos nos EUA

Por rlucena
04/07/14 11:10

zamperini skateEm missão contra os japoneses, na Segunda Guerra, o avião bombardeiro em que estava levou mais de 500 balaços, mas ele saiu vivo. Dias depois, em um simples treinamento com outra aeronave, o aparelho falhou e ele caiu no Pacífico, em meio a lugar nenhum. Passou 47 dias à deriva e acabou resgatado pelos inimigos: até o fim da guerra, foi prisioneiro em campo de concentração, enfrentando torturas e humilhações a cada dia.

“A corrida me ajudou a enfrentar a dor”, me disse ele em entrevista por e-mail feita em 2011. De fato, quando corria, ele dava tudo de si: chegou a ser corredor olímpico, disputando prova de pista em Berlim-1936. Na guerra, enquanto outros descansavam e lambiam as feridas, ele treinava até quase a exaustão.

Sobreviveu aos japoneses, voltou aos Estados Unidos, mas as lembranças do sofrimento detonaram suas emoções. Caiu em depressão, recorreu às drogas e ao alcoolismo e, quando estava quase à morte, redescobriu a si mesmo. Até pouco tempo atrás, dava palestras para grupo de jovens contando seu processo de luta e redenção; nas horas vagas, fazia coisas diversas: aprender a andar de skate, por exemplo.

LOUIS ZAMPERINI, corredor olímpico e herói de guerra, morreu em paz durante o sono na última quarta-feira (2.7), nos Estados Unidos. Tinha 97 anos.

Suas aventuras foram eternizadas no livro “Unbroken” (tem versão em português, “Invencível”, que está há anos na lista dos mais vendidos do NYTimes e vai virar filme pelas mãos de Angelina Jolie.

Há dois anos, escrevi uma reportagem na revista “O2” contando um pouco da história desse grande homem, que agora nos deixa. A seguir, a íntegra do texto (as fotos nesta mensagem são do arquivo pessoal de Laura Hillenbrand, autora da biografia de Louis e ela também uma guerreira, sobrevivente de doença incapacitante –abaixo, os dois em um carinhoso momento).

zamperini e laura

INVENCÍVEL

Quando a sineta bimbalhou, anunciando a última volta, a corrida já não valia mais nada para ele. Em poucos segundos, ouro, prata e bronze já tinham dono, enquanto ele continuava encaixotado no segundo pelotão, pagando o preço dos recentes abusos na comida, do peso ganho em poucos dias. Só lhe restava mesmo desistir.

Fez a segunda curva da pista de atletismo, entrou na reta oposta, e qualquer coisa lhe fez lembrar o que era, sentiu renascer-lhe os brios, a vontade de lutar. Ele acelerou.

Passou um, passou dois, chegou à curva do fundo e seguiu correndo, entrou veloz na reta final. As arquibancadas trovejavam aplaudindo o esforço inútil do corredor que levava no peito o número 751. Mesmo vendo, lá na frente, mais um e mais outro e outro ainda cruzando a linha de chegada, ele acelerou.

Aplaudido de pé pelas 100 mil pessoas que lotavam o Estádio Olímpico de Berlim, o norte-americano Louis Zamperini terminou em oitavo lugar a prova dos 5.000 m dos Jogos Olímpicos de 1936. Tinha feito a última volta em 56 segundos, tempo inimaginável para a época –quatro anos antes, a última volta do recorde mundial da distância fora corrida em 69s2.

Depois da chuveirada, ele e a delegação norte-americana foi chamada ao camarote de Hitler, que acompanhava os Jogos como uma operação de guerra. Folgado, o filho de imigrantes italianos entregou a Joseph Goebbels, o temido ministro alemão da propaganda, uma máquina fotográfica, pedindo que fizesse uma foto do ditador alemão.

Para surpresa de todos, Goebbels não só concordou como apresentou a Hitler o audacioso autor do pedido. Ao que o “fuhrer” comentou: “Ah, você é o garoto com final rápido.”

