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Rodolfo Lucena

+ corrida

Perfil Rodolfo Lucena é ultramaratonista e colunista do caderno "Equilíbrio" da Folha

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Quarenta dias, duas pernas e um coração, 460 quilômetros por São Paulo

Por Rodolfo Lucena
12/01/14 15:21

selo_rodolfo_correndoAcabou! Na manhã deste domingo, glorioso dia 12 de janeiro de 2014, completei meu projeto de percorrer 460 quilômetros por São Paulo, em homenagem ao próximo aniversário da cidade.

Comecei o percurso no dia primeiro de dezembro do ano passado, correndo morro acima o pico do Jaraguá, para chegar até o ponto mais alto da cidade e ainda subir mais um pouco, galgando os 250 degraus da escadaria que leva até a base de uma antena de telecomunicações lá instalada.

Ao longo de 40 dias de andanças (mais três dias de folga completa), percorri a cidade de norte a sul e leste a oeste, mergulhei dos meandros do centro, descobri belezas e misérias; principalmente, encontrei e conheci gente fabulosa, que faz de São Paulo o portento que é.

Para a última jornada, escolhi iniciar o começo do fim num ponto que ilustra bem um dos aspectos da cidade: sua desumanidade, seu desrespeito pela história, seu culto ao transporte individual, ao deus carro, seu descontrole arquitetônico.

O local também é exemplo de mudança e de como a cidade viva, a população paulistana, consegue virar as coisas, transformando o que lhe parece uma desgraça em algo não tão ruim assim.

elevado 1

Pouco depois das 7h de hoje, larguei do início do Minhocão, a ligação elevada leste-oeste –como saí de pertinho do largo Padre Péricles, o sentido é outro: oeste-leste. Esse imenso viaduto é visto por alguns (muitos, talvez) como um símbolo arquitetônico da ditadura militar. De fato, foi construído na gestão do prefeito biônico Paulo Maluf (biônico porque não eleito, mas indicado pelo governador do estado) –LEIA AQUI mais sobre a história da obra e VEJA AQUI uma galeria de fotos históricas.

Ouso dizer, porém, que, considerando a idade da população que vive em São Paulo, a maioria não tem a menor ideia do que seja a cidade sem o elevado; ele faz parte da vida assim como os engarrafamentos, os assaltos, a poeira, o buzinaço… Também é um maravilhoso espaço público, durante parte da noite e aos domingos, quando é fechado para os carros e entregue ao público –aliás, há sonhos de transformá-lo em um grande parque, como mostra ESTA REPORTAGEM AQUI.

fotos

Em passadas edições da São Silvestre, a gente corria cerca de um quilômetro sobre o elevado. Era muito bacana: o povo vinha para as janelas, aplaudia, vaiava, cantava, alguns jogavam água, outros acenavam, se encontravam com os corredores, que se encontravam com os moradores. A multidão de atletas se concentrava na pista leste-oeste, pois a alça que subíamos dava acesso para aquele lado; a sombra, porém, estava do outro lado; era um tal de gente pulando mureta, escorregando, indo e voltando (a curva de saída também seria mais bem feita pelo lado leste-oeste, para entrar na rua Dona Marta).

casa

De vez em quando, volto ao Minhocão nas manhã de domingo e me sinto um pouco voyeur, um visitante indesejado, observador não solicitado pelos moradores do entorno. Afinal, o viaduto passa do ladinho das salas, cozinhas, quartos dos apartamentos; conforme a iluminação e o grau de abertura de janelas, vidraças, cortinas e venezianas, dá para ver o que rola na casa de cada um.

Mesmo sem invadir o espaço privado com nossa presença, simplesmente passar por ali tem um ar promíscuo: a gente vê, por exemplo, as roupas do povo a quarar nas varandas ou penduradas em fios abaixo de janelas. Se não incomoda aos donos das peças, aos passantes incomoda menos ainda, mas é uma demonstração dessa proximidade não escolhida ou nem sempre desejada.

roupas azul

Tirando isso ou talvez também por causa disso, é muito bom correr no Minhocão. Hoje, mais uma vez, senti a fissura por corrida. Não posso, já sei, já conversei com você sobre isso, já me olhei no espelho não sei quantas vezes para explicar a mim mesmo a situação, mas a ideia volta. Basta ver um espaço vazio, terreno aberto na minha frente e eu fico igual cachorro solto no parque, só falta babar de vontade.

