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Rodolfo Lucena

+ corrida

Perfil Rodolfo Lucena é ultramaratonista e colunista do caderno "Equilíbrio" da Folha

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Com pentacampeão de Nova York, corredor visita marcos históricos de São Paulo

Por Rodolfo Lucena
23/12/13 16:56

selo_rodolfo_correndoA empilhadeira elétrica enlouqueceu de repente. Os comandos travaram, a máquina acelerou. O trabalhador que fiscalizava a operação do equipamento percebeu o desastre iminente e saltou fora, o mais longe que deu. Saiu vivo, mas a máquina ainda o pegou: 16 mil quilos de ferro e aço lhe esmigalharam o pé, que ficou grudado no chão de fábrica.

“Tiveram de chamar os bombeiros para tirar a empilhadeira. Não sobrou nada do meu pé, não dava nem para pensar em implante”, conta o pernambucano Paulo Almeida, que então tinha 32 anos e trabalhava na área administrativa da empresa, mas estava de plantão na fábrica em Itapecerica da Serra.

O acidente ocorreu no dia 31 de dezembro de 1997. A primeira amputação foi imediata, mas o jovem pegou infecção hospitalar e ainda sofreu outros três cortes na perna direita. Apesar disso, em março de 1998, pode receber a primeira prótese. Cerca de dois meses mais tarde, começava a correr. Com mais alguns meses, ainda praticamente sem treinos, completou a maratona de São Paulo.

“Terminei em seis horas e meia, sei lá. O coto estava sangrando, todo inchado, eu nem sei como consegui”, contou ele na manhã de hoje, enquanto caminhávamos na região de Vila Mariana e Ipiranga, em mais uma jornada de meu percurso de 460 km por São Paulo em homenagem ao próximo aniversário da cidade.

atravessando a rua

Sofrida ou não, a corrida virou febre para o atleta amputado –antes do acidente, ele nunca havia participado de provas, mas tinha sido um bom jogador de futebol de campo e de salão, atuando no time da empresa.

Em novembro de 98, menos de um ano depois do desastre, participou da maratona de Nova York. No ano seguinte, ao lado das provas longas, começou a investir em corridas de velocidade (100 m e 200 m), pensando em conseguir uma vaga na Paraolimpíada de Sydney.

Chegou a ter o quarto melhor tempo do mundo, foi convocado para a seleção brasileira, mas foi cortado pouco antes do embarque. A decepção fez com que abandonasse de vez as corridas de pista, dedicando-se a provas de resistência, onde conseguiu destaque e reconhecimento.

Hoje, aos 47 anos, casado e pai de um garoto de quatro anos, Paulo Almeida é quase uma lenda entre os corredores de longa distância. Foi cinco vezes campeão da maratona de Nova York na categoria de amputados, duas vezes ouro em uma maratona no Brooklin, bicampeão em Chicago, tricampeão na maratona de São Paulo.

Em 2001, tornou-se o primeiro atleta amputado a participar da mais importante ultramaratona do mundo, a Comrades, na África do Sul. Naquele ano, não conseguiu completar a prova no tempo limite –sua prótese quebrou no km 81.

“Resolvi ir até o fim de qualquer jeito. Dei um jeito de amarrar a prótese, caminhei, às vezes andei aos pulos”, lembra ele. Cruzou a linha de chegada em cerca de 12 horas, mas seu feito não foi computado.

Deu um tempo, deixou a poeira baixar, treinou mais: “Acordava às 4h e ia correr na rodovia Bandeirantes. Como eu parou muito, tinha de fazer mais do que os outros corredores, para me garantir. Se eles treinavam 60 km, eu fazia 70 km”.

Preparado, voltou à África do Sul em 2007, levando um parceiro e uma prótese extra. A cada 10 km, encontrava o amigo e trocava a lâmina de carbono (menor, mas semelhante à que o sul-africano Oscar Pistorius usa) que usa na perna direita. Perdeu um total de 53 minutos com as paradas técnicas, mas conquistou sua medalha.

“Terminei a Comrades num pé só, literalmente. Quando faltavam uns cem metros, tirei a lâmina e passei pulando na perna esquerda, com o coto no ar e a prótese na mão”.

Ao longo da carreira, sempre conseguiu bons patrocínios. Hoje, ao lado dos apoios de empresas, também faz palestras. Pode escolher a dedo as provas em que participa. Seu ano de maratonas termina em Nova York,  onde já disse presente 14 vezes; o próximo desafio será provavelmente em Copenhague, em maio.

Enquanto isso, treina nas ruas de São Paulo. Costuma sair de madrugada, sem destino, rodando todos os dias pelos menos duas horas. Em geral, seu ritmo é forte, perto de quatro minutos por quilômetro (15 km/h), mas hoje fez a gentileza de caminhar ao meu lado, num ritmo muito mais fraco.

Saímos com o céu ainda escuro, indo buscar algumas referências da história paulistana.

1 marco 9 km pinheiros

O primeiro deles dá tristes sinais de abandono, apesar de tombado pelo Conpresp (Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo). Fica na rua França Pinto, quase na esquina da Domingos de Morais.

 

Antigamente, aquela era a Estrada nº 4, estrada de Santo Amaro, e a estrutura de cimento servia como marco rodoviário. Está sem nenhum tipo de proteção e muito maltratado pelo tempo, pelos elementos e também pela raça humana; mesmo assim, ainda é possível ler as palavras “Pinheiros 9 km” gravadas no bloco.

Seguindo nosso passeio histórico, passamos pelo museu Lasar Segall.Ia recomendar de forma entusiástica a visita ao local, que costuma fazer excelentes sessões de cinema, além de ter um acervo artístico da melhor qualidade. Ao visitar a página do museu, porém, fiquei sabendo que está fechando para reformas. Mesmo assim, é útil dar uma olhada em sua versão internética AQUI.

Às vezes Paulo precisava parar, tirava a prótese e tirava ou colocava uma meia no coto, conforme o suor ou a situação da perna. “No calor, o coto incha muito. Além disso, o suor não evapora porque a prótese fica por sucção”, explica.

1 rearrumando a protese

Conversando sempre, passamos pela Casa Modernista, que ainda estava fechada (conheça mais sobre ela AQUI) e chegamos ao parque Independência, que talvez seja o mais bonito de São Paulo, graças a seus fabulosos jardins.

Caminhamos pela pista de Cooper, coberta por árvores, e apreciamos o sensacional prédio que abriga o museu do Ipiranga –está fechado para reformas, saiba mais AQUI.

jardins

Paulo fala de suas conquistas e diz que a maior delas é conseguir viver bem consigo mesmo, de bem com a vida, apesar da perda. “Você pode ser amputado há 50 anos, mas sempre vai sentir que falta algo. Às vezes, ainda me abaixo para tentar botar a meia no pé que não tenho.”

Com a prótese, caminha e corre muito bem. No final de nosso percurso, deu um trotinho para a gravação DESTE VÍDEO AQUI. E terminamos nossa corrida ao lado de mais um marco rodoviário tombado pelo patrimônio paulistano.

Esse, no Ipiranga, está localizado na antiga Estrada nº 3 (Estrada de Santos) e seu estado de conservação está ainda pior do que o primeiro que vimos na caminhado de hoje. Pelo menos, está protegido por correntes, mas não sei se isso adianta muita coisa.

2 marco silva bueno

A reportagem que li sobre o tombamento dos marcos rodoviários, cita a presidente do Conpresp, Nadia Somekh, dizendo que o órgão pretende restaurar esses marcos e pesquisar se há outros na cidade.

Para saber mais sobre o assunto, fiz hoje uma consulta à assessoria de imprensa da Secretaria Municipal de Cultura. A resposta foi esta: “Não temos ainda nenhuma novidade relativa à restauração dos marcos”.

Amanhã tem mais. Vamo que vamo.

DIA 22 – PROJETO 460 KM POR SÃO PAULO

Clique no mapa para conhecer mais detalhes sobre o percurso do dia

mapa dia 22 23dez2013

QUILOMETRAGEM DO DIA: 10 km

TEMPO DO DIA: 2h24min06

QUILOMETRAGEM ACUMULADA: 279 km

TEMPO ACUMULADO: 60h53min50

QUILOMETRAGEM A CUMPRIR: 181 km

DESTAQUES DO PERCURSO: marcos rodoviários de São Paulo tombados pelo patrimônio histórico, museu Lasar Segall, Casa Modernista, parque Independência, museu Ipiranga

 

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Caminhada por Perus revive lutas operárias e crimes da ditadura

Por Rodolfo Lucena
22/12/13 18:01

selo_rodolfo_correndoO rabecão chegava lotado. Em vez seis corpos, trazia oito, às vezes dez cadáveres –eram indigentes mesmo, podiam ser empilhados. A camionete negra vinha escoltada por carros da polícia, alguns sem marca, e os soldados e agentes exibiam armamento pesado.

Alguns ficavam na porta do cemitério: ninguém entrava nem saía. Outros, de arma em punho, seguiam para acompanhar o trabalho dos coveiros, fiscalizavam o sepultamento. Quando algum novato reunia coragem para perguntar qualquer coisa, ouvia a resposta seca: “É praxe”. E mais nada.

“Praxe nada, que praxe o quê!”, indigna-se ainda hoje Antonio Pires Eustáquio, que trabalhou no Cemitério de Perus de 1976 a 1992. Aposentado, ele tem uma pequena lanchonete logo em frente ao Cemitério Municipal Dom Bosco, que foi construído em 1970, no governo Paulo Maluf, para receber corpos de indigentes e está ligado umbilicalmente aos crimes da ditadura militar.

Lá foram enterrados em vala comum, ao lado de indigentes, presos políticos e desaparecidos assassinados pela polícia política ou por representantes das Forças Armadas. A farsa começou a ruir exatamente por obra de Eustáquio que, quando assumiu a administração do cemitério, aos poucos foi descobrindo irregularidades nos livros de registros.

“Ninguém queria falar”, me contou ele hoje, durante a caminhada que fiz pelo bairro de Perus, um dos mananciais da história de São Paulo e do Brasil. De tanto investigar, acabou encontrando a vala comum onde estavam enterradas 1.049 ossadas e restos de cerca de 500 corpos de crianças menores de dez anos.

Algumas ossadas já foram identificadas. Em 2005, por exemplo, a família de Flávio Carvalho Molina, militante do Molipo (Movimento de Libertação Popular) que foi preso, torturado e morto pela ditadura militar em novembro de 1971, no Doi-Codi de São Paulo, recebeu uma urna com os restos mortais do rapaz (leia mais AQUI; e há outro caso AQUI).

Mas ainda há muito para ser feito, como deixam claro os registros sobre a Vala de Perus produzidos pelo Centro de Documentação Eremias Delizoicov e a Comissão de Familiares dos Mortos e Desaparecidos Políticos (leia mais AQUI).

Pelo menos, a questão não está apagada dos registros. Ao contrário. No local da vala, foi erguido monumento em que está escrito: “Aqui os ditadores tentaram esconder os desaparecidos políticos, as vítimas da fome, da violência do estado policial, dos esquadrões da morte e sobre tudo os direitos dos cidadãos pobres da cidade de São Paulo. Fica registrado que os crimes contra a liberdade serão sempre descobertos”.

1 memoria 2

O que não significa que sempre sejam punidos ou que tudo fique em paz, como destaca Antonio Pires, o descobridor da vala comum (confira AQUI um VÍDEO que fiz com ele). “Fui perseguido durante muito tempo”, me disse ele hoje, lembrando que teve de desligar o telefone de casa para não continuar a ouvir ameaças durante a noite e que o governo municipal chegou a lhe oferecer segurança especial, que recusou.

Fui apresentado a Toninho, como ele é mais conhecido, pela jornalista comunitária Jéssica Aparecida Moreira André, 22, que foi minha anfitriã/convidada na caminhada de hoje, no meu percurso de 460 km por São Paulo em homenagem ao próximo aniversário da cidade. Marca da história brasileira, o cemitério de Perus também esteve presente na vida da família Moreira André –dois tios de Jessica lá trabalharam como coveiros.

“Para nós, Finados era dia de festa”, diz, lembrando dos encontros com os primos. A parte da frente da casa dos tios era usada como estacionamento improvisado, que rendia algum dinheiro a mais para a família, e os primos se organizavam para vender água para os visitantes do cemitério.

