Rodolfo Lucena

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Perfil Rodolfo Lucena é ultramaratonista e colunista do caderno "Equilíbrio" da Folha

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Novo recorde da maratona mostra que menos é mais

Por Rodolfo Lucena
29/09/14 16:29

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Dennis Kimetto provou: é possível ao homem correr uma maratona em menos de duas horas e três minutos. No último domingo, a maratona de Berlim voltou a ser palco para uma quebra de recorde na distância –ali a marca então em vigor já foi derrubada por nomes como Wilson Kipsang, Paul Tergat e Haile Gebrselassie, para citar apenas alguns.

Kimetto (foto AP) também demonstrou, no asfalto, que é válida e verdadeira a tese de muitos cientistas do esporte e especialistas em maratona: quem guarda tem e, se você for errar no ritmo, é melhor errar para mais do que errar para menos –ou seja, é melhor correr mais devagar do que o previsto do que correr mais rápido.

Ainda que obviamente o erro não tenha sido planejado, foi isso o que aconteceu no domingo em Berlim. Erros nos primeiros blocos de cinco quilômetros podem ter sido, se não decisivos, pelo menos úteis na quebra do recorde mundial.

Exemplos do contrário, temos tido aos montes em provas –mesmo experiente especialistas, quando forçam muito cedo ou vão muito rápido em tentativas de quebra de recorde, acabam pagando o preço da ousadia.

No domingo, o começo ficou aquém do que, em tese, deveria ser uma tentativa de quebra de recorde. A passagem do km 10 foi em 29min23.7, cerca de sete segundos pior do que a marca de Kipsang quando estabeleceu seu recorde no ano passado.

Mesmo com esse alerta, os caras pareciam estar dormindo no ponto. Os cinco quilômetros seguintes só pioraram a situação: a passagem do km 15 foi 24 segundos mais lenta do que a cravada por Kipsang.

Daí os caras mandaram ver. Cruzaram pela marca da meia maratona em 1h01min45, o que indicava que precisariam fazer o que se chama de split negativo, completar a segunda etapa em menos tempo do que a primeira.

Pediu, levou.

Emmanuel Mutai puxou a frente, Kimetto respondeu, e os dois passaram a travar o duelo mais rápido da história da maratona.

Para ninguém dizer que falo sem provas, basta este exemplo: na passagem dos 30 km, Mutai estabeleceu novo recorde mundial para a distância, cravando 1h27min37, um segundo a menos do que Patrick Makau correu quando quebrou o recorde da maratona, também ali em Berlim.

Quem voasse menos dançaria. E os dois fizeram os cinco quilômetros seguintes, do Km 30 ao km 35, em 14min10!!

Chegou a hora da decisão. No km 38, Kimetto deu o bote e escapou. Não fugiu, não desapareceu. Mutai ficou no seu encalço, obrigando o compatriota a manter o ritmo forte. No final, os dois terminaram, em tempo menor do que o antigo recorde, 2h03min23.

Kimetto, o campeão e novo recordista, cravou 2h02min57, e parecia pronto para outra. Mutai, sua sombra, completou em 2h03min13, e deixava evidente no rosto e nos sinais corporais o quanto o esforço lhe tinha sido penoso. Logo estava botando os bofes para fora, até receber ajuda.

Logo, porém, estava em condições de comentar o desenlace: “Estou satisfeito com a conquista. Lutei para vencer, mas meu colega foi mais forte. Talvez eu vote no ano que vem e possa esmagar seu recorde mundial.”

29 kimetto recorde reutersKimetto (toto Reuters), por seu lado, enrolado em uma bandeira do Quênia, era só alegria: “Estou muito feliz. Vamos ter uma grande festa lá em casa”.

Aos 30 anos, ele é relativamente novato em disputas internacionais –ou mesmo nacionais, para ser mais preciso. Costumava treinar sozinho no Quênia, participando de vez em quando dos longões coletivos que os corredores costumam fazer na região em que moram –no caso, Kapng’tuny . Num desses, deixou então já conhecido internacionalmente Geoffrey Mutai comendo poeira.

G. Mutai, que não é parente de Emmanuel e também não é nenhum bobo, convidou o cara para participar de seu grupo de treinamento. Para encurtar a história, em 2012 os dois protagonizaram aquela estranha final na maratona de Berlim, em que Mutai venceu Kimetto por um segundo, apesar de seu pupilo parecer claramente em melhores condições (eu escrevi sobre isso na época, leia AQUI).

Bom, o certo é que a corrida mudou na vida do agricultor e dono de algumas poucas cabeças de gado. Com os prêmios que recebeu nos últimos anos, comprou mais gado, está de carro novo e casa nova. Também garantiu o estudo dos filhos. E quer mais:

“Eu acho que é possível fazer uma maratona em duas horas”, disse ele.

Quem viver verá.

 

Corredor se engana sobre causas de lesões, diz estudo

Por Rodolfo Lucena
26/09/14 06:51

Tênis (supostamente) inadequados e falta de alongamento são as principais causas de lesão em corredores, segundo acreditam os próprios corredores.

Você, esperto leitor, atenta leitora, já percebeu que aquele supostamente entre aspas que coloquei na frase acima já indica que não acredito muito nem na adequação dos tênis nem nas crenças dos corredores.

A ciência –ou, pelo menos, os estudos científicos de que se temo notícia—está do meu lado.

“Não há comprovação de que alongar antes ou depois dos treinos, assim como usar tênis adequados, reduza o risco de lesão”, informa o doutor Alexandre Lopes, professor do curso de mestrado e doutorado em fisioterapia da Universidade Cidade de São Paulo (Unicid). Ele coordenou um trabalho de campo que entrevistou 95 corredores amadores (65 homens e 30 mulheres), entre 19 e 71 anos, moradores de São Paulo.

Quando recebi o material de divulgação desse estudo, achei a pesquisa meio inútil. Afinal, qual a importância da opinião dos corredores sobre as causas de suas lesões? Aparentemente, isso pode servir de base para ações eductaivas, me disse o professor Lopes:

“Uma das grandes críticas que se faz à área acadêmica é o distanciamento da “prática”. Muitos estudos, inclusive na área de lesões na corrida, são feitos sem levar em conta o que pensam os principais beneficiados dos estudos. Visto que as opiniões e crenças dos corredores têm sido sugerido como fator chave para a prevenção de lesões, o objetivo deste estudo foi o de exatamente procurar entender o que os corredores pensam sobre “lesões na corrida”. Acreditamos que esse melhor entendimento pode ser útil para a elaboração de programas de prevenção de lesões, assim como auxiliar no tratamento destas lesões.”

É bom que se diga que os corredores não são absolutamente ingênuos a respeito de seus problemas, totalmente crentes no marketing de empresas de material esportivo. Apesar do engano sobre as causas principais, eles deixam claro que a lesão é resultado de múltiplos fatores –chegaram a apontar 60 causas de problemas.

Causas que apareceram com mais frequência foram  não respeitar o limite do corpo, mudanças na pisada, excesso de peso, excesso de treino, falta de aquecimento e dieta inadequada.

Aí já há um melhor casamento com o conhecimento científico estabelecido: pesquisas apontam o treinamento excessivo e o desrespeito aos limites do corpo como fatores de risco.

A pesquisa ouviu 95 atletas amadores, praticantes de corrida há pelo menos seis semanas, com volume mínimo semanal de 10 km. Em média, os entrevistados corriam havia 5,5 anos e 45% deles já tinham sofrido alguma lesão no passado.

 

Deena Kastor derruba quatro recordes mundiais de veteranos numa só corrida

Por Rodolfo Lucena
24/09/14 10:22

Desta vez, ela não correu como fizera na sua maior conquista. Em 2004, na maratona olímpica, a norte-americana Deena Kastor cozinhouo galo enquanto pode, ficou lá atrás grande parte da prova, guardando as energias. À medida que o calor derrubava as oponentes, ela seguia seu passinho até se ver no pódio, com a medalha de bronze.

Domingo, não. Saiu para correr a Philadelphia Rock ‘n’ Roll Half Marathon com sangue nos olhos, de olho em fazer uma boa marca. Grudou no primeiro time, onde estava a etíope  Aberu Kebede  e a queniana Caroline Rotich, e foi mandando brasa, ainda que dores na perna teimassem em chamar a sua atenção.

Ela se manteve o tempo todo em ritmo de recorde mundial, mas teve de superar problemas. “No km 18, achei que não ia dar”, disse ela á imprensa norte-americana.  “Eu tinha dores no lado da perna e percebia que minhas passadas não estavam boas. Pelo menos eu tinha as líderes no meu campo de visão. Isso me ajudou a focar na corrida e esquecer as dores.”

Que esquecida! Aos 41 anos, ela completou a meia maratona domingueira em 1h09min36, limando 20 segundos do recorde estabelecido pela russa Irina Permitina em 2008. De quebra, ainda estabeleceu novas marcas mundiais para veteranas nos 15 km (49min03), 10 milhas (52min41) e 20 km (1h05min52). Por suposto, quebrou também o recorde norte-americano da meia maratona, que era dela mesma.