Ainda bem que já tenho quase 57 anos (meu aniversário é no dia 14 de fevereiro) de desenvolvimento do superego e consigo controlar meus impulsos mais animalescos (nem sempre, devo confessar neste momento). Então, já aviso que, por maior que fosse meu desejo de correr, simplesmente caminhei ao longo de todos os centímetros dos sete quilômetros percorridos hoje. O motivo talvez você já saiba, mas não custa repetir: estou com uma fratura por estresse no joelho direito, que vai ficar de molho a partir de amanhã até se recuperar e permitir que eu volte a correr….

poesia

Caminhar, porém, não foi uma punição nem uma dor muito forte ao longo de meu percurso por São Paulo. Ao contrário, permitiu que eu tivesse um olhar mais atento sobre a cidade e facilitou as conversas com meus convidados. Do Elevado, por exemplo, olho as belezas arquitetônicas do centrão: o prédio circular que um dia foi uma unidade do hotel Hilton, o gigantismo do edifício Itália, a elegância das curvas do Copan, uma das marcas de Oscar Niemeyer na cidade…

Mais ao longe, imitando uma espécie de vigia da cidade, a tudo observando do alto de seus muitos metros, fica o prédio do Banespa, construído como se fosse uma obra de um garoto brincando com peças de madeira: uma base mais ampla, outro núcleo menor, mais um bloco ainda menor até a magreza final do mastro da bandeira no topo do edifício.

elevado2

Saio do Elevado (veja NESTE VÍDEO AQUI, feito por Eleonora de Lucena, como foram os último metros no Minhocão).

Aaceno para a praça Roosevelt, hoje revitalizada, reconstruída, reurbanizada, terreno de skatistas e vizinha de bares e salas de teatro. Bordejo também a igreja da Consolação, onde já cantei algumas vezes (integro o naipe dos baixos, o que poderia ser uma referência à minha estatura limitada –mais ainda se comparada com o meu peso–, mas tem a ver com o meu tom de voz), e sigo em direção ao Municipal.

Esse teatro é um sonho (imagine só estar lá no palco para cantar “Carmina Burana”!!!). O prédio é maravilhoso,a programação lá apresentada é ótima, minhas histórias com sua história são uma gostosura (saiba mais sobre o Theatro Mvnicipal AQUI). Só não gosto dos preços praticados nas suas lanchonetes; as garrafinhas de água são mínimas e custam os olhos da cara. Também não gosto das filas para conseguir um mísero cafezinho (tenho certeza de que isso poderia ser mais bem organizado, mas parece que faz parte da personalidade do teatro, sei lá).

O teatro está fechado. Sigo pelo viaduto do Chá, tão importante na história da cidade. Ele se ergue sobre o vale do Anhangabaú, palco de shows marcantes para a Pauliceia, em geral nas comemorações do aniversário da cidade. Também foram ali alguns dos maiores comícios já realizados neste país, durante a campanha popular pelas eleições diretas para presidente da República, as Diretas Já!.

Passo pela memória, cruzo em frente do prédio conhecido como Banespinha, que é hoje a sede da prefeitura da cidade (vou lhe dizer, nunca vi uma prefeitura mudar tanto de lugar como a de São Paulo; acho que ela já teve umas quatro sedes desde que estou na cidade)  e que foi vítima de ataque durante as manifestações de rua no ano passado (a foto abaixo é de outro ponto da cidade, mas gostei tanto dela que não resisto a colocá-la aqui mesmo).

cruza 2

Não me detenho muito nisso, porém, porque os quilômetros estão passando e eu não quero terminar antes de chegar ao local que escolhi para a conclusão desse projeto, que nasceu numa praia, em Santa Catarina. Foi lá que bolei esse plano e o aprimorei em produtivas conversas com minha sensacional Eleonora –juntos planejamos alguns percursos, escolhemos convidados e imaginamos detalhes.

O planejamento não foi muito exato nem detalhado. Imaginei lugares que gostaria de visitar e fui aos poucos montando o quebra-cabeças de tempo e espaço até chegar a esses 460 quilômetros em 40 dias.

