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Rodolfo Lucena

+ corrida

Perfil Rodolfo Lucena é ultramaratonista e colunista do caderno "Equilíbrio" da Folha

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No caminho dos poetas, médico dá dicas para tentar evitar lesões

Por Rodolfo Lucena
19/12/13 15:33

selo_rodolfo_correndo“Por favor, ajude ele urgente. Proteja meu filho (…) o resgate desta situação”. Grafada em letra redonda de mãe ou professora, a cartinha escrita em uma folha pautada de caderno escolar é a imagem do desespero. Estava jogada, entre grãos de cereais, bagos de uvas vermelhas e outras frutas diversas ao pé de uma árvore na praça Poeta Carlos Drummond de Andrade. Era um “despacho”, uma oferenda a santos que, segundo a crença de alguns, podem resolver problemas de nós outros.

“Nunca tinha visto isso aqui no Morumbi”, espanta-se meu convidado/anfitrião da caminhada de hoje no meu percurso de 460 km por São Paulo em homenagem ao próximo aniversário. Morador do território na região sul da cidade em geral caracterizado como “bairro de classe alta”, o ortopedista Henrique Cabrita, 44, também é corredor dedicado e treina regularmente pelas terríveis subidas e não menos desagradáveis descidas morumbísticas.

Talvez não tenha percebido porque, como muitos corredores rápidos, roda concentrado, preocupado com o desempenho no treino e não com a paisagem que rola ao redor. Hoje, porém, caminhamos –meu joelho fraturado não vai permitir que eu volte a correr por algum tempo— e vimos de um tudo pelo bairro repleto de prédios luxuosos e mansões (além de 18 favelas, segundo me conta ele).

1 praca carlos drummond

Havia três “trabalhos” só na pequena praça dedicada ao poeta mineiro, pertinho do local onde começamos nossa jornada. O início, mesmo, foi em outra praça, esta dedicada a um rico fazendeiro do tempo do império que, por seus bons serviços a dom Pedro 2º, ganhou título nobiliárquico, virando visconde de Cunha Bueno. Aliás, para ficar tudo em salões reais, a rua de fronte à praça homenageia outro visconde, o de Nacar, este um comerciante do Paraná. Não por acaso, fica tudo na porção do Morumbi chamada Real Parque.

Voltemos, porém, à praça Drummond, que está precisando de mais cuidados. É pequena, simples e cheia de árvores frondosas; num marco pétreo está registrado um trecho de uma das poesias do homenageado: “Quando nasci, um anjo torto, desses que vivem na sombra, disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida” (leia mais AQUI).

Caminhando, seguimos o conselho. Como meu convidado/anfitrião é médico, puxei assunto sobre o recente anúncio de uma multinacional farmacêutico afirmando que iria deixar de pagar médicos para que receitassem seus produtos. Cabrita me conta que há sucedâneos desse tipo de prática, mesmo entre cirurgiões –alguns recebem para empregar determinados modelos de prótese. “É público e notório que tem médicos que fazem isso”, diz ele, defendendo maior fiscalização do exercício profissional.

Assunto muito sério, que a gente vai pontuando com conversas mais leves. Traquejado por quatro anos de residência, vários em pronto-socorro, e mais de 5.000 cirurgias realizadas –cerca de 3.000 delas de quadril–, o médico diz que o seriado televisivo “ER” (de emergency room, sala de emergência) era muito fiel à vida real no cenário americano. Até na apresentação das relações humanas, os imbróglios entre médicos, enfermeiras e pacientes, o programa teria base concreta.

Sem falar nas piadas e gozações das diversas especialidades médicas, entre si e contra os outros. “Qual a diferença entre um ortopedista e um obstetra?”, pergunta Cabrita. “O ortopedista tem de ser forte e burro; o obstetra não precisa ser forte…” E outra: “Como esconder uma nota de US$ 100 de um anestesista?”. A resposta demole: “Basta guardá-la em algum livro de estudos…”

Tudo isso é intriga, afirma ele. É fato que, não poucas vezes, o trabalho do ortopedista é brutal, especialmente para fazer as tais “reduções”, que são o processo de forçar a volta do osso ao seu devido lugar, depois de uma luxação. Mas, modernamente, várias especialidades da área, como a cirurgia de mão, exigem ação superprecisa e minuciosa.

Conversa vai, conversa vem, circulamos por um quarteirão plano no Morumbi, coisa rara no bairro, e aproveitamos para testar meu joelho com uma corridinha. Aguento um quilômetro, mas o trote deixa suas marcas de dor. É melhor seguir a passo, pois está confirmada a fratura por estresse, e um dos caminhos para a cura é tirar a carga extra e deixar que o corpo vá se refazendo (isso demora, meu!).

2 cabrita rio va

Assim, Cabrita vai me mostrando o caminho de suas corridas. O percurso passa pela beira de um córrego, que tem uma surpreendente rua lateral de chão batido. “Quando chove forte, a água vem até o topo”, afirma Cabrita,dizendo que, nas inundações, o riachinho vira rio caudaloso e chega mesmo a invadir o estádio Morumbi, do São Paulo.

É o time de seu coração, por orientação paterna. Nascido em Porto Alegre, Cabrita é filho de português torcedor do Benfica. A família morou na terrinha por um tempo e, quando voltou ao Brasil, o pai orientou para que apoiassem sempre times de vermelho. Assim, quando morou em Brasília, torcia pelo Flamengo; no seu Rio Grande de nascença, é colorado, e por aqui defende o tricolor paulista.

Seu esporte predileto na juventude, porém, não foi o futebol, e sim o rúgbi, que praticou durante os dez anos de sua formação médica (seis de curso universitário, quatro de residência). Chegou foi da seleção brasileira como juvenil e adulto; nos campos de batalha, consertando ombros de amigos e rivais, é que decidiu se especializar em ortopedia.

Aquela modalidade esportiva, porém, com seus choques, encontrões, quedas  e puxões, é incompatível com o trabalho na sala de cirurgia. “Quebrei por três vezes o quinto dedo (mindinho) direito durante os jogos, e não dá para arriscar não poder operar sendo ortopedista”, diz Cabrita, que hoje se dedica às maratonas. Já fez meia dúzia (o relato de algumas delas você encontra neste blog, basta colocar a palavra Cabrita na caixa de diálogo de pesquisa).

2 carros abandonados

No passeio pelo bairro, vai lembrando momentos dos treinos e da vida de médico: “Vi quando estavam construindo essa casa”, diz; aponta para um edifício belíssimo, todo coberto por vegetação: “Ali mora uma paciente minha, foi assaltada depois de levar os filhos para a escola, teve arrastão no prédio todo…”. Nota ainda que várias casas de luxo vão se deteriorando, abandonadas (aliás, carros também são largados nas ruas do bairro de classe alta).

Conversa vai, conversa vem, chegamos ao km 7 de nossa caminhada, com o qual completo 230 quilômetros percorridos em 18 dias de jornada (hoje é 19 de janeiro, tirei um diazinho de folga há uma semana).

1 metade

“Agora é só morro abaixo”, penso eu enquanto poso para uma foto em frente ao estádio Cícero Pompeu de Toledo, o nome oficial do Morumbi.

Como um dos consultórios em que Cabrita atua é ali mesmo no estádio, temos livre acesso. Pela primeira vez, adentro o campo são-paulino e ainda tenho a oportunidade de correr na pista de atletismo que circunda o gramado –o joelho direito chia um pouquinho, mas eu não iria perder essa oportunidade, ainda que sob o olhar de um médico.

2 morumbi

O estádio do São Paulo de fato é um portento, exemplo de construção dos anos 1970, longe do conceito de “arena”, hoje tão difundido. Além do mais, tem lugar garantido na história do futebol, pois foi palco da primeira conquista de um título do Brasileiro pelo Grêmio. Eu acompanhei a partida decisiva da casa de minha avó, em Porto Alegre, de ouvido colado no rádio, sentado na cadeira de balanço que meu avô costumava ocupar. Ele não viveu para ver o gol de Baltazar, que se redimiu em São Paulo no pênalti perdido no jogo de ida, na capital gaúcha. Se você também não conhece a história, clique AQUI para saber mais (mesmo se conhece, é bom reviver aqueles momentos).

Já satisfeitos com a caminhada, partimos para o caminho final. Tínhamos iniciado perto da praça Poeta Carlos Drummond de Andrade, nada melhor do que completar o circuito em território de outro, o grande Vinicius de Moraes. Fronteira ao palácio dos bandeirantes, sede do governo de São Paulo, e vizinha do hospital Albert Einstein, um dos mais incensados da cidade, a praça é, como o bairro, cheia de altos e baixos. Sobe-se e se desce, há raros momentos de paz para o corredor (ou caminhante). Está muito limpa e bem cuidada, pelo que pudemos ver. E, tal como o território de Drummond, também recebe “despachos” de quem busca ajuda etérea.

1 vinicius

Com o que chegou a hora de o médico partir para sua lide diária. De carro, o levamos de volta ao ponto de início da caminhada. Lá, aproveitei para inteirar 12 km e fechar quilometragem redonda.

Também aproveitei para pedir ao ortopedista maratonista algumas dicas para que a gente consiga ficar mais tempo sem se machucar. Eis a lista que ele propõe:

1) correr de acordo com o que o seu corpo falar, não exagerar na dose;

2) progredir de acordo como seu próprio ritmo;

3) descansar pelo menos uma vez por semana;

4) fazer trabalho de musculação ou exercícios funcionais como base para a prática de corrida;

5) correr em terrenos adequados e com tênis próprios para o seu tipo de pé e pisada;

6) tomar cuiddado com novidades, tanto na parte nutricional quanto de equipamentos e de técnicas de corrida ou planilhas;

7) sempre que tiver dúvidas, recorrer a profissionais da área, como treinadores, técnicos, médicos ligados a área esportiva ou fisioterapeutas;

8) não deixar lesões ficarem crônicas, ou seja durarem mais do que duas semanas; doeu um pouco: corra um pouco; doeu muito: pare de correr e procure ajuda médica;

9) procurar ter uma rotina semanal e mantê-la, apesar de trabalho ou férias;

10) manter sempre o bom humor,  corrida é para promover saúde.

São mandamentos simples, diz ele, de acordo com o bom senso. Mas todos nós sabemos que o tal bom senso nem sempre é a característica mais marcante dos corredores, maratonistas e ultras.

Vamo que vamo!

DIA 18 PROJETO 460 KM POR SÃO PAULO
Clique no mapa para conhecer mais detalhes sobre o percurso do dia

mapa dia 18 19dez2013

QUILOMETRAGEM DO DIA: 12 km
TEMPO DO DIA: 2h10min04
QUILOMETRAGEM ACUMULADA: 235 km
TEMPO ACUMULADO: 50h16min50
QUILOMETRAGEM A CUMPRIR: 225 km
DESTAQUES DO PERCURSO: bairro Morumbi, estádio do São Paulo, praças Poeta Carlos Drummond de Andrade e Vinícius de Moraes

 

 

 

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Em Guarapiranga, corredor medita sobre joelho detonado

Por Rodolfo Lucena
18/12/13 13:21

selo_rodolfo_correndoPrestes a cruzar a metade de meu percurso de 460 km por São Paulo em homenagem ao próximo aniversário da cidade, percebo que é chegada a hora de lhe dizer, em confidência, ao pé do ouvido, segredando: agora tenho a certeza de que não sei se vou conseguir completar esse desafio.