E olha que tudo isso não passava de treinamento: a corrida faz parte de sua preparação para a maratona de Nova York. “Esse resultado me deixou faminta por competição”, disse ela, que não comentou a possibilidade de quebra de recorde também na maratona. Mas não tira de seu horizonte uma tentativa de integrar o time feminino dos EUA que irá para a maratona dos Jogos do Rio-2016.

Ah, só para dar uma perspectiva nacional às coisas: a marca da “velhinha” Deena Kastor é quase dois minutos melhor do que o recorde brasileiro para a distância, que é de 1h11min15 e foi estabelecido por Silvana Pereira em Florianópolis em 1991.

Também é bom lembrar que Deena é mãe de uma menininha e que teve câncer de pele, diagnosticado em 2001. Ela passou por uma série de cirurgias para remoção dos tecidos atingidos. Já levou mais de 200 pontos para fechar os buracos deixados pelas cirurgias.

Runtastic é bom, mas não fantástico

Por Rodolfo Lucena
22/09/14 17:49

Jornalista odeia anúncio, mas jornalista adora anúncio. A gente sabe que são as propagandas que sustentam a empresa e garantem o pagamento dos salários; em contrapartida, a publicidade tira espaço da redação, reduz a área para as reportagens, obriga cada um a escrever menos…

Como já se viu, é justificada a contradição da primeira frase.

Já leitor, não. Leitor compra o jornal para ler jornal (aos domingos, anos atrás, comprava para ler os anúncios classificados, também chamados de pequenos anúncios). Ainda que as empresas argumentem que anúncio também é informação, o leitor quer é ver reportagem, fotos, opiniões. E se sente traído, ludibriado, quando percebe que há muitos anúncios e pouca matéria, como a gente chama as reportagens e textos jornalísticos.

Quando era editor do caderno informática da Folha, recebi vezes sem conta telefones, e-mails e até cartas físicas reclamando da grande quantidade de anúncios, do espaço limitado para a redação. Tratava de atender bem a todos os reclamantes e dar explicações como as ditas anteriormente linhas cima.

Hoje, porém, ao testar a versão gratuita do aplicativo Runtastic, me senti como o leitor que me escrevia ou mandava e-mail reclamando do que ele considerava excesso de propaganda. O programa, um GPS voltado para uso por corredores, é bem legalzinho, mas seu uso é à base de soluços, constantemente interrompido pelo saltar de anúncios para a frente da tela.

Isso não só é chato, mas também atrapalha bastante usuários de primeira viagem. Não poucas vezes, cliquei em anúncios, no pé da tela, pensando que estava fechando a propaganda ou que estava acessando algum recurso do programa.

Você pode dizer que eu não enxergo bem –de fato, corro sem os óculos que preciso para leitura–, mas acontece que qualquer leitura fica mais difícil quando a pessoa está correndo. Se as letras são pequenas e a página desejada fica embaralhada com alguma propaganda não solicitada, então, é caminho certo para o erro.

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Outro problema da versão gratuita é que a empresa, além de ficar colocando propagandas em pencas, também fica oferecendo o tempo toda a versão Gold, paga, do programa (veja acima). Cada empresa faz o que quer com os seus produtos, e não sei se os concorrentes da Runtastic também fazem isso, mas como usuário eu fico muito frustrado com isso.

Se os caras –e aí não me refiro apenas à Runtastic—põe no mercado uma versão gratuita, ela deveria ter as funcionalidades básicas e funcionar bem. Esses dias, por exemplo, fui baixar um gravador de conversas de Skype que, na versão gratuita, gravava apenas dez minutos. Desisti, é claro, e encontrei outro programa que também tinha propagandas, mas não impunha limites.

Cá comigo, eu acho que as empresas deveriam desenvolver coisas bacanas, atraentes, especiais –e aí cobrar por elas, mas sem tirar o básico. No caso do Runtastic, por exemplo, recebi todas as informações necessárias para avaliar o desempenho no treino, mas não consegui, na versão gratuita, ver os mapas de minhas corridas. Isso é especialmente frustrante porque, no resumo da atividade, o mapa aparece…

A empresa me informa que, para ver os mapas, deveria ter modificado a configuração de privacidade. De qualquer modo, exige uma troca para oferecer um recurso que deveria ser básico, padrão.

Bom, quanto à precisão, o aplicativo me pareceu bastante razoável. Eu sempre uso como base meu Garmin 210, que já é velhinho, mas bem confiável. Em treinos dos dias 16, 17, 19 e 20 de agosto, por exemplo, o Garmin marcou distâncias de: 3 km, 4,06 km, 4,11 km e 6,04 km. Já o Runtastic cravou 3,18 km, 4,36 km, 4,38 km e 6,33 km.

Como se percebe, não há um padrão nas diferenças. Além disso, eu nunca parei os relógios exatamente no mesmo segundo. Então, noves fora, pode-se dar um crédito de confiança ao sistema. Ou seja, está na média dos aplicativos do gênero que conheço ou já testei, traz as informações básicas necessárias e é simpática –manda elogios quando a gente “bate recorde” de distância ou ritmo.

Podia não ter tanta propaganda e trazer mais recursos e informações na versão gratuita.

Bom, ao testar o aplicativo, tive a oportunidade de experimentar também um outro produto dessa empresa criada em 2009 por jovens austríacos. A Runtastic vem tendo tanto sucesso com os aplicativos para corrida e boa forma –contabiliza mais de 85 milhões de downloads e mais de 40 milhões de usuários registrados no runtastic.com—que resolveu lançar um traquitana para acompanhar o exercício do vivente.

Seguiu, como se diz, a tendência da moda no segmento e lançou sua versão de pulseira atlética –neste blog, você já viu os testes que fiz das pulseiras da Garmin (releia AQUI) e da Samsung (releia AQUI). Como disse naqueles textos, esses produtos não me interessam, mas podem ser úteis para uma parcela da população –especialmente o da Samsung, mais completo, ainda que mais caro.

Lamento, mas não posso dizer isso da Orbit, a pulseira da Runtastic.

22 orbitEla até que tem os recursos essenciais desse tipo de produto:“O aparelho contabiliza passos dados, minutos em atividade física, calorias queimadas, metas e até mesmo iluminação ambiente. Outras características incluem um monitor OLED, hora e alarme e tecnologia Bluetooth Smart. É também à prova d’água até 300 pés”, informa o material distribuído à imprensa.

De fato. O problema é que a gente não consegue ler o que o dispositivo está medindo. Diferentemente dos produtos da Samsung e da Garmin, que têm telas retangulares, o Orbit tem uma pequena tela praticamente quadrada, menor que a unha de meu dedão –e olha que o tamanho de minha mão é apenas mediano.

Por via de consequência, como diria o outro, as letrinhas na telinha também são pequenininhas. E aí a leitura fica inviável para um cinquentão de olhos cansados –e aposto que, durante a corrida, não é confortável mesmo para um garotão de olhos de lince.

Para piorar as coisas, o uso da Orbit provoca aumento de gasto de bateria do celular, como o qual se comunica por sistema Blutooth.

Resumo da ópera: não gostei. A Orbit não vai ser vendida no Brasil; na Amazon, é encontrável por US$ 109.

De qualquer forma, vale a pena entrar na página da empresa e conferir os outros aplicativos esportivos que oferece. Gostei muito, por exemplo, de um chamado Six Pack, que traz dicas para fazer abdominais. A série de aplicativos gratuitos incluídos no Fitness Colection tem ainda programas para flexão, agachamento e barra fixa. Não sei se funciona, mas sempre é um incentivo a mais para a gente se mexer.

 

Corrida arrecada fundos para entidades que defendem a criança

Por Rodolfo Lucena
17/09/14 19:00

Dia 12 de outubro vem aí, e os corredores também vão fazer sua homenagem às crianças deste Brasilzão velho de guerra.

Quem quiser pode transformar sua corrida não apenas numa saudação à meninada mas também em uma forma de apoio aos mais desprotegidos.

É que a primeira Corrida pela Criança, realizada pela Fundação Abrinq, vai arrecadar fundos para entidades que atuam com a garotada nos mais diversões rincões do país.

Todo a renda obtida com as incrições (cada uma sai por R$ 40) será revertida para as entidades; além disso, os participantes também podem fazer doações extras.

A prova de 5 km –haverá também caminhada– será realizada no dia 12 de outubro, com largada às 7h30 no elevado Costa e Silva, que a população de São paulo conhece melhor pelo apelido de Minhocão.

Para saber mais ou fazer sua inscrição, confira o site oficial, AQUI.

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Relógio da TomTom com GPS traz bons recursos e preço competitivo

Por Rodolfo Lucena
15/09/14 12:39

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Reconhecida como a líder no mercado de relógios com GPS para corredores, a Garmin enfrenta concorrência cada vez mais séria.