A casa dos mortos fica em um dos pontos mais altos de Perus, num morro a 840 m acima do nível do mar (a crer do meu GPS). Isso não é dizer pouco, pois esse bairro na região noroeste da cidade é também uma dos mais encabritadas de São Paulo, erguido sobre uma série de colinas das proximidades da serra da Cantareira (abaixo, vista geral do bairro).

perus o bairro

Na descida do cemitério, voltando para a área mais central do bairro, ouço tiros. Se você nunca ouviu, fique feliz. Saiba que o som não tem nada a ver com o que sai no cinema –algumas coberturas em TV chegam perto da realidade.

Lembro que, no caminho, Jéssica tinha apontado para uma avenida que cruzávamos, dizendo que houve época em que dava medo passar por ali, tantos eram os mortos. Havia desova de cadáveres, chacina em bares instalados no matagal, tiroteio de tempos em tempos; hoje, com a via asfaltada e prédios de moradia ao longo da avenida, a situação está mais calma.

O som seco dos estampidos que ouvimos, ritmado, entrecortado, também não é para assustar. Encravado no caminho do cemitério, na estrada dos Pinheiros, há um clube de tiro: são apenas esportistas praticando na manhã de domingo, aprimorando a pontaria.

Quando passamos por ali, nossa jornada já estava perto do fim. Caminhávamos de volta para o ponto inicial: nosso encontro fora na praça Inácio Dias, um terreninho feio, cortado por um valão fedido (foto), onde nasceu Perus.

1 valao fedido

No século 17, a região foi explorada por mineiros que buscavam ouro (daí uma das explicações do nome, haveria na área tanto minério precioso como no Peru). Mais tarde, o vale serviu de passagem para tropeiros e forças militares. Mas a ocupação organizada começou em 1867, quando foi inaugurada a estação Perua, um das paradas da linha de ferro da São Paulo Railway, atual E. F. Santos-Jundiaí (saiba mais AQUI).

O certo é que uma comunidade foi aos poucos se formando em torno da estação. Ainda hoje, a praça fervilha. Quando cheguei, pouco antes das 8h, a comunidade começava a se espreguiçar: abriam-se as portas de um armazém, de um açougue, e chegava gente carregando enormes fardos embrulhados em sacos de lixo preto, de 100 kg. Eram vendedores que iriam arrumar os estandes de uma das versões itinerantes da “Feirinha do Brás”, que espalha seus tentáculos pela cidade vendendo roupas a preços baixos.

O bar da esquina, onde a juventude local costumava se reunir nas noites do fim de semana, só abriria mais tarde –quando voltamos estava repleto. Também só por volta do meio-dia vimos ocupadas as mesas de cimento, em cujos tampos estão pintados tabuleiros de dama (ou xadrez). Os veteranos moradores de Perus que lá estavam preferiam, porém, jogar dominó.

E havia não só veteranos, mas veteraníssimos. Conversei rapidamente, por exemplo, com Haroldo dos Santos, 73, um dos sobreviventes da Greve dos Sete Anos ou Greve dos Queixadas, como é conhecida uma das maiores epopeias da história das lutas trabalhistas no Brasil (veja AQUI um VÍDEO que fiz com ele).

A mobilização começou no período de efervescência do movimento sindical no Brasil, foi pisoteada pela eclosão do golpe militar, mas, mesmo sob forte repressão, seguiu até a vitória (meia vitória, podem dizer alguns, pois nem todos os trabalhadores demitidos foram reintegrados). Durou de 1962 a 1969, daí o primeiro nome do movimento.

A outra identificação surgiu durante uma das assembleias. Discursando para os trabalhadores, uma advogado afirmava: “Vocês são como os queixadas, sempre atacam em grupo, sempre atuam em bando.” Foi quase como dizer, tal qual os Três Mosqueteiros (que eram quatro, como se sabe), “Um por todos e todos por um”. Os grevistas viraram queixadas.

O adversário eram um dos maiores empresários do Brasil na época, J.J. Abdalla, dono e senhor da Companhia de Cimento Portland Perus, a algoz e razão de existência da região, dos moradores de Perus. Fundada em 1926, foi a primeira empresa do gênero no país; depois de passar por algumas mãos, chegou a Abdalla, que ficou conhecido como Mau Patrão.

capa-pretaOperários morriam por causa de doenças pulmonares contraídas nos dias de trabalho, as casas da região eram cobertas pela poeira que vinha da fábrica, tudo no bairro era acinzentado, como conta Jéssica no livro “Queixadas – Por Trás dos 7 Anos de Greve”, que você pode conferir na íntegra AQUI.

Os anos 1970, porém, viram aos poucos a empresa degringolar, e a fábrica acabou fechando em 1987 (leia AQUI um trabalho acadêmico sobre o processo). Do que foi uma das mais importantes indústrias do país, coração de todo um bairro –tinha time de futebol, construíra vila popular para os operários–, restam apenas ruínas.

Apesar de tombada pelo patrimônio histórico, a área ainda é de propriedade da família Abdalla, pelo que consegui descobrir. Hoje, quando caminhei pelo terreno e pelos restos do prédio, fui acuado por um enorme cachorro, que parecia cruza da rotweiller com dogue alemão. Sorte que percebi um vigia próximo, chamei por ajuda e pedi licença para, com Jessica, visitar os restos ainda de pé no enorme terreno.

À exceção do vigia, que está lá para evitar alguma ocupação ilegal ou o uso do terreno por consumidores de drogas ilegais, tudo está ao deus-dará. Ouvi comentários de que a Polícia Federal faz treinos no local, exercícios militares ou jogos de guerra, sei lá –de fato, entre as ruínas, havia estruturas que pareciam montadas para uso como proteção ou obstáculo (tonéis empilhados e enfileirados, peças de móveis derrubadas no chão…).

vista externa

Não consegui confirmação oficial da informação, passo apenas o que me falaram. Mas, quando saíamos do território das ruínas da Cimento Perus, passou por nós um carro da Federal (ou, pelo menos, pintado como se fosse).

As ruínas, me conta Jéssica (foto abaixo), foram parte importante no seu processo de crescimento como cidadã e militante peruense. Na adolescência, para os colegas de escola, chegava a mentir sobre o local onde morava, tinha vergonha de viver em território identificado com pobreza, violência, tráfico, crime.

1 jessica

Fracassou em sua primeira tentativa de entrar na faculdade e, sem recursos para pagar cursinho no centro de São Paulo, entrou num pré-vestibular popular, o Fábrica de ConheCimento, em Perus. Também aprendia a se relacionar com os jovens da comunidade, participando de um grupo de teatro local.

“No cursinho, aconteciam aulas também aos sábados, falando de reforma agrária e um café filosófico pra falar sobre memória. Daqui a pouco, me pego estudando a história de Perus e descubro que esse foi o espaço onde nasceu a primeira fábrica de cimento do Brasil; depois, descubro que os operários dessa fábrica foram os precursores do sindicalismo e de movimentos grevistas, antes mesmo do ABC do Lula.”

1 farica vista outra

A empolgação ajudou a estudante, que conseguiu entrar no curso de jornalismo (terminou a faculdade há seis meses). E o novo conhecimento adquirido a transformou em militante –hoje atua no Movimento Pela Fábrica de Cimento Perus e é jornalista comunitária, além de trabalhar como repórter de uma ONG da área de educação.

Esse movimento defende que o espaço das ruínas seja recuperado, com as obras preservadas e entregues para uso pela população, como museu, escola e outras formas de apropriação comunitária (saiba mais aqui).

Do outro lado do morro onde ficam os restos da fábrica, encontramos outras ruínas, as da Vila Triângulo, que foi um conjunto habitacional ocupado por operários da Portland Perus. O nome vem do formato em que as casas estão arrumadas, lideradas por uma igrejinha em situação periclitante.

triangulo 1

Passamos por lá e seguimos a jornada. Cruzamos pela sede do sindicato que liderou o movimento dos queixadas, atravessamos a avenida principal do bairro, nomeada em homenagem a um ex-dono da fábrica (“Não há ruas com nomes de queixadas”, protesta Jéssica) e vamos descobrindo a efervescência cultural de Perus.

No fim de uma rua sem saída, ao lado da linha férrea, está a sede do coletivo Quilombaque, que surgiu em 2005 em torno de jovens que se reuniam para tocar e aprender a tocar tambores e hoje abriga uma grande diversidade de tribos (saiba mais AQUI). Além do terreno musical, trafegam por outros caminhos da arte: foi por iniciativa deles, por exemplo, que grafiteiros encheram de cor e arte do murão cinza que separa a rua dos trilhos da ferrovia.

picho

A poucos quarteirões dali, sob um viaduto, está a sede da escola de samba da comunidade, a Valença. E também o ringue onde um ex-boxeador dá aulas para meninos de rua –o projeto se chama Caminhos do Futuro.

Inspirado pelo nome, me despeço, lembrando que a estrada é longa, mas há que lutar. Ou, como diz poesia que tanto repetimos nos anos 1970: “Caminante, no hay caminos; se hace el camino al andar”. Vamo que vamo!

DIA 21 – PROJETO 460 KM POR SÃO PAULO

Clique no mapa para conhecer mais detalhes sobre o percurso do dia

mapa 22dez2013

QUILOMETRAGEM DO DIA: 12 km

TEMPO DO DIA: 2h47min43

QUILOMETRAGEM ACUMULADA: 269 km

TEMPO ACUMULADO: 58h29min44

QUILOMETRAGEM A CUMPRIR: 191 km

DESTAQUES DO PERCURSO: ruínas da Fábrica de Cimento Portland Perus, primeira indústria do gênero no país; cemitério de Perus, onde foram encontradas ossadas de militantes mortos pela ditadura militar

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Corredor vai às alturas do Jova Rural, entre Mamonas e Adoniran

Por Rodolfo Lucena
21/12/13 19:06

selo_rodolfo_correndoA palavra museu, com o ar solene e o tom empoeirado que carrega, talvez seja pomposa demais para descrever o centro cultural que visitei hoje. Por trás de uma paredinha simples, pintada de azul, há duas casas também simples, cada uma com um grande cômodo ocupando quase toda sua área, e as paredes cobertas por recortes, quadros, fotografias: é o Museu Memória do Jaçanã.

Pouco depois de minha saída, seria servido bolo e suco a alguns poucos convivas: o museu festejava hoje 30 anos de existência. Trinta anos de luta, no dizer de seu idealizador, Silvio Bittencourt, que dedicou grande parte de seus 82 anos a proteger e reconstruir a memória do bairro.

Apesar de pequeno e sem grandes atrativos para turistas, o Jaçanã é um dos mais conhecidos bairros da cidade, pelo menos de nome, pois foi imortalizado na música “Trem das Onze”, do grande sambista paulista Adoniran Barbosa (ih, não vai me dizer que não conhece! Conhecendo ou não, aproveite uma palhinha clicando AQUI).

Cheguei ao museu e a uma boa prosa com o veterano jaçanense depois de mais de uma hora de caminhada. Vinha do alto de um morro que tudo observa: vê o centro da cidade, vê Guarulhos, vê a baixada do Jaçanã, vê os morros que levam ao Pico do Jaraguá. Estou falando de uma comunidade chamada Jova Rural.

1 geral jova rural

Talvez tenha problemas de identidade: nos painéis dos ônibus, o bairro é assim identificado, mas, para os Correios, é Jardim Felicidade. Moradores mais antigos preferem chamá-lo de Jardim Portal II, por causa do nome da rua que, há tempos, era a principal porta de entrada na comunidade.

Minha cicerone de hoje foi a jornalista Aline Kátia Ferreira de Melo, 30, que milita em uma rede de jornalistas da periferia e colabora com o blog Mural, vizinho nosso, pois é hospedado também aqui na Folha (clique AQUI).

Ela mora na comunidade há 15 anos, bem pertinho da padaria Esperança, e lembra dos tempo em que por ali era só barro, lamaçal, e para qualquer necessidade era preciso descer até o comércio do Jaçanã. E olha que não é pequena a diferença: pelo meu GPS, chegamos hoje a 875 m acima do nível do mar –o centrinho do Jaçanã está 125 m mais baixo.