Zamperini tinha então apenas 19 anos, mas já vivera muito, escapara duas vezes da morte e ainda teria muitas vezes sua vida ameaçada, ao longo da Segunda Guerra Mundial –foi prisioneiro de guerra dos japoneses, vítima de torturas impensáveis. Voltou vivo quase por milagre, mas em pouco tempo sucumbiu ao estresse pós-trauma, entregou-se à depressão e a bebedeiras, de onde saiu depois de uma epifania religiosa.

Até o mês passado, aos 95 anos, continuava sendo mais rápido do que o inimigo definitivo: no início de dezembro faria uma palestra na Base Edwards da Força Aérea dos Estados Unidos, contando com simpatia suas aventuras, que mais parecem coisa saída da cabeça de algum rocambolesco romancista (abaixo, Zamperini na sua festa de aniversário de 97 anos).

zamperini aos 97 anos

Louie, como a família e os amigos o chamam, nasceu em Olean, Nova York, em 26 de janeiro de 1917. Quando tinha dois anos, foi vítima de pneumonia, doença que já havia atacado seu irmão Pete, dois anos mais velho. Os pais, imigrantes italianos, acataram o conselho do médico de buscar terras mais quentes e se mudaram para a Califórnia.

Pouco antes da mudança, a casa onde viviam pegou fogo. Quando todos estavam a salvo, no jardim, alguém notou que faltava o pequeno Louie. Seu pai voltou correndo para a casa em chamas e encontrou o garoto dormindo embaixo da cama. Foi o tempo de pegar o menino e dar um salto para a rua; em seguida, o teto desabou. “Foi a primeira vez que escapei da morte”, lembrou Zamperini numa entrevista para a Fundação de Atletismo  Amador de Los Angeles.

Um ano depois, na Califórnia, brincava com coleguinhas quando um garoto o desafiou para uma corrida: tinham de ir até a esquina, atravessar a rua e encostar a mão em uma palmeira do outro lado. O rival foi mais rápido, mas acabou atropelado enquanto atravessava a rua. “Perdi a primeira corrida da minha vida, mas mais uma vez escapei por pouco da morte”, contou.

Aos poucos, o episódio foi sendo esquecido pelo menino, que enfrentava outros problemas enquanto. Na escola, era discriminado porque não conseguia entender o que os professores e os outros garotos diziam –afinal, na casa dos Zamperini só se falava italiano. Mesmo quando a família foi obrigada a falar inglês pelo bem dos filhos, não ajudou muito: era o típico inglês macarrônico, e os garotos continuavam sendo vítimas de brincadeiras dos colegas –não poucas vezes, violentas.

O pai de Louie, que fora lutador na juventude, ensinou ao garoto alguns movimentos do boxe, esquivas, golpes rápidos. O menino rapidamente pôs em prática o aprendizado e em pouco tempo se transformou no terror de Torrance. Brigava, roubava, bebia, fumava, arrombava portas, era ameaçado por vítimas furiosas, não poucas armadas, em aventuras que costumava terminar com o garoto correndo “feito um louco”, como dizia.

Nos primeiro anos da adolescência, estava no caminho certo para longos períodos de detenção em reformatórios juvenis; mais tarde, a cadeia seria talvez o seu destino, quem sabe até a pena máxima. Foi seu irmão mais velho, Pete, que veio com a solução para tentar impedir que aquela tragédia anunciada se consumasse. Conseguiu convencer pais, professores e até o diretor da escola que a salvação de Louie estava no esporte.

Pete já fazia parte do time de atletismo da escola e acreditava que seu irmão poderia ter sucesso. Todo mundo concordou em dar mais uma chance a Louie. Era o ano de 1932, e o garoto começou a temporada odiando tudo aquilo, arrastando-se na pista e treinando obrigado, açoitado a golpes de vara que o irmão, que o acompanhava de bicicleta nos treinos, lhe dava quando não era rápido o suficiente.

Começou a vencer. No final da temporada, tornou-se o primeiro garoto de Torrance  a participar das finais de uma competição intermunicipal de atletismo. No ano seguinte, com 16 anos, já estava apaixonado pelas corridas, feliz com as atenções que as vitórias lhe traziam: até as meninas começavam a gostar dele.