Há poucos meses, a famosa marca finlandesa Suunto ampliou sua linha de relógios esportivos voltados para o mercado mais sofisticado –significa: compradores dispostos a pagar mais. Agora, a TomTom, de fortíssima presença no mundos dos GPS para carros, ataca com um relógio de custo relativamente baixo, buscando o mercado de corredores dedicados, mas que dão grande importância à economia e à relação custo/benefício.

Recentemente testei o relógio com GPS da Suunto, que confirma as tradições de qualidade da empresa. Ainda que tenha várias aspectos em que pode melhorar –como tudo e todos–, já se apresenta como forte competidor da Garmin na faixa de preço de R$ 1.000 a R$ 1.500 (o preço de lista no Brasil é R$ 1.199; leia mais AQUI).

Muito mais perigoso para a Garmin parece ser o mais novo integrante do portfólio da TomTom. A empresa holandesa começou há poucos anos a tatear nesse mercado, que promete ser saboroso –as vendas de produtos para exercícios GPS devem chegar a US$ 2,6 bilhões em 2018, segundo previsões da empresa britânica de pesquisa ABI Research.

A primeira investida foi fornecer o sistema de GPS para o relógio esportivo da Nike. A parceria continua, mas a TomTom agora está voo solo. Com sua própria marca, lançou  modelos de relógio para corrida e multiesportivos, que já estão sendo vendidos no Brasil. Em abril lançou na Europa uma versão com frequencímetro embutido, que chega em outubro às lojas brasileiras.

15 tomtom1Testei o relógio multiesportivo da TomTom durante algumas semanas –não foram muitos treinos, porque continuo em processo de recuperação e estou devagar quase parando.

O uso que fiz foi apenas no modo corrida, mas o relógio também serve para acompanhar o desempenho em ciclismo, natação, exercício na esteira e um curioso estilo livre, para uso em atividades não compreendidas nos outros esportes –skate, por exemplo, ou caminhada.

Um dos grandes atrativos é o preço: a versão de entrada do TomTom Runner tem preço de lista de R$ 749.

Outro ponto especial do relógio é sua facilidade de uso: tudo é controlado por apenas um botão gigante, quadrado, que fica abaixo do aparelho propriamente dito. Ele é único, mas vale por quatro: cada uma de suas bordas funciona como botão e aciona diferentes recorsos do relógio.

A maior dificuldade para o usuário é se acostumar com esse mecanismo: não poucas vezes me vi buscando botão no corpo do relógio, que é grande, mas não mangolão. Pode ser usado no dia a dia sem chamar muito a atenção –pelo menos, chamando tanto a atenção quanto qualquer outro relógio esportivo.

Por causa desse estranho casamento entre relógio retangular e botão gigante, o design do conjunto não é exatamente a coisa mais linda do mundo, mesmo para quem, como eu, gosta de coisas mais estrambóticas. Quando montado na pulseira, porém, que é o que interessa, o conjunto não é tão feio como quando “pelado”.

Ainda no terreno aparência/usabilidade, há que notar o tamanho dos algarismos. A tela de uso oferece basicamente três informações. A principal, em algarismos gigantes, é predefinida: você pode acessar a hora, o tempo de exercício e a distância percorrida, por exemplo, fazendo as mudanças pelo acionamento do botão.

No alto da tela, há dois campos programáveis (distância, ritmo, velocidade, horário, calorias e batimentos cardíacos –se você tiver a cinta que monitora o coração—são alguns deles). Nesse caso, os algarismos são bem pequenos, menores do que os algarismos pequenos da tela do Garmin simples que uso. Para mim, foi impossível ler os números pequenos enquanto corria; na caminhada, porém, prestando atenção, a leitura foi fácil mesmo sem óculos.

Isso porque a resolução e o contraste da tela, assim como a tipologia escolhida, favorecem a leitura. Não são tão bons quanto os do Garmin, mas são bem razoáveis (para mim, parecem melhores que a tipologia e o contraste do Suunto que testei, por exemplo).

Antes de prosseguir, devo dizer que, apenas de fácil de usar, ele não é tão “intuitivo” como a descrição anuncia. Acho que eu acabaria descobrindo as regras de operação, mas, para ir mais rápido, tive de dar uma olhadinha no guia rápido de operação que vem no pacote. Uma vez entendida as regras (bordas laterais mudam o modo do relógio, bordas de cima e de baixo do botão fazem girar a informação apresentada na tela), aí foi fácil seguir em frente.

O emparelhamento com o satélite foi rápido, de modo geral. Comparei com o Garmin em quatro ocasiões e saíram empatados: o Garmin ganhou em duas, o TomTom em duas. Curiosamente, as diferenças pró cada um foram sempre semelhantes, em torno de 30 segundos.

A precisão foi muito boa. Numa corrida de alegados cinco quilômetros, o Garmin marcou 4,87 km e o TomTom, 4,88 km; a diferença de tempo, provocada por mim ao me embananar no acionamento dos aparelhos, foi de três segundos.

Em todos os testes que fiz, sempre correndo com os dois aparelhos, a diferença entre um e outro foi pequena no que se refere à corrida. Na hora de caminhar, porém, parece que o TomTom enfrenta problemas.

No último treino que fiz com os dois, por exemplo, corri quatro blocos de 1.500 metros, com intervalos caminhados de 500 metros. Depois do último bloco de corrida, caminhei 1.500 metros, com duas paradas (dei pausa nos relógios e voltei a acioná-los).

Pois bem: ao final do último bloco de corrida, a diferença entre os dois relógios era de apenas 20 metros. Quando fechei 10 km no Garmin, porém, o TomTom marcava 10,16 km –ou seja, ampliou bastante a diferença no trecho final de caminhada.

Aliás, em dois outros treinos o aparelho deu “soluços” que não consegui entender. Ao cruzar uma alça de acesso à avenida Sumaré, ele deu um salto de 60 metros entre um lado e outro da rua. Essa diferença (em relação ao Garmin) se manteve ao longo da maior parte do treino; na parte final, porém, novamente deu uma desemparelhada. A diferença final foi 160 metros em um total de 8 km percorridos.

Consegui fazer mais um treino no mesmo percurso, e o “soluço” não se repetiu. O que só aumenta a curiosidade sobre sua ocorrência.

O outro caso, que foi mais grave, não pude rechecar. Ocorreu na Paulista. Eu seguia na contramão pelo lado par, com os dois relógios marcando basicamente a mesma distância (diferenças de dez ou 20 metros no máximo). Caminhando, atravessei a avenida na altura da Fiesp e, quando cheguei ao outro lado, a diferença tinha saltado para 120 metros –naquela altura, estava com pouco mais de 4.500 metros de treino.

Essa diferença (para mais) entre TomTom e Garmin se manteve até o sétimo quilômetro e depois destrambelhou. Terminei o treino com 9,01 km marcados no Garmin e 9,27 km marcados no TomTom. Como disse, não deu tempo para eu refazer o percurso e verificar se o “soluço” se repetia. Também não arrisco hipótese sobre sua causa.

É claro que essas diferenças acontecem, e alguém pode argumentar que o TomTom é que está certo, não o Garmin. Mas o curioso são esses “soluços”, com mudança brusca de quilometragem marcada, que aconteceram em duas oportunidades nos treinos que fiz.

É óbvio que, para mim, é impossível determinar qual a importância desses “soluços” no desempenho geral do TomTom; para isso, seria necessário uma longa bateria de testes, com muito mais rigor do que esta avaliação mais impressionista, de usuário real, de carne e osso, que eu faço.

A maior falha no relógio que testei é que ele não dá o tempo de cada volta, mesmo quando o usuário determina que o treino terá registro por voltas. Ou seja, você tem apenas os indicadores globais do treino, não etapa por etapa.

A boa notícia é que, cada vez que você liga o relógio ao computador e ele se conecta ao site da TomTom, é feita uma busca por novos softwares e, havendo atualização, ela é carregada automaticamente. Segundo a empresa me informou, uma próxima atualização vai permitir a visualização do tempo por volta.

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Ao longo dos testes, não consegui ver o desempenho volta a volta nem sequer no site (acima), mesmo quando marquei a opção treinos por volta (há ainda modos de corrida e treino simples, entre outros). A única diferença que vi é que, quando corro por volta, elas aparecem marcadas no mapa que está embutido no site.

Procurei por todo o lado, no site, algum lugar que abrisse informações específicas para o desempenho volta a volta, sem sucesso. Perguntei à empresa, que informou que tais dados só ficavam disponíveis quando o usuário fizesse treino “por volta”. Posso dizer que nem assim.

Claro que o erro pode ter sido meu. Mas devo registrar que tenho uma certa experiência no uso de GPS de pulso e na navegação por sites do gênero. Procurei em todos os pontos clicáveis, sem sucesso. De novo, posso ter falhado; mas, se a informação existe, há também uma falha do design do site em não deixar mais claro o acesso a ela.

Tirando isso, porém, o site é bem bacana, com design modernoso, por blocos –a Garmin está em processo de transição para esse modelo de apresentação). Há versão para uso em dispositivos móveis (o famoso aplicativo ou app…), mas eu gosto mais da apresentação na telona de meu computador de mesa.