A dúvida, então disfarçada de medo, se instalou na minha mente e tomou conta de meu corpo há 15 dias, quando eu mal começava a execução deste plano. No terceiro dia de corrida, percorri 20 km pela avenida Sapopemba, a mais longa de São Paulo, cheia de sobe-e-desce, com calçadas irregulares e repletas de obstáculos.

Na tarde daquele dia, terça-feira, 3 de dezembro, o joelho direito chiou. Gritou. Havia uma dor agora logo abaixo da patela, mais para o lado de dentro. Comecei imediatamente a fazer fisioterapia, passando por diversos tipos de tratamento para reduzir inchaço, minorar a dor e, a médio prazo, acreditava eu, acabar com o problema.

A dor seguiu por mais dois dias, mais três, mais quatro, o médico que me atende, ele também corredor, pediu exame de ressonância magnética. Ele tinha lá sua hipótese de diagnóstico, mas o joelho não estava se comportando como esperado, era melhor colocar ossos e ligamentos sob exame da máquina.

Do ponto de vista clínico, o corpo estava respondendo. Continuava mancando, mas, na corrida, estava um pouco mais equilibrado. Não chegava a ter mais aquela dor agudo dos primeiros dias, ainda que bambeasse a perna de vez em quando.

Tirei um dia de descanso, mas segui correndo. Por recomendação do médico e dos fisioterapeutas –além de orientado por meu próprio corpo–, mais andei que corri. De qualquer forma, não saí do asfalto, das trilhas, das vielas e bibocas de São Paulo.

1 onibus

Hoje, por exemplo, comecei minha jornada no que já considerei confins da zona sul, mas que agora sei que não passa da metade do caminho. O carro me deixou depois bem depois do número 5.000 da avenida Atlântica, que já foi Robert Kennedy (a mudança ocorreu em 2010, leia AQUI, mas até agora o Google não a aceitou, a julgar pelo mapa da corrida de hoje…).

Por ali fica o início (ou fim, sei lá), de um trecho da ciclovia que acompanha parte da represa Guarapiranga. Atrás de mim, um condomínio de classe média alta; ao meu lado, um parque que apenas adivinhava, não lhe via a entrada –trata-se do parque Linear Castelo, que não cheguei a visitar, mas vi seus limites com a Atlântica.

1 clube parque do castelo

Seguindo por ali, fui captando aos poucos o espírito da avenida. De um lado, alguns quarteirões reúnem um bom n úmero de motéis; do outro lado, o da represa, há de vez em quando casas de show, bares e restaurantes. Aqui e acolá, um parque ou área destina ao público.

Passei, por exemplo, pelo parque Praia do Sol, cujo nome me pareceu um pouco retumbante para as dimensões da faixa de areia. Mas, garante uma placa por ali, o local é perigoso.

1 praia do sol

Vindo em direção ao centro, sempre costeando a represa, às vezes perco a tal ciclovia –há áreas em que o próprio calçamento está em construção. Já se fica longe da avenidona; passo por vielas e ruas mais simples, onde há casas boas e outras não tão bem arrumadas. Algumas são claramente cortiços; outras, acesso para pequenas favelas surgidas em fundo de quintal ou ao lado de campos. É como se tivéssemos, em algumas centenas de metros, um modelo da balbúrdia, confusão e disparidade que caracteriza a (des)organização urbana da Pauliceia.

Enfim volto à pista de caminhada. Passo pelo campo do clube de rúgbi Spac, fundado em 1888 (saiba mais AQUI) e chego ao meu objetivo: o parque municipal Barragem de Guarapiranga. É a primeira vez na vida que fico assim pertinho das águas dessa represa e olha que já estou em São Paulo há 32 anos.

O parque é pequeno, mas muito agradável e bonitinho. Na entrada, o monumento “Heróis da Travessia do Atlântico” homenageei três italianos que voaram de seu país até nossas plagas, pousando um hidroavião nas águas da Guarapiranga, em 1927. Também é lembrado um brasileiro que, meses depois, repetiu a façanha (saiba mais AQUI).

O maior destaque do parque é uma pista de asfalto de pouco mais de 800 m, planinha, no alto de um talude que margeia a represa; nas suas franjas, já quase com os pés na água, alguns pescadores tentam a sorte; na pista, caminhantes se exercitam tendo a bela paisagem como inspiração.

1 parque

Para mim, é momento de reflexão. Do lado do asfalto, na grama baixinha, há um trilho forjado por milhares, milhões de passadas de corredores. Dá vontade de seguir seus passos. Lembro, porém, das palavras não muito claras, mas aterrorizantes, do laudo da ressonância magnética.

“Destaca-se fratura subcondral por insuficiência no platô tibial medial associado a edema ósseo medular regional.” E mais ainda: “Condropatia  patelar  caracterizada  por  alteração  de sinal condral nas facetas  medial  e  lateral,  observando  pequena  fissura superficial no início  da  faceta  medial  associado  a  pequeno  edema  ósseo  medular subcondral no vértice. Condropatia troclear caracterizada por alteração de sinal no sulco com edema ósseo subcondral”. Para completar: “edema no coxim gorduroso suprapatelar relacionado a fricção do aparelho extensor.”

(Observação entre parênteses: perceba, caro leitora, prezada leitora, o grau de confiança e intimidade em que vos tenho, abrindo não só meu coração como também as miudezas da musculatura e os intestinos da ossatura que formam o conjunto conhecido como Rodolfo Reckziegel de Lucena.)

Não vou entrar em explicações médicas. Conversei sobre o assunto com conhecidos, ouvindo previsões tétricas. “Pacientes meus precisaram usar muletas” e  “o tratamento envolve repouso de quatro a seis meses” foram algumas das informações que recebi.

São verdadeiras, por certo. Uma terrível combinação de velhice e uso continuado de articulações, agredida de forma aguda por movimentos intempestivos e bruscos dos ossos, provocados pela irregularidade do terreno pisoteado deu nisso: está fraturado o osso que funciona como um travesseiro onde se assenta o fêmur (médicos com certeza terão definição mais precisa, mas espero que dê para entender).

Dá para curar, e muita gente sai dessa sem sequelas. Mas é preciso tirar a carga. Coisa que não pretendo fazer até terminar esse projeto, pelo menos não enquanto ainda houver chance de seguir no trote ou mesmo caminhando. Ao mesmo tempo, tenho que ser responsável com meu corpo: se os riscos forem demasiados –e quem vai dizer será meu médico–, talvez seja mesmo necessário cortar até as caminhadas.

A palavra final é minha, por certo –afinal, não há pacientes que desistem de cirurgias fortemente recomendadas; ou outros que decidem passar na faca apesar de poucas chances de bom resultado? Qual vai ser minha decisão, para onde devo andar, o que me joelho quer e o que desejo eu, essas foram questões que me atribularam enquanto passeava no parque.

Cheguei ao fim do caminho: uma cerca proibia a passagem, mas minha sombra não aceitou a limitação física ali imposta. Será que eu não aceitaria?

1 sombra

Já cansei de conversar com outros corredores e comigo mesmo sobre essa questão de limites. Ninguém rompe limites, do ponto de vista físico ou fisiológico. O que a gente consegue fazer é expandir esses limites, ampliá-los; ou aguentar o risco quando as barreiras são forçadas (o resultado nem sempre é muito bom, há tendões partidos, músculos dilacerados e riscos ainda maiores).

Sei lá. O certo é que decidi seguir caminho depois de cruzar todas as trilhas do parque da Barragem. Atravessei a avenida Atlântica e segui meu nariz, como gosto de fazer quando treino pelas ruas sem destino.

Descobri que nem sempre o nariz é bom conselheiro: fiquei dando idas e voltas em um rol de ruas sem saída, até que percebi o problema: a terra terminava logo ali adiante, estava quase na beira do rio Pinheiros, o que eu precisava era descobrir uma ponte…

1 nuvens

Acabei voltando, sem querer querendo, até a avenidona. Cruzei a ponte do Socorro e ainda rodei pouco mais de um quilômetro, novamente enveredando por trilhas interrompidas, até que resolvi dar por encerrado os trabalhos de hoje. Amanhã tem mais, digo para meu joelho, que me responde: “Tomara!”

Vamo que vamo!

DIA 17 PROJETO 460 KM POR SÃO PAULO
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mapa dia 17 18dez2013

QUILOMETRAGEM DO DIA: 15 km
TEMPO DO DIA: 2h49min28
QUILOMETRAGEM ACUMULADA: 223 km
TEMPO ACUMULADO: 48h06min46
QUILOMETRAGEM A CUMPRIR: 252 km
DESTAQUES DO PERCURSO: avenida Atlântica, parques municipais às bordas da represa Guarapiranga, clube de rúgbi

 

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Com Elvis da Paulista, corredor percorre trilhos da memória

Por Rodolfo Lucena
17/12/13 13:57

selo_rodolfo_correndo“Cheguei a morar num túmulo, um buraco embaixo da terra. Não tinha ar direito, a gente ficava apertado, tinha de se abaixar todo para entrar”, conta o artista de rua conhecido como Elvis da Paulista ao relembrar seus primeiros tempos em São Paulo.

Na semana que vem, completam-se três anos da mais recente imigração de Márcio Henrique Aguiar, 40, que se apresenta de quinta a domingo em uma movimentada esquina da avenida Paulista. Não só imita seu ídolo como também inventa trejeitos e cria bagunças musicais, casando roque com sertanejo, funk com rockabilly…

Paulistano de nascimento, o meu anfitrião da caminhada de hoje no projeto 460 km por SP foi muito cedo para Minas com a família. Maltratado pelos pais, acabou buscando caminho próprio quando chegou à adolescência. Enveredou pelo caminho artístico, fazia shows aqui e acolá, por várias cidades do interior mineiro –orgulha-se de ter atuado em palco de hotel de fama internacional.

Apesar disso, vez ou outra juntava o pouco que tinha e se vinha para São Paulo, queria vencer na vida. “Eu esperava que fossem me agradar, que abrissem espaço para mim”, diz, relembrando as ilusões passadas. Não encontrava tapete vermelho à espera, não dava certo, voltava desacorçoado, mas resistia.

“Um dia me deu uma coisa, não aguentava mais, peguei uma sacolinha, meu violão, vazei”, conta sobre decisão final.

1 se

Sua primeira parada na Pauliceia, como acontece com muitos desgarrados, foi na praça da Sé, território livre de moradores de rua, drogados, vendedores de um tudo, cantores e pregadores. “Fiquei olhando a turma, notei quem eram os do crack, vi que tinha uns só da bebida. Fiquei com eles, cantava, tocava violão. Fizemos um grupinho, a gente se protegia.”

Mesmo com o temporal que desabou sobre a cidade naqueles dias de 2010, quem vive na rua não podia se descuidar da segurança. “Tem gente que é muito má, gosta de furar, mata mesmo: se te vê dormindo sozinho joga uma tijolada. Querem roubar: você já não tem nada, quando acorda está com menos nada ainda.”

Foram três noites numa esquina atrás do fórum João Mendes, nas redondezas da Sé. Dormia sob uma marquise e, de dia, assuntava, ia descobrindo outras opções de moradia, quem sabe até encontrasse um trabalho.

Descobriu um albergue no Brás, passou a viver por lá. E conseguiu o posto de vendedor de picolé: seu ponto era na Paulista, a meio quilômetro do Masp (Museu de Arte de São Paulo), onde começamos nossa jornada de hoje.