A reta quase final passou pela estreita rua Direita, entrou na opulenta rua Quinze de Novembro, uma das poucas áreas de ruas para pedestres que conheço na cidade (a outra é ali pertinho, entre o Municipal e a praça da República), e enveredou para o Pateo do Collegio. Claro que não podia deixar de visitar esse local, o espaço da gênese paulistana, onde a 25 de janeiro de 1554, com Manuel da Nóbrega e Anchieta, foi rezada a missa que é tida como marco no surgimento de São Paulo –saiba mais AQUI.

Faltavam então apenas poucos metros para a chegada, que seria na praça da Sé. De uma de suas esquinas, vi uma fila enorme de moradores de rua, cada um aguardando sua vez de receber um prato de sopa, um pão, algum alimento entregue por voluntários que fazem trabalho social. A comida ajuda, com certeza, mas não resolve o sofrimento do povo da rua, que vai enfrentando sua dor e abandono com álcool e crack…

A alameda em frente à catedral é grandiosa. Cheia de história, de sangue e suor dos brasileiros. Ali se reuniram as combativas mulheres que começaram o Movimento Contra  a Carestia (saiba mais AQUI). Ali foi também palco dos primórdios da campanha pela anistia (leia aqui a convocatória para o ato histórico, ocorrido em 1979). E, claro, foi na Sé que deslanchou a campanha Diretas Já! (este TEXTO AQUI também traz informações legais sobre as lutas populares no período da ditadura militar)

Hoje, a praça da Sé é dos moradores de rua, de religiosos que pregam para ninguém, de turistas, de vendedores, de ladrões e traficantes, de policiais e vigilantes. E também é deste corredor, que arrodeia, arrodeia e não chega…

Enquanto caminho, penso no que foi essa jornada, que durou mais de 106 horas. Lembro que a corrida –a caminhada também—é um esporte solitário, mas totalmente coletivo. Muita gente colaborou para que esse projeto desse certo. Ontem falei do pessoal do jornal, dos motoristas, dos convidados. Há que agradecer também ao meu treinador, Vanderlei “Branca” Severiano, e à turma de branco: o ortopedista Henrique Cabrita, a osteopata Luca Mameri, as fisioterapeutas Graziella Candido, Ana Claudia Rodrigues e Aline Andrade, as massagistas Manoela Vilarinho e Rosangela Bittencourt.

marco 1

Acima de tudo, agradeço a você, leitor, que vem me acompanhando quilômetro por quilômetro até este final. Porque, como disse na primeira palavra deste texto, eu concluí a jornada.

Cheguei ao Marco Zero, no coração da praça da Sé, no coração de São Paulo. Ergui os braços, festejei comigo mesmo e ganhei um beijo da Eleonora, sem a qual nada disso teria sido possível. Ao encerrar essa jornada, dedico a ela e às minhas filhas, Laura e Claudia, cada um dos centímetros, metros e quilômetros suados, sonhados e realizados ao longo desses 40 dias de andança. Mais ainda, ao longo de toda a minha vida.

casal va

Em homenagem a elas e a São Paulo, encerro esta jornada sob a inspiração de uma música romântica, apaixonada, sugerida como trilha sonora por minha filha mais velha. CLIQUE AQUI para deixar o som rodar.

Vamo que vamo!

DIA 40 – PROJETO 460 KM POR SÃO PAULO

Clique no mapa para conhecer mais detalhes sobre o percurso do dia

mapa dia 40 12jan2014

QUILOMETRAGEM DO DIA: 7 km

TEMPO DO DIA: 1h43min56

QUILOMETRAGEM ACUMULADA: 460 km

TEMPO ACUMULADO: 106h42min22

DESTAQUES DO DIA: minhocão, centro velho, teatro Municipal, páteo do colégio, praça da Sé

 

 

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Chão de terra e sombra gostosa dão o tom no Tietê

Por Rodolfo Lucena
11/01/14 13:47

selo_rodolfo_correndoGente, falta pouco! Amanhã termino meu projeto de percorrer 460 km por São Paulo. Estou com a cabeça a mil e a musculatura em pedaços, nem sei direito como começar a história de hoje. Tenho 12 km de descobertas a relatar, mas a vontade é de falar um pouco sobre os caminhos percorridos até aqui. Como diria o meu amigo Roberto Carlos, “são tantas emoções” que a gente até se afoga nelas.