“A corrida me tirou de uma vida de garoto-problema”, me disse ele em uma curta entrevista por e-mail, no ano passado. Apesar de sua participação nos Jogos de Berlim-1936 e de outras conquista posteriores, a prova que mais lhe trouxe satisfação foi uma competição escolar de cross country, quando bateu os recordes de todas as categorias…

Naquela época, nos idos de 1933, derrubava recorde após recorde nos 400 metros, nos 800 m, na milha e até nas prova de duas milhas (3.200 m). Em 1934, correu a milha (1.609 m) em 4min21s3, diminuindo em dois segundos o recorde anterior dos alunos do ensino médio, derrubando uma marca estabelecida durante a Primeira Guerra Mundial. Seu tempo só seria superado 19 anos depois.

Apesar de sua progressão fantástica, no final do ano seguinte, quando os sonhos de todos os esportistas se voltavam para a Olimpíada, percebeu que não seria páreo para os corredores mais velhos e experientes. Por volta de abril de 1936, deu por encerrada sua tentativa de disputar os 1.500 m nos em Berlim.

No mês seguinte, porém, ficou sabendo que haveria uma corrida de 5.000 m no Los Angeles Coliseum e que Norman Bright, recordista norte-americano das duas milhas e segundo no país nos 5.000 m estaria presente.  Resolveu testar suas forças na distância, 12 voltas e meia na pista, que ele descrevia como “uma câmara de tortura de 15 minutos”.

Terminou cabeça a cabeça com Bright, passou a acreditar que tinha chances e tratou de disputar as provas seletivas para entrar no esquadrão olímpico dos Estados Unidos. Em julho estava a bordo do navio a vapor Manhattan, que levava para a Alemanha a equipe dos EUA, além de jornalistas, empresários, socialites e ricaços em geral.

Louie treinava correndo no convés, lutava para ficar em pé quando o navio sofria com as grandes ondas, roubava lembranças de viagem como faziam quase todos os outros e, acima de tudo, comia. Com 19 anos, era um garoto magricela, esfomeado pela lembrança dos dias de pobreza. Seu apetite chegava a impressionar a ele mesmo que chegou a escrever em uma carta o quanto havia comido no jantar do dia 17 de julho de 1936: “meio litro de suco de abacaxi, duas tigelas de caldo de carne, duas saladas de sardinha, cinco pãezinhos, dois copos grandes de leite, quatro pepinos doces em conserva (pequenos), dois pratos de frango, duas porções de batata doce, quatro pedaços de manteiga, três porções de sorvete com biscoito wafer, três fatias de pão de ló com cobertura de açúcar, 680 gramas de cereja, uma maçã, uma laranja, um copo de água gelada”.

O resultado seria um recorde: durante a viagem, foi o atleta que mais aumentou de peso, ganhando 5,4 quilos durante os nove dias da travessia. Houve quem não ganhasse tanto peso, mas perdesse a chance de disputar os Jogos, como ele conta ao lembrar as aventuras no vapor Manhattan.

“Uma nadadora famosa decidiu sair do deque em que estavam os atletas, foi para a primeira classe para ficar com o filho de Hearst [William Randolph Hearst, magnata da imprensa], com quem dançava e bebia champanhe. Acabou expulsa da equipe olímpica por causa de seu comportamento, mas foi contratada como comentarista dos Jogos por um dos jornais de Hearst.”

 

Depois de sua prova no Estádio Olímpico, Zamperini saiu com os amigos em várias noitadas. Em um desses passeios, talvez já alegre demais, viu a bandeira do Terceiro Reich tremulando em um prédio oficial. Parou a observar o trajeto dos sentinelas que montavam guarda ao edifício e, quando estavam longe, correu, saltou e … não agarrou a bandeira. Pulou de novo, segurou a flâmula, que saiu rasgada enquanto Zamperini caía de bunda no chão, com um barulho surdo, que chamou a atenção dos guardas.