Antes de concluir, devo voltar para outros aspectos importantes do relógio. Sua bateria é mais ou menos o padrão do mercado: a empresa promete dez horas de uso com o GPS ligado. Ele tem memória de 2 Gbytes, mantendo armazenados os dez últimos treinos.

O melhor de tudo, porém, é que há uma página no próprio relógio com todas as informações sobre ele: bateria e memória disponíveis, versão do software em uso e número de série. Para quem não gosta de surpresas, isso é ótimo. Que eu me lembre, é o único GPS que testei que apresenta essas informações consolidadas de maneira tão simples e clara.

15 tomtom4 relogio montadoPara carregamento e comunicação com o computador, o aparelho deve ser tirado da pulseira e colocado numa instalação especial, onde os conectores do relógio e do “berço” se encontram. O ajuste é bem bom, parece não haver risco de falha de comunicação por desencontro ou frouxidão do “abraço” dos conectores.

Talvez o mais sério problema do TomTom Runner seja seu irmão mais novo, o Cardio, que tem monitor cardíaco embutido: acompanha os batimentos do coração sem necessitar da cinta.

Ele apresenta na traseira um sensor ótico que calcula o batimento cardíaco baseado na corrente sanguínea no pulso do usuário. Já testei outros aparelhos que usam sistema semelhante, como a pulseira atlética da Samsung, e o resultado foi bom.

Claro que o modelo com frequencímetro embutido será mais caro –o preço de lista previsto é mais do que o dobro do preço inicial do Runner simples hoje disponível no Brasil. De qualquer forma, é bem possível que usuários mais endinheirados se vejam seduzidos pelas novas funções.

Ao fim e ao cabo, a TomTom se apresenta com uma forte competidora para a Garmin, notadamente na faixa de entrada. O que é muito bom para o usuário, que agora tem pelo menos três marcas muito boas com serviços bastante semelhantes –TomTom, Suunto e Garmin. O GPS da Timex também é muito bom, mas, quando testei, o site de acesso gratuito era péssimo; pode ter melhorado nos últimos dois anos, mas não voltei a visitá-lo.

De qualquer forma, recomendo que interessados em relógios GPS avaliem essas marcas antes de fazerem sua escolha. Cada comprador, cada corredor valoriza algum ou alguns aspectos mais do que outros, o que vai influenciar na decisão. Para meu gosto, entre os aparelhos que testei o Garmin ainda leva vantagem, mas a corrida está um corpo a corpo legal, e a concorrência está em cima dos cascos.

 

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Aos 90, bisavó quebra três recordes mundiais em um só campeonato

Por Rodolfo Lucena
14/09/14 11:33

Hoje trago para você uma entrevista com uma campeã mundial. Mais do que isso, uma guerreira da vida, uma das sensacionais atletas amadoras com quem já tive oportunidade de conversar. Ela não é corredora, mas mesmo assim serve de inspiração para todos nós.

Conversei com ela há uns 20 dias, no seu apartamento no Rio de Janeiro. Ele mora sozinha, mas às vezes é incomodada pelo Felipão. Trata-se de um cactus gigante, que fica postado perto da janela. Se a atleta não se cuida, cada vez que vai olhar para fora fica arriscada a se encostar no Felipão e sair toda espinhada.

“Dói”, ela me diz, enquanto arranca alguns espinhos do braço depois de ter mostrado para mim os fundos do prédio, que tem um quintal grande e arborizado.

Bom, chega de conversa. A seguir vai a entrevista que fiz com ela; uma versão reduzida deste texto saiu neste domingo (14.9) em Esporte, na Folha (leia aqui).

Nora Tausz Rónai tem duas filhas, quatro netos, seis bisnetos e três recordes mundiais de natação. Os herdeiros e descendentes gerou ou viu nascer ao longo das últimas seis décadas; os recordes vieram todos de uma vez, agora há pouco, meses depois de a elétrica senhora ter completado 90 anos.

Foram registrados na 15ª edição do Mundial de masters da Fina, a Federação Internacional de Natação, realizado em Montreal, no Canadá, de 27 de julho a 10 de agosto último. Lá, a arquiteta aposentada não apenas derrubou marcas como também desbravou piscinas: foi a primeira mulher de mais de 90 anos a nadar os 200 m borboleta em um Mundial (completou em 8min52s22).

Também sagrou-se recordista mundial, categoria 90 a 94 anos, no 400 m medley (14min12s52) e nos 100 m borboleta (3min39s.01). Em provas individuais, ainda trouxe ouro nos 50 m borboleta e nos 200 m medley.

Nora nasceu em 29 de fevereiro de 1924 em Fiume, então território italiano (hoje Rijeka, Croácia). Fugindo ao fascismo, a família Tausz chegou ao Brasil em 1941 depois de aventuras várias, que incluíram salvar o pai e o irmão de Nora de um campo de concentração de Mussolini.

No tempo de faculdade, dedicou-se aos saltos ornamentais: “Fui bastante boa para nove anos seguidos ser campeã carioca; fui campeã brasileira e vice-campeã sul-americana. Para gasto doméstico, dava”, diz. Depois, o trabalho, a família que construiu com o crítico literário Paulo Rónai (1907-1992) e as exigências da vida a tiraram do esporte competitivo.

Só retomou como veterana, aos 69 anos. E recomeçou vencendo: mesmo nadando com o pé quebrado, foi campeã no primeiro Sul-americano de masters, realizado em Belo Horizonte em 1993.

Hoje suas medalhas e troféus conquistados pelo mundo afora –já foi a seis Mundiais- enchem gavetas e estantes de um armário no apartamento em um elegante prédio de Botafogo, onde vive sozinha. Foi lá que ela recebeu a Folha para contar um pouco de sua experiência. A seguir, alguns trechos da conversa (foto Zô Guimarães/Folhapress).

14 nora ronaiAPRENDIZADO - O início da natação foi quando eu nasci. Minha mãe dizia que eu nasci nadando. Nunca ninguém precisou me ensinar a nadar. Eu sempre nadei… A minha mãe, Iolanda, era uma tremenda nadadora de peito. Se fosse hoje, seguramente seria campeã olímpica. Ela era forte, tanto assim que nós, crianças fazíamos travessias longas, de quilômetros, ao lado dela, no mar. Se a gente cansasse, se segurava nela e ela aguentava. Duas crianças, eu e meu irmão mais velho.

COMPETITIVIDADE - As crianças que estavam à mão eram o meu irmão, os meus primos e os amigos deles. Então eu praticamente me eduquei só entre meninos. Mas eu era a melhor nadadora.

As brincadeiras deles eram competição: quem cospe mais longe, quem pula do degrau mais alto. Eu competia com eles em tudo. E ganhava. Eu precisava ganhar dos garotos porque era mais nova e era menina. Então, para conservar o prestígio, eu tinha de ganhar.

ESGRIMA E PISCINA - Chegamos aqui com uma mão na frente e outra atrás. Tivemos de nos virar de alguma maneira. Logo que conseguimos uma certa situação, talvez em seis meses ou um ano, meu irmão e eu nos inscrevemos no Clube de Ginástica Português, porque meu pai era esgrimista, entre outras coisas —ele também fazia regatas. Eu fui fazer esgrima, florete, e meu irmão, sabre. Meu pai era de sabre. Mas florete, para mulher, é melhor porque é mais leve.

Somente que a gente não contou com o verão do Brasil. Quando o verão veio, o uniforme, a máscara de arame, tudo esquenta. A gente ficava muito acalorado, nós todos, os esgrimistas, a turma do professor Jaime. Então subíamos para uma piscina que o clube tinha no último andar.

Era uma boa piscina, com raias e até trampolim de um metro e de três metros. Somente o problema era que, quando acabava a aula do professor Jaime, acabava tudo, porque era de noite, e se fechava a piscina também. Mas aí a gente conversou com a dona Augusta, e ela mandava todo mundo embora, como se fechasse, mas deixava a gente entrar na piscina. Então a piscina se tornava o nosso mundo.

SALTOS ORNAMENTAIS - Entre os caras que faziam esgrima conosco tinha o Eduardo Guidon da Cruz, que, além de tudo o mais, era octacampeão carioca de saltos ornamentais. E eu era muito interessada: “Senhor Guidon, como se faz esse salto?”. Ele dizia, eu ia lá e puff!, caía que nem um saco de batata.Acabava cheia de equimoses, de tanto apanhar caindo do trampolim de três metros. Mas eu aos poucos fui aprendendo. Um dia ele disse: “Olha , já que você está nisso, eu sou do Fluminense, você não quer saltar em competições pelo Fluminense?”

Eu queria, claro. Aí já não dava para eu fazer a sério esgrima e saltos ornamentais porque, entre outras coisas, eu também tinha de trabalhar. Naquela época, eu vendia cremes de porta em porta, para poder sobreviver. Logo depois eu me empreguei como desenhista de arquitetura. Já que era desenhista, depois me inscrevi na Faculdade de Arquitetura da Universidade do Brasil, que agora é a UFRJ.