Talvez o melhor seja abrir meu coração antes de permitir que o repórter se estabeleça em frente ao computador. Passei a tarde de ontem fazendo cálculos, pensando em como gastaria os 19 quilômetros que me restavam (agora são apenas sete quilômetros). Visitei mapas internéticos, tracei percursos, inventei rotas, somei metros. Mal dormi pensando no dia de hoje e, principalmente, no dia de amanhã.

Se deixar as emoções aflorarem como querem, nem chego até amanhã, vou explodir de imaginação, tantas vezes já escrevi na minha cabeça o texto final, repeti aberturas, inventei piadas (que talvez só tenham graça para mim, vamos ver amanhã…).

Sem falar nos quilômetros sem conta rodados em pensamento, nos prédios virtualmente visitados, nas pesquisas sobre nomes de ruas, figuras da história paulistana, eventos da epopeia brasileira .

Sei não, acho melhor parar por aqui. Ontem já passou, amanhã não chegou ainda, eu quero mais é hoje. E hoje me diverti muito no Parque Ecológico do Tietê, na zona leste, no penúltimo dia de minha jornada multiquilométrica em ao próximo aniversário da cidade.

trilha 1gente

Já visitei o parque algumas vezes, todas elas por alguma razão vinculada à corrida: fiz treinos de 20 km por lá e disputei algumas provas de 10 km. Nessas ocasiões, meu percurso foi certinho, predeterminado. Rodei pelo parque, percorri rotas menos visitadas pelo público, mas não cheguei a conhecer suas trilhas, seus caminhos mais intestinos.

Hoje, não. Apesar de haver mapas com informações sobre algumas das principais trilhas, simplesmente peguei o primeiro caminho com mato que me apareceu à frente e passei a seguir meu nariz.

Chãozinho batido, sobrinha gostosa, até mesmo uma brisa fresquinha enquanto o sol não se estabelecia completamente: tudo isso me fazia sofrer. Tal combinação é um chamariz irrecusável para a corrida, e meu corpo queria correr. Gente, que vontade!!!

Quem sabe 200 metrinhos?, me dizia eu. E o joelho?, me respondia eu. Vai detonar, com certeza, me advertia eu, lembrando experiências recentes. Mas tá tão bom, me pedia eu até que eu mesmo me disse, tal pai, patrão, médico e professor: já caminhei fiquei mais de cem horas caminhando, percorri mais de 400 quilômetros a passo, tudo para proteger essa tíbia fraturada, e vou arriscar tudo numa corridinha curtinha só para experimentar?

Sai prá lá, me disse eu mesmo para mim próprio. E vamo que vamo, que caminhar é o que eu posso agora e caminhar é o que vou fazer, aproveitando o que der e o que me for possível. Amanhã tem mais e, depois, vou deixar as pernas de molho, ficar dois meses sem exercícios e um dia voltar a correr.

tilha interna

Mas isso é depois, mais tarde; agora é já. Neste momento, me entrego aos caminhos do parque e vou adorando tudo. Os caminhos estão limpos, há lixeiras, e o pessoal da segurança aparece de vez em quando, de moto, bicicleta ou carro.

O melhor é a sombra ou seria o cheiro de mato? Que tal a visão do lago? Ele não é azul nem verde como as águas que aparecem em filmes, mas é um aguão simpático, cheio de reflexos, que também alivia os olhos e a mente, tão acostumados a asfalto e prédios sem fim.

lago mt boa

Como já tive oportunidade de comentar neste espaço, meu nariz nem sempre é bom conselheiro. Ao segui-lo, às vezes me dou conta que entro em caminhos sem volta ou com retorno complicado. Foi o que aconteceu hoje: apesar de haver um caminho principal, o nariz às vezes apontava para percursos secundários e eu o ia acompanhando.

Em consequência, segui uma direção por mais quilômetros do que pretendia; se eu fosse até o fim daquele caminho, fazendo a volta natural, bordejando a rodovia, Ayrton Senna, mataria de uma vez quase todos os quilômetros do dia. Achei melhor voltar sobre meus próprios passos, tomando de vez em quando caminhos secundários.