No alto do morro fica a entrada da comunidade, que hoje tem quase todas as ruas asfaltadas, ainda que as casas estejam em situação irregular. Como outras regiões da periferia, o Jova Rural vive esquecido, a não ser por breves momentos de atenção –no cemitério da região está enterrada a menina Isabella Nardoni, vítima de um crime que chocou a cidade (o pai e a madrasta foram condenados pelo assassinato da garota, que tinha então cinco anos).

Basta girar um pouco o corpo e, dali mesmo, avista-se a serra da Cantareira. “Foi por ali que caiu o avião dos Mamonas”, diz Aline, referindo-se ao acidente em que morreram todos os integrantes do conjunto Mamonas Assassinas (ouça AQUI uma das música mais famosas do grupo).

Mas não se veem no bairro referências aos artistas. Pelas ruas, parece ser tranquilo, satisfeito consigo mesmo. Eventuais reivindicações são levadas à frente pela Associação de Mulheres Amigas de Jova Rural. Ou, quando a dor é maior, a comunidade se mobiliza e resolve os problemas por si mesma.

Depois de um acidente que provocou a morte de uma criança, em uma rua sem sinalização, os moradores se reuniram e construíram lombadas no asfalto para tentar reduzir a velocidade dos veículos.

1 aline

Outros descuidos, porém, passam ao largo. Algumas ruas, por exemplo, não têm placas de identificação; em outras, as placas são improvisadas –Aline (foto) está colecionando casos para um texto que deverá publicar no blog ou na página que criou para falar sobre a história e os problemas do Jova Rural.

Problemas que vamos deixando para trás à medida que descemos o morro e entramos no Jaçanã. Ali, estranho apenas a falta de referências a Adoniran Barbosa.

picho 2

Imaginava que encontraria faixas e cartazes por todo o lado, mas, nos primeiros quilômetros do passeio, encontro apenas uma pichação em terreno onde não mora ninguém, no prolongamento de uma avenida do bairro.

Mais além, um barzinho se intitula Trem das 11, e é só. Talvez por isso seja tão melancólica a canção que o senhor Bittencourt criou, falando do bairro –neste CLIPE AQUI, gravado hoje, ele interpreta a canção com absoluta exclusividade para você (e todos os demais leitores deste Mais Corrida).

Foi nesse tom, assim, que ia encerrando a jornada de hoje, em que fui de Mamonas a Adoniran, passando por um morro alto e poderoso, cheio de vistas fabulosas e também crivado de problemas. Percebi, porém, que o caminho tinha sido relativamente curto; assim, depois de agradecer a acolhida e me despedir de minha anfitriã-convidada, parti para outro percurso na zona norte.

Desci ainda mais, rumo à Marginal Tietê, e fui abraçar o terreno em que um dia ficou a penitenciária mais temida de São Paulo (talvez do Brasil): o Cadeião, o Carandiru.

Série de prédios onde a vida nada valia, como nos conta Dráuzio Varella no livro em que relata suas experiências como médico naquela penitenciária, o Carandiru foi palco de terrível massacre. Em 1992, a Polícia Militar invadiu suas galerias para acabar com uma rebelião e deixou 111 presos assassinados.

parque

Dez anos depois, o Cadeião foi desativado e a maior parte do conjunto destruída –a Penitenciária Feminina da Capital ainda está de  pé e operante. No local, foi construído o Parque da Juventude, onde já tive oportunidade de assistir a shows de Gal Costa e Maria Rita (a filha de Elis Regina).

Com bastante área verde, o parque tem também uma biblioteca e quadras esportivas –futebol de salão, tênis e basquete–, além de um território especialmente construído para skatistas. Não esqueceu de onde veio: partes das muralhas do Carandiru foram preservadas, assim como restos de galerias, que podem dar ao visitante uma ideia de como eram os cubículos onde viviam os presos.

muralha

Já tinha corrido por lá antes; hoje, encontrei vários corredores. Mas me parece mais uma área para passeio e lazer em grupo, aproveitando os equipamentos oferecidos, do que área boa para corrida. Para meter o pé no asfalto, prefiro o entorno, as calçadas e avenidas largas nos arredores do antigo Cadeião.

Assim concluí a jornada dupla do dia. Amanhã tem mais. Vamo que vamo!

DIA 20 – PROJETO 460 KM POR SÃO PAULO

Clique nos mapas para conhecer mais detalhes sobre os percursos do dia; a numerália traz os dados do acumulado nos dois trajetos

mapa dia 20 21dez2013 primeira etapa

mapa dia 20 21dez2013 segunda parte

QUILOMETRAGEM DO DIA: 12 km

TEMPO DO DIA: 2h49in03

QUILOMETRAGEM ACUMULADA: 257 km

TEMPO ACUMULADO: 55h42min01

QUILOMETRAGEM A CUMPRIR: 203 km

DESTAQUES DO PERCURSO: Jova Rural e Jacaçã, Carandiru e Parque da Juventude, Museu da Memória do Jaçanã

 

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Jardim Verônia EC ajuda a manter vivo o futebol de várzea

Por Rodolfo Lucena
20/12/13 16:07

selo_rodolfo_correndoCampeão da Copa Negritude 2009, bicampeão do setor leste da Copa Seme de futebol de várzea, o Jardim Verônia Esporte Clube é um dos tradicionais clubes da periferia, nascido em campinho de barro, em terreno baldio, e parceiro nas lutas da comunidade onde cresceu. Por isso, ganha o carinho dos moradores do território onde nasceu, um pequeno enclave em Ermelino Matarazzo, na zona leste.

Examinando o local à distância, analisando a imagem de uma foto aérea, o Jardim Verônia de onde o time tirou o nome não passa de três ruas que sobem o morro a partir da avenida que margeia a linha da estrada de ferro. Basta andar por lá, porém, para aos poucos descortinar os meandros de ruas que  se cruzam, vielas e becos por onde, volta e meia, o visitante encontra alguém vestindo a camiseta vermelha e branca com o escudo do time.

“O Verônia foi fundado em 1962, já são mais de 50 anos de história”, aponta o ex-metalúrgico Vânio Marques dos Santos, 43, diretor social do clube, que me recebeu hoje de manhã para uma visita pela comunidade, mais um momento de minha trajetória de 460 km por São Paulo para homenagear o próximo aniversário da cidade.

1 trofeus

Apesar de rodeado por alguns dos troféus conquistados pelo clube ao longo dessas décadas, Vânio não procura fazer um discurso laudatório. Conta que o clube cresceu com o bairro –há 50 anos, ali era quase tudo mato, um morro só, terrenos de propriedade duvidosa, lotes pertencentes a massas falidas de empresas, uma confusão.

Os primeiros moradores trataram de deixar sua marca e começaram a fazer suas reivindicações, mesmo no período da ditadura militar. Assim, foram conseguindo água, luz, uma escola, posto de saúde, asfalto para boa parte das ruas…

1 campo melhor

O time, por sua vez, nasceu na mesa de bar, onde se reuniam os amigos para tomar uma, trocar ideias e se preparar para a pelada domingueira. A disputa era em campo de areão, que virava um barral só à primeira chuva, como alguns dos campinhos por onde passamos em nossa caminhada na manhã de hoje.

Apesar do desconforto das instalações, o Verônia atraía a comunidade, como mostra foto resgatada por Vânio (abaixo).

2 foto historica do campo

Formado em história, o dirigente do clube vem fazendo já há algum tempo trabalho de recuperação da trajetória do time e do bairro, digitalizando imagens históricas e mesmo páginas de jornais que, décadas atrás, acompanhavam o desenrolar das batalhas do futebol varzeano.

Em alguns casos, lembra Vânio, as batalhas não eram em sentido figurado. Aliás, foi por causa da “indisciplina” dos atletas, afirma ele, que acabou a Copa Primeiro de Maio, uma das mais tradicionais competições promovidas pelo Verônia. O campeonato começava em janeiro; no Dia do Trabalho acontecia a final, depois das comemorações e passeatas pela região central de Ermelino Matarazzo (hoje, o largo Primeiro de Maio, abaixo).

1 centro de ermelino

Nos últimos tempos, a rivalidade saudável com o XI Garotos, O jardim Belém, o Irmãos Coragem, o Ermelinense e o Buturussu vinha se transformando em choques físicos mais contundentes, e a turma achou melhor deixar para lá. Há muitos outros campeonatos disputar, e o Verônia não só diz presente como recepciona adversários no campo principal do bairro, hoje equipado até com grama sintética, como mostra Vânio (abaixo).

1 vanio

Ressalta, porém, que tudo isso não saiu de graça, mas sim das lutas dos moradores (Clique AQUI para assistir a um VíDEO que fiz com ele) . Vânio aprendeu o exercício das campanhas comunitárias nas greves metalúrgicas dos anos 1980; mais tarde, desempregado, associou-se a companheiros do bairro para tentar melhorar de vida.

Criaram cursinhos pré-vestibulares que funcionavam aos domingos para atender o pessoal do Jardim Verônia e de bairros próximos. “A periferia na academia” era o lema do grupo, e logo surgiram, em outras regiões, iniciativas semelhantes. “Foi assim que consegui fazer faculdade”, diz ele, afirmando que as aulas da rede de cursinho renderam bons frutos, com mais de cem estudantes da área conseguindo passar no vestibular.

1 bar sede izildo

Por causa de sua ação na comunidade, acabou convidado para o clube, apesar de não jogar futebol. E tratou de ajudar a turma a se mobilizar para conseguir uma sede  para o clube (até então, os encontros era no bar-sede, ainda hoje comandado por Izildo de Oliveira, 59, foto cima). “Sou meio gramsciano, um intelectual orgânico”, diz ele, referindo-se ao pensador italiano comunista Antonio Gramsci.

O Verônia, por sua vez, parece estar organicamente ligado às lutas do bairro. Passamos pela casa de um veterano líder comunitário, Octaciano Anselmo, 76, que ainda hoje trata de manter algum tipo de militância –participa de reuniões com ex-presos políticos e é sempre ouvido nas questões do bairro.

1 octaviano

A principal, segundo me diz a presidenta da Associação dos Moradores da Vila Piraquara, Márcia Pereira, é a legalização da propriedade das casas. “Pobre gosta de documento”, afirma ela. “A gente quer tudo certinho. Quanto mais pobre, mais certo quer.”

O bairro está totalmente implantado, explica, mas praticamente ninguém tem documentação de propriedade dos lugares onde mora. Há algumas ruas abertas pelo poder público, mas há também vielas, becos, escadões, vias típicas de comunidades da periferia, que vão se organizando à medida que chegam novos moradores.

Isso vai melhorar, garante: “Nós somos um bairro pobre, mas mobilizado. Aqui o pessoal corre atrás mesmo”.

1 viela

É o que também vai contando Vânio ao longo de nosso percurso. E lembra que a turma não quer só casa e comida, quer também diversão. O próprio Jardim Verônia Esporte Clube abre seus tentáculos para além dos campos de futebol e das campanhas comunitárias: chega até o Carnaval.

O clube tem uma ala na escola de samba Leandro de Itaquera. E apoia com ardor, samba no pé e som no gogó o bloco Pé Vermelho, nascido a partir da bateria do clube. O nome no bloco não veio apenas das cores do time, mas da história da região.

“Há muitos anos, não tinha estação de trem aqui perto. Os trabalhadores iam caminhando até a Luz, pelo caminho de terra. Seguiam descalços, para não sujar os sapatos. Quando chegavam ao centro, lavavam os pés, que estavam vermelhos de barro, e seguiam para o trabalho”, conta Vânio.

Não por acaso, as música do bloco, que chega a mobilizar 500 pessoas em desfile pelas ruas do Jardim Verônia, falam da vida ali na comunidade e têm um ar de alegre protesto.

Composto por Pé de Meia, Babá, Tufão e Rodrigo Silva, o samba-enredo de 2014 é “Praça Onze Meu Amor”, homenageando uma praça que fica bem no topete do morro onde está encravado o Jardim Verônia.

Depois de chamar o povo para a praça, o samba conclama: “Vem comunidade e vamos revolucionar; a hora é essa, nosso bloco vai passar”.

Que assim seja. Vamo que vamo!