Tratou de fazer o que sabia: correu. Mas ainda conseguiu ouvir o ruído de fuzis sendo engatilhados e o grito de “Alto!”. Obedeceu. “Foi a coisa mais inteligente que fiz na minha vida”, brincaria ele anos mais tarde, recordando a conversa cheia de gestos que se seguiu e que acabou com todos rindo e com a bandeira rasgada devidamente dobrada, guardada em um bolso e levada para os Estados Unidos como suvenir.

Voltou à pátria e começou a carreira como esportista universitário –graças ao atletismo, podia cursar a universidade que quisesse; dos vários convites, ficou com a Universidade do Sul da Califórnia. E foi em nome da UCS que, em 1938, quebrou o recorde da milha, graças a um treinamento pouco convencional para a época, idealizado por ele mesmo.

“Era um programa secreto, que realizei sem que meu técnico soubesse: correr em subidas. Os treinadores e médicos eram contra, diziam que era prejudicial para o coração.” Mas não havia colinas na região, então ele tratou de subir as arquibancadas do estádio da universidade.

Depois de cada sessão de treino, ia ao estádio e subia as escadarias vezes sem conta, numa preparação estafante, que servia também para moldar seu espírito para suportar a dor.

E dor ele sentiu no dia da prova, num dia quente de junho de 1938. Não pelo esforço físico, mas pelo ataque de outros concorrentes, estudantes de universidades do Leste dos EUA, cujos técnicos tinham decidido vencer a qualquer custo –o que significava tirar Zamperini da competição.

“O plano deles era me deixar encaixotado [cercado por outros corredores] e, nas duas primeiras voltas, eles conseguiram. Eu reclamei, e os caras só me xingavam, tentavam me derrubar, davam socos. Alguns me atingiram as canelas com as travas das sapatilhas. Quando tentei uma ultrapassagem, levei uma cotovelada que trincou uma de minhas costelas. Levei um pisão e a trava furou meu pé… Até que consegui um  espaço e disparei”, contou ele à Fundação do Atletismo Amador de Los Angeles.

Com o sapato rasgado, sangue descendo pelas canelas e o peito dolorido, venceu, mas ficou triste, cabisbaixo, frustrado, imaginando que tivesse sido uma corrida lenta. Errou.

No estádio de Mineápolis, fechara a milha em 4min08s3, novo recorde universitário. Seu tempo reinaria por 15 anos.

E foi assim que, quando a Segunda Grande Guerra estourou, Zamperini era visto no mundo esportivo amador como um dos candidatos –alguns o consideram o melhor candidato–  a derrubar a mítica marca dos quatro minutos na milha.

O ataque japonês a Pearl Harbour mudou tudo. De uma hora para outra o corredor virou soldado, aviador, especialista em bombardeios. Envolveu-se em batalhas sangrentas, ajudou a arrasar cidades e, quando voltava para a base, no Havaí, tratava de correr sempre que podia, tentando manter a forma e o espírito guerreiro.

Numa missão, as coisas quase deram errado. Era chegar à região do alvo, soltar as bombas e voltar. Mas não contavam com a rapidez dos aviões japoneses, os ágeis caças Zero, que metralharam os aviões norte-americanos sem dó nem piedade. Zamperini conseguiu escapar, mesmo com seu avião crivado de balas –594 buracos, contados um a um por fuzileiros navais impressionados com a capacidade de sobrevivência de homens e máquina.

O desastre se deu na tarefa seguinte, sem a participação de nenhum inimigo. Foi mandado em uma missão de resgate num avião que vinha dando problemas. Acabou caindo ao mar. Só Zamperini e dois companheiros se salvaram –um acabou não resistindo durante a provação.

Ficaram 47 dias à deriva, quase enlouquecidos pelo sol e o sal, pela fome e pelo medo. Com remos, batiam em tubarões que rondavam os botes; pescavam e caçavam pássaros com as mãos, bebiam água da chuva e sangue dos bichos que conseguiam pegar, numa luta insana e incansável para ficar vivo só mais um segundo, um minuto, uma hora, um dia, sonhando sempre em chegar à terra firme.

Acabaram resgatados por um navio japonês e transformados em prisioneiros de guerra. Louis Zamperini, um atleta de 1,68 m, pesava então menos de 40 quilos –30 quilos, segundo alguns registros. De qualquer forma, tinha perdido quase metade de sua massa corporal.