Foi num deles que vi a primeira e única paca do dia. Também encontrei m eu primeiro quati, mas desses há de monte no parque –mais tarde descobri vários dos primos daquele animalzinho…  A paca fugiu para o mato, o quati serelepe subiu árvore acima, e eu me embrenhei em outra trilha secundária…

trilha lateral

Essa talvez tenha sido minha melhor descoberta no dia de hoje: o parque Ecológico do Tietê não tem apenas “a volta de 5”, como a gente chamava o percurso de 5 km, quase todo com sol no lombo, que percorríamos em longas e suarentas sessões de treino. Dá para inventar caminhos, somar trilhas e trilhos, conquistar sombras.

Eu diria que, para corredores que tenham carro, uma visita semanal ao parque dá saúde e alegria. Saindo cedo, para chegar lá antes das sete, não há muito trânsito no caminho nem dificuldade para encontrar lugar para estacionar. Em duas horas de corrida, dá para queimar uns 18 km, 20 km numa boa, sem muito esforço –gente mais rápida, é claro, faz mais—e sem ficar repetindo caminho.

macacos1

Falei de “corredores que tenham carro” porque não sei qual é o tamanho da complicação e do tempo investido para chegar lá usando transporte público. Dá para ir de trem, de ônibus ou de metrô e ônibus, segundo informa ESTE SITE AQUI. Bueno, de qualquer forma, acho que vale a pena. Ah, e também vale a pena passear um pouco por esse site que eu acabei de indicar, pois ele tem muita informação sobre o parque.

Os caminhos que descrevi até agora ficam do lado direito do parque, se você está de costas para a rodovia Ayrton Senna. É a parte mais selvagem da área, digamos assim. Do lado esquerdo, há todo um mundo diferente, superaproveitado por famílias nos finais de semana.

pedalinhos

Quando saí, terminando minha jornada, elas estavam chegando em hordas, com filhos de todos os tamanhos, carrinhos de bebê, caixas de isopor, bolas de futebol e muita vontade de se divertir ao sol, ao ar livre.

Há espaço para todos. O visitante pode alugar pedalinhos em forma de cisne para passear pelo lago, que é bonito, mas um tanto fedorento –de qualquer jeito, vale a diversão. Há também aluguel de bicicletas, além de um monte de quadras esportivas e campos de futebol.

Alguns deles, mais para o fundão do parque, parecem abandonadass, com grama alta tomando conta do quadrilátero verde, como diziam os antigados locutores de programas esportivos. Apesar disso, em frente ao gol a terra é seca, confirmando o dito popular sobre a desgraça do goleiro: onde ele joga nem grama nasce.

goleiro

Antes que alguém venha me corrigir, busco ajuda na sabedoria internética e descubro que a frase original é assim: “Desgraçado é o goleiro, até onde ele pisa não nasce grama” , e não é do povo, mas do jornalista, publicitário, humorista e radialista José Martins de Araújo Júnior (1924-1965), também conhecido como Don Rossé Cavaca.

Donde se conclui que percorrer 460 km por São Paulo também é cultura, porque a vida inteira repeti essa frase como fruto da sabedoria do povo (ou, no máximo, de seu representante mais filosófico, o falecido mas jamais esquecido Neném Prancha) e provavelmente a continuaria repetindo não fosse o terreno careca no gramado crescido em um dos campos de futebol do Parque Ecológico do Tietê…

Além dos campos, há um conjunto de desportos aquáticos de bom tamanho (pelo menos, pelo que pude ver de fora). Para frequentá-lo, porém, é preciso ter carteirinha e fazer exame médico, além de outros requisitos. Espero que o pessoal da região aproveite bastante (se eu morasse por ali, não sairia daquela água…).

Fiz toda essa vistoria e voltei para o caminho do lago, passando por banheiros, lanchonetes e montes de barraquinhas de comida que começavam a ser montadas. O que me interessava, porém, estava na estrada: os tais quatis. De longe, vi uma capivara gordamente se rebolando para dentro do mato. Apertei o passo para ver se a conseguia fotografar, mas já era. Os quatis, em contrapartida, pululavam por ali: quando eu ligava o celular, eles desapareciam.