“Ficava do lado de lá da Brigadeiro, onde tinha menos polícia”, lembra, revelando que fazer amigos é uma das regras básicas da sobrevivência de quem está na rua. Acabou conhecendo os policiais que faziam a ronda na área, era avisado quando surgia alguma blitz fiscalizadora; a um gerente de loja, oferecia picolés em troca de poder vender os doces na frente do comércio.

E cobrava mais caro: “Na média, tava R$ 0,50, tinha quem cobrasse R$ 0,80. Eu vendia por R$ 1, por causa do risco, ali era mais perigoso”. Se perdesse o carrinho para bandidos ou para fiscais, o risco era ainda maior: “O dono era ex-Rota”, diz, referindo-se ao temido batalhão da PM de São Paulo.

A produção era nos fundos de um cortiço em plena Brigadeiro Luiz Antonio –aquela da subida que atemoriza os corredores que participam da São Silvestre. Dos companheiros de trabalho –e até do patrão–, ainda ouvia conselhos. Um deles calou fundo: ele não deveria continuar morando de favor, em albergue. Se quisesse melhorar de vida, precisava achar um lugar seu, nem que fosse bem pequeno, que lhe obrigasse a ter um compromisso, fazer algum dinheiro.

Foi assim que saiu da proteção dos religiosos que mantinham o albergue e  o tinham adotado como cantor e violeiro em saraus entre os moradores de rua. Partiu e foi morar em um pardieiro na Liberdade –ele mesmo nota a ironia…

1 catacumba

Não é exatamente um túmulo, como descreve com poesia o Elvis da Paulista. Mas, sem dúvida, lembra uma catacumba. O cortiço fica em uma ruela sem saída da Liberdade, a poucos metros de território dominado por usuários de crack –“Não fotografa os caras”, me diz ele, contando que a convivência é instável, e que o drogado está sempre desconfiado, pode agredir ou roubar a qualquer hora.

A única característica “normal” do prédio é a frente, com porta de tamanho regular e um janelão no primeiro andar. Por dentro, é um labirinto de corredores estreitos e escadas improvisadas, tanque para lavar roupa, banheiros mirrados, quartos enfileirados, tudo muito apertada, baixo, fedido –quando entramos lá, na manhã de hoje, estava terminando a lavação do chão, mas, mesmo assim, havia um cheiro ancestral de gente sofrida e comida velha dominando o ar.

Ficou pior quando adentramos nos antigos aposentos de Márcio: descemos uma escada, invadimos um porão, dobramos por corredores; cada vez ficava mais quente, não circulava brisa, a penumbra parecia eterna apesar de uma luzinha ainda acesa. Uma porta de menos de meio metro de largura, talvez 1,60 de altura, protegia a privacidade do novo morador dos aposentos, que custam R$ 200 por mês.

Com um abraço em um conhecido dos velhos tempos, Elvis se despede; rumamos para outros caminhos de sua história. Ele está vestido a caráter, é cumprimentado por muitos enquanto caminhamos, rodando o centrão até a 25 de Março.

1 loja badulaques

É na rua predileta dos camelôs que ele procura o material usado para sua caracterização e para a montagem do cenário que usa na avenida Paulista. É freguês de uma loja de badulaques e enfeites que fica nos altos da ladeira Porto Geral. Há óculos descomunais, colares, placas, miçangas e outras traquitanas que compõem sua fantasia.

Que nasceu na mais paulista das corridas. Em maio de 2010, quando o inverno se aproximava, o então futuro Elvis da Paulista tratou de vender seu carrinho de picolés. E partiu para tentar a vida com sua especialidade, a arte: passou a cantar “do lado de cá” da Paulista, na região mais afluente e movimentada, entre a Brigadeiro e a Consolação.

Conseguiu uma esquina em frente a um bar; ali passou a imitar Raul Seixas e Dinho Ouro Preto, fazia o que o público lhe pedisse (saiba mais sobre a história dele NESTA REPORTAGEM que fiz para revista “sãopaulo”). Acabou conseguindo uma protetora, que trata como mãe, que lhe deu guarida.

Na São Silvestre daquele ano, a mais diferente e terrível deste século, com trajeto modificado para terminar no Ibirapuera e disputada sob forte chuva, participou vestido de Elvis. No ano que entrava, 2012, acabou se transformando no seu ídolo.

Cresceu com a arte na rua. “Quando eu cheguei aqui, com 37 anos, tinha apenas a oitava série. Fiz curso noturno, completei o segundo grau, entrei na faculdade…”

É bem verdade que o curso de artes cênicas está com a matrícula trancada. Mas, na conversa, Márcio-Elvis exibe uma sabedoria adquirida muito além dos bancos escolares. Por sua própria curiosidade e por influência de amigos e protetores que já teve na vida, é fã de carteirinha de Sun Tzu, o autor de “A Arte da Guerra”, que funciona para o artista como guia estratégico.

Também traz na bagagem cultural leituras de Rosseau e Voltaire, Maquiavel, Krishnamurti e Stanislawsky, dos autores gregos e de livros bíblicos –durante nossa caminhada, fez várias citações, mostrando como a leitura lhe tinha servido para enfrentar os problemas da vida.

1 viaduto santa ifigênia

O maior aprendizado, porém, vem da rua: reconhece o espírito de seu público, sabe quando dá para conseguir gorjetas maiores, se guarda quando o movimento está curto e, em qualquer circunstância, dá a público tudo o que tem.

“Estou cheio de roxo no corpo”, diz, enumerando lesões que conseguiu por causa de sua performance: tendinites, luxações, estiramentos, dores diversas e até costelas fraturadas depois de um pulo num ônibus –o salto é um dos pontos de destaque na sua apresentação na Paulista.

Talvez o que valha mais ainda é a simpatia com que ele trata a todos –ao nossos 15 km caminhados hoje foram ainda mais demorados por causa dos tantos beijos e abraços que ele trocou ao longo do caminho, atendendo da mesma forma o povo da rua e senhoras superalinhadas.

1 elvis paulista

No fim, resta a certeza de que é verdade verdadeira a frase mais gritada para nós durante as mais de três horas em que percorremos a Paulista e o centrão paulistano: “Elvis não morreu!”. Ao que o bem-humorado Márcio, do alto de seu 1,70 m, responde baixinho: “Apenas encolheu…”

É a vida que segue. Vamo que vamo!  (Confira AQUI UM VÍDEO que fiz com o artista)

DIA 16 PROJETO 460 KM POR SÃO PAULO
Clique no mapa para conhecer mais detalhes sobre o percurso do dia

mapa dia 16 17dez2013

QUILOMETRAGEM DO DIA: 15 km
TEMPO DO DIA: 3h43min46
QUILOMETRAGEM ACUMULADA: 208 km
TEMPO ACUMULADO: 45h17min18
QUILOMETRAGEM A CUMPRIR: 252 km
DESTAQUES DO PERCURSO: avenida Paulista, rua 25 de Março, Liberdade

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Em Capão Redondo, mulherada corre por alegria e autonomia

Por Rodolfo Lucena
16/12/13 16:25

selo_rodolfo_correndoO marido foi assassinado pela polícia, o filho morto por assaltante. “Eu tinha tudo para sair matando e atirando”, diz Neide. Mas não: corredora apaixonada, diz que montou seu projeto de apoio a crianças da periferia seguindo o desejo do filho perdido para uma bala disparada por um garoto de 12 anos.

Baiana de 53 anos, Marineide dos Santos Silva é a idealizadora do projeto Vida Corrida, implantado no parque Santo Dias, no coração do Capão Redondo, zona sul de São Paulo. Ele foi a minha anfitriã de hoje, liderando uma corrida e caminhada pela região, mostrando as dificuldades enfrentadas pelos moradores da comunidade –que já foi tida como uma das mais violentas da cidade—e também as conquistas.

Por onde passamos, aliás, tudo é fruto da luta de entidades de favelas e de conjuntos habitacionais, a começar pelo próprio parque. Há cerca de 30 anos, a região teve uma explosão de crescimento. Conjuntos de habitações populares –como o predinho da Cohab onde Neide tem um pequeno apartamento— foram construídos, aos poucos ocupando o que antes era uma grande fazenda.

“Não ia sobrar verde em lugar nenhum”, conta a líder corredora, lembrando a mobilização da comunidade em defesa de uma área de lazer. A reivindicação local acabou sendo atendida, e o parque Santo Dias acaba de completar 21 anos. O local, cheio de trilhas e com áreas de mata nativa, foi nomeado em homenagem a Santo Dias da Silva, operário morto pela polícia durante as mobilizações dos metalúrgicos no final dos anos 1970 (saiba mais AQUI; se puder, confira também este VÍDEO, que tem cerca de 40 min.).

“Ele nos inspira”, diz Neide, que, na adolescência, chegou a conhecer o dirigente operário em reuniões da igreja local. Ela mesma, porém, nunca teve grande participação em lutas reivindicativas: tratava de viver sua vida, trabalhando em uma oficina de costura e treinando corrida, pois acreditava que o esporte poderia ajudá-la a ter melhores condições.

Depois da morte do filho mais velho –ela tem ainda um casal de filhos, ambos já vivendo independentes, e uma netinha–, começou a dar dicas de treinamento para mulheres que a viam correr no parque. Aos poucos, o treinamento ganhou regularidade, e o grupo passou a conquistar também as crianças.

“É uma forma de tirá-los das mãos do tráfico”, diz a corredora, afirmando que muitas crianças da comunidade eram usadas como “aviãozinho”, para entregas de drogas. Hoje há professores contratados pela ONG Vida Corrida (graças a patrocinadores empresariais e individuais), e a entidade se orgulha dos números que exibe: atende cerca de 350 pessoas, quase 90% delas mulheres e meninas de 4 a 80 anos. (Confira AQUI UM VÍDEO que fiz com Neide)

2parque

Uma parcela delas estava na manhã de hoje no parque quando lá cheguei. Era um grupo colorido e risonho, em que também havia espaço para provocações –uma dizia que a outra precisava emagrecer, outra que precisava engordar, chamavam para a corrida, tudo na brincadeira. Fizeram alguns minutos de alongamento e partimos, Neide, a mulherada e eu, de “bendito fruto”.

Começamos experimentando as trilhas do parque, absolutamente maravilhosas, todas em chão batido, cobertas de folhas e protegidas do sol por árvores em penca. A trilha principal é plana e curtinha, pouco mais de 800 metros, e os corredores completam o quilômetro da volta rodando um pouco pelo asfalto nos arredores do parque.

Há ainda trilhas menores, escadarias rústicas encravadas no chão, sobe-e-desce sem parar. “É perfeito para o treino de base”, diz Neide, referindo-se ao período em que o corredor prepara o corpo para a dureza do ano fazendo trabalhos de força, que costuma incluir séries de subidas em terreno irregular.

Além dos caminhos, o parque tem um pequeno lago com carpas, quadras esportivas e área de brinquedos para a criançada; não chega a ser grande (são 134 mil metros quadrados), mas oferece diversão bem variada.

Para mim, porém, a maior diversão era ouvir a conversa de minhas colegas de trabalho, as mulheres do projeto Vida Corrida. Havia de um tudo ao meu redor, de jovem senhoras a veteraníssimas, de moças em plena forma física a outras que lutavam para encontrar seu melhor momento, de rápidas puxadoras de ritmo a atletas não tão velozes.

Pedi a elas que não forçassem a corrida, porque precisava respeitar meu joelho, arrebentado pelos anos de esforço e pelas irregularidades e exigências deste meu projeto amalucado.