Durante os dois anos seguintes, não iria ganhar muito mais peso, submetido a torturas constantes em campos de concentração japoneses. Sua primeira parada foi na Ilha da Morte, aonde os prisioneiros eram levados para serem executados. “Aqueles 43 dias em Kwajelin foram os mais difíceis de minha vida. Tudo era ruim, a comida era atirada na sujeira, um buraco no chão de minha cela servia como latrina, e minha cabeça ficava perto daquele buraco a noite toda. Havia piolhos, pulgas, insetos por todo o lado. Eu rezava para voltar no tempo, para ficar à deriva no mar…”, me disse ele.

Mas não voltou. Para os americanos, era tido como morto. Mas sobreviveu à Ilha da Morte, não sabe por quê, sendo levado para outro campo de concentração. As torturas continuaram, Zamperini virou joguete na mão de um sádico comandante de prisão. Imaginava que estava enlouquecendo, acordava tentando inventar formas de escapar de seu algoz, sonhava com os espancamentos e humilhações…

O sofrimento só acabou com o fim da guerra, a debandada dos oficiais japoneses e a chegada das tropas americanas. Zamperini não tinha mais condições de correr, mas estava vivo.

“A corrida me ajudou a sobreviver. Acho que aumentou a minha capacidade de suportar a dor”, me disse ele por e-mail.

 

Corrida divulga importância da doação de sangue

Por rlucena
02/07/14 10:09

Correr é um ato de entrega. Quando a gente vai para a rua, está se expondo para o mundo, de peito aberto, querendo ver o que rola no asfalto e mostrando o que tem de melhor: disposição de vida.

Talvez seja por isso que muitas corridas se mesclem a eventos benemerentes, incentivando a boa vontade dos atletas, seja para ajudar financeiramente alguma entidade beneficente, seja para divulgar informações sobre doenças ou medidas que interessem ao bem comum.

É esse o caso da Corrida e Caminhada Pró-Sangue, que será realizada no dia 20. Ela pretende ser uma arma para divulgar informações sobre a doação de sangue e conquistar novos doadores nessa população saudável e generosa que é a dos corredores de rua.

Aliás, muitos de nós já fazemos isso, por conta própria e sem divulgação. Algumas equipes fazem disso uma atividade comum, como o projeto Vida Corrida, que reúne corredoras do Capão Redondo e organiza doações coletivas pelo menos duas vezes por ano.

Qualquer pessoa com boa saúde, entre 16 e 67 anos de idade e com mais de 50 kg de peso, pode ser doadora de sangue. Claro que há restrições –eu fiquei seis meses sem poder doar depois de ter levado uma mordida de cachorro–, que você pode conferir com mais detalhes no site da Fundação Pró-Sangue, AQUI.

O mais legal de doar sangue é o resultado: quatro vidas podem ser salvas com cada doação de sangue, segundo a Fundação.

O processo dura cerca de uma hora, incluindo cadastro, triagem  e espera, e o volume total de sangue a ser doado não pode exceder 8 ml/kg de peso para as mulheres e 9 ml/kg de peso para os homens. O volume máximo admitido para uma doação é de 450 ml ± 50 ml.

A doação de sangue não engrossa nem afina o sangue. Também não provoca perda ou ganho de peso. Mulheres podem doar sangue mesmo no período menstrual.

Na corrida não haverá coleta de sangue. Conversei com médicos do Pró-Sangue, que disseram o seguinte: corredores que vão participar da prova e estão interessados em doar sangue devem fazê-lo no seguinte ao da corrida ou nos dias subsequentes, não antes da corrida.

Além da corrida de 10 km, haverá caminhada de 3 km. A largada e a chegada serão em frente ao estacionamento da Assembleia Legislativa, na região do Ibirapuera. A partida é às 7h30 e as inscrições estão abertas até o próximo dia 17 no site oficial da prova, que você confere clicando AQUI.