Até que surgiu uma senhora carregada de filhos e saco linhas de lanche. Com por encanto, a bicharada saiu de seu esconderijo, veio à grama desprotegida e depois ao asfalto. Logo um ciclista avisou a moça que devia proteger seus pertences, pois os bichos cheiravam a comida e atacavam mesmo bolsas e sacolas à vista. De qualquer forma, consegui fotografar alguns e até FAZER UM VÍDEO (clique para vê-lo).

quatis 2

Feliz da vida, arranquei pelo parque à procura de mais trilhas. E encontrei. Há caminhos que, apesar de estarem, bem perto das alamedas principais, são cortados pela mata densa, com chão mais foto, terra preta, muitas folhas no piso e sombra eterna. Uma delícia.

Em algumas, a gente pode ver a ilha dos Macacos, que é cheia dos animaizinhos, além de outros exemplares da fauna… De outras, podemos ver o rio Tietê. Dá até uma dor no coração, vê-lo assim, tão ralinho, feioso, sujo e fedido. O Tietê é um portento (saiba mais AQUI) e merecia ser mais bem tratado pelos governos; na cidade, há planos mirabolantes para sua recuperação e devolução aos cidadãos, como você pode ver NESTA REPORTAGEM AQUI. Tomara que isso um dia saia do papel… (AQUI há mais detalhes)

Calma, Rodolfo. Voltemos ao prazer das trilhas. Na sombra, na paz, deixei meus pensamentos voltarem para este projeto. Eu caminhei todos esses quilômetros devidamente registrados, mas não teria chegado até aqui sem o apoio e a colaboração de um monte de gente, a começar pela direção da Folha, que acolheu minha proposta. No jornal, o projeto recebeu tratamento carinhoso e apresentação luxuosa na revista “sãopaulo”, além de precioso espaço no caderno “Cotidiano”.

Todos os dias, motoristas do jornal chegaram à minha porta de madrugada para me levar aos mais inusitados destinos. Agradeço a cada um deles, tomando como seu mais lídimo representante o pernambucano Valdevan Correa da Silva, ninja do volante, que me acompanhou na maio parte da jornada (saiba mais sobre ele NESTE VÍDEO AQUI).

Meus convidados foram sensacionais. Você precisava ver a reação de alguns quando, nas conversas de pré-produção, há mais de dois meses, falava que iria correr 460 km e queria que corressem um pedaço disso comigo… Na hora, foi quase tudo caminhado, e as conversas todas muito interessantes (pelo menos, eu achei; espero que você tenha gostado).

O joelho direito, claro, não foi nem um pouco sensacional. Uma fratura por estresse na cabeça da tíbia, no terceiro dia do percurso, depois de uma corrida (corrida mesmo!!!) de 20 km na avenida Sapopemba, me transformou em caminhante. Foi um aprendizado, para dizer o mínimo.

E vou parando por aqui, porque este é apenas o texto da véspera do final, somente um pré-balanço. Repito, porem, o que disse logo ao abrir a história de hoje: foram muitas emoções. Então, antes de partir, abro AQUI um cantinho para ouvir o próprio Roberto Carlos dar o recado a respeito dessas coisas do coração.

E eu me despeço, lembrando que amanhã tem mais. Vamo que vamo!

DIA 39 – PROJETO 460 KM POR SÃO PAULO

Clique no mapa para conhecer mais detalhes sobre o percurso do dia

mapa dia 39 11jan2014

QUILOMETRAGEM DO DIA: 12 km

TEMPO DO DIA: 2h29min21

QUILOMETRAGEM ACUMULADA: 453 km

TEMPO ACUMULADO: 104h58min26

QUILOMETRAGEM A CUMPRIR: 7 km

DESTAQUES DO DIA: trilhas e animais do Parque Ecológico do Tietê

 

 

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Caminhos de Paraisópolis são de mobilização e arte

Por Rodolfo Lucena
10/01/14 14:32

selo_rodolfo_correndoUm porco foi o passaporte de Gílson Rodrigues para voltar à cidade grande. Mal nasceu, esse baiano de Itambé foi dado pela mãe para um casal de italianos, mas a avó materna recuperou o garoto para a família. Criado pela avó e por tios, foi trazido para São Paulo com cinco anos. Trabalhou numa feira como carregador e vendedor de temperos, mas a experiência não durou: questões familiares o obrigaram a retornar à Bahia no início da adolescência.