 OLIMPÍADA DE 1948 – Comecei a saltar com 21 anos. Para ser realmente competitiva internacionalmente em saltos era tarde, porque as meninas boas vão de 15 a 18, 19 anos, porque têm mais flexibilidade. Mas, considerando minha provecta idade, na época, eu era bastante boa. Bastante boa para nove anos seguidos ser campeã carioca; fui campeã brasileira, vice-campeã sul-americana etc. Para gasto doméstico, dava.

Para internacional, foi o seguinte… Eu iria, teria ido para a Olimpíada de Londres, em 1948. Mas teria de fazer um certo número de pontos, um índice. Numa escala de 90 pontos que eu precisava fazer para o índice, eu fiz 89,93. Quer dizer: quase. E fiz porque não tive tempo de treinar, porque já estava na faculdade.

Era época de provas parciais. Eu não ia perder um ano de faculdade para treinar um pouco mais. Não estava nos meus planos. Eu tinha urgência de me formar e ganhar um pouco mais, porque tendo o título de arquiteta eu poderia ganhar melhor. Eu já estava fazendo trabalho de arquiteta, mas, como era desenhista, era um pouco explorada.

Todo mundo ficou com uma pena muito grande. Os jornais escreveram que deveriam me dar uma nova chance… E a Federação argumentou que havia um número muito certo de passagens e custava muito e, se abrissem exceção para mim, teriam de abrir para todos os outros e isso e aquilo.

Tá bom. Cara, quando a equipe foi, foi com um monte de paredros [cartolas] que você não pode nem imaginar… Presidentes de clubes, vice-presidentes, as mulheres dos paredros, os filhos dos paredros, as babás dos filhos dos paredros, mas eles não tiveram uma passagem para eu poder ir.

Isso me doeu muito e me dói até hoje.

PIOR DERROTA - Foi em saltos ornamentais no Sul-americano de Montevidéu, contra a Eleonora Schmidt. Ela era melhor do que eu em trampolim, mas eu era melhor em plataforma de dez metros. O último salto era igual para nós duas, um e meio mortal em voo. Ela, como era mais sábia, escolheu um e meio mortal grupado; e eu escolhi o um e meio mortal carpado, que era mais difícil. Eu entrei faltando [mostra com as mãos a entrada errada na água], ela entrou agulhando, pá!

Os juízes me tiraram tanto da nota que por décimos eu perdi o campeonato. Eu fiquei furiosa. Claro, dei os parabéns para ela. Mas no chuveiro eu chorei tanto… Eu era nova, foi em 1949, tinha 25 anos. Chorei muito… Mas hoje não choraria. Cheguei à á conclusão de que é tudo brincadeira. É a continuação das brincadeiras que eu fazia quando criança, com os outros meninos.

INTERVALO NÃO ESPORTIVO – Até grávida cheguei a saltar, até o quarto mês de gravidez. Eu tinha 29 anos e meio quando a Cora nasceu; estava com 31 e meio quando a Laura nasceu. E vinham essas meninas de 15 anos saltar. Resolvi parar, porque você não aguenta. Eu já estava saltando de plataforma de dez metros, que é melhor porque você tem mais tempo para desenvolver o salto.

Foi quando desisti. Tinha que tomar conta da casa. Meu pai, já viúvo, morava com a gente. Eu era dona de casa, era professora, era arquiteta.

Então teve um período de uns 30 anos em que eu não fiz exercício nenhum. Eu realmente gostava de me mexer. Era até infantil, mas eu sentia vontade de fazer. Quando ia na rua e havia umas bolotas para evitar que as pessoas atravessassem, eu ficava pulando de bolota em bolota… Essas coisas, assim, o que podia fazer, pular cerca. Eu fazia qualquer coisa… Era infantil, mas me dava prazer.

REÇOMEÇO – Voltei a nadar quando o Paulo [Rónai] estava muito doente. Ele ficava no sítio em Friburgo. Vinha uma médica que era muito dedicada. Ela me disse que tinha sido nadadora do América Futebol Clube, eu contei que também nadava. E ela disse que a gente poderia nadar ali em Friburgo, na nova piscina do clube Pulo N`Água. E o Paulo, que já não podia falar, porque tinha câncer na laringe, bateu palmas, mostrando que apoiava. Ele sempre me apoiou em tudo o que eu quisesse fazer.

SUL-AMERICANO MASTERS 1 – Apareceu por lá [Friburgo] uma turma do Clube de Regatas Icaraí, de Niterói. O Gastão Figueiredo, que era um grande nadador, mundialmente reconhecido, a mulher do Figueiredo, o Luiz Sodré, também ótimo nadador, faziam palestras sobre natação master. No final, o Gastão me chamou: “Olha, eu vi você nadando por aí, você nada direitinho”. Eu digo: “Muito obrigado”. E ele: “Você não quer nadar pelo Icaraí? Daqui a um mês tem um campeonato sul-americano em Belo Horizonte, e nós arranjamos com a Prefeitura um ônibus e vamos de graça. Você não quer ir com a gente?”.  “Eu vou”, respondi.

SUL-AMERICANO MASTERS 2 – O campeonato foi no Minas Tênis Clube. As arquibancadas eram pintadas de cor de rosa, sem nenhuma diferença, e os degraus eram um pouco mais altos que os degraus comuns. Eu não estava acostumada: faltou um espaçozinho, eu botei o pé e naquela hora senti uma dor violenta no pé direito e sentei, porque me doeu muito. Quebrei o pé.

Fui a uma clínica ortopédica logo ali ao lado, o cara queria engessar. Eu disse: “Não senhor, porque eu tenho de nadar, estou inscrita”. Aí ele me botou uma tala que eu podia tirar e eu nadei o campeonato com o pé quebrado.

Consegui o primeiro lugar, naturalmente, em peito, e o segundo em crawl. Não nadei o 800 m, que eu teria ganho seguramente, porque sei do meu tempo, porque o médico da nossa seleção me proibiu. Àquela altura, meu pé já estava roxo, inchado, mas eu ia lá, pulava numa perna só. Nadei bastante provas, tive várias medalhas nesse sul-americano. Mas não fui um espanto porque doía.

TREINAMENTO - Normalmente meu treino é assim: 400 de borboleta, 400 de costas, 400 de peito e 400 de crawl, 1.600 metros. Isso porque reduzi dos 2.000 que eu fazia. Nos últimos meses, quando começou a esfriar, reduzi para 1.200 m. Treino às terças, quartas, quintas e sextas. Quatro dias por semana. Em geral vou a pé até o clube, é mais rápido. Fica a uns 700 metros daqui de casa, mas de carro é preciso dar muitas voltas.

PRIMEIRO MUNDIAL – Também foi em Montreal. Eu estava com 69 anos. Eu já nadava direitinho, mas não fui primeira nem nada, o primeiro Mundial nunca é assim. Tirei um quinto lugar em peito, mas eram 30 concorrentes, então o quinto não é tão ruim assim. E tiramos um terceiro no revezamento, tinha 16 revezamentos, também não foi tão ruim assim. Fiquei satisfeita.

PRIMEIRO OURO EM MUNDIAL - No terceiro Mundial em que participei, em Munique (2000), o Gastão Figueiredo e a Maria Lenk me chamaram para fazer um 4×50 medley com eles. E aí ganhamos medalha de ouro. Eu nadei peito, naturalmente. Quando o Gastão me telefonou e convidou, eu não dormi a noite inteira, de tão excitada que fiquei. Puxa, esses nadadores me chamando!! Eu devo ser aquele gato do ditado (quem não tem cão caça com gato). Não consegui dormir, de tão honrada que fiquei, feliz da vida.

MUNDIAL DE MONTREAL 2014 – As piscinas eram transitórias, seriam desmontadas depois. Não havia vestiário nem banheiros, apenas banheiros químicos. Foi algo meio improvisado. Um dia as mulheres nadavam na piscina melhorzinha e os homens na piorzinha; depois trocava. Nós já tivemos no Brasil campeonatos muito melhores do que esse.

A água era magnífica, dentro do padrão. Água é água, mas há águas fáceis e águas difíceis. Há águas em que você acha que está nadando em um líquido viscoso. E há águas fáceis, em que você parece flutuar melhor. Não sei dizer porquê, mas isso acontece.

A água estava boa, dava para nadar bem e se sentir bem. Mas, fora da água, você não tinha uma cadeira para sentar. Estava ao relento. Na chuva, pegava chuva; no sol, não tinha onde abrigar. Era horrível. O pessoal tinha de sentar no chão. E o chão era disputado por milhares de pessoas.

RECORDES -Eu me divirto muito. Com esses recordes, eu fiquei muito, muito contente, realmente muito contente. Mas, se perdesse, eu não ficaria infeliz de jeito nenhum. Apenas não teria a grandíssima satisfação que tive agora.