Consegui acompanhar o trote do grupo, mas era obrigado a caminhar nas descidas –e posso lhe garantir que a topografia do Capão Redondo é beeem irregular. E podia ouvir suas histórias.

De cada uma, uma emoção. Para essas mulheres, a corrida parece ser não apenas um bálsamo curativo, mas principalmente uma ponte para uma nova vida.

Um jovem mãe passava os dias sem fazer nada, atirada na comunidade; pelo que acreditava ser o bem do filho, passou a levá-los às sessões de esporte do parque. No vai-da-valsa, acaba aceitando convite para ser também uma corredora: hoje é ativa entre as colegas, participa de provas, sorri mais, é mais feliz.

Outra grita para mim, enquanto corremos pelas subidas do Capão Redondo: “Perdi dez quilos com isso. Não largo mais”. Mulheres com câncer, carecas por causa do tratamento, foram chamadas às caminhadas e corridas, protegidas pelo grupo, em vez de ficarem em dolorido e solitário processo de autocomiseração em uma cama. “Botou lenço na cabeça, uso touca, mas veio”, lembra Neide, sem apresentar a colega.

É melhor mesmo que algumas histórias fiquem sem nome. As mulheres com quem corri hoje e quase todas as integrantes do projeto têm trajetórias de dor e superação que nem sempre gostam de relembrar: vale mais a pena sorrir e brincar agora, correndo pela alegria.

Correm também pela autonomia, como diz uma das mais veteranas do grupo, dona Maria do Livramento, mineira que chegou a São Paulo ainda menina para trabalhar como doméstica. Analfabeta até os 17 anos, é hoje professora, ostenta diploma universitário e pós-graduação; mesmo na chamada terceira idade, voltou à escola para fazer graduação em história, por enquanto interrompida.

As dores da vida, porém, a levaram a uma depressão profunda. “Eu já não tinha autoestima”, diz. De alguma forma, o grupo e o esporte fizeram com que isso mudasse, até aprender a dirigir ela conseguiu. “Descobri que eu posso”, diz ela, rodando leve e elegante ao meu lado, atuando como cicerone, mostrando os pontos de destaque de Capão Redondo. (Confira AQUI a história de Maria do Livramento por ela mesma).

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Um deles é o campo de futebol onde foi se reuniam os integrantes do grupo de hip-hop Racionais MC`s (não encontrei um site bom o suficiente para ser citado, mas AQUI está a página dita oficial do grupo em uma rede social). “Mano Brown morava aqui na frente”, diz uma delas, apontando para uma casa no quarteirão fronteiro ao campinho. E todas se arrumam em bela pose para a posteridade tendo ao fundo o icônico gramado.

De um dos pontos de nossa caminhada (e também corrida, sem que o joelho gritasse muito), dá para ver grande parte do bairro. O Capão Redondo surgiu em 1827, e o nome foi dado pelos primeiros ocupantes da área porque havia na região um bosque de araucárias em formato … adivinha! … arredondado.

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Hoje tem pouco menos de 14 km2 e uma população de cerca de 241 mil habitantes, em que a redá média está em torno de R$ 700. Não por acaso, é conhecido pela exclusão social e pela violência. Já foi pior, segundo Neide: “Desde a morte de meu filho, si houve dois casos de assassinato aqui nas redondezas”.

Não é o que dizem as estatísticas. No ano passado, segundo os registros da 47ª Delegacia de Polícia, houve 57 vítimas de homicídio doloso (com intenção de matar); neste ano, o número será um pouco menor, se a média até outubro se mantiver até o final do mês. Mesmo assim, o bairro é assíduo frequentador da crônica policial –no inverno do ano passado, por exemplo, 11 pessoas foram mortas em menos de uma semana (leia AQUI).

Mas Capão Redondo também é visto em outros círculos. No mundo cultural, por exemplo, tem sido cenário de vários filmes  –hoje passamos por uma beco, na “favelinha”, em que foram rodadas cenas de “Bróder”.

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E, claro, a poesia de Mano Brown mostra como vive a população dali; ao longo de nossa caminhada, várias vezes Neide citou trechos de músicas dos Racionais. Quando cruzamos o ribeirão de águas sujas e fedorentas que separa o lado mais rico da região da comunidade mais pobre, ela parodiou: “Do valão para lá, tudo é diferente”, lembrando a canção “Da Ponte Prá Cá” (confira AQUI).

Há, por certo, muita pobreza e violência. Mas também há muita mobilização. Subindo a rua principal da Vila do Fundão, passamos por uma loja de roupas inspiradas pelo trabalho de Brown e por diversos projetos sociais, como o do grupo Negredo e do Periferia Ativa (clique nos nomes para conhecer mais sobre o trabalho deles).

Voltando para completar nosso trajeto, concluindo a jornada no parque Santo Dias, Neide apontou um cruzamento e informou: “Itapecerica fica longo ali, dá uns cinco quilômetros”.

9 neide e marley

Ainda corremos um pouquinho nas trilhas frescas e sombreadas do parque, Neide encontrou Marley, parceiro de algumas caminhadas (foto). Depois, me despedi dessa grande líder comunitária, corredora de duzentos quilates –roda uma hora todos os dias, das 5h às 6h da manhã–, e peguei uma carona até a fronteira de São Paulo com Itapecerica da Serra.

A cidade é fruto da guerra de extermínio contra os índios –nasceu a partir de fortificações ali erguidas para proteger os jesuítas de São Paulo de ataques dos brasileiros ancestrais (saiba mais AQUI). Hoje, porém, a entrada é puro trânsito, como você pode ver pela foto que registra o limite dos municípios.

10 limte

Captei a imagem e voltei sobre meus passos, correndo um quilômetro inteirinho São Paulo adentro. Agora vou para a fisioterapia, que amanhã tem mais. Vamo que vamo.

DIA 15 PROJETO 460 KM POR SÃO PAULO
Clique no mapa para conhecer mais detalhes sobre o percurso do dia (hoje foram dois percursos)

Mapa dia 15 16dez2013

Mapa dia 15, segunda etapa, 16dez2013

 QUILOMETRAGEM DO DIA: 15 km
TEMPO DO DIA: 3h08min17
QUILOMETRAGEM ACUMULADA: 193 km
TEMPO ACUMULADO: 41h33min32
QUILOMETRAGEM A CUMPRIR: 267 km
DESTAQUES DO PERCURSO: Capão Redondo, parque Santo Dias, Vila do Fundão

 

 

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Corredor vai dar pipoca aos macacos no domingão

Por Rodolfo Lucena
15/12/13 15:11

selo_rodolfo_correndoCalma, calma, prezado leitor ecologicamente correta, cara leitora defensora dos direitos dos símios: eu apenas tomei emprestada a frase de Raul Seixas (que, por sua vez, creio eu, fez em “Ouro de Tolo” uma adaptação de uma letra de Lou Reed), jamais iria servir chocolate ou milho doce ou pedaços de bala ou banana a leões, iguanas, micos ou macacos-pregos.

Continuo escrevendo e já vou pensando que algum especialista vai começar a me xingar por causa das referências a Raulzito e Reed na mesma frase. Azar, faz parte do risco profissional. O fato é que as duas músicas a que me refiro (a gringa é “A Perfect Day”, Um dia perfeito) tratam de fazer pouco da classe média, suas aspirações e sua formas de diversão.

Pois que aqui fique registrado para toda a posteridade: alguns programas família são muito divertidos e gostosos, por mais deboche que sofram. Ir ao zoológico é um deles. Eu adoro. Nas cidades onde chego, sempre que posso, dou um jeito de fazer uma visitinha aos animais, estejam eles em aquários, jaulas ou ambientes mais assemelhados a seus habitats.

Por causa das tramas da vida, deixei o Zoológico de São Paulo esquecido. Muitas vezes programei a visita, mas alguma coisa deu errado. Em um dos meus treinos de maratona, saí cá da zona oeste, peguei a Anchieta, rodei a avenida do Cursino e cheguei todo suado à porta do zoo, depois de uns 20 e poucos quilômetros, apenas para ser proibido de entrar: não permitem que se corra lá dentro.

Fiquei frustrado, é claro, mas há que concordar que é uma política saudável: não ia dar certo ter um bando de doidos correndo, andando de bicicleta ou de patins no meio da massa de frequentadores pedestres.

Mas não guardei mágoa: desde que comecei a planejar esse projeto de rodar 460 km por SP pensei em incluir o Zoo no trajeto. Teria de ser num domingão, para ter a imagem real da muvuca, e precisava ser quando já tivesse alguma folga de quilometragem, pois sabia que a caminhada por lá seria relativamente curta.

Calhou então de ser hoje, quando Eleonora e eu completamos 34 anos de casados. Nada mais justo do que tê-la como convidada especial nesse dia, ainda que o programa possa ser um tanto careta.

Que nada! Foi coisa de namoradinhos, apesar dos perrengues.

Para começar, há fila para entrar. Chegamos uns dez minutos antes de as bilheterias abrirem e pegamos 120 metros de fila, que se escoaram rapidinho, nem deu para ficar irritado. E havia muita diversão na espera, vendo a criançada em volta ostentando chapéus e gorros com motivos animalescos…

Acho que já se passaram pelo menos 25 anos desde a última vez em que visitei o zoológico de São Paulo. Isso é suficiente para deixar claro que está tudo diferente. O bom é que mudou para melhor: há mais banheiros, mais estandes de comida, sorvetes e bebida, além de muito mais lixeiras.

Achei tudo bastante limpo e bem cuidado, ainda mais para um “senhor” de quase 60 anos –o zoo foi criado em 1957 e inaugurado no ano seguinte (saiba mais no SITE OFICIAL, que tem muita informação e pode ser consultado por um bom tempo).

A bicharada que, afinal de contas, me a razão da visita, é de fato muito bacana. À hora em que passeamos por lá, alguns bichos ainda estavam dormindo (ou sei lá eu…), mas tivemos a oportunidade de vermos o tigre branco dar passeios por seu recanto, com a elegância e a leveza que lhe são próprias. Primeiro, caminho em silêncio; mais tarde, soltou o verbo, rugindo em tom surdo que varria o ambiente (desculpe, mas as fotos não ficaram boas…).

Os macacos são umas gracinhas, nas suas várias modalidades (acho que, na última vez em que fui, havia também gorilas e orangotangos, que não vi hoje). Também as aves, desde o pelicano-rosa até os vários tipos de águia e condores, passando pelo magérrimo e elegantérrimo flamingo (havia dois deles com espírito beligerante, esgrimindo os bicos como se fossem espadas…).

Mas as cores das araras cativam mais, enquanto a hiperatividade das iraras chega a dar medo. Hipopótamos, girafas, rinocerontes e elefantes são por certo campeões de público.

O site me diz que há mais de 3.000 animais no zoo, que é um dos gigantes da América Latina. Das casas que conheço, o de Berlim é mais bacana, impressionante porque no centro da metrópole, do outro lado da rua da estação central de trem. Já o de Portland, nos EUA, talvez seja mais espetaculoso, mas é pior de visitar por causa de suas ladeiras e caminhos mais estreitos.

Aqui, dá para caminhar em paz, mesmo em um domingo de sol. Não serve como palco para exercícios –mesmo fazendo várias voltas para rever alguns bichos ou achar animais que não tínhamos visto, mal e mal conseguimos fechar 6 km na jornada. Quem desejar correr que use as calçadas externas: não vai precisar pagar os R$ 18 de entrada nem disputar espaço com a massa.