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Carregador de GPS pode fazer mal ao computador

Por rlucena
30/06/14 13:54

A beleza, a graça e a elegância da mais moderna tecnologia me atingiram como um soco quando abri a caixa do relógio de corrida com GPS que iria testar. Vestido de azul e negro, com uma tela redondinha de ótima definição em que os algarismos se destacam, o Garmin Forerunner 620 parece dizer: “Compra eu, tio”.

30garmin1Calma, cocada. Vamos pelo menos olhar a embalagem, dar uma geral nas especificações, passar os olhos no manual do usuário –ih!, isso nem existe mais, o que há é um “Guia de Início Rápido”. Pois foi começar a ler e levei um choque (no sentido figurado….).

Com grande destaque, letras em caixa alta, com tipos mais fortes, escritos sobre uma faixa laranja e com um triângulo amarelo ao lado, anunciam: “AVISO”.

Não costumo dar bola para esse palavreado, que costuma ser o mesmo para os mais diversos equipamentos. Por descarga de consciência e dever profissional, porém, tratei de ler o dito cujo. E fiquei sabendo que o carregador do belo GPS a ser testado poderia ameaçar a existência de meu computador. E, se eu porventura carregasse no peito um marca-passo, também poderia ser vítima da traquitana, Chucky em forma de relógio.

Está lá escrito, em português de Portugal: “O suporte de carregamento contém um íman. Em determinadas circunstâncias, os ímanes poderão causar danos em alguns dispositivos eletrónicos, incluindo discos rígidos em computadores portáteis. Tenha o devido cuidado quando o suporte de carregamento está próximo de dispositivos”.

E também: “O suporte de carregamento contém um íman. Em determinadas circunstâncias, os ímanes poderão causar interferência com alguns dispositivos médicos, incluindo pacemakers e bombas de insulina. Mantenha o suporte de carregamento afastado desses dispositivos”.

Imagino que a Garmin entenda que, do ponto de vista legal, esse tipo de aviso seja o suficiente para isentá-la de responsabilidades no caso de algum acidente do gênero. Imagino também que, no caso de algum problema, haverá centenas ou milhares de advogados dispostos a provar que não, essa advertência não isenta a empresa de culpa.

Bom, querelas jurídicas e questões legais não são a minha praia, e não pretendo aqui fazer nenhum tipo de acusação. Também não sei qual é exatamente o grau de risco que o carregador representa –em pesquisa na internet, não encontrei registro de problema (o que não significa que não tenha acontecido).

Como usuário, porém, considero o alerta feito pela Garmin insuficiente. Genérico demais, me deixou inseguro em relação ao uso do carregador. Afinal quais são as “determinadas circunstâncias” em que o imã poderá causar interferência no disco rígido do computador ou em um marca-passo? Qual é o “devido cuidado” a ser tomado? E a qual distância ele deve ser mantido dos aparelhos potencialmente ameaçados?

Em suma, é evidente que a Garmin poderia ser menos genérica no seu aviso. Nem imagino que implicações isso poderia ter, do ponto de vista legal, mas, como usuário, eu ficaria mais feliz se tivesse uma indicação como: “Ao carregar o Forerunner 620, deixe o relógio distante do seu computador pelo menos um metro”. Enfim, não tenho ideia de como a empresa poderia informar melhor; como consumidor e usuário, espero ter informações mais claras e precisas sobre o equipamento comprado, ainda mais quando ele representa risco para a saúde humana ou para o bom funcionamento de outros equipamentos.

Independentemente dessa potencial ameaça, tenho cá comigo que a origem desse problema é o fato de que a Garmin até hoje não definiu um padrão de sistema para fazer a recarga dos relógicos com GPS e a comunicação deles com o computador.

Eu uso equipamentos da Garmin desde 1999. Ao longo desse período, já comprei pelo menos quatro relógios/GPS, além de testes em outros modelos. Em cada um deles, o sistema de recarga e comunicação com o computador era diferente; e todos tinham problemas.

O sistema do Forerunner 310 era uma dor de cabeça: um bercinho em que se colocava o relógio “de costas”, para que conectores do aparelho se encostassem nos do berço. Precisava acertar a posição, dar um jeitinho; às vezes demorava mais tempo para ajustar o relógio no berço do que para fazer a transferência das atividades.