Com 11 anos, só pensava no mundão que tinha descortinado em São Paulo. Na roça onde trabalhava, juntou dinheiro para comprar um porquinho, que engordou e vendeu por R$ 60. A fortuna lhe garantiu a viagem até o Rio, onde ainda ficou seis meses trabalhando, até poder voltar a São Paulo, de novo morando num barracão na favela de Paraisópolis, na zona sul de São Paulo, do lado do Morumbi, um dos bairros mais ricos da cidade.

“Meus filhos são a quarta geração da minha família vivendo aqui”, me disse hoje de manhã Gilson Rodrigues, 29, que está no último ano de seu segundo mandato como presidente da União dos Moradores e do Comércio de Paraisópolis e foi meu anfitrião na caminhada de hoje de minha jornada de 460 km por São Paulo em homenagem ao próximo aniversário da cidade.

gilson

O passeio, apesar de curto, foi bastante demorado. Em cada rua, éramos parados por alguém que cumprimentava meu anfitrião, fazia uma crítica, reclamava, apontava um problema, denunciava alguma irregularidade.

Uma senhora disse desconfiar de que havia gente se alistando para receber imóvel sem ter esse direito; outro pedia a intervenção do líder para abrir um estacionamento num prédio; e uma vovó muito ativa reclamava que todos os extintores de incêndio do prédio em que morava estavam vazios. “Se acontecer uma desgraça levo meus netos para morar na sua casa”, ameaçou ela.

São as dores do crescimento, acredita Gílson: Paraisópolis vive um processo de transformação, em que parte da área está sendo urbanizada, e os moradores estão aprendendo a viver a nova vida, como o que tem de bom e o que traz de responsabilidades diferentes. Sobre os extintores de incêndio, por exemplo, convida a tal senhora a visitar a associação e diz que vai ver o que é possível fazer; a questão, no entanto, deveria ser de responsabilidade do próprio condomínio do prédio.

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Acontece que incêndio é um dos pavores de Paraisópolis. A comunidade ainda lambe as feridas do mais recente, ocorrido há um mês e que deixou cerca de mil pessoas desabrigadas. Foi a primeira área que visitamos, no passeio de hoje, e que é exemplo das vivas diferenças existentes na comunidade.

A área queimada era de barracos montados em uma encosta, em situação de risco; os moradores tinham invadido o terreno, onde já tinham sido realizadas algumas obras de contenção. Pois bem em frente à área do incêndio, na baixada, existe uma bela obra: um pequeno auditório a céu aberto, para exibição de filmes na rua.

cinema ao ar livre

Algumas curvas e subidas depois, novamente se vê essa espécie de vida dupla, de favela e bairro de classe média, de quase classe média ou da nova classe C. Na mesma cena, constrói-se uma grande avenida, movimentam-se toneladas de terra para receber escola e área de lazer comunitário, vive-se em modernos conjuntos habitacionais e ocupam-se encostas com moradias precárias, em vielas onde há lixo espalhado, crianças sem creches e adultos que não sabem ler.

Paraisópolis é assim, um mundo: em 1 milhão de metros quadrados, contidos em encostas de morros, vivem cerca de 100 mil pessoas, mais da metade delas oriunda da Bahia. É uma população jovem –35% têm de 15 a 29 anos—e trabalhadora –21% dos moradores da comunidade que estão empregados trabalham na própria Paraisópolis, que tem 8.000 pontos comerciais e três agências bancárias, além da filial de um grande magazine.

Hoje de manhã, mais uma lojinha estava sendo aberta, a Loja Artesanal Jane. A dona fez um curso promovido pela associação de moradores (que tem um sem número de atividades, como você pode conferir no SITE OFICIAL) e se entusiasmou: passou a fazer sorvetes Jane, trufas Jane, aromatizantes Jane e por aí vai.