Depois da jornada, dá para gastar mais uns trocados na lojinha do zoo e levar alguma lembrança. Preferi, porém, trazer como recuerdo apenas nossos ingressos, muito bacanas, ilustrados com a brasileiríssima onça.

Amanhã tem mais. Vamo que vamo.

DIA 13 PROJETO 460 KM POR SÃO PAULO
Clique no mapa para conhecer mais detalhes sobre o percurso do dia

mapa dia 14 15dez2013

QUILOMETRAGEM DO DIA:6 km
TEMPO DO DIA: 2h25min53
QUILOMETRAGEM ACUMULADA:178 km
TEMPO ACUMULADO: 38h25min15
QUILOMETRAGEM A CUMPRIR: 282 km
DESTAQUES DO PERCURSO: Zoológico de São Paulo

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Corpo celeste explode em Parelheiros e deixa trilhas para corredor

Por Rodolfo Lucena
14/12/13 21:04

 

 

selo_rodolfo_correndoMorte e destruição foram as consequências do terrível impacto registrado há milhões de anos no que hoje é a zona sul de São Paulo: um corpo celeste despencou sobre a Terra, aniquilando plantas e animais, a vida toda que existia num raio de 15 quilômetros. A distâncias menores do centro do choque, os viventes simplesmente foram transformados em vapor, desapareceram para sempre dos registros da história, não ficaram nem para semente.

 

A explosão, porém, deixou seus sinais. É a Cratera da Colônia, uma estrutura com 3,6 km de diâmetro, cerca de 14 km de circunferência, localizada na região de Parelheiros nos confins da zona sul paulistana –exatos 50 km da minha casa, na região oeste da cidade, conforme marcação do odômetro do carro que hoje lá me levou.

 

Pois foi na Cratera de Colônia que realizei o percurso de hoje de minha jornada de 460 km em homenagem à cidade de São Paulo. Tive anfitriões de luxo –lutadores de associações comunitárias e cientistas que investigam o local–, que aos poucos irei apresentando a você,

 

Deixe-me falar mais da tal cratera. Não é um buracão facilmente reconhecível, como muitos de nós, leigos, imaginamos quando ouvimos a palavra. Não basta olhar e pronto: “Hum, aqui caiu um meteoro” … “Não, creio que foi um cometa” … “Com certeza, um asteroide provocou essa mossa na superfície terrestre…”.

 

Nada disso. A Cratera de Colônia foi descoberta por acaso, em 1961, a partir da observação de imagens por satélite que indicavam que a depressão na região sul da cidade poderia ter sido provocada pelo impacto de um corpo celeste. Até bem recentemente, a questão vem gerando polêmica na comunidade científica, e o assunto chegou a ser tratado como “astroproblema” –este texto AQUI traz um bom resumo da história, em linguagem que até eu entendi.

 

Apesar das controvérsias, havia a certeza de que ali era uma região importante para estudos geológicos, além de ser área significativa para o ambiente: há rios que passam pela área, nascentes nas encostas dos morros (as bordas da cratera) e remanescentes de mata Atlântida. Resumo da ópera: a região foi tombada pelo patrimônio histórico e geográfico, há um parque municipal na área e o território está em área de proteção ambiental.

 

Para os cientistas, porém, só neste ano que foi completamente aceita a teoria de choque de corpo extraterrestre. A pesquisa que confirmou a tese foi capitaneada pelo professor doutor da USP Victor Velázquez Fernandez, 49, paraguaio apaixonado pelo idioma guarani, pelo estudo da geodiversidade e do patrimônio geológico e pela estrutura vista na região de Parelheiros.

A confirmação veio depois do exame de micropedacinhos de mineral extraído das profundezas da terra. Com o uso de um microscópio petrográfico, especial para observar rochas e assemelhados, foi possível ver que as partículas examinadas tinham marcas especiais, provocadas por ondas de choque produzidas pelo impacto de um corpo celeste no solo terrestre (mais rima!!!). E a comunidade científica admitiu que, de fato, a Cratera de Colônia era uma cratera.

“Desde a primeira vez que visitei a cratera, em 2001, fiquei deslumbrado pelo seu aspecto circular. No entanto somente em 2005 tive a oportunidade de elaborar e coordenar um projeto de pesquisa, objetivando encontrar as evidências geológicas que possam caracterizá-la como uma estrutura de impacto. A pesquisa culminou com a publicação de um artigo na revista “International Journal of Geosciences”, neste ano, confirmando a sua origem por impacto e merecendo a sua inserção na lista de banco de dados sobre estrutura de impacto do mundo.” (O artigo, em inglês, pode ser lido AQUI)

mapa areas de impacto na america do sul

 

Só em maio Colônia entrou nessa tal lista, que é seletíssima: há apenas 184 crateras desse tipo no mundo (no mapa acima, as da América do Sul), sendo seis delas no Brasil (confira AQUI). Colônia é ainda quase única em outro aspecto: além dela, apenas um outro buracão provocado pelo choque de corpo extraterrestre é habitado (saiba mais AQUI).

 

No caso de Colônia, há cerca de 50 mil moradores numa comunidade implantada há pouco mais de 20 anos e que ainda hoje luta para conseguir sua legalização e o direito da posse da moradia.

 

A população da região é representada pela Associação Comunitária Habitacional Vargem Grande, que fica numa rua que atende pelo romântico nome de Dama da Noite. Lá fui recebido na manhã de hoje pela presidente da entidade, Marta Jesus Pereira, que iria comandar uma expedição de jipeiros por trilhas de Parelheiros. Ela me deixou com o tesoureiro da Achave, Sebastião Mendes Gonçalves, 67, que me levou por uma breve passeio pela comunidade enquanto contava a história das lutas da comunidade.

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A família vivia em Minas, onde trabalhavam na roça como meeiros. No final dos anos 1950, porém, os donos da terra decidiram mudar de negócio, passaram a criar gado, e os agricultores ficaram sem ter onde plantar. Assim foi que, em 1958, Gonçalves acompanhou pai, mãe e irmãos na busca de melhor sorte em São Paulo.

 

Com quase 20 anos, conseguiu terminar de uma talagada só primário e ginásio, em um curso noturno. Depois, virou técnico em eletrônica. Apesar de ter uma profissão, não conseguiu desabrochar do ponto de vista financeiro: vivia com a mulher “de favor”, em casa dos sogros, na região do Grajaú.

 

No final dos anos 1980, ouviu falar de uma mobilização da União das Favelas do Grajaú e tratou de ir conferir: “Eu só queria uma casa minha para morar”, diz ele. O assunto era uma fazenda num território próximo –que veio a ser o terreno hoje ocupado pela comunidade de Vargem Grande.

 

“Em dezembro de 1988, eu e uma comissão de 300 moradores cortamos o arame da cerca para visitar a fazenda”, diz ele, mostrando o ponto exato onde pela primeira vez entrou na região da Cratera de Colônia.

1 cratera perimetromelhor

 

Não se tratou, portanto, de uma invasão desordenada. Foi numa compra coletiva: um grupo de famílias se associou e cotizou para comprar a gleba, que eles mesmos lotearam e arruaram. Basta olhar uma foto ampla da comunidade para perceber que lá não há os meandros, vielas e becos tão comumente vistos em concentrações desse tipo ( a foto acima foi tirada da borda noroeste da crateda; os morros ao fundo são as bordas do outro lado, e o meião é a cratera propriamente dita; o rio Ribeirão vermelho corta o fundo do vale).

 

O que não significa dizer que as coisas andam às mil maravilhas. O processo de compra, em si, foi uma confusão –o fazendeiro vendedor chegou a dobrar o preço originalmente acordado, e os cotistas conseguiram fazer frente ao novo pedido.

 

Há esgoto a céu aberto, apenas 30% das ruas são calçadas, mais de 800 famílias estão em área que será desocupada (e os moradores transferidos para prédios que deverão ser construídos em local próximo) e faltam áreas de lazer para a criançada –além do futebol, a brincadeira predileta da turma é empinar papagaio, que a gente chama de pandorga lá no Rio Grande do Sul.

cratera valeta

 

Apesar das constantes mobilizações da comunidade buscando atenção do poder público, algumas conquistas são resultado direto do trabalho dos moradores. Os prédios da escola municipal, do posto da Polícia Militar e de um terminal de ônibus, por exemplo,  foram erguidos sob o comando da Achave. A entidade chegou a ter ainda rádio e TV comunitárias, ambas com o nome de Cratera.

 

Mesmo com  todos esses problemas, o bairro parece bastante tranquilo do ponto de vista da segurança. “Isso já foi um faroeste, tinha bandido para tudo que é lado, gente andando armada”, lembra Sebastião.

 

A virada se deu em meados dos anos 1990, depois de embates envolvendo a associação comunitária –um dirigente da entidade foi assassinado, supostamente por capangas de uma antiga líder dos moradores. O certo é que o fato acabou provocando revolta da população e ação das forças de segurança.

 

“Eles vieram com uns 300 policiais, ocuparam tudo. Saíram daqui dois ônibus de bandidos presos, uma caminhão de armas apreendidas, revólveres, espingardas, facões”, diz Sebastião. “Foi uma faxina”, resume.

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Aparentemente deu certo, a julgar pelo que me conta o professor Victor, dizendo que nunca teve nenhum problema de segurança em nenhuma de suas visitas de pesquisador (CLIQUE NA FOTO para assistir a um pequeno vídeo em que ele explica sua descoberta). Nem hoje, quando ainda trouxe para a caminhada seu parceiro de estudos José Maria Azevedo Sobrinho, geólogo que também assina o estudo que identifica a cratera de colônia como resultado de impacto de corpo celeste, e outros convidados.

 

Estou usando essa denominação genérica porque, segundo me diz Victor, não há como saber exatamente o que foi que atingiu nosso prezado planetinha, se asteroide ou cometa, se bola de ferro pesada e compacta ou se corpo de gelo gigante. Também não se sabe quando o choque aconteceu. Vi documento oficial falando em “há cerca de 36 milhões de anos”, mas os cientistas que caminham comigo desconfiam de tais certezas. Preferem dizer que o choque deve ter ocorrido “entre 30 milhões e 5 milhões de anos atrás”.

 

O resultado do impacto é essa estrutura anelar, com diâmetros de 3.640 metros, altura máxima de 125 metros e sedimentos que chegam a 430 m (ou seja, o fundo da cratera foi aterrado ao longo dos milhões de anos e, supostamente, está a cerca de 400 m abaixo do chão onde pisamos). A circunferência é de aproximadamente 14 km.

 

Para saber mais sobre ela são necessárias mais pesquisas e investimento, para buscar material no fundo da terra e investigá-lo. Os custos de tal trabalho são estimados em US$ 1,5 milhão, diz Victor, e há negociações em andamento com uma agência japonesa financiadora de pesquisas.

 

“Colônia é um monumento geológico e deve ser preservado como tal. É detentora do maior registro de sedimentos quaternários, com potencialidade científica de documentar a história das mudanças climáticas da América do Sul, em no mínimo, desde os 3 milhões de anos até o presente”, afirma o professor.

 

A comunidade está localizada em uma pequena parcela da cratera, na borda norte (genericamente falando). Perto dali está o presídio de Parelheiros, que fica protegido pela mata; e no entorno, meus amigos, há trilhas de dar água na boca.

cratera trilha 1

 

Depois de ótimas aulas de geologia (fiquei fã, estou seriamente pensando em frequentar um curso no ano que vem), enveredamos por caminhos mais ótimos ainda, no meio de muito verde, arbustos, árvores e terreno cruzado até por um rio que já serviu de piscinão para a criançada local.