O do 201 era o melhor (aliás, aquele 201 era o máximo!!!): havia uma porta miniUSB  na lateral do relógio, que era um mostro retangular. A porta tinha uma “fechadura” de borracha que, com o tempo, passava a não vedar muito bem os conectores…

São os que me lembro. O meu relógio atual é o 210, com um sistema de clipe, que encaixa batoquinhos do clipe em conectores no relógio e fica preso por pressão. Tem funcionado bem, de modo geral, ainda que, de vez em quando, seja preciso dar um jeitinho para que a comunicação aconteça.

O sistema do 620, que é o assunto deste teste, é um aperfeiçoamento do bercinho lá do velho 310, agora menor, mais ajustado, mais leve e elegante. Para que fique devidamente preso ao relógio e propicie a conexão, ele tem esse sistema magnético, esse imã, que pode provocar os problemas já mencionados.

Enfim, como se vê, é uma salada tecnológica; cada sistema tem vantagens e desvantagens. Como você deve ter percebido, gosto mais do sistema do 201, mas é claro que ele era possível por causa do tamanho do relogião. Bueno, há que se viver com o que tem; espero que a Garmin um dia consiga dar um jeito nisso –e também de aumentar a capacidade da bateria, que é a maior deficiência dos relógios com GPS.

Dito isso, vamos ao Forerunner 620. Além da elegância, sua característica mais marcante é o fato de ter tela sensível ao toque. Funciona muito bem, mesmo para um sujeito desastrado como eu. Claro que o usuário precisa ter alguma paciência no início, e é recomendável fazer os ajustes do relógio tendo à frente o “Manual do Utilizador”. Sujeitos de memória fraca, como eu, precisam de várias saídas com o relógio para memorizar os diversos comandos, funções dos botões e dos toques na tela.

Mas é possível aprender e daí é bom demais. Os números são bem definidos, ainda que pequenos quando a tela é dividida em três partes (a central tem algarismos mais parrudos). O relógio é muito confortável, assim como a cinta para monitoramento dos batimentos cardíacos.

O GPS é bastante preciso, mas demora um pouco para acertar quando o corredor troca de ritmo –isso não é problema só do Forerunner:  absolutamente todos os GPS que testei apanham quando a gente passa de caminhada para corrida ou acelera de repente.

30garmin2Além disso, o 620 deu uma rateada braba em um dos treinos: marcou a passagem do quilômetro quando eu havia percorrido apenas cerca de 600 metros. A prova do crime está aí ao lado: num treino de caminhada, com quilômetros feitos em mais de dez minutos, a segunda volta está com pouco mais de três minutos (quisera eu ser capaz de fazer um quilômetro em três minutos!!!).

Fiz o mesmo percurso em outras duas oportunidades, imaginando que o parelho pudesse ter sofrido alguma interferência, mas tudo transcorreu na mais santa paz. Enfim, fica o registro do problema.

De resto, tudo muito bom. Tem as  funções que me interessam em um monte de outras para as quais não tenho serventia, mas que sei que muitos corredores gostam, como o parceiro virtual e a sincronização com o celular inteligente.

Ah, o 620 também é muito simpático: dá parabéns quando o usuário bate recordes de distância ou velocidade e também sugere períodos de recuperação ao final de cada treino (nesses, é um pouco exagerado, mas tudo bem).

Para o meu bolso, é caro. Em moeda brasileira, o mais barato que encontrei na internet foi R$ 1.300; imagino que, procurando mais, seja possível obter melhores ofertas. Nos EUA, o pacote com cinta para monitoramento cardíaco custa cerca de US$ 450, então a diferença não é grande. De qualquer forma, é mais do que eu estou disposto a pagar por um equipamento desses.

Em comparação, o 210 tem preço de lista de US$ 250 e é encontrável por US$ 170. É mais pesado e mais gordinho que o 620, não tem tela sensível ao toque nem outras modernidades, mas mede tempo, distância e batimentos cardíacos. Para mim, basta.

 

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