DIA 18 – PROJETO 460 KM POR SÃO PAULO
Clique no mapa para conhecer mais detalhes sobre o percurso do dia

mapa dia 19 20dez2013

QUILOMETRAGEM DO DIA: 10 km
TEMPO DO DIA: 2h36in08
QUILOMETRAGEM ACUMULADA: 245 km
TEMPO ACUMULADO: 52h52min58
QUILOMETRAGEM A CUMPRIR: 215 km
DESTAQUES DO PERCURSO: Jardim Verônia, sede social e bar-sede do Jardim Verônia Esporte Clube, Jardim Piraquara, estação Ermelino Matarazzo

 

 

 

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No caminho dos poetas, médico dá dicas para tentar evitar lesões

Por Rodolfo Lucena
19/12/13 15:33

selo_rodolfo_correndo“Por favor, ajude ele urgente. Proteja meu filho (…) o resgate desta situação”. Grafada em letra redonda de mãe ou professora, a cartinha escrita em uma folha pautada de caderno escolar é a imagem do desespero. Estava jogada, entre grãos de cereais, bagos de uvas vermelhas e outras frutas diversas ao pé de uma árvore na praça Poeta Carlos Drummond de Andrade. Era um “despacho”, uma oferenda a santos que, segundo a crença de alguns, podem resolver problemas de nós outros.

“Nunca tinha visto isso aqui no Morumbi”, espanta-se meu convidado/anfitrião da caminhada de hoje no meu percurso de 460 km por São Paulo em homenagem ao próximo aniversário. Morador do território na região sul da cidade em geral caracterizado como “bairro de classe alta”, o ortopedista Henrique Cabrita, 44, também é corredor dedicado e treina regularmente pelas terríveis subidas e não menos desagradáveis descidas morumbísticas.

Talvez não tenha percebido porque, como muitos corredores rápidos, roda concentrado, preocupado com o desempenho no treino e não com a paisagem que rola ao redor. Hoje, porém, caminhamos –meu joelho fraturado não vai permitir que eu volte a correr por algum tempo— e vimos de um tudo pelo bairro repleto de prédios luxuosos e mansões (além de 18 favelas, segundo me conta ele).

1 praca carlos drummond

Havia três “trabalhos” só na pequena praça dedicada ao poeta mineiro, pertinho do local onde começamos nossa jornada. O início, mesmo, foi em outra praça, esta dedicada a um rico fazendeiro do tempo do império que, por seus bons serviços a dom Pedro 2º, ganhou título nobiliárquico, virando visconde de Cunha Bueno. Aliás, para ficar tudo em salões reais, a rua de fronte à praça homenageia outro visconde, o de Nacar, este um comerciante do Paraná. Não por acaso, fica tudo na porção do Morumbi chamada Real Parque.

Voltemos, porém, à praça Drummond, que está precisando de mais cuidados. É pequena, simples e cheia de árvores frondosas; num marco pétreo está registrado um trecho de uma das poesias do homenageado: “Quando nasci, um anjo torto, desses que vivem na sombra, disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida” (leia mais AQUI).

Caminhando, seguimos o conselho. Como meu convidado/anfitrião é médico, puxei assunto sobre o recente anúncio de uma multinacional farmacêutico afirmando que iria deixar de pagar médicos para que receitassem seus produtos. Cabrita me conta que há sucedâneos desse tipo de prática, mesmo entre cirurgiões –alguns recebem para empregar determinados modelos de prótese. “É público e notório que tem médicos que fazem isso”, diz ele, defendendo maior fiscalização do exercício profissional.

Assunto muito sério, que a gente vai pontuando com conversas mais leves. Traquejado por quatro anos de residência, vários em pronto-socorro, e mais de 5.000 cirurgias realizadas –cerca de 3.000 delas de quadril–, o médico diz que o seriado televisivo “ER” (de emergency room, sala de emergência) era muito fiel à vida real no cenário americano. Até na apresentação das relações humanas, os imbróglios entre médicos, enfermeiras e pacientes, o programa teria base concreta.

Sem falar nas piadas e gozações das diversas especialidades médicas, entre si e contra os outros. “Qual a diferença entre um ortopedista e um obstetra?”, pergunta Cabrita. “O ortopedista tem de ser forte e burro; o obstetra não precisa ser forte…” E outra: “Como esconder uma nota de US$ 100 de um anestesista?”. A resposta demole: “Basta guardá-la em algum livro de estudos…”

Tudo isso é intriga, afirma ele. É fato que, não poucas vezes, o trabalho do ortopedista é brutal, especialmente para fazer as tais “reduções”, que são o processo de forçar a volta do osso ao seu devido lugar, depois de uma luxação. Mas, modernamente, várias especialidades da área, como a cirurgia de mão, exigem ação superprecisa e minuciosa.

Conversa vai, conversa vem, circulamos por um quarteirão plano no Morumbi, coisa rara no bairro, e aproveitamos para testar meu joelho com uma corridinha. Aguento um quilômetro, mas o trote deixa suas marcas de dor. É melhor seguir a passo, pois está confirmada a fratura por estresse, e um dos caminhos para a cura é tirar a carga extra e deixar que o corpo vá se refazendo (isso demora, meu!).

2 cabrita rio va

Assim, Cabrita vai me mostrando o caminho de suas corridas. O percurso passa pela beira de um córrego, que tem uma surpreendente rua lateral de chão batido. “Quando chove forte, a água vem até o topo”, afirma Cabrita,dizendo que, nas inundações, o riachinho vira rio caudaloso e chega mesmo a invadir o estádio Morumbi, do São Paulo.

É o time de seu coração, por orientação paterna. Nascido em Porto Alegre, Cabrita é filho de português torcedor do Benfica. A família morou na terrinha por um tempo e, quando voltou ao Brasil, o pai orientou para que apoiassem sempre times de vermelho. Assim, quando morou em Brasília, torcia pelo Flamengo; no seu Rio Grande de nascença, é colorado, e por aqui defende o tricolor paulista.

Seu esporte predileto na juventude, porém, não foi o futebol, e sim o rúgbi, que praticou durante os dez anos de sua formação médica (seis de curso universitário, quatro de residência). Chegou foi da seleção brasileira como juvenil e adulto; nos campos de batalha, consertando ombros de amigos e rivais, é que decidiu se especializar em ortopedia.

Aquela modalidade esportiva, porém, com seus choques, encontrões, quedas  e puxões, é incompatível com o trabalho na sala de cirurgia. “Quebrei por três vezes o quinto dedo (mindinho) direito durante os jogos, e não dá para arriscar não poder operar sendo ortopedista”, diz Cabrita, que hoje se dedica às maratonas. Já fez meia dúzia (o relato de algumas delas você encontra neste blog, basta colocar a palavra Cabrita na caixa de diálogo de pesquisa).

2 carros abandonados

No passeio pelo bairro, vai lembrando momentos dos treinos e da vida de médico: “Vi quando estavam construindo essa casa”, diz; aponta para um edifício belíssimo, todo coberto por vegetação: “Ali mora uma paciente minha, foi assaltada depois de levar os filhos para a escola, teve arrastão no prédio todo…”. Nota ainda que várias casas de luxo vão se deteriorando, abandonadas (aliás, carros também são largados nas ruas do bairro de classe alta).

Conversa vai, conversa vem, chegamos ao km 7 de nossa caminhada, com o qual completo 230 quilômetros percorridos em 18 dias de jornada (hoje é 19 de janeiro, tirei um diazinho de folga há uma semana).

1 metade

“Agora é só morro abaixo”, penso eu enquanto poso para uma foto em frente ao estádio Cícero Pompeu de Toledo, o nome oficial do Morumbi.

Como um dos consultórios em que Cabrita atua é ali mesmo no estádio, temos livre acesso. Pela primeira vez, adentro o campo são-paulino e ainda tenho a oportunidade de correr na pista de atletismo que circunda o gramado –o joelho direito chia um pouquinho, mas eu não iria perder essa oportunidade, ainda que sob o olhar de um médico.

2 morumbi

O estádio do São Paulo de fato é um portento, exemplo de construção dos anos 1970, longe do conceito de “arena”, hoje tão difundido. Além do mais, tem lugar garantido na história do futebol, pois foi palco da primeira conquista de um título do Brasileiro pelo Grêmio. Eu acompanhei a partida decisiva da casa de minha avó, em Porto Alegre, de ouvido colado no rádio, sentado na cadeira de balanço que meu avô costumava ocupar. Ele não viveu para ver o gol de Baltazar, que se redimiu em São Paulo no pênalti perdido no jogo de ida, na capital gaúcha. Se você também não conhece a história, clique AQUI para saber mais (mesmo se conhece, é bom reviver aqueles momentos).

Já satisfeitos com a caminhada, partimos para o caminho final. Tínhamos iniciado perto da praça Poeta Carlos Drummond de Andrade, nada melhor do que completar o circuito em território de outro, o grande Vinicius de Moraes. Fronteira ao palácio dos bandeirantes, sede do governo de São Paulo, e vizinha do hospital Albert Einstein, um dos mais incensados da cidade, a praça é, como o bairro, cheia de altos e baixos. Sobe-se e se desce, há raros momentos de paz para o corredor (ou caminhante). Está muito limpa e bem cuidada, pelo que pudemos ver. E, tal como o território de Drummond, também recebe “despachos” de quem busca ajuda etérea.

1 vinicius

Com o que chegou a hora de o médico partir para sua lide diária. De carro, o levamos de volta ao ponto de início da caminhada. Lá, aproveitei para inteirar 12 km e fechar quilometragem redonda.

Também aproveitei para pedir ao ortopedista maratonista algumas dicas para que a gente consiga ficar mais tempo sem se machucar. Eis a lista que ele propõe:

1) correr de acordo com o que o seu corpo falar, não exagerar na dose;

2) progredir de acordo como seu próprio ritmo;

3) descansar pelo menos uma vez por semana;

4) fazer trabalho de musculação ou exercícios funcionais como base para a prática de corrida;

5) correr em terrenos adequados e com tênis próprios para o seu tipo de pé e pisada;

6) tomar cuiddado com novidades, tanto na parte nutricional quanto de equipamentos e de técnicas de corrida ou planilhas;

7) sempre que tiver dúvidas, recorrer a profissionais da área, como treinadores, técnicos, médicos ligados a área esportiva ou fisioterapeutas;

8) não deixar lesões ficarem crônicas, ou seja durarem mais do que duas semanas; doeu um pouco: corra um pouco; doeu muito: pare de correr e procure ajuda médica;

9) procurar ter uma rotina semanal e mantê-la, apesar de trabalho ou férias;

10) manter sempre o bom humor,  corrida é para promover saúde.

São mandamentos simples, diz ele, de acordo com o bom senso. Mas todos nós sabemos que o tal bom senso nem sempre é a característica mais marcante dos corredores, maratonistas e ultras.

Vamo que vamo!

DIA 18 – PROJETO 460 KM POR SÃO PAULO
Clique no mapa para conhecer mais detalhes sobre o percurso do dia

mapa dia 18 19dez2013

QUILOMETRAGEM DO DIA: 12 km
TEMPO DO DIA: 2h10min04
QUILOMETRAGEM ACUMULADA: 235 km
TEMPO ACUMULADO: 50h16min50
QUILOMETRAGEM A CUMPRIR: 225 km
DESTAQUES DO PERCURSO: bairro Morumbi, estádio do São Paulo, praças Poeta Carlos Drummond de Andrade e Vinícius de Moraes

 

 

 

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Em Guarapiranga, corredor medita sobre joelho detonado

Por Rodolfo Lucena
18/12/13 13:21

selo_rodolfo_correndoPrestes a cruzar a metade de meu percurso de 460 km por São Paulo em homenagem ao próximo aniversário da cidade, percebo que é chegada a hora de lhe dizer, em confidência, ao pé do ouvido, segredando: agora tenho a certeza de que não sei se vou conseguir completar esse desafio.

A dúvida, então disfarçada de medo, se instalou na minha mente e tomou conta de meu corpo há 15 dias, quando eu mal começava a execução deste plano. No terceiro dia de corrida, percorri 20 km pela avenida Sapopemba, a mais longa de São Paulo, cheia de sobe-e-desce, com calçadas irregulares e repletas de obstáculos.

Na tarde daquele dia, terça-feira, 3 de dezembro, o joelho direito chiou. Gritou. Havia uma dor agora logo abaixo da patela, mais para o lado de dentro. Comecei imediatamente a fazer fisioterapia, passando por diversos tipos de tratamento para reduzir inchaço, minorar a dor e, a médio prazo, acreditava eu, acabar com o problema.