ENVELHECIMENTO - Toda a vez que mudo de faixa etária, eu quebro um certo número de recordes sul-americanos. No ano seguinte, eu não consigo quebrar o meu próximo recorde. Isso me aconteceu uma única vez. Eu fiquei tão feliz que pulava até o teto de felicidade. Foi há muitos anos. É tão raro, porque não dá. A gente piora muito. Entre o primeiro ano da nova faixa etária e o último é uma piora incrível. A gente perde muita explosão, força muscular, resistência cardíaca.
Os novos treinam para melhorar de tempo. Nós, velhos, treinamos para não piorar tanto.

PRAZER – Na infância, eu gostava muito de nadar. Até hoje, eu pulando na água me sinto quase como que no colo de minha mãe, porque toda a questão de nadar, de água, se liga à minha convivência com mamãe.

Inscrição para a São Silvestre sobe mais do que a inflação

Por Rodolfo Lucena
12/09/14 11:13

Já estão abertas as inscrições para a mais tradicional e importante corrida de rua do país, a São Silvestre, que neste ano chega à sua edição de número 90.

O valor da inscrição para o pelotão geral passou para R$ 135, o que significa um aumento de 8% em relação aos R$ 125 que eu paguei no ano passado.

Isso é mais do que a inflação dos últimos 12 meses, que chegou a 6,35% (INPC-IBGE).

Vale? Não vale?

De certo, a corrida é muito divertida. Para muitos, é a única prova de rua que fazem, no ano. Outros aguardam a São Silvestre para fazer seu debute nas corridas. Famílias inteiras fazem da participação na prova seu ritual de encontro de fim de ano. Há gente que encontra parceiro ou se separa na São Silvestre, há quem se machuque ou morra.

A organização vem castigando os participantes. Não há desculpa para servir água quente, por exemplo. No ano passado, alguns postos de abastecimento estavam secos quando os mais lentos chegaram.

Quanto ao preço, pode ser caro para uns e barato para outros, como tudo na vida.

É o mesmo custo, por exemplo, de uma prova de 10 km do circuito Track&Field, que inclui café da manhã (sem a comilança, a inscrição é R$ 95).

Mas é bem mais alto que uma prova de 12 km de Ouro Preto a Mariana, em Minas, que custa R$ 80 até o fim deste mês.

O percurso é o mesmo do ano passado, assim como o horário de largada.

Eu gostei do trajeto, com exceção da maldita descida da Major Natanael. Dá uma passada pelo Arouche, visita alguns pontos históricos da cidade. Já em relação ao horário, eu preferiria que fosse mais cedo.

O certo é que quem faz a inscrição aceita e avaliza as condições em que a prova é realizada. Há que exigir que a organização cumpra sua parte –coisa que, na minha opinião, não vem fazendo a contento–, mas o calor, as subidas e as descidas fazem parte da mística da São Silvestre.

12 percurso

Imagem do filho correndo inspira estreia de executiva nos 10 km

Por Rodolfo Lucena
09/09/14 11:09

10 tomoe criancas

Na semana que vem, Tomoe  Himukai celebra o primeiro ano de sua nova vida. No dia 15 de setembro do ano passado, ela participou pela primeira vez de uma corrida de rua de dez quilômetros. Ao longo daqueles setenta e poucos minutos, aprendeu mais sobre si mesma e sua vida do que se estudasse anos e anos de filosofia ou qualquer outra humanidade.

Executiva de uma empresa modernosa, que produz aplicativos para uso em celulares e tablets, além de desenvolver traquitanas tecnológicas para uso em esportes, Himukai é, aos 36 anos, uma filha da globalização.

De família japonesa tradicional, vive hoje na Áustria e, na empresa em que trabalha, cuida de relações internacionais –afinal, é craque em espanhol e recentemente recebeu seu diploma de proficiência em português.

No momentoso território das corridas, porém, a jovem senhora Tomoe sempre quis distância. Na faculdade, até que não se saía mal nas aulas de educação física, que fazia por obrigação, para conquistar os necessários créditos para sua formatura em marketing.

“Depois de formada, eu preferia ler livros, confortavelmente sentada em cafeterias”, me diz ela em São Paulo, onde esteve em visita a trabalho no mês passado. Aproveitou para conhecer ao vivo seu professor de português, que lhe deu aulas via internet (ih, acho que do jeito que escrevi, pode parecer que fui eu a dar aulas; para que fique claro, não fui eu, que conheci Tomoe em uma entrevista sobre produtos esportivos).

Aliás, suas novas atividades de certa forma a chamaram para a corrida; precisava experimentar os produtos que demonstrava ao público. Além disso, depois de ter o segundo filho, achava estar um pouco acima do peso e resolveu buscar na corrida parceira para entrar em forma.

10tomoe abre“No primeiro dia, foram só três quilômetros, beem devagar, mas eu já estava morta, sofrendo… Ao mesmo tempo, tinha uma sensação tão boa, tão boa, de fazer parte dessa comunidade saudável. Fiquei até emocionada.”

A emoção se traduziu em dedicação ao esporte, que encarava pelo prazer. “Eu não tinha nenhum objetivo. Apenas sair, correr até ficar supercansada e voltar para casa direitinho, tomar meu banho e pronto…”

Começou a criar amizades no mundo das corridas, na própria empresa ganhava mais informações, as conversas giravam sobre o esporte e … tchan-tchan-tchan-tchan! Ela resolveu fazer uma corrida.

“Em maio era meu aniversário. Então pedi de presente aos meus sogros que eles cuidassem de meus filhos por um dia para que eu pudesse participar de uma corrida.”

Promessa feita, pedido aceito, ele se inscreveu na Maratona de Wachau, que seria quatro meses mais tarde, em setembro do ano passado. Trata-se de um evento multidistância: além da maratona, há meia maratona, corrida de dez quilômetros e ainda provas para as crianças, na véspera do evento principal.

Já que dona Himukai ia correr, botou toda a família na dança. O marido fez sua estreia na meia maratona, e os filhos correram as provas infantis (no alto, foto geral de uma das corridas das crianças/Divulgação).

“Eu vi as minhas crianças correrem pela primeira vez, e fiquei tão emocionada. Eles estavam tão alegres, com a cara toda vermelha…”, conta ela. O filho mais novo, Tom, de três anos, enfrentou a portentosa distância de 200 metros; para o mais velho, Leo, de cinco anos, foram 550 metros. A cada um, uma emoção diferente.

“Tom correu com os menores, e eles tinham direito a serem acompanhados pelo pai ou pela mãe. Então corri com ele, de mãos dadas, e meu merido nos esperou na linha de chegada, era apenas uma reta…”

Com Leo foi outra história. Ele correu sozinho, e o percurso entrava nas ruas da cidade, dobrava esquinas antes de chegar ao final. Quem ficasse esperando na linha de chegada, como Tomoe, conseguia ver apenas a largada e a chegada, não o desenrolar da prova.

“Quando largaram, Leo estava na primeira linha. Mas, quando eu o vi novamente, ele já tinha ficado bem para trás. Eu já estava me preparando para ser supermãe e consolá-lo. Mas ele não precisou! Quando chegou, ele estava tããããao feliz e orgulhoso!! Só então percebi que quem estava preocupado com desempenho era eu, pensando que corer mais rápido do que os outros é que tem valor. Ali eu aprendi que, pelo menos nas corridas de rua, entre atletas amadores, ganhar dos outros não é o que importa, mas sim vencer a você mesmo.”

Aprendizado que levou para o dia seguinte, quando botou o bloco na rua para debutar em uma prova de dez quilômetros (foto acima/Arquivo Pessoal).

“Eu sou muito, muito lenta. Quando corro sozinha, isso não faz diferença. Na corrida, porém, eu via tanta gente mais rápida do que eu, tanta gente passando por mim, que eu desanimava, tinha de brigar comigo mesma para continuar correndo. Lembrar do rostinho sério de Leo durante a corrida e seu orgulho ao receber a medalha foi uma inspiração, me encorajou a prosseguir.”

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As conquistas do dia marcaram a família. Desde então, os dois meninos já participaram de outros cinco eventos. O marido de dona Himukai fez várias corridas e resolveu partir para o triatlo. E a própria Tomoe debutou neste ano na meia maratona.

 

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Corredor muda de assunto e conversa com Ken Follett sobre literatura e best-sellers

Por Rodolfo Lucena
03/09/14 13:10

A primeira benesse que a fama e a fortuna propiciaram para o escritor britânico Ken Follet foi a possibilidade de mudar com a família para o sul da França, apreciando a boa comida, o bom clima, as belezas e o sol delicioso da região. Até então era um fracassado candidato a escritor. Funcionário de uma editora, produzia no tempo livre histórias de espionagem.

Foram aceitas por editoras, viraram livros, mas uma a uma encalharam nas prateleiras. Foram dez tentativas. O décimo-primeiro livro de Follett foi “O Buraco da Agulha”, lançado em 1978 com estrondoso sucesso, ampliado depois de virar um ótimo filme estrelado pelo não menos ótimo Donald Sutherland.

Desde então, o autor britânico acumula best-sellers de leitura extensiva: vários volumes têm mais de mil páginas. Isso não assusta seu leitorado, que já comprou mais de 150 milhões de exemplares e, a julgar pelas expectativas de mercado, vai continuar se divertindo com as rocambolescas tramas que Follet arquiteta.