 

A trilha é fechada, mas bem definida, pelo menos no início. É que o trajeto que usamos serve de passagem para moradores de Vargem Grande que trabalham em uma fábrica de autopeças que fica do outro lado do morro. Chegamos até os limites da propriedade e começamos a voltar por outro caminho.

 

Aí é que a coisa ficou preta (ou verde e barrenta, melhor dizendo). As trilhas não são marcadas e, às vezes, os sinais de passagem humana desaparecem. Mesmo sendo guiados por um experiente caminhante da região, Severino Carlos de Souza, 54, vice-presidente da Achave, nosso grupo várias vezes teve de voltar sobre os próprios passos.

ruinas no meio do mato

 

Cruzamos por ruínas de construções centenárias, provavelmente sítios de imigrantes alemães da região; vimos caminhos também centenários, pois pela área passavam os tropeiros em direção ao mar (e vice-versa, por suposto); e passamos emoções tendo de cruzar riozinhos aos pulos, escorregando em barral, cada um dando o braço ao outro em ajuda fraterna para que todos saíssemos inteiros da mata.

 

O som ao redor era de insetos, pássaros, uma algaravia sem fim. Havia também gritos ao longe, berros que chegavam a assustar. “São os presos”, explica Severino, contando que a cadeia ali é de segurança máxima e que algumas regiões do morro não podem ser ultrapassadas.

 

Enquanto vamos vagarosamente cobrindo quilômetros, os dirigentes comunitários falam dos projetos em andamento na gleba. Ruas estão sendo calçados, há três parques em projeto, e associação sonha em criar na região um plano de turismo sustentável, aproveitando trilhas como as que visitamos. “Geoturismo”, fala o professor Velázquez.

 

Também turismo histórico, pois Colônia, o bairro que empresta o nome para a cratera, é um dos mais antigos. Local ocupado desde o século 19 por imigrantes alemães (hoje há também uma boa presença de imigrantes e descendentes de imigrantes japoneses), tem o mais antigo monumento da imigração alemã na cidade: o cemitério do bairro. Preservada, a parte antiga tem 150 túmulos. Um site sobre a necrópole (confira AQUI) data o conjunto de 1840, mas a capelinha ali construída tem como data registrada 1829.

 

Além do respeito aos mortos, os moradores da região procuram apreciar o convívio dos vivos: me meados do ano, há uma grande festa alemã em Colônia, que já está sendo preparada desde já.

 

A área da Cratera também se prepara para crescer e aparecer. Quem viver verá. Vamo que vamo.

 

DIA 13 PROJETO 460 KM POR SÃO PAULO
A caminhada de hoje foi divida em três momentos:  passeio pela comunidade de Vargem Grande e as trilhas da cratera de Colônia, visita ao cemitério alemão e caminhada por um pequeno trecho da borda sul da cratera; os mapas abaixo resumem o percurso e são acesso a mais informações sobre o trajeto; os dados no final são do acumulado do dia (um total de 15 km)

 

Mapa parte 1 Dia 13 14dez2013

 

Mapa parte2 Dia 13 14dez2013

Mapa parte 3 Dia 13 14dez2013

QUILOMETRAGEM DO DIA:15 km
TEMPO DO DIA: 6h04
QUILOMETRAGEM ACUMULADA:172 km
TEMPO ACUMULADO: 35h59min22
QUILOMETRAGEM A CUMPRIR: 288 km
DESTAQUES DO PERCURSO: Cratera de Colônia, comunidade de Vargem Grande, cemitério alemão de Colônia

 

 

 

PS.: Na caminhada de hoje, como nas demais, produzi vários vídeos superbacanas, mas o tempo para carregá-los na rede é grande demais e não posso esperar para colocar o texto no ar. Ao longo dos próximos dias, continuarei atualizando os posts, acrescentando links para os vídeos. Por isso, aceite meu convite para dar uma olhadinha em texto mais antigos, pois é bem possível que encontre novidades. Obrigado, grande abraço. Volte sempre.

 

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Parque do Carmo é palco de treinos de ultramaratonista

Por Rodolfo Lucena
13/12/13 15:39

selo_rodolfo_correndoQuando menino, ele era um azougue. Tanto que a mãe o mandou de volta para o Piauí, para ficar com a família. Voltou a São Paulo adolescente, mais tranquilo: “Sou um ótimo filho”, me diz Carlos Éber Valentim Vieira, mais conhecido no mundo das corridas como Éber Valentim.

De fato, leva uma vida calma. Aos 36 anos, é casado, tem um filho pequeno e já é veterano na empresa em que trabalha, onde assina ponto há cerca de 15 anos. Na hora da corrida, porém, acabam-se as gentilezas: ele vai para a morte, como dizem os corredores. Gosta de provas longas, de mais de 50 km, e já acumula vitórias em duplas e trios em uma das mais difíceis ultramaratonas do país, a Brasil 217 –o número se refere ao total de quilômetros do percurso.

Fomos correr juntos hoje em um dos seus campos de treinamento, o sensacional parque do Carmo, na zona leste de São Paulo. Começamos caminhando e tenho certeza que, estivesse alguém nos observando, acreditaria que Éber estava muito mais descansado do que eu.

Ledo engano. O sujeito havia trabalhado a noite toda. Encontrei com ele às 7h em ponto na frente do prédio dos Correios, pertinho do Ceasa, em um dos extremos da zona oeste de São Paulo. Lá, durante as oito horas regulamentares de seu turno, ficara operando uma máquina que seleciona e organiza correspondência destinada a Osasco (que está ali pertinho).

No total, o equipamento manipula cerca de 100 mil cartas por turno e as separa em lotes. Depois, os carteiros pegam seus fardos e vão à luta –homens carregam 15 kg, mulheres saem com uma sacola de 10 kg. E o operador da máquina sai para correr.

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Hoje não foi a primeira nem a segunda vez em que Éber saiu do trabalho direto para o treino –ao contrário, essa é sua prática mais comum. Mais recentemente, tem preferido treinar no parque estadual do Tietê, mas guarda memórias doloridas das rampas do Carmo, onde a preparação era pesada e o ritmo intenso.

Partimos para fazer a volta tradicional que Éber costumava completar algumas vezes. É um percurso de seis quilômetros que utiliza trechos da ciclovia –basicamente utilizada por caminhantes e corredores, a julgar pelo que vimos hoje–, com piso em asfalto, e algumas trilhas não muito irregulares (fora da volta tradicional, há percursos mais casca grossa, como o da imagem abaixo).

1 trilha 1

As subidas e descidas tornam a volta uma excelente preparação para quem vai enfrentar corridas em montanhas –em 2006, Éber foi o terceiro colocado no Desafrio Urubici, uma prova na cidade catarinense que dá nome à corrida e que se notabiliza pelo clima gélido; lá os atletas chegam a 1.826 m no cocuruto do Morro da Igreja.

Hoje, no Carmo, o clima estava agradável, bom para correr. Eu nunca tinha ido ao parque e Éber parecia vê-lo pela primeira vez: no ritmo que costumava treinar lá, conta ele, não dava para perceber muita coisa em volta.

Ele não sabia, por exemplo, que o parque abriga um viveiro de plantas, que fornece folhagens, arbustos e árvores para outros parques municipais, praças, escolas, hospitais.

1 viveriro 2 va

Até gente comum –os munícipes, no jargão das portarias municipais– pode buscar uma plantinha lá, tudo de graça. Cada pessoa tem direito a até dez mudas de árvore por ano, para plantar na frente de casa ou em seu jardim; no caso de folhagens, são cinco peças (saiba mais AQUI).

É bem verdade que o viveiro fica numa baixada, um tanto fora da visão de quem está correndo forte no circuito. Hoje, porém, fizemos a volta em ritmo lento e ainda aproveitamos para investigar algumas das trilhas menos civilizadas que o parque também apresenta.

Afinal, o Carmo não é pequeno, tem 1,5 milhão de metros quadrados. Originalmente uma fazenda no século 19, o parque tem mais de 6.000 árvores, com destaque para eucaliptos e cerejeiras. Segundo me ensina o portal da Prefeitura, ali é realizada há 35 anos a Festa das Cerejeiras, que “comemora o florir da árvore símbolo do Japão e tornou-se a marca da comunidade nipônica que vive na região. Todos os anos ocorre a prática do “hanami”, ritual que consiste em sentar-se sob as cerejeiras e contemplá-las por longo período”.

Até consigo reconhecer uma cerejeira em flor, mas hoje não foi o caso. Precisava cuidar do meu joelho, que sofria nas descidas, mas se recuperava nas subidas, e ainda captar o que imaginava ser o espírito do parque.

Tem uma alma muito calma (ih, rimei!) e parece ser bastante seguro. Éber notou a limpeza da área e o aumento do número de funcionários e de seguranças –há cinco anos, por exemplo,as áreas próximas aos banheiros eram território dominado pro drogados, que não poucas vezes agrediam corredores. “Teve um que levou uma voadora”, lembra Éber.

Isso apesar de haver uma delegacia de polícia colada à entrada do Carmo: a 53ª DP deve fechar o ano com menor número de homicídios, mas basicamente o mesmo número de roubos e furtos, a julgar pelas estatísticas atuais (saiba mais AQUI).

Aliás, não vi polícia nas alamedas do parque, hoje, mas também não vi nada que parecesse necessitar da presença dela. Ao contrário, tudo rolava na mais santa paz, com o público aproveitando bem algumas das simpáticas áreas do Carmo, como um jardim de inspiração japonesa.

1 jardim VA

Corremos em volta do lago, numa planura bem agradável, e às vezes ficava com vergonha de obrigar um sujeito muito mais rápido a rodar em ritmo tartaruguesco. Mas Éber não foi sempre essa máquina de engolir quilômetros. Mesmo com biotipo que lembra o de quenianos, estreou em corridas completando 10 km em pedestres 80 minutos.

Era o ano de 2004, ele ainda fumava e bebia regularmente. Aceitou o desafio de um amigo gordinho e saiu à toda a brida, disposto a vencer o colega. Seu entusiasmo durou pouco: foi ultrapassado no km 4 e só chegou ao final porque forçou o corpo a não desistir.

“Até hoje terminei todas as provas em que entrei”, diz ele, que adorou o esporte apesar do sofrimento da estreia. Aos poucos foi largando o cigarro e o álcool, percebendo que lhe prejudicavam o desempenho na corrida.

Só não abandonou o Corinthians de seu coração (e do corpo: tem o brasão corintiano tatuado na pele). Sócio da torcida organizada Gaviões da Fiel, já chegou a frequentar 100% dos jogos do time em campeonato Paulista. No Carnaval, sai na bateria da Gaviões, posto que também ocupa quando vai ao estádio conferir o jogo da equipe.

O amor pelas corridas e as atividades profissionais –não poucas vezes, atua em fins de semana na cronometragem de provas—reduziu sua presença nos gramados, mas ainda veste a camiseta branca-e-preta, nem que seja para posar para fotos, como no treino de hoje.

Para ele, é certo, nem dá para chamar de treino. Passeio, talvez, em que descobrimos no alto de uma das colinas do Carmo o seu Planetário, um predião bonito, que lembra um pouco o do Ibirapuera. Mas está fechado. “Problemas de equipamento”, me diz um atendente pelo telefone.