A dor seguiu por mais dois dias, mais três, mais quatro, o médico que me atende, ele também corredor, pediu exame de ressonância magnética. Ele tinha lá sua hipótese de diagnóstico, mas o joelho não estava se comportando como esperado, era melhor colocar ossos e ligamentos sob exame da máquina.

Do ponto de vista clínico, o corpo estava respondendo. Continuava mancando, mas, na corrida, estava um pouco mais equilibrado. Não chegava a ter mais aquela dor agudo dos primeiros dias, ainda que bambeasse a perna de vez em quando.

Tirei um dia de descanso, mas segui correndo. Por recomendação do médico e dos fisioterapeutas –além de orientado por meu próprio corpo–, mais andei que corri. De qualquer forma, não saí do asfalto, das trilhas, das vielas e bibocas de São Paulo.

1 onibus

Hoje, por exemplo, comecei minha jornada no que já considerei confins da zona sul, mas que agora sei que não passa da metade do caminho. O carro me deixou depois bem depois do número 5.000 da avenida Atlântica, que já foi Robert Kennedy (a mudança ocorreu em 2010, leia AQUI, mas até agora o Google não a aceitou, a julgar pelo mapa da corrida de hoje…).

Por ali fica o início (ou fim, sei lá), de um trecho da ciclovia que acompanha parte da represa Guarapiranga. Atrás de mim, um condomínio de classe média alta; ao meu lado, um parque que apenas adivinhava, não lhe via a entrada –trata-se do parque Linear Castelo, que não cheguei a visitar, mas vi seus limites com a Atlântica.

1 clube parque do castelo

Seguindo por ali, fui captando aos poucos o espírito da avenida. De um lado, alguns quarteirões reúnem um bom n úmero de motéis; do outro lado, o da represa, há de vez em quando casas de show, bares e restaurantes. Aqui e acolá, um parque ou área destina ao público.

Passei, por exemplo, pelo parque Praia do Sol, cujo nome me pareceu um pouco retumbante para as dimensões da faixa de areia. Mas, garante uma placa por ali, o local é perigoso.

1 praia do sol

Vindo em direção ao centro, sempre costeando a represa, às vezes perco a tal ciclovia –há áreas em que o próprio calçamento está em construção. Já se fica longe da avenidona; passo por vielas e ruas mais simples, onde há casas boas e outras não tão bem arrumadas. Algumas são claramente cortiços; outras, acesso para pequenas favelas surgidas em fundo de quintal ou ao lado de campos. É como se tivéssemos, em algumas centenas de metros, um modelo da balbúrdia, confusão e disparidade que caracteriza a (des)organização urbana da Pauliceia.

Enfim volto à pista de caminhada. Passo pelo campo do clube de rúgbi Spac, fundado em 1888 (saiba mais AQUI) e chego ao meu objetivo: o parque municipal Barragem de Guarapiranga. É a primeira vez na vida que fico assim pertinho das águas dessa represa e olha que já estou em São Paulo há 32 anos.

O parque é pequeno, mas muito agradável e bonitinho. Na entrada, o monumento “Heróis da Travessia do Atlântico” homenageei três italianos que voaram de seu país até nossas plagas, pousando um hidroavião nas águas da Guarapiranga, em 1927. Também é lembrado um brasileiro que, meses depois, repetiu a façanha (saiba mais AQUI).

O maior destaque do parque é uma pista de asfalto de pouco mais de 800 m, planinha, no alto de um talude que margeia a represa; nas suas franjas, já quase com os pés na água, alguns pescadores tentam a sorte; na pista, caminhantes se exercitam tendo a bela paisagem como inspiração.

1 parque

Para mim, é momento de reflexão. Do lado do asfalto, na grama baixinha, há um trilho forjado por milhares, milhões de passadas de corredores. Dá vontade de seguir seus passos. Lembro, porém, das palavras não muito claras, mas aterrorizantes, do laudo da ressonância magnética.

“Destaca-se fratura subcondral por insuficiência no platô tibial medial associado a edema ósseo medular regional.” E mais ainda: “Condropatia  patelar  caracterizada  por  alteração  de sinal condral nas facetas  medial  e  lateral,  observando  pequena  fissura superficial no início  da  faceta  medial  associado  a  pequeno  edema  ósseo  medular subcondral no vértice. Condropatia troclear caracterizada por alteração de sinal no sulco com edema ósseo subcondral”. Para completar: “edema no coxim gorduroso suprapatelar relacionado a fricção do aparelho extensor.”

(Observação entre parênteses: perceba, caro leitora, prezada leitora, o grau de confiança e intimidade em que vos tenho, abrindo não só meu coração como também as miudezas da musculatura e os intestinos da ossatura que formam o conjunto conhecido como Rodolfo Reckziegel de Lucena.)

Não vou entrar em explicações médicas. Conversei sobre o assunto com conhecidos, ouvindo previsões tétricas. “Pacientes meus precisaram usar muletas” e  “o tratamento envolve repouso de quatro a seis meses” foram algumas das informações que recebi.

São verdadeiras, por certo. Uma terrível combinação de velhice e uso continuado de articulações, agredida de forma aguda por movimentos intempestivos e bruscos dos ossos, provocados pela irregularidade do terreno pisoteado deu nisso: está fraturado o osso que funciona como um travesseiro onde se assenta o fêmur (médicos com certeza terão definição mais precisa, mas espero que dê para entender).

Dá para curar, e muita gente sai dessa sem sequelas. Mas é preciso tirar a carga. Coisa que não pretendo fazer até terminar esse projeto, pelo menos não enquanto ainda houver chance de seguir no trote ou mesmo caminhando. Ao mesmo tempo, tenho que ser responsável com meu corpo: se os riscos forem demasiados –e quem vai dizer será meu médico–, talvez seja mesmo necessário cortar até as caminhadas.

A palavra final é minha, por certo –afinal, não há pacientes que desistem de cirurgias fortemente recomendadas; ou outros que decidem passar na faca apesar de poucas chances de bom resultado? Qual vai ser minha decisão, para onde devo andar, o que me joelho quer e o que desejo eu, essas foram questões que me atribularam enquanto passeava no parque.

Cheguei ao fim do caminho: uma cerca proibia a passagem, mas minha sombra não aceitou a limitação física ali imposta. Será que eu não aceitaria?

1 sombra

Já cansei de conversar com outros corredores e comigo mesmo sobre essa questão de limites. Ninguém rompe limites, do ponto de vista físico ou fisiológico. O que a gente consegue fazer é expandir esses limites, ampliá-los; ou aguentar o risco quando as barreiras são forçadas (o resultado nem sempre é muito bom, há tendões partidos, músculos dilacerados e riscos ainda maiores).

Sei lá. O certo é que decidi seguir caminho depois de cruzar todas as trilhas do parque da Barragem. Atravessei a avenida Atlântica e segui meu nariz, como gosto de fazer quando treino pelas ruas sem destino.

Descobri que nem sempre o nariz é bom conselheiro: fiquei dando idas e voltas em um rol de ruas sem saída, até que percebi o problema: a terra terminava logo ali adiante, estava quase na beira do rio Pinheiros, o que eu precisava era descobrir uma ponte…

1 nuvens

Acabei voltando, sem querer querendo, até a avenidona. Cruzei a ponte do Socorro e ainda rodei pouco mais de um quilômetro, novamente enveredando por trilhas interrompidas, até que resolvi dar por encerrado os trabalhos de hoje. Amanhã tem mais, digo para meu joelho, que me responde: “Tomara!”

Vamo que vamo!

DIA 17 – PROJETO 460 KM POR SÃO PAULO
Clique no mapa para conhecer mais detalhes sobre o percurso do dia

mapa dia 17 18dez2013

QUILOMETRAGEM DO DIA: 15 km
TEMPO DO DIA: 2h49min28
QUILOMETRAGEM ACUMULADA: 223 km
TEMPO ACUMULADO: 48h06min46
QUILOMETRAGEM A CUMPRIR: 252 km
DESTAQUES DO PERCURSO: avenida Atlântica, parques municipais às bordas da represa Guarapiranga, clube de rúgbi

 

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Com Elvis da Paulista, corredor percorre trilhos da memória

Por Rodolfo Lucena
17/12/13 13:57

selo_rodolfo_correndo“Cheguei a morar num túmulo, um buraco embaixo da terra. Não tinha ar direito, a gente ficava apertado, tinha de se abaixar todo para entrar”, conta o artista de rua conhecido como Elvis da Paulista ao relembrar seus primeiros tempos em São Paulo.

Na semana que vem, completam-se três anos da mais recente imigração de Márcio Henrique Aguiar, 40, que se apresenta de quinta a domingo em uma movimentada esquina da avenida Paulista. Não só imita seu ídolo como também inventa trejeitos e cria bagunças musicais, casando roque com sertanejo, funk com rockabilly…

Paulistano de nascimento, o meu anfitrião da caminhada de hoje no projeto 460 km por SP foi muito cedo para Minas com a família. Maltratado pelos pais, acabou buscando caminho próprio quando chegou à adolescência. Enveredou pelo caminho artístico, fazia shows aqui e acolá, por várias cidades do interior mineiro –orgulha-se de ter atuado em palco de hotel de fama internacional.

Apesar disso, vez ou outra juntava o pouco que tinha e se vinha para São Paulo, queria vencer na vida. “Eu esperava que fossem me agradar, que abrissem espaço para mim”, diz, relembrando as ilusões passadas. Não encontrava tapete vermelho à espera, não dava certo, voltava desacorçoado, mas resistia.

“Um dia me deu uma coisa, não aguentava mais, peguei uma sacolinha, meu violão, vazei”, conta sobre decisão final.

1 se

Sua primeira parada na Pauliceia, como acontece com muitos desgarrados, foi na praça da Sé, território livre de moradores de rua, drogados, vendedores de um tudo, cantores e pregadores. “Fiquei olhando a turma, notei quem eram os do crack, vi que tinha uns só da bebida. Fiquei com eles, cantava, tocava violão. Fizemos um grupinho, a gente se protegia.”

Mesmo com o temporal que desabou sobre a cidade naqueles dias de 2010, quem vive na rua não podia se descuidar da segurança. “Tem gente que é muito má, gosta de furar, mata mesmo: se te vê dormindo sozinho joga uma tijolada. Querem roubar: você já não tem nada, quando acorda está com menos nada ainda.”

Foram três noites numa esquina atrás do fórum João Mendes, nas redondezas da Sé. Dormia sob uma marquise e, de dia, assuntava, ia descobrindo outras opções de moradia, quem sabe até encontrasse um trabalho.

Descobriu um albergue no Brás, passou a viver por lá. E conseguiu o posto de vendedor de picolé: seu ponto era na Paulista, a meio quilômetro do Masp (Museu de Arte de São Paulo), onde começamos nossa jornada de hoje.

“Ficava do lado de lá da Brigadeiro, onde tinha menos polícia”, lembra, revelando que fazer amigos é uma das regras básicas da sobrevivência de quem está na rua. Acabou conhecendo os policiais que faziam a ronda na área, era avisado quando surgia alguma blitz fiscalizadora; a um gerente de loja, oferecia picolés em troca de poder vender os doces na frente do comércio.

E cobrava mais caro: “Na média, tava R$ 0,50, tinha quem cobrasse R$ 0,80. Eu vendia por R$ 1, por causa do risco, ali era mais perigoso”. Se perdesse o carrinho para bandidos ou para fiscais, o risco era ainda maior: “O dono era ex-Rota”, diz, referindo-se ao temido batalhão da PM de São Paulo.

A produção era nos fundos de um cortiço em plena Brigadeiro Luiz Antonio –aquela da subida que atemoriza os corredores que participam da São Silvestre. Dos companheiros de trabalho –e até do patrão–, ainda ouvia conselhos. Um deles calou fundo: ele não deveria continuar morando de favor, em albergue. Se quisesse melhorar de vida, precisava achar um lugar seu, nem que fosse bem pequeno, que lhe obrigasse a ter um compromisso, fazer algum dinheiro.

Foi assim que saiu da proteção dos religiosos que mantinham o albergue e  o tinham adotado como cantor e violeiro em saraus entre os moradores de rua. Partiu e foi morar em um pardieiro na Liberdade –ele mesmo nota a ironia…

1 catacumba

Não é exatamente um túmulo, como descreve com poesia o Elvis da Paulista. Mas, sem dúvida, lembra uma catacumba. O cortiço fica em uma ruela sem saída da Liberdade, a poucos metros de território dominado por usuários de crack –“Não fotografa os caras”, me diz ele, contando que a convivência é instável, e que o drogado está sempre desconfiado, pode agredir ou roubar a qualquer hora.