Na semana passada, ele esteve brevemente no Brasil. Deu uma palestra durante a Bienal do Livro, quando também autografou alguns exemplares de seu mais recente sucesso, “Eternidade Por Um Fio”, que finaliza a triologia “Século”. Na manhã de quinta-feira, 28 de agosto, conversei com ele em um dos restaurantes do luxuoso hotel em que estava instalado em São Paulo (foto Ernesto Rodrigues/Folhapress).

Em boa forma física, vestia um elegante terno quase completo –faltavam-lhe as meias. Apesar de viajar por empresa britânica de alto coturno, teve a bagagem extraviada pela companhia, que lhe prometia entregar as malas perdidas em 24 horas.

A reportagem que produzi com, base na entrevista foi publicada na Folha no sábado 29 (leia AQUI), mas nossa conversa rendeu muito mais que os parcos caracteres impressos. Por isso, deixo hoje de falar de corrida e trago para você a transcrição de minha conversa com um dos maiores escritores de best-sellers do mundo.

ERNESTO RODRIGUES

Por que seus livros são tão grossos?

Bem, essa é uma longa história, a história do século 20. São três longos livros. É por causa da história. Há algumas histórias são curtas, dão livros pequenos, como um pequeno livro sobre um assassinato. Pode ser muito rápido. Mas, se você tem um grande livro como esse, que é sobre guerras, revoluções, política, romance, é um livro grande. As pessoas gostam de livros grandes.

Parece que é uma tendência…

As pessoas gostam de livros grandes. Se um livro é bom, as pessoas querem ficar lendo por bastante tempo. Claro que, se for chato, é terrível… Você lê algumas páginas e fica pensando em quanto mais vai ter de ler… Mas, se é empolgante, interessante, você não quer que ele termine. Meus livros grossos são mais populares que meus livros mais curtos…

O senhor recebe feedback dos leitores?

Sim, claro, ele tuítam, respondem aos meus tuítes, mandam cartas, e eu tenho uma página no Facebook. Então ouço muito os meus leitores. O que eu gosto de ouvi-los dizendo é “comecei a ler seu livro e não consegui mais parar”.  “Pilares da Terra” foi o primeiro livro realmente longo que eu escrevi, com mais de mil páginas… E um dos leitores me disse: “Eu adorei, mas queria que fosse maior”.

Por que escrever um livro sobre o século 20, tendo sucesso garantido nos cenários medievais?

Eu queria produzir outro livro grande, mas não queria continuar imediatamente no terreno medieval depois de “Mundo Sem fim”. Eu fiquei matutando sobre o que eu deveria escrever, qual seria um período empolgante da história, e então pensei no século 20. É muito dramático. Nós tivemos três grande guerras: a Primeira Guerra Mundial, a Segunda Guerra Mundial  e a Guerra Fria.

A Primeira Guerra foi a guerra mais terrível que a humanidade tinha tido até então, e a Segunda Guerra Mundial foi ainda pior. E a Guerra Fria nunca se transformou numa guerra quente, mas, se tivesse se transformado, nós todos estaríamos mortos, o mundo destruído. É terrivelmente dramático e é a nossa história. Você e eu nascemos no século 20, assim como nossos pais. As coisas que aconteceram no século 20 aconteceram conosco, nós estávamos lá, nós vivemos algumas desses eventos, e nossos pais e avós participaram de alguns deles.

Eu tenho fotos de meu avô em seu uniforme de soldado da Primeira Guerra Mundial. Ainda bem que ele não chegou a ir para o front de batalha, porque então provavelmente eu não estaria aqui falando com você. É a nossa história, uma história tremendamente dramática. Quando eu comecei a pensar no século 20 dessa forma, fiquei realmente empolgado.

O senhor faz muita pesquisa antes de escrever seus livros?

Para escrever “Eternidade Por Um Fio”, fiz duas viagens especiais. Fui a Cuba, porque uma das piores crises da Guerra Fria foi a Crise dos Mísseis, e geralmente as pessoas escrevem a respeito a partir do ponto de vista norte-americano. Mas eu queria que um de meus personagens estivesse em Cuba, porque aquilo poderia ser muito mais assustador. Um dos meus personagens está em Cuba. Eu precisava mesmo ir até lá, apenas por alguns dias, para sentir como é o país, para ver como é Cuba…

E como é Cuba?

As pessoas são muito bacanas, foi uma viagem ótima, mas é um país muito pobre. É um país muito pobre, mas as pessoas parecem muito felizes, alegres. Eles se divertem. Talvez seja por causa do clima, eles têm tempo bom por lá. Se você for pobre na Escócia, a vida é terrível porque você é pobre e passa muito frio. Mas imagino que, se você é pobre em Cuba, pelo menos você está quentinho. Não sei… Qualquer que seja a razão, Cuba se destaca para mim como um país muito pobre, mas muito alegre, feliz. Isso foi muito interessante.

E sua outra viagem?
Eu fui para o Sul profundo dos Estados Unidos para estudar a história da campanha pelos Direitos Civis, que é uma parte grande do meu livro, a campanha para que os afro-americanos tivessem direitos iguais aos dos brancos. Eu sabia bastante sobre a história, mas queria conhecer alguns dos lugares onde aconteceram aquelas manifestações e enfrentamentos, batalhas de verdade.

Foi muito comovente. Aquelas pessoas que, nos anos 1960, foram espancadas, presas ou mortas –muita gente foi assassinada naquele período–, aquelas pessoas são heróis hoje em dia. E há estátuas em homenagem a eles. Nos anos 1960, eles foram tratados como as piores pessoas do mundo, agora são grandes heróis. Foi uma viagem emocional. Eles enfrentaram aquela batalha e venceram. E hoje os Estados Unidos têm um presidente afro americano. O que é surpreendente.

E era impensável naquela época…

Totalmente! A maioria daquelas cidades não tinha sequer um policial afro-americano. Era uma força policial totalmente branca. Então a mudança é realmente impressionante. Foi uma viagem muito interessante. E é uma parte muito dramática do século 20 e da história do meu livro.

O senhor também conheceu um parlamentar cuja história lembra a de um de seus personagens…

John Lewis. Nos anos 1960, ele era líder de um grupo chamado SNCC (Student Nonviolent Coordinating Committee, comitê de coordenação de estudantes pela não-violência). Ele tinha 20 anos e era o líder desse grupo, e ele foi espancado, sua cabeça foi quebrada pela polícia em uma daquelas manifestações. É uma lesão muito grave… E hoje ele é um membro do Congresso norte-americano. Eu o entrevistei.

O senhor mesmo faz toda pesquisa ou tem pesquisadores que o auxiliam?

Eu faço a maior parte da pesquisa. Há um pesquisador que me ajuda de vez em quando para encontrar material mais difícil, livros antigos, mapas antigos, velhas fotografias… Mas a pesquisa mesmo sou eu quem faz, não posso passar isso para outra pessoa.

Eu uso especialistas na revisão. Depois de escrever a primeira versão de uma história, mostro para várias pessoas… No caso de “Eternidade por um Fio”, mostrei para especialistas em história dos EUA, da Rússia, da Alemanha e também para algumas pessoas que viveram aqueles momentos –eu tenho um amigo que foi um artista pop nos anos 1960, tenho dois amigos que lutaram no Vietnã. No caso dos especialistas, eu pago para que eles façam uma revisão e façam um relatório detalhado de suas observações. Daí eu corrijo e reescrevo.

No seu livro, houve alguma parte mais complicada para escrever?

Bem, eu não sabia direito como iria falar da vida sexual do presidente Kennedy. Porque é sabido que ele teve muitas mulheres, centenas delas… E isso é uma parte importante da história, e eu não sabia direito tratá-la. Mas então uma das amantes de Kennedy, Mimi Alford, escreveu um livro [“Once Upon a Secret”, Era uma vez um segredo (2013)] que foi publicado enquanto eu estava trabalhando em “Eternidade por um Fio”. Eu li o livro e entrei em contato com ela, pedi para me ajudar e ela concordou. Então cenas de sexo envolvendo o presidente Kennedy são autênticas. Pensei que seria difícil, mas, quando ela concordou em me ajudar ficou fácil.

Seus livros são produzidos como entretenimento, mas o senhor acredita que eles possam ser também educativos?

Acho que as pessoas leem meus livros por prazer, porque gostam da história. Mas eles também gostam da sensação de ter aprendido alguma coisa ou entendido melhor algum momento. Talvez as razões do início da Primeira Guerra ou da Guerra do Vietnã. Não foi por isso que eles compraram o livro, mas é uma espécie de bônus, um extra. Acho que os leitores gostam disso. Nós escritores temos de dar aos leitores algo que eles não possam ter na televisão. Os dramas televisivos são ótimos, mas eu quero que as pessoas desliguem a TV e peguem meus livros. Então eu tenho de dar a elas alguma coisa especial. E aprender algo de história é como os extras que você recebe nos DVDs…

O senhor trabalha com muitos fatos, muitos personagens. Há um método para não se perder no meio da história?