Pesquiso um pouco e percebo que é mais que isso. Pelo visto, há uma sequência de erros em que a vítima é sempre o público. Um dos textos que li aponta, de forma ácida: “Com obras iniciadas em 2002 e inauguração no fim de 2005, o Planetário do Carmo passou pelas mãos de quatro prefeitos — Marta Suplicy (PT), José Serra (PSDB), Gilberto Kassab (PSD) e Fernando Haddad (PT))— e, até agora, é um elefante branco. Apenas em 2006, o local ficou aberto de forma regular. Naquele mesmo ano, porém, foram encontrados problemas em sua estrutura e o planetário fechou”.

Por alguns meses do ano passado e deste 2013, voltou a abrir, mas praticamente de forma experimental, atendendo a algumas escolas. Neste mês deve sair o resultado da licitação da gestão do local, segundo notícia publicada num jornal virtual especializado na zona leste (leia AQUI).

Bom, se não vi estrelas, pelo menos tive a oportunidade de conhecer algumas das belezas do local. Não encontrei  veados-catingueiros, preguiças-de-três-dedos, tatus, ouriços-cacheiros nem caxinguelês, que já foram observados na mata, segundo a apresentação oficial do parque. Em contrapartida, vimos porquinhos-da-índia e simpáticos e serelepes esquilos. Um deles chegou mesmo a posar para a câmera.

1 esquilo 1

Com o que me despeço, seguindo para casa onde vou logo botar gelo no meu joelho, pois amanhã tem mais. Vamo que vamo!

 

DIA 13 PROJETO 460 KM POR SÃO PAULO
Clique no mapa para acessar informações mais detalhadas sobre o percurso

mapa dia 13dez2013
QUILOMETRAGEM DO DIA:12 km
TEMPO DO DIA: 2h10min41
QUILOMETRAGEM ACUMULADA:157 km
TEMPO ACUMULADO: 29h55min22
QUILOMETRAGEM A CUMPRIR: 303 km
DESTAQUES DO PERCURSO: parque do Carmo, viveiro de plantas, lagos e planetário do Carmo

PS.: O dia 12 foi de folga

 

 

 

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Sem internet e com joelho lesionado, corredor tira breve folga e testa calçado de recordista mundial

Por Rodolfo Lucena
12/12/13 14:26

selo_rodolfo_correndoEstou neste momento em um cantinho da sala de minha casa, sentado na ponta do assento de uma cadeira, curvado sobre um notebook colocado no ângulo direito inferior de uma mesinha portátil, que por sua vez está posicionada na diagonal em relação a uma porta. Só assim, por breves instantes e de forma intermitente, consigo acessar a internet aqui de casa.

E isso porque a Folha mandou para mim, em situação de emergência, um modem 4G. Cá na zona oeste, porém, a dois quilômetros da riqueza e do poder da avenida Paulista, o 4G funciona como se fosse um 3G, isso quando fica ligado por tempo suficiente para que eu troque algumas mensagens.

Quanto à minha internet doméstica, pela qual pago religiosamente à operadora e ao provedor de acesso, está morta desde segunda-feira última. Não vou amolar sua paciência contando minha via-crúcis de busca de atendimento; basta dizer que não funciona, não atendem, mentem, desrespeitam e o escambau.

As tensões e o sofrimento de ficar sem minha ferramenta essencial de trabalho se somam às dores que venho tendo por causa da lesão no joelho direito, surgida depois de trilhar montanhas de quilômetros nos pisos irregulares da Paulicéia. Caminho mancando, corro tal qual um pato, mas vou vivendo, assim como vou driblando as falhas do atendimento internético…

O treino de ontem me animou: achei que mancava menos e resolvi investir em uma maratona de tratamento. Durante a tarde, passei novamente por terapeutas e fisioterapeutas, fiz gelo, laser, ultrassom e tratamento a laser, choques elétrico e geloterapia. E resolvi tirar o dia de hoje para descansar o corpo, esperando que isso acelere minha recuperação –se é que ela será possível, vamos esperar o resultado da ressonância magnética, prometido para amanhã.

Mas não fico sem conversar com você, que tem acompanhado com tanto carinho essa jornada quilométrica. Saiba que, ao longo desse processo, estou também fazendo testes com equipamento para o corredor. Venho usando um telefone que vem com uma câmera fotográfica fabulosa (mais para o final do projeto, publicarei resultados da avaliação) e experimentei um dos mais recentes modelos de tênis da Adidas, o adizero adios Boost (a empresa gosta de usar letras minúsculas nos nomes). É sobre ele que falo agora.

adidas VAA linha adizero é a mais rápida da Adidas, com calçados que dão ótima resposta: Wilson Kipsang usava um deles quando quebrou o recorde da maratona em Berlim. Com a tecnologia Boost, o adios ganha um sistema de amortecimento de alta tecnologia, “composto de milhares de cápsulas que liberam energia a cada passada”, segundo diz a empresa.

Todo o parágrafo acima foi escrito com base nas informações fornecidas à imprensa pela Adidas. Eu lembro que o fato de um determinado modelo de tênis ter sido usado por um maratonista de elite, campeão ou recordista mundial nem por um segundo significa dizer que automaticamente ele será bom para o sujeito comum, que não tem a leveza, o Índice de Massa Corporal e , especialmente, a maravilhosa biodinâmica que Kipsang apresenta.

Assim, lá fui calçar o adios Boost, colocando sobre sua sola macia meu corpo com sobrepeso, levando o calçado com passadas deselegantes e nem um pouco uniformes, sobre piso irregular.

Devo dizer que gostei. É o primeiro tênis da Adidas que não me aperta os dedos dos pés; em geral, a marca oferece produtos de forma afilada (não é a única, muitos tênis da Nike também são justos demais na largura, pelo menos para o meu gosto).

Eu desconfio que, no caso do adios, a Adidas tenha mantido sua escrita e, de fato, o chassis é fino. Acontece, porém, que o cabedal é muito leve e maleável, dá uma sensação de bom ajuste.

O tênis é superleve e gostoso de calçar, mas, na hora de correr, a experiência já não foi tão agradável. Dava para sentir o amortecimento, o que é bom, mas também insuficiente: o calcanhar parecia estar batendo no asfalto.

Nas descidas, então, a impressão era de a planta do pé estava sem proteção nenhuma. Isso que o calçado não está na lista dos minimalistas: traz uma sola bem considerável (ainda que com cerca de metade da espessura do solado dos calçados que costumeiramente uso).

Então, deixei-o de lado nos treinos de corrida; nas caminhadas, com menor pressão e impacto, teve um bom desempenho, sendo confortável e, para o meu gosto, bonito, com cores vibrantes.

É bem possível que corredores mais leves e elegantes, com biodinâmica mais eficiente do que a minha, façam melhor proveito desse calçado, que custa R$ 499. O preço sugerido é alto, mas está na mesma faixa dos tênis de corrida de boa qualidade. Quem tiver chance de comprar no exterior certamente fará uma boa economia.

 PS.: Desculpe aí o desabafo sobre os maus serviços que venho recebendo da minha operadora de internet, mas isso está me deixando quase louco pois afeta por demais o meu trabalho. Espero poder continuar driblando essas dificuldades e seguindo firme na jornada até o último desses 460 km em homenagem ao próximo aniversário de São Paulo

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Com autor de “Divórcio”, corredor percorre alamedas da Saúde

Por Rodolfo Lucena
11/12/13 12:48

selo_rodolfo_correndoNo primeiro e-mail que ele mandou para mim, aceitando o convite para participar de uma das etapas do meu projeto 460 km por São Paulo, já avisava: “Meu romance `Divórcio` é de fato um livro de ficção. Eu não comecei a correr em 2011. Comecei a correr em 1999, no início do curso de mestrado na Unicamp. Em 2011, o que fiz pela primeira vez foi me preparar para uma prova, a São Silvestre. Portanto, minha experiência com a corrida não é obviamente a descrita no meu romance”.

Talvez você não conheça a história, então explico o fuzuê. O que o escritor Ricardo Lísias queria deixar claro é que ele, autor, não era o Ricardo Lísias personagem e narrador do livro “Divórcio”. Ou, por outra: que o livro é uma obra de ficção, não biografia ou vingança de amante traído.

Explico mais um pouco, resumindo a trama do romance (mesmo com o risco de superficialidade que os resumos têm): “Divórcio” conta a trajetória de um escritor que, quatro meses depois do casamento, descobre o diário da mulher, onde ela comenta suas traições e registra opiniões deletérias sobre o marido.

No processo de recuperação, o Ricardo Lísias personagem descobre a caminhada e, logo depois, a corrida, como forma de purgar o sofrimento e engendrar algum tipo de satisfação pessoal ou conquista.

Acaba participando da São Silvestre de 2011, experiência tão marcante que o livro é dividido em quilômetros. Naquele ano, o percurso da prova foi modificado, e os corredores tiveram de descer a Brigadeiro até o Ibirapuera depois de terem feito a subida em direção à avenida Paulista. Tudo sob uma chuva dos demônios.

1 lisias sao judas

Pois o Ricardo Lísias escritor, gente de carne e osso com quem conversei e corri na manhã de hoje, também fez sua primeira São Silvestre naquele ano. “A descida foi terrível”, lembra ele. “Vi muita gente escorregando, era bem perigoso.” Terminou esgotado, no barral que se formou na área da chegada, e voltou a pé até a Paulista, como muitos outros participantes.

Nossa corrida também poderia ser sob chuva, de acordo com as previsões. Ontem, Lísias ainda mandou um e-mail perguntando se sairíamos em quaisquer condições climáticas, já esclarecendo: “A mim a chuva não incomoda”.

A mim também não (aliás, ontem tomei um banho de chuva caminhando da estação de trem Ermelino Matarazzo à estação USP Zona Leste que nem te conto…). Assim nos encontramos na manhã de hoje, em uma esquina da rua Indianópolis, na zona sul da cidade.

Saímos a passo, para que meu joelho direito ganhe ritmo. Por causa da lesão, tenho manquitolado um pouco, fugindo da dor; médico e fisioterapeutas me dizem que isso é caminho certo para lesões mais graves, talvez até na lombar (não!!!!). É preciso tentar andar normalmente e correr de forma ainda mais normal.

A companhia me ajuda. Enquanto vamos acertando a caminhada, preparando para logo acelerar e começar a corrida, Lísias me conta que costumava correr à noite pela avenida, que atraia muitos corredores e ciclistas por causa de sua extensão, amplitude e topografia –é quase plana, as subidas e descidas são graduais e até agradáveis.

A avenida também é frequentada, à noite, por um exército de travestis. Na manhã ainda escura, final de madrugada, encontramos dois ou três que ainda não decidiram encerrar a noitada.

Nunca me incomodaram”, diz Lísias. “No máximo, falam qualquer coisa. Um deles me disse que eu não precisava ficar correndo, que ele passaria o telefone do seu cirurgião plástico e pronto…”.

O escritor observa que, tal como na vida, a distribuição dos trabalhadores da noite segue uma estratificação social. “Lá para cima, parece, ficam os mais bem de vida. São uns cavalheiros.” É uma região em que também há mulheres na noite. Já na parte da avenida mais na baixada, na direção do parque Ibirapuera, ficam os que aparentam ser mais pobres: é uma área onde as coisas podem ficar mais violentas.