A única característica “normal” do prédio é a frente, com porta de tamanho regular e um janelão no primeiro andar. Por dentro, é um labirinto de corredores estreitos e escadas improvisadas, tanque para lavar roupa, banheiros mirrados, quartos enfileirados, tudo muito apertada, baixo, fedido –quando entramos lá, na manhã de hoje, estava terminando a lavação do chão, mas, mesmo assim, havia um cheiro ancestral de gente sofrida e comida velha dominando o ar.

Ficou pior quando adentramos nos antigos aposentos de Márcio: descemos uma escada, invadimos um porão, dobramos por corredores; cada vez ficava mais quente, não circulava brisa, a penumbra parecia eterna apesar de uma luzinha ainda acesa. Uma porta de menos de meio metro de largura, talvez 1,60 de altura, protegia a privacidade do novo morador dos aposentos, que custam R$ 200 por mês.

Com um abraço em um conhecido dos velhos tempos, Elvis se despede; rumamos para outros caminhos de sua história. Ele está vestido a caráter, é cumprimentado por muitos enquanto caminhamos, rodando o centrão até a 25 de Março.

1 loja badulaques

É na rua predileta dos camelôs que ele procura o material usado para sua caracterização e para a montagem do cenário que usa na avenida Paulista. É freguês de uma loja de badulaques e enfeites que fica nos altos da ladeira Porto Geral. Há óculos descomunais, colares, placas, miçangas e outras traquitanas que compõem sua fantasia.

Que nasceu na mais paulista das corridas. Em maio de 2010, quando o inverno se aproximava, o então futuro Elvis da Paulista tratou de vender seu carrinho de picolés. E partiu para tentar a vida com sua especialidade, a arte: passou a cantar “do lado de cá” da Paulista, na região mais afluente e movimentada, entre a Brigadeiro e a Consolação.

Conseguiu uma esquina em frente a um bar; ali passou a imitar Raul Seixas e Dinho Ouro Preto, fazia o que o público lhe pedisse (saiba mais sobre a história dele NESTA REPORTAGEM que fiz para revista “sãopaulo”). Acabou conseguindo uma protetora, que trata como mãe, que lhe deu guarida.

Na São Silvestre daquele ano, a mais diferente e terrível deste século, com trajeto modificado para terminar no Ibirapuera e disputada sob forte chuva, participou vestido de Elvis. No ano que entrava, 2012, acabou se transformando no seu ídolo.

Cresceu com a arte na rua. “Quando eu cheguei aqui, com 37 anos, tinha apenas a oitava série. Fiz curso noturno, completei o segundo grau, entrei na faculdade…”

É bem verdade que o curso de artes cênicas está com a matrícula trancada. Mas, na conversa, Márcio-Elvis exibe uma sabedoria adquirida muito além dos bancos escolares. Por sua própria curiosidade e por influência de amigos e protetores que já teve na vida, é fã de carteirinha de Sun Tzu, o autor de “A Arte da Guerra”, que funciona para o artista como guia estratégico.

Também traz na bagagem cultural leituras de Rosseau e Voltaire, Maquiavel, Krishnamurti e Stanislawsky, dos autores gregos e de livros bíblicos –durante nossa caminhada, fez várias citações, mostrando como a leitura lhe tinha servido para enfrentar os problemas da vida.

1 viaduto santa ifigênia

O maior aprendizado, porém, vem da rua: reconhece o espírito de seu público, sabe quando dá para conseguir gorjetas maiores, se guarda quando o movimento está curto e, em qualquer circunstância, dá a público tudo o que tem.

“Estou cheio de roxo no corpo”, diz, enumerando lesões que conseguiu por causa de sua performance: tendinites, luxações, estiramentos, dores diversas e até costelas fraturadas depois de um pulo num ônibus –o salto é um dos pontos de destaque na sua apresentação na Paulista.

Talvez o que valha mais ainda é a simpatia com que ele trata a todos –ao nossos 15 km caminhados hoje foram ainda mais demorados por causa dos tantos beijos e abraços que ele trocou ao longo do caminho, atendendo da mesma forma o povo da rua e senhoras superalinhadas.

1 elvis paulista

No fim, resta a certeza de que é verdade verdadeira a frase mais gritada para nós durante as mais de três horas em que percorremos a Paulista e o centrão paulistano: “Elvis não morreu!”. Ao que o bem-humorado Márcio, do alto de seu 1,70 m, responde baixinho: “Apenas encolheu…”

É a vida que segue. Vamo que vamo!  (Confira AQUI UM VÍDEO que fiz com o artista)

DIA 16 – PROJETO 460 KM POR SÃO PAULO
Clique no mapa para conhecer mais detalhes sobre o percurso do dia

mapa dia 16 17dez2013

QUILOMETRAGEM DO DIA: 15 km
TEMPO DO DIA: 3h43min46
QUILOMETRAGEM ACUMULADA: 208 km
TEMPO ACUMULADO: 45h17min18
QUILOMETRAGEM A CUMPRIR: 252 km
DESTAQUES DO PERCURSO: avenida Paulista, rua 25 de Março, Liberdade

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Em Capão Redondo, mulherada corre por alegria e autonomia

Por Rodolfo Lucena
16/12/13 16:25

selo_rodolfo_correndoO marido foi assassinado pela polícia, o filho morto por assaltante. “Eu tinha tudo para sair matando e atirando”, diz Neide. Mas não: corredora apaixonada, diz que montou seu projeto de apoio a crianças da periferia seguindo o desejo do filho perdido para uma bala disparada por um garoto de 12 anos.

Baiana de 53 anos, Marineide dos Santos Silva é a idealizadora do projeto Vida Corrida, implantado no parque Santo Dias, no coração do Capão Redondo, zona sul de São Paulo. Ele foi a minha anfitriã de hoje, liderando uma corrida e caminhada pela região, mostrando as dificuldades enfrentadas pelos moradores da comunidade –que já foi tida como uma das mais violentas da cidade—e também as conquistas.

Por onde passamos, aliás, tudo é fruto da luta de entidades de favelas e de conjuntos habitacionais, a começar pelo próprio parque. Há cerca de 30 anos, a região teve uma explosão de crescimento. Conjuntos de habitações populares –como o predinho da Cohab onde Neide tem um pequeno apartamento— foram construídos, aos poucos ocupando o que antes era uma grande fazenda.

“Não ia sobrar verde em lugar nenhum”, conta a líder corredora, lembrando a mobilização da comunidade em defesa de uma área de lazer. A reivindicação local acabou sendo atendida, e o parque Santo Dias acaba de completar 21 anos. O local, cheio de trilhas e com áreas de mata nativa, foi nomeado em homenagem a Santo Dias da Silva, operário morto pela polícia durante as mobilizações dos metalúrgicos no final dos anos 1970 (saiba mais AQUI; se puder, confira também este VÍDEO, que tem cerca de 40 min.).

“Ele nos inspira”, diz Neide, que, na adolescência, chegou a conhecer o dirigente operário em reuniões da igreja local. Ela mesma, porém, nunca teve grande participação em lutas reivindicativas: tratava de viver sua vida, trabalhando em uma oficina de costura e treinando corrida, pois acreditava que o esporte poderia ajudá-la a ter melhores condições.

Depois da morte do filho mais velho –ela tem ainda um casal de filhos, ambos já vivendo independentes, e uma netinha–, começou a dar dicas de treinamento para mulheres que a viam correr no parque. Aos poucos, o treinamento ganhou regularidade, e o grupo passou a conquistar também as crianças.

“É uma forma de tirá-los das mãos do tráfico”, diz a corredora, afirmando que muitas crianças da comunidade eram usadas como “aviãozinho”, para entregas de drogas. Hoje há professores contratados pela ONG Vida Corrida (graças a patrocinadores empresariais e individuais), e a entidade se orgulha dos números que exibe: atende cerca de 350 pessoas, quase 90% delas mulheres e meninas de 4 a 80 anos. (Confira AQUI UM VÍDEO que fiz com Neide)

2parque

Uma parcela delas estava na manhã de hoje no parque quando lá cheguei. Era um grupo colorido e risonho, em que também havia espaço para provocações –uma dizia que a outra precisava emagrecer, outra que precisava engordar, chamavam para a corrida, tudo na brincadeira. Fizeram alguns minutos de alongamento e partimos, Neide, a mulherada e eu, de “bendito fruto”.

Começamos experimentando as trilhas do parque, absolutamente maravilhosas, todas em chão batido, cobertas de folhas e protegidas do sol por árvores em penca. A trilha principal é plana e curtinha, pouco mais de 800 metros, e os corredores completam o quilômetro da volta rodando um pouco pelo asfalto nos arredores do parque.

Há ainda trilhas menores, escadarias rústicas encravadas no chão, sobe-e-desce sem parar. “É perfeito para o treino de base”, diz Neide, referindo-se ao período em que o corredor prepara o corpo para a dureza do ano fazendo trabalhos de força, que costuma incluir séries de subidas em terreno irregular.

Além dos caminhos, o parque tem um pequeno lago com carpas, quadras esportivas e área de brinquedos para a criançada; não chega a ser grande (são 134 mil metros quadrados), mas oferece diversão bem variada.

Para mim, porém, a maior diversão era ouvir a conversa de minhas colegas de trabalho, as mulheres do projeto Vida Corrida. Havia de um tudo ao meu redor, de jovem senhoras a veteraníssimas, de moças em plena forma física a outras que lutavam para encontrar seu melhor momento, de rápidas puxadoras de ritmo a atletas não tão velozes.

Pedi a elas que não forçassem a corrida, porque precisava respeitar meu joelho, arrebentado pelos anos de esforço e pelas irregularidades e exigências deste meu projeto amalucado.

Consegui acompanhar o trote do grupo, mas era obrigado a caminhar nas descidas –e posso lhe garantir que a topografia do Capão Redondo é beeem irregular. E podia ouvir suas histórias.

De cada uma, uma emoção. Para essas mulheres, a corrida parece ser não apenas um bálsamo curativo, mas principalmente uma ponte para uma nova vida.

Um jovem mãe passava os dias sem fazer nada, atirada na comunidade; pelo que acreditava ser o bem do filho, passou a levá-los às sessões de esporte do parque. No vai-da-valsa, acaba aceitando convite para ser também uma corredora: hoje é ativa entre as colegas, participa de provas, sorri mais, é mais feliz.

Outra grita para mim, enquanto corremos pelas subidas do Capão Redondo: “Perdi dez quilos com isso. Não largo mais”. Mulheres com câncer, carecas por causa do tratamento, foram chamadas às caminhadas e corridas, protegidas pelo grupo, em vez de ficarem em dolorido e solitário processo de autocomiseração em uma cama. “Botou lenço na cabeça, uso touca, mas veio”, lembra Neide, sem apresentar a colega.

É melhor mesmo que algumas histórias fiquem sem nome. As mulheres com quem corri hoje e quase todas as integrantes do projeto têm trajetórias de dor e superação que nem sempre gostam de relembrar: vale mais a pena sorrir e brincar agora, correndo pela alegria.

Correm também pela autonomia, como diz uma das mais veteranas do grupo, dona Maria do Livramento, mineira que chegou a São Paulo ainda menina para trabalhar como doméstica. Analfabeta até os 17 anos, é hoje professora, ostenta diploma universitário e pós-graduação; mesmo na chamada terceira idade, voltou à escola para fazer graduação em história, por enquanto interrompida.

As dores da vida, porém, a levaram a uma depressão profunda. “Eu já não tinha autoestima”, diz. De alguma forma, o grupo e o esporte fizeram com que isso mudasse, até aprender a dirigir ela conseguiu. “Descobri que eu posso”, diz ela, rodando leve e elegante ao meu lado, atuando como cicerone, mostrando os pontos de destaque de Capão Redondo. (Confira AQUI a história de Maria do Livramento por ela mesma).