Eu passo muito tempo planejando cada livro. Para esse livro, por exemplo, foram oito meses de planejamento. Então, antes de começara escrever o primeiro capítulo eu faço um looongo sumário do livro, que conta o que acontece em cada capítulo, mostra quem são os personagens, quais seus sentimentos, o que eles esperam, o que eles temem… Então, grande parte do livro está definida desde o início.

Quando escrevo a primeira versão, trabalho com esse sumário na minha frente. Vejo o que acontece no capítulo um, qual a primeira coisa, o que vem depois e assim por diante. Ter esse esboço torna mais fácil escrever a história, garante que o conjunto seja coerente. Antes de começar a escrever o primeiro capítulo eu já sei como o livro vai terminar. Tudo se movimenta logicamente em direção àquele desfecho.

O senhor nunca é surpreendido por algum personagem, como alguns autores às vezes comentam a respeito de suas criaturas?

Não, isso não acontece comigo. Algumas vezes eu chego a algum ponto na história e percebo que o que eu escrevi no esboço não vai funcionar e daí eu tenho de mudar, pensar em algo diferente. Mas isso não acontece muitas vezes porque eu invisto muito tempo no planejamento da história, pensando nessas pessoas, nas suas vidas, no que eles querem, o que eles temem… Então a maioria das decisões artísticas é tomada quando eu faço o plano geral do livro.

E quanto o senhor trabalha, tem um horário definido?

Eu escrevo o dia todo. Às vezes leio autores que dizem que escrevem pela manhã. Gabriel García Márquez costuma dizer que escrevia pela manhã e escrevia à tarde Bem que eu gostaria! Para mim, a escrita toma o dia todo. Eu gosto de começar cedo, de manhã eu estou cheio de energia… De tarde, lá pelas cinco da tarde, eu já estou meio esgotado. Em geral, paro de trabalhar às cinco e às seis eu tomo uma taça de champanhe.

Para cada livro, eu traço um plano de trabalho. Eu vejo quantas páginas o livro vai ter calculo quantas páginas preciso escrever por dia para terminar no prazo desejado. E daí vou em frente. Se chego na sexta e não estou com a cota da semana pronta, escrevo no sábado. Se sábado não for suficiente, trabalho no domingo.

O senhor falou de seu champanhe diário. O senhor é um apreciador de vinhos?

Eu gosto muito de champanhe, em geral bebo champanhe. Eu conheço bastante os vinhos franceses, mas  gosto de todos os tipos de vinho. Gosto muito dos vinhos espanhóis, por exemplo, ou dos italianos, algumas vezes dos vinhos australianos.

Além de apreciar vinhos, o que o senhor faz quando não está escrevendo?

Gosto muito de ir ao teatro. Vivo em Londres, então há muitos teatros para ir, é uma das vantagens de viver em Londres. Eu gosto especialmente de peças de Shakespeare… E eu toco baixo em duas bandas, e venho fazendo isso há muitos anos.  É ótimo, muito relaxante, muito divertido. E muito diferente de escrever…

Uma das boas coisas de tocar numa banda é que você percebe na hora qual o sentimento do público, se a plateia está gostando ou não. Com o livro é muito diferente. Você demora dois anos, às vezes três anos para escrever, depois tem de ser impresso, vai para as livrarias, as pessoas compram, e eventualmente algum leitor manda uma carta ou um tuíte…

Com a banda, você vê: se eles dançam ou se mexem, é porque você está indo bem… Se estão quietos, é terrível… Você tem de fazer algo, tocar melhor, uma outra música talvez, é muito difícil… Mas você sabe na hora a reação do público; com o livro, demora anos para você saber se gostaram.

A crítica costuma torcer o nariz para best-sellers, que não são considerados alta literatura. È importante fazer alta literatura?

Para mim, não é importante. Eu sempre quis escrever histórias que encantassem milhões de pessoas. Eu entendo que outros autores tenham projetos diferentes. Alguns deles, escritores de alta literatura, são meus amigos,e eu respeito o que eles fazem, mas não é o que eu faço. Eu não esse conceito sobre o meu trabalho.

Eu sempre penso sobre os leitores quando eu escrevo. Será que eles vão acreditar que tal fato acontecer?, será que eles vão se interessar?, será que eles vão se importar?, será que eles vão se perguntar o que vem depois?. Eu faço essas perguntas a mim mesmo, penso nos leitores o tempo todo.

Meus amigos que produzem alta literatura não pensam desse jeito, eles não se perguntam sobre os leitores. Muitos deles dizem que escrevem para eles mesmos, escrevem o que eles pensam que é bom. Talvez outras pessoas gostem, talvez não, mas eles escrevem do mesmo jeito. Eu não fui assim, eu tento escrever o que as pessoas vão gostar.

 Considerando a resposta dos leitores, são seriam os best-sellers a alta literatura?

O público com certeza é um crítico severo. Se eles não gostam de um livro, não vão comprar o próximo. Mesmo que você tenha escrito 25 sucessos, você ainda tem de garantir que seu próximo livro seja bom. Não penso muito sobre o que é ou deixa de ser alta literatura, sei que muitas pessoas pensam e há muita gente que não considere importante a literatura popular…

Eu realmente escrevo de uma maneira muito tradicional. De certa forma, escrevo do jeito que autores do século 19 escreviam: há uma história, há personagens, há acontecimentos, não é algo impressionista. Claro que nós sabemos que, no século 20, autores fizeram várias experiências com o romance, e tivemos livros muito incomuns, como “Ulisses”, de James Joyce, ou a obra de Proust,q eu foi algo completamente diferente. Mas eu não faço isso, eu escrevo do jeito tradicional, e quase todos os autores na lista de best-sellers escrevem de forma tradicional.

O senhor falou da reação severa do público. Algum de seus livros foi rejeitado?

Não (bate na madeira…). Bem, meus primeiros livros, os livros do começo de minha carreira não fizeram sucesso. Escrevi dez livros que foram um fracasso até fazer “O Buraco da Agulha”. Desde então, todos os meus livros fizeram sucesso.

E como “O Buraco da Agulha” mudou sua vida?

Bom, com o sucesso de “O Buraco da Agulha” eu pude deixar de trabalhar em outras coisas e me dedicar somente a escrever. Eu trabalhava numa editora, pedi demissão e me transformei em escritor de tempo integral. E tinha muito mais dinheiro do que antes, o que foi muito bom. E fui morar com a minha família na França, que era um sonho antigo, morar no sul da França, que é quente e ensolarado.

Mas a coisa mais importante, quando aquele livro fez sucesso, era saber se eu poderia escrever outro livro tão bom. Muita gente escreve um bom livro e então sua carreira acaba, eles simplesmente não conseguem fazer sucessos novamente. Isso acontece com muita gente. E eu pensava: será que isso vai acontecer comigo? E eu pensava que tinha de escrever logo outro livro e que ele precisava ser tão bom quanto “O Buraco da Agulha”. E acho que, de certa forma, é o que eu venho fazendo desde então…

Com “Pilares da Terra”, o sucesso foi ainda maior…

Aquilo foi diferente. Até então, eu vinha escrevendo livros de espionagem, e “Pilares da Terra” foi sobre a construção de uma igreja na Idade Média. Foi uma mudança bastante radical, mas no final se tornou maios popular do que tudo que eu tinha escrito até então. Foi um sucesso enorme. Escrever aquela história foi uma boa decisão. Foi uma decisão arriscada, e muita gente tinha dúvidas sobre aquele caminho, mas realmente funcionou bem.

Nos últimos anos, a sua mulher se tornou a presidente de sua companhia. Como é trabalhar com ela?

É ótimo! Ser um escritor é um negócio, mas, se eu gastar meu tempo cuidando dos negócios não vou escrever livros. Eu tenho de me concentrar nisso, em escrever. Toda essa história com  advogados, contadores, contratos, é muito difícil de administrar. Minha mulher estava na política, era congressista. Quando ela se aposentou, pedi que ela cuidasse dos meus negócios, e estou muito feliz com isso, eu não preciso me preocupar com nada…

Escrever livros em série é uma tendência….

Não sei. Quando escrevi “Pilares da Terra”, as pessoas começaram a me perguntar sobre o que viria depois. De certa forma, houve uma demanda dos leitores. Era o que eles queriam… E eu esperei bastante tempo, foram 18 anos de intervalo até que eu lancei uma sequência de “Pilares da Terra”, mas por todo aquele tempo os leitores me pediam uma sequência. Como leitor, eu também gosto de séries…

Planos para o futuro…

Estou escrevendo um terceiro livro da série “Pilares…”. O segundo da série se passa 200 anos depois de “Pilares da Terra”; neste agora serão outros 200 anos de intervalo, então é no século 16. E é sobre espionagem, porque no século 16 já havia espiões e havia muitas armações, muitos planos para matara a rainha Elizabeth… Essa é a história em que estou trabalhando. Depois disso, não sei direito. Eu pretendo escrever uns três livros nos próximos nove anos, livros longos como esses, mas mais que isso não sei…

 

 

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