Para o corredor da noite, porém, o que incomoda mesmo são os clientes dos travestis, que chegam em carros, carrinhos e carrões. Enquanto estão na caça, rodam supervagarosos; quando acertam o programa, saem em alta velocidade, como se estivessem fugindo. “Parece que têm vergonha”, analisa o escritor, que é paulistano de nascimento, tem 38 anos e doutorado em literatura pela USP.

1 lisias carmelitas

Saímos do território das noitadas, descemos uma pequena lomba, encontramos o plano e engrenamos uma corrida ritmada até a estação Praça da Árvore do metrô. No caminho, passamos por um mosteiro, que ele diz ser de religiosas que vivem reclusas. “Eu vejo gente entrar, nunca vi ninguém saindo”, diz ele. “Já dá mote para um romance”, respondo.

Pela avenida Jabaquara, seguimos a jornada que vai nos levar novamente à Indianópolis. Antes, ainda outra casa religiosa, a igreja de São Judas. “Essa é grande”, diz Lísias, contando que, de vez em quando, a multidão toma conta de toda a calçada em frente à igreja. Pelo visto, há muitos desesperados em busca da intervenção do santo das causas perdidas…

Ao longo do caminho, de vez em quando “Divórcio” volta à baila, porque algumas resenhas teimam em casar na mesma pessoa narrador e autor. Lísias escritor, por exemplo, é enxadrista, tal como o Lísias narrador; mas o da vida real nunca “quase” ganhou uma vaga a um campeonato mundial da xadrez, uma das tantas questões que amargam a vida de seu personagem.

O jogo dos reis é uma paixão do escritor, que começou a praticar aos dez anos e ainda hoje faz aula uma vez por semana com um mestre do esporte. Quando adolescente, assistiu a uma apresentação de enxadristas soviéticos ocorridos exatamente na época em que a ex-URSS estava se desintegrando. “Eles ficaram muito tensos. De repente, não eram mais soviéticos, mas da Rússia, da Geórgia, da Armênia…”

A corrida lhe chegou mais tarde, quando fazia mestrado em literatura em Campinas. Sua orientadora recomendou que praticasse algum esporte regularmente. Chegou a tentar natação, mas não se deu bem. Então começou a dar voltas numa pista no campus universitário e descobriu que, de fato, como dissera a professora, aquilo contribuía para relaxar, desestressar (saiba mais CLICANDO AQUI para ver um vídeo que fiz com ele).

Hoje treina três vezes por semana e contabiliza duas São Silvestres e uma meia maratona. Para a prova mais longa, uma competição em São Francisco dedicada a mulheres, mas com 10% de vagas para homens, treinou com ajuda profissional pela primeira vez, sendo orientado por uma assessoria esportiva.

Terminei muito bem”, lembra ele. “Acho que poderia correr ainda uns dez quilômetros.” A experiência fez com que começasse a pensar em uma maratona, mas ainda analisa a questão.

O que ele mais estuda, mesmo, são as pessoas. “Ela está completamente drogada”, comenta sobre um mulher que passa por nós, os olhos vidrados, falando a um celular. “O escritor precisa estar atento a tudo”, explica.

O olhar clínico e o ouvido atento lhe ajudaram a criar personagens. Como pesquisa para “O Livro dos Mandarins”, que trata do mundo dos executivos, frequentou um café em que dirigentes de empresas costumam bater ponto. Ouvia as conversas das mesas ao lado para entender o repertório e o linguajar dos seus personagens.

Para “Divórcio”, fez coisa semelhante. Nas padarias da Saúde onde eventualmente se reabastecia durante os treinos noturnas, ouvia o papo dos travestis. “Não existe uma Ramona”, diz, referindo-se a personagem do livro que interage com o Lísias narrador. “Ramona são todos eles.”

Foi assim, por exemplo, que descobriu o termo “mariconete”. A palavra, na gíria dos travestis, identifica os desqualificados que passam de carro debochando, atirando objetos ou até ameaçando o pessoal que trabalha na rua.

Lísias, ele mesmo, nunca se sentiu ameaçado em seus treinos noturnos. É certo que toma precauções. Vai até uma praça que serve como espécie de limite entre a área mais bem de vida e uma favela incrustada entre as belas casas das franjas da avenida Indianópolis.

1 lisias praca

Mas não se arrisca a passar pelas vielas da comunidade, que já foram fechadas no tempo dos ataques do PCC e são dominadas pelo tráfico –ou, pelo menos, é o que parece, mas a prudência sugere que não se investigue mais.

Também em segurança –e sem um pingo de chuva– terminamos nosso passeio. Além da ótima conversa, termino feliz por ter conseguido, em boa parte do trajeto, acompanhar o ritmo do escritor, mancando muito pouco. Quem sabe, consigo me recuperar com mais algumas sessões de fisioterapia, gelo, musculação, alongamento e descanso. Afinal, ainda faltam mais de 300 km para completar minha jornada. Vamo que vamo!

DIA 11 – PROJETO 460 KM POR SÃO PAULO

Clique no mapa para acessar informações mais detalhadas sobre o percurso

Dia11 mapa

QUILOMETRAGEM DO DIA:13 km
TEMPO DO DIA: 2h02min45
QUILOMETRAGEM ACUMULADA:145 km
TEMPO ACUMULADO: 27h44min41
QUILOMETRAGEM A CUMPRIR: 315 km
DESTAQUE DO PERCURSO: avenida Indianópolis, convento das carmelitas, igreja São Judas

 

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Corredor descobre cores nas vielas de Ermelino Matarazzo

Por Rodolfo Lucena
10/12/13 19:36

selo_rodolfo_correndo“Quando conheci o pessoal fazia uns três meses que eu tinha saído da cadeia”, me conta Leandro, meu anfitrião na caminhada de hoje pelos meandros de Ermelino Matarazzo, bairro cravejado de favelas na zona leste de São Paulo. A história do jovem é semelhante à de muitos outros detidos por morarem em zona de invasão ou bairro menos favorecido pelo dinheiro e pelo poder.

No início da madrugada, ele acabara de sair da jornada noturna em uma tecelagem da região, onde trabalhava como ajudante. Ia passar na padaria para comprar o desjejum quando foi abordado por quatro policias, quase em frente à igreja da Cruz Preta, em um dos pontos mais altos da Vila Santa Inês.

“Disseram que eu tinha roubado uma moça, assalto a mão armada. Me deixaram pelado na delegacia, me bateram, mas eu não assinei, não tinha sido eu.” Quando falou onde morava, ouviu: “É da favela, foi você mesmo”. E tome porrada!

Acabou jogado no presídio Adriano Marrey, em Guarulhos, onde ficou três meses e passou por três audiências judiciais até que a vítima foi ouvida e disse que não tinha sido ele (Leandro tem uma mancha vermelha no rosto que o torna facilmente identificável).

Apesar das evidências, a ordem judicial de soltura ainda demorou cinco dias para chegar, sabe-se lá por quê. “Podia ter acontecido qualquer coisa, podiam até ter me matado”, diz ele, que entrou com ação contra o Estado, mas já não acredita em qualquer resultado: “Desapeguei”.

A prisão aconteceu quando ele tinha 18 para 19 anos. Hoje, Leandro Pereira Araújo, 25, nascido e criado em Ermelino Matarazzo, está na metade do curso universitário de artes plásticas e totalmente apegado ao Projeto Azu, uma iniciativa do artista plástico Élcio Torres que vem jogando cores nas vielas, escadarias e praças da favela Santa Inês, onde o ateliê tem sede (abaixo, o primeiro grande trabalho do grupo na comunidade).

3 escada abre 2

Foi lá, na rua Cinturão Verde, um fundo de vale perto da rua principal da comunidade, que nos encontramos no início da manhã de hoje para a décima jornada de meu projeto 460 km por SP. Começamos seguindo em direção a um território esquecido pela população local e pelas autoridades: ruínas de uma construção do século 16. Apesar de tombado pela Patrimônio Histórico, o Sítio Mirim parece totalmente abandonado, com grama alta no seu entorno e nenhum tipo visível de proteção (saiba mais AQUI).

Dali, rumamos para a estação de trem Ermelino Matarazzo, onde está montado o primeiro trabalho com que o Projeto Azu ganhou uma concorrência: um enorme painel de azulejos que conta um pouco da história da região.

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Leandro mostra com orgulho o conjunto de 8,40 m por 3 m, onde aparecem a igreja da Cruz Preta, o pintor Mateus Santos –chamado “Poeta das Tintas”–, os edifícios das Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo e outros ícones do bairro.

A obra é de 2010, mas o Projeto Azu começou alguns anos antes. “Ouvi falar deles em 2007, um amigo me contou que tinha um pessoal fazendo azulejos no bairro. Fui ver o que era e comprei a ideia na hora.”

No início, era uma espécie de guerrilha azulejística. Torres, Leandro e outros artesãos militantes criavam suas obras e saíam pela favela, conversando com moradores, vendo quem aceitava montar um mosaico ou mesmo instalar uma peça no muro. “Teve gente dizendo que a gente estava marcando as casas para o tráfico, outros falavam que isso era coisa do demônio…”

Depois de trabalharem um mês em um mosaico destinado a enfeitar o muro de uma moradia da vila, conforme acertado com o filho do dona da casa, enfim conseguiram aprontar a obra. Bem satisfeitos, instalaram no muro a colagem de azulejos, em que se destacava um colorido cavalo marinho. Quando o dono de casa a viu, atacou a obra como se fosse um mostro do outro mundo, deixou as peças atiradas no chão.

“Pegamos tudo, recolhemos num balde, lavamos, dava vontade de chorar ver o trabalho destruído assim”, lembra. Uma vizinha do vândalo, que tinha visto a cena, convidou os garotos para montarem a obra no muro da sua casa, na frente da outra: “Assim ele vai ver o desenho todos os dias”, disse a senhora…

Os apoios são mais amplos e generosos que eventuais críticas. Além do reconhecimento do poder público, pela vitória em editais (o Projeto Azu tem ainda um painel na estação USP Leste), ganha o carinho da comunidade: crianças participam de oficinas, jovens ajudam a montar painéis.

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“Aqui tivemos muitas mãos”, diz Leandro, apontando para uma escadaria totalmente modificada, enfeitada e colorida pela ação dos azulejistas. “Até bala levou”, conta, mostrando a marca de um tiro disparado por policiais durante uma perseguição pelos intestinos da favela.

Apesar de tudo, o que fica são as cores que adornam a Rua da Mocidade Alegre. E não se trata de arte pela arte: em uma praça abandonada, o Projeto Azu montou homenagem a Dona Neuza, uma das pioneiras da vila e líder comunitária marrenta (os gaúchos dizemos “de faca na bota”), que é uma referência para todo o movimento dos moradores da região em busca de melhores condições de vida.

É um jeito de ajudar a todos, diz Leandro, a “conhecer nossa história, conhecer o chão em que a gente caminha”. Vamo que vamo!

DIA 10 – PROJETO 460 KM POR SÃO PAULO

Dia 10 - Projeto 460 km por SP
Clique no mapa para acessar informações mais detalhadas sobre o percurso
QUILOMETRAGEM DO DIA: 11 km
TEMPO DO DIA: 2h47min05
QUILOMETRAGEM ACUMULADA: 132 km
TEMPO ACUMULADO: 25h41min56
QUILOMETRAGEM A CUMPRIR: 328 km
DESTAQUE DO PERCURSO: vila Santa Inês, Ermelino Matarazzo, igreja da Cruz Preta

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