5mulheres va

Um deles é o campo de futebol onde foi se reuniam os integrantes do grupo de hip-hop Racionais MC`s (não encontrei um site bom o suficiente para ser citado, mas AQUI está a página dita oficial do grupo em uma rede social). “Mano Brown morava aqui na frente”, diz uma delas, apontando para uma casa no quarteirão fronteiro ao campinho. E todas se arrumam em bela pose para a posteridade tendo ao fundo o icônico gramado.

De um dos pontos de nossa caminhada (e também corrida, sem que o joelho gritasse muito), dá para ver grande parte do bairro. O Capão Redondo surgiu em 1827, e o nome foi dado pelos primeiros ocupantes da área porque havia na região um bosque de araucárias em formato … adivinha! … arredondado.

8 vila do fundao

Hoje tem pouco menos de 14 km2 e uma população de cerca de 241 mil habitantes, em que a redá média está em torno de R$ 700. Não por acaso, é conhecido pela exclusão social e pela violência. Já foi pior, segundo Neide: “Desde a morte de meu filho, si houve dois casos de assassinato aqui nas redondezas”.

Não é o que dizem as estatísticas. No ano passado, segundo os registros da 47ª Delegacia de Polícia, houve 57 vítimas de homicídio doloso (com intenção de matar); neste ano, o número será um pouco menor, se a média até outubro se mantiver até o final do mês. Mesmo assim, o bairro é assíduo frequentador da crônica policial –no inverno do ano passado, por exemplo, 11 pessoas foram mortas em menos de uma semana (leia AQUI).

Mas Capão Redondo também é visto em outros círculos. No mundo cultural, por exemplo, tem sido cenário de vários filmes  –hoje passamos por uma beco, na “favelinha”, em que foram rodadas cenas de “Bróder”.

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E, claro, a poesia de Mano Brown mostra como vive a população dali; ao longo de nossa caminhada, várias vezes Neide citou trechos de músicas dos Racionais. Quando cruzamos o ribeirão de águas sujas e fedorentas que separa o lado mais rico da região da comunidade mais pobre, ela parodiou: “Do valão para lá, tudo é diferente”, lembrando a canção “Da Ponte Prá Cá” (confira AQUI).

Há, por certo, muita pobreza e violência. Mas também há muita mobilização. Subindo a rua principal da Vila do Fundão, passamos por uma loja de roupas inspiradas pelo trabalho de Brown e por diversos projetos sociais, como o do grupo Negredo e do Periferia Ativa (clique nos nomes para conhecer mais sobre o trabalho deles).

Voltando para completar nosso trajeto, concluindo a jornada no parque Santo Dias, Neide apontou um cruzamento e informou: “Itapecerica fica longo ali, dá uns cinco quilômetros”.

9 neide e marley

Ainda corremos um pouquinho nas trilhas frescas e sombreadas do parque, Neide encontrou Marley, parceiro de algumas caminhadas (foto). Depois, me despedi dessa grande líder comunitária, corredora de duzentos quilates –roda uma hora todos os dias, das 5h às 6h da manhã–, e peguei uma carona até a fronteira de São Paulo com Itapecerica da Serra.

A cidade é fruto da guerra de extermínio contra os índios –nasceu a partir de fortificações ali erguidas para proteger os jesuítas de São Paulo de ataques dos brasileiros ancestrais (saiba mais AQUI). Hoje, porém, a entrada é puro trânsito, como você pode ver pela foto que registra o limite dos municípios.

10 limte

Captei a imagem e voltei sobre meus passos, correndo um quilômetro inteirinho São Paulo adentro. Agora vou para a fisioterapia, que amanhã tem mais. Vamo que vamo.

DIA 15 – PROJETO 460 KM POR SÃO PAULO
Clique no mapa para conhecer mais detalhes sobre o percurso do dia (hoje foram dois percursos)

Mapa dia 15 16dez2013

Mapa dia 15, segunda etapa, 16dez2013

 QUILOMETRAGEM DO DIA: 15 km
TEMPO DO DIA: 3h08min17
QUILOMETRAGEM ACUMULADA: 193 km
TEMPO ACUMULADO: 41h33min32
QUILOMETRAGEM A CUMPRIR: 267 km
DESTAQUES DO PERCURSO: Capão Redondo, parque Santo Dias, Vila do Fundão

 

 

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Corredor vai dar pipoca aos macacos no domingão

Por Rodolfo Lucena
15/12/13 15:11

selo_rodolfo_correndoCalma, calma, prezado leitor ecologicamente correta, cara leitora defensora dos direitos dos símios: eu apenas tomei emprestada a frase de Raul Seixas (que, por sua vez, creio eu, fez em “Ouro de Tolo” uma adaptação de uma letra de Lou Reed), jamais iria servir chocolate ou milho doce ou pedaços de bala ou banana a leões, iguanas, micos ou macacos-pregos.

Continuo escrevendo e já vou pensando que algum especialista vai começar a me xingar por causa das referências a Raulzito e Reed na mesma frase. Azar, faz parte do risco profissional. O fato é que as duas músicas a que me refiro (a gringa é “A Perfect Day”, Um dia perfeito) tratam de fazer pouco da classe média, suas aspirações e sua formas de diversão.

Pois que aqui fique registrado para toda a posteridade: alguns programas família são muito divertidos e gostosos, por mais deboche que sofram. Ir ao zoológico é um deles. Eu adoro. Nas cidades onde chego, sempre que posso, dou um jeito de fazer uma visitinha aos animais, estejam eles em aquários, jaulas ou ambientes mais assemelhados a seus habitats.

Por causa das tramas da vida, deixei o Zoológico de São Paulo esquecido. Muitas vezes programei a visita, mas alguma coisa deu errado. Em um dos meus treinos de maratona, saí cá da zona oeste, peguei a Anchieta, rodei a avenida do Cursino e cheguei todo suado à porta do zoo, depois de uns 20 e poucos quilômetros, apenas para ser proibido de entrar: não permitem que se corra lá dentro.

Fiquei frustrado, é claro, mas há que concordar que é uma política saudável: não ia dar certo ter um bando de doidos correndo, andando de bicicleta ou de patins no meio da massa de frequentadores pedestres.

Mas não guardei mágoa: desde que comecei a planejar esse projeto de rodar 460 km por SP pensei em incluir o Zoo no trajeto. Teria de ser num domingão, para ter a imagem real da muvuca, e precisava ser quando já tivesse alguma folga de quilometragem, pois sabia que a caminhada por lá seria relativamente curta.

Calhou então de ser hoje, quando Eleonora e eu completamos 34 anos de casados. Nada mais justo do que tê-la como convidada especial nesse dia, ainda que o programa possa ser um tanto careta.

Que nada! Foi coisa de namoradinhos, apesar dos perrengues.

Para começar, há fila para entrar. Chegamos uns dez minutos antes de as bilheterias abrirem e pegamos 120 metros de fila, que se escoaram rapidinho, nem deu para ficar irritado. E havia muita diversão na espera, vendo a criançada em volta ostentando chapéus e gorros com motivos animalescos…

Acho que já se passaram pelo menos 25 anos desde a última vez em que visitei o zoológico de São Paulo. Isso é suficiente para deixar claro que está tudo diferente. O bom é que mudou para melhor: há mais banheiros, mais estandes de comida, sorvetes e bebida, além de muito mais lixeiras.

Achei tudo bastante limpo e bem cuidado, ainda mais para um “senhor” de quase 60 anos –o zoo foi criado em 1957 e inaugurado no ano seguinte (saiba mais no SITE OFICIAL, que tem muita informação e pode ser consultado por um bom tempo).

A bicharada que, afinal de contas, me a razão da visita, é de fato muito bacana. À hora em que passeamos por lá, alguns bichos ainda estavam dormindo (ou sei lá eu…), mas tivemos a oportunidade de vermos o tigre branco dar passeios por seu recanto, com a elegância e a leveza que lhe são próprias. Primeiro, caminho em silêncio; mais tarde, soltou o verbo, rugindo em tom surdo que varria o ambiente (desculpe, mas as fotos não ficaram boas…).

Os macacos são umas gracinhas, nas suas várias modalidades (acho que, na última vez em que fui, havia também gorilas e orangotangos, que não vi hoje). Também as aves, desde o pelicano-rosa até os vários tipos de águia e condores, passando pelo magérrimo e elegantérrimo flamingo (havia dois deles com espírito beligerante, esgrimindo os bicos como se fossem espadas…).

Mas as cores das araras cativam mais, enquanto a hiperatividade das iraras chega a dar medo. Hipopótamos, girafas, rinocerontes e elefantes são por certo campeões de público.

O site me diz que há mais de 3.000 animais no zoo, que é um dos gigantes da América Latina. Das casas que conheço, o de Berlim é mais bacana, impressionante porque no centro da metrópole, do outro lado da rua da estação central de trem. Já o de Portland, nos EUA, talvez seja mais espetaculoso, mas é pior de visitar por causa de suas ladeiras e caminhos mais estreitos.

Aqui, dá para caminhar em paz, mesmo em um domingo de sol. Não serve como palco para exercícios –mesmo fazendo várias voltas para rever alguns bichos ou achar animais que não tínhamos visto, mal e mal conseguimos fechar 6 km na jornada. Quem desejar correr que use as calçadas externas: não vai precisar pagar os R$ 18 de entrada nem disputar espaço com a massa.

Depois da jornada, dá para gastar mais uns trocados na lojinha do zoo e levar alguma lembrança. Preferi, porém, trazer como recuerdo apenas nossos ingressos, muito bacanas, ilustrados com a brasileiríssima onça.

Amanhã tem mais. Vamo que vamo.

DIA 13 – PROJETO 460 KM POR SÃO PAULO
Clique no mapa para conhecer mais detalhes sobre o percurso do dia

mapa dia 14 15dez2013

QUILOMETRAGEM DO DIA:6 km
TEMPO DO DIA: 2h25min53
QUILOMETRAGEM ACUMULADA:178 km
TEMPO ACUMULADO: 38h25min15
QUILOMETRAGEM A CUMPRIR: 282 km
DESTAQUES DO PERCURSO: Zoológico de São Paulo

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Corpo celeste explode em Parelheiros e deixa trilhas para corredor

Por Rodolfo Lucena
14/12/13 21:04

 

 

selo_rodolfo_correndoMorte e destruição foram as consequências do terrível impacto registrado há milhões de anos no que hoje é a zona sul de São Paulo: um corpo celeste despencou sobre a Terra, aniquilando plantas e animais, a vida toda que existia num raio de 15 quilômetros. A distâncias menores do centro do choque, os viventes simplesmente foram transformados em vapor, desapareceram para sempre dos registros da história, não ficaram nem para semente.

 

A explosão, porém, deixou seus sinais. É a Cratera da Colônia, uma estrutura com 3,6 km de diâmetro, cerca de 14 km de circunferência, localizada na região de Parelheiros nos confins da zona sul paulistana –exatos 50 km da minha casa, na região oeste da cidade, conforme marcação do odômetro do carro que hoje lá me levou.

 

Pois foi na Cratera de Colônia que realizei o percurso de hoje de minha jornada de 460 km em homenagem à cidade de São Paulo. Tive anfitriões de luxo –lutadores de associações comunitárias e cientistas que investigam o local–, que aos poucos irei apresentando a você,

 

Deixe-me falar mais da tal cratera. Não é um buracão facilmente reconhecível, como muitos de nós, leigos, imaginamos quando ouvimos a palavra. Não basta olhar e pronto: “Hum, aqui caiu um meteoro” … “Não, creio que foi um cometa” … “Com certeza, um asteroide provocou essa mossa na superfície terrestre…”.

 

Nada disso. A Cratera de Colônia foi descoberta por acaso, em 1961, a partir da observação de imagens por satélite que indicavam que a depressão na região sul da cidade poderia ter sido provocada pelo impacto de um corpo celeste. Até bem recentemente, a questão vem gerando polêmica na comunidade científica, e o assunto chegou a ser tratado como “astroproblema” –este texto AQUI traz um bom resumo da história, em linguagem que até eu entendi.

 

Apesar das controvérsias, havia a certeza de que ali era uma região importante para estudos geológicos, além de ser área significativa para o ambiente: há rios que passam pela área, nascentes nas encostas dos morros (as bordas da cratera) e remanescentes de mata Atlântida. Resumo da ópera: a região foi tombada pelo patrimônio histórico e geográfico, há um parque municipal na área e o território está em área de proteção ambiental.

 

Para os cientistas, porém, só neste ano que foi completamente aceita a teoria de choque de corpo extraterrestre. A pesquisa que confirmou a tese foi capitaneada pelo professor doutor da USP Victor Velázquez Fernandez, 49, paraguaio apaixonado pelo idioma guarani, pelo estudo da geodiversidade e do patrimônio geológico e pela estrutura vista na região de Parelheiros.

A confirmação veio depois do exame de micropedacinhos de mineral extraído das profundezas da terra. Com o uso de um microscópio petrográfico, especial para observar rochas e assemelhados, foi possível ver que as partículas examinadas tinham marcas especiais, provocadas por ondas de choque produzidas pelo impacto de um corpo celeste no solo terrestre (mais rima!!!). E a comunidade científica admitiu que, de fato, a Cratera de Colônia era uma cratera.

“Desde a primeira vez que visitei a cratera, em 2001, fiquei deslumbrado pelo seu aspecto circular. No entanto somente em 2005 tive a oportunidade de elaborar e coordenar um projeto de pesquisa, objetivando encontrar as evidências geológicas que possam caracterizá-la como uma estrutura de impacto. A pesquisa culminou com a publicação de um artigo na revista “International Journal of Geosciences”, neste ano, confirmando a sua origem por impacto e merecendo a sua inserção na lista de banco de dados sobre estrutura de impacto do mundo.” (O artigo, em inglês, pode ser lido AQUI)

mapa areas de impacto na america do sul

 

Só em maio Colônia entrou nessa tal lista, que é seletíssima: há apenas 184 crateras desse tipo no mundo (no mapa acima, as da América do Sul), sendo seis delas no Brasil (confira AQUI). Colônia é ainda quase única em outro aspecto: além dela, apenas um outro buracão provocado pelo choque de corpo extraterrestre é habitado (saiba mais AQUI).

 

No caso de Colônia, há cerca de 50 mil moradores numa comunidade implantada há pouco mais de 20 anos e que ainda hoje luta para conseguir sua legalização e o direito da posse da moradia.

 

A população da região é representada pela Associação Comunitária Habitacional Vargem Grande, que fica numa rua que atende pelo romântico nome de Dama da Noite. Lá fui recebido na manhã de hoje pela presidente da entidade, Marta Jesus Pereira, que iria comandar uma expedição de jipeiros por trilhas de Parelheiros. Ela me deixou com o tesoureiro da Achave, Sebastião Mendes Gonçalves, 67, que me levou por uma breve passeio pela comunidade enquanto contava a história das lutas da comunidade.

3 sebastiao

 

A família vivia em Minas, onde trabalhavam na roça como meeiros. No final dos anos 1950, porém, os donos da terra decidiram mudar de negócio, passaram a criar gado, e os agricultores ficaram sem ter onde plantar. Assim foi que, em 1958, Gonçalves acompanhou pai, mãe e irmãos na busca de melhor sorte em São Paulo.

 

Com quase 20 anos, conseguiu terminar de uma talagada só primário e ginásio, em um curso noturno. Depois, virou técnico em eletrônica. Apesar de ter uma profissão, não conseguiu desabrochar do ponto de vista financeiro: vivia com a mulher “de favor”, em casa dos sogros, na região do Grajaú.

 

No final dos anos 1980, ouviu falar de uma mobilização da União das Favelas do Grajaú e tratou de ir conferir: “Eu só queria uma casa minha para morar”, diz ele. O assunto era uma fazenda num território próximo –que veio a ser o terreno hoje ocupado pela comunidade de Vargem Grande.

 

“Em dezembro de 1988, eu e uma comissão de 300 moradores cortamos o arame da cerca para visitar a fazenda”, diz ele, mostrando o ponto exato onde pela primeira vez entrou na região da Cratera de Colônia.

1 cratera perimetromelhor

 

Não se tratou, portanto, de uma invasão desordenada. Foi numa compra coletiva: um grupo de famílias se associou e cotizou para comprar a gleba, que eles mesmos lotearam e arruaram. Basta olhar uma foto ampla da comunidade para perceber que lá não há os meandros, vielas e becos tão comumente vistos em concentrações desse tipo ( a foto acima foi tirada da borda noroeste da crateda; os morros ao fundo são as bordas do outro lado, e o meião é a cratera propriamente dita; o rio Ribeirão vermelho corta o fundo do vale).

 

O que não significa dizer que as coisas andam às mil maravilhas. O processo de compra, em si, foi uma confusão –o fazendeiro vendedor chegou a dobrar o preço originalmente acordado, e os cotistas conseguiram fazer frente ao novo pedido.

 

Há esgoto a céu aberto, apenas 30% das ruas são calçadas, mais de 800 famílias estão em área que será desocupada (e os moradores transferidos para prédios que deverão ser construídos em local próximo) e faltam áreas de lazer para a criançada –além do futebol, a brincadeira predileta da turma é empinar papagaio, que a gente chama de pandorga lá no Rio Grande do Sul.

cratera valeta

 

Apesar das constantes mobilizações da comunidade buscando atenção do poder público, algumas conquistas são resultado direto do trabalho dos moradores. Os prédios da escola municipal, do posto da Polícia Militar e de um terminal de ônibus, por exemplo,  foram erguidos sob o comando da Achave. A entidade chegou a ter ainda rádio e TV comunitárias, ambas com o nome de Cratera.

 

Mesmo com  todos esses problemas, o bairro parece bastante tranquilo do ponto de vista da segurança. “Isso já foi um faroeste, tinha bandido para tudo que é lado, gente andando armada”, lembra Sebastião.

 

A virada se deu em meados dos anos 1990, depois de embates envolvendo a associação comunitária –um dirigente da entidade foi assassinado, supostamente por capangas de uma antiga líder dos moradores. O certo é que o fato acabou provocando revolta da população e ação das forças de segurança.

 

“Eles vieram com uns 300 policiais, ocuparam tudo. Saíram daqui dois ônibus de bandidos presos, uma caminhão de armas apreendidas, revólveres, espingardas, facões”, diz Sebastião. “Foi uma faxina”, resume.

victor 2 melhor

 

Aparentemente deu certo, a julgar pelo que me conta o professor Victor, dizendo que nunca teve nenhum problema de segurança em nenhuma de suas visitas de pesquisador (CLIQUE NA FOTO para assistir a um pequeno vídeo em que ele explica sua descoberta). Nem hoje, quando ainda trouxe para a caminhada seu parceiro de estudos José Maria Azevedo Sobrinho, geólogo que também assina o estudo que identifica a cratera de colônia como resultado de impacto de corpo celeste, e outros convidados.

 

Estou usando essa denominação genérica porque, segundo me diz Victor, não há como saber exatamente o que foi que atingiu nosso prezado planetinha, se asteroide ou cometa, se bola de ferro pesada e compacta ou se corpo de gelo gigante. Também não se sabe quando o choque aconteceu. Vi documento oficial falando em “há cerca de 36 milhões de anos”, mas os cientistas que caminham comigo desconfiam de tais certezas. Preferem dizer que o choque deve ter ocorrido “entre 30 milhões e 5 milhões de anos atrás”.

 

O resultado do impacto é essa estrutura anelar, com diâmetros de 3.640 metros, altura máxima de 125 metros e sedimentos que chegam a 430 m (ou seja, o fundo da cratera foi aterrado ao longo dos milhões de anos e, supostamente, está a cerca de 400 m abaixo do chão onde pisamos). A circunferência é de aproximadamente 14 km.

 

Para saber mais sobre ela são necessárias mais pesquisas e investimento, para buscar material no fundo da terra e investigá-lo. Os custos de tal trabalho são estimados em US$ 1,5 milhão, diz Victor, e há negociações em andamento com uma agência japonesa financiadora de pesquisas.

 

“Colônia é um monumento geológico e deve ser preservado como tal. É detentora do maior registro de sedimentos quaternários, com potencialidade científica de documentar a história das mudanças climáticas da América do Sul, em no mínimo, desde os 3 milhões de anos até o presente”, afirma o professor.

 

A comunidade está localizada em uma pequena parcela da cratera, na borda norte (genericamente falando). Perto dali está o presídio de Parelheiros, que fica protegido pela mata; e no entorno, meus amigos, há trilhas de dar água na boca.

cratera trilha 1

 

Depois de ótimas aulas de geologia (fiquei fã, estou seriamente pensando em frequentar um curso no ano que vem), enveredamos por caminhos mais ótimos ainda, no meio de muito verde, arbustos, árvores e terreno cruzado até por um rio que já serviu de piscinão para a criançada local.

 

A trilha é fechada, mas bem definida, pelo menos no início. É que o trajeto que usamos serve de passagem para moradores de Vargem Grande que trabalham em uma fábrica de autopeças que fica do outro lado do morro. Chegamos até os limites da propriedade e começamos a voltar por outro caminho.

 

Aí é que a coisa ficou preta (ou verde e barrenta, melhor dizendo). As trilhas não são marcadas e, às vezes, os sinais de passagem humana desaparecem. Mesmo sendo guiados por um experiente caminhante da região, Severino Carlos de Souza, 54, vice-presidente da Achave, nosso grupo várias vezes teve de voltar sobre os próprios passos.

ruinas no meio do mato

 

Cruzamos por ruínas de construções centenárias, provavelmente sítios de imigrantes alemães da região; vimos caminhos também centenários, pois pela área passavam os tropeiros em direção ao mar (e vice-versa, por suposto); e passamos emoções tendo de cruzar riozinhos aos pulos, escorregando em barral, cada um dando o braço ao outro em ajuda fraterna para que todos saíssemos inteiros da mata.

 

O som ao redor era de insetos, pássaros, uma algaravia sem fim. Havia também gritos ao longe, berros que chegavam a assustar. “São os presos”, explica Severino, contando que a cadeia ali é de segurança máxima e que algumas regiões do morro não podem ser ultrapassadas.

 

Enquanto vamos vagarosamente cobrindo quilômetros, os dirigentes comunitários falam dos projetos em andamento na gleba. Ruas estão sendo calçados, há três parques em projeto, e associação sonha em criar na região um plano de turismo sustentável, aproveitando trilhas como as que visitamos. “Geoturismo”, fala o professor Velázquez.

 

Também turismo histórico, pois Colônia, o bairro que empresta o nome para a cratera, é um dos mais antigos. Local ocupado desde o século 19 por imigrantes alemães (hoje há também uma boa presença de imigrantes e descendentes de imigrantes japoneses), tem o mais antigo monumento da imigração alemã na cidade: o cemitério do bairro. Preservada, a parte antiga tem 150 túmulos. Um site sobre a necrópole (confira AQUI) data o conjunto de 1840, mas a capelinha ali construída tem como data registrada 1829.

 

Além do respeito aos mortos, os moradores da região procuram apreciar o convívio dos vivos: me meados do ano, há uma grande festa alemã em Colônia, que já está sendo preparada desde já.

 

A área da Cratera também se prepara para crescer e aparecer. Quem viver verá. Vamo que vamo.

 

DIA 13 – PROJETO 460 KM POR SÃO PAULO
A caminhada de hoje foi divida em três momentos:  passeio pela comunidade de Vargem Grande e as trilhas da cratera de Colônia, visita ao cemitério alemão e caminhada por um pequeno trecho da borda sul da cratera; os mapas abaixo resumem o percurso e são acesso a mais informações sobre o trajeto; os dados no final são do acumulado do dia (um total de 15 km)

 

Mapa parte 1 Dia 13 14dez2013

 

Mapa parte2 Dia 13 14dez2013

Mapa parte 3 Dia 13 14dez2013

QUILOMETRAGEM DO DIA:15 km
TEMPO DO DIA: 6h04
QUILOMETRAGEM ACUMULADA:172 km
TEMPO ACUMULADO: 35h59min22
QUILOMETRAGEM A CUMPRIR: 288 km
DESTAQUES DO PERCURSO: Cratera de Colônia, comunidade de Vargem Grande, cemitério alemão de Colônia

 

 

 

PS.: Na caminhada de hoje, como nas demais, produzi vários vídeos superbacanas, mas o tempo para carregá-los na rede é grande demais e não posso esperar para colocar o texto no ar. Ao longo dos próximos dias, continuarei atualizando os posts, acrescentando links para os vídeos. Por isso, aceite meu convite para dar uma olhadinha em texto mais antigos, pois é bem possível que encontre novidades. Obrigado, grande abraço. Volte sempre.

 

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