O caso dessa moça ilustra, de certa forma, a própria história da comunidade e da associação de moradores. Paraisópolis tem cerca de 65 anos. Os primeiros moradores eram operários vindos do Nordeste para trabalhar em grandes obras na região, como a construção do hospital Albert Einstein e do estádio do Morumbi. Ocuparam fazendas do Morumbi, terras abandonadas ou sem controle, e foram ficando (saiba mais AQUI).

No final dos anos 70, a favela, que já estava de bom tamanho, passava a incomodar as autoridades, não só por causa da pobreza mas também porque lá se encontravam, supostamente, inimigos da ditadura militar. Houve um tentativa de retomada da área e desocupação da favela, mas os moradores resistiram. Não só: reagiram e formaram a associação, nascida formalmente em 1983.

“Ela já nasceu com um objetivo: transformar a favela em bairro”, diz Gílson Rodrigues (confira ESTE VÍDEO AQUI, que gravei com ele na manhã de hoje). Assim, além de representar a comunidade e liderar movimentos em defesa da moradia, a entidade ao longo dos anos tratou de realizar projetos que abrissem oportunidades para a população local.

Fez e faz, por exemplo, cursos de formação profissional, desde o artesanato de Jane até a formação de pedreiros; há aulas para adultos analfabetos, atividades para moradores da terceira idade e muitos projetos para a juventude: cursos de balê e informática, escolinha de futebol e de rúgbi, além de aulas de judô são algumas delas. A Orquestra de Paraisópolis tem fama que vai muito além dos limites da comunidade, e a rádio e o jornal da associação ajudam a manter os moradores informados sobre o que rola na rua.

Algumas delas, por sinal, passaram a receber turistas. Em setembro passado, a associação inaugurou o programa Paraisópolis das Artes, que já levou mais de cem pessoas em passeios pela comunidade, visitando exemplos do trabalho da entidade e ateliês de artistas locais (saiba mais AQUI).

gaudi melhor

Um dos artistas é Estevão Conceição, conhecido como “Gaudi de Paraisópolis” por causa do trabalho que fez, de colagens sobre colagens em cimento e pedra, construindo grandes estruturas. O maior exemplo é a casa onde mora, que há 28 anos vem recebendo pedacinho por pedacinho de coisas –máscaras, pires, bonecas e até uma máquina de escrever, tudo cimentado na parede.

gaudi detalhe 1

O artista não estava lá na manhã de hoje, mas Gílson me contou que, apesar de morar no que alguns chamam de “castelo na favela”, o artista ainda vive de seu trabalho como jardineiro. Aliás, foi para conter uma roseira que ele construiu o suporte que acabou se transformou na gênese de sua arte (saiba mais AQUI).

maluco beleza

Outro que não conheci, porque ainda não havia chegado para iniciar as lides do dia, foi o sujeito apelidado de Maluco Beleza. Aliás, ele é conhecido assim, mas seu apelido oficial é Berbela, que dá nome à oficina mecânica onde trabalha e expõe suas criações feitas com restos de ferro-velho.

berbela 2

Eu achei tudo muito sensacional. Claro que ali há muitas contradições, pobreza e violência latente. Gílson diz que a população não se sente em risco nem vive o problema da violência, mas de vez em quando há grandes operações policias na região –a mais recente foi em 2012, quando a policial ocupou a favela com pompa e circunstância.

“Os problemas estavam acontecendo nas regiões norte e sul, mas diziam que as ordens partiam daqui”, comenta Gílson. Na caminhada de hoje, achei tudo muito tranquilo, ainda que noticiário recente tenha relatos de crimes e de pedido de aumento do policiamento.

Em um dos textos que li (AQUI), a ex-presidente do Conseg (conselho de segurança) da região, Rosa Richter, diz: “Estamos na área que é o maior contraste social da América Latina. Tem que haver um olhar especial”.

É preciso que esse olhar seja despido de preconceitos, alerta Gílson: “Paraisópolis cuida tanto do Morumbi quanto o Morumbi de Paraisópolis. As pessoas que trabalham no Morumbi, que cuidam das casas, dos filhos das pessoas do Morumbi, são de Paraisópolis, são motoristas, porteiros, babás. São os cuidadores do Morumbi”.

Ele propõe: “Temos de quebrar essas barreiras e dar as mãos, conhecer um pouco melhor uns aos outros e caminharmos juntos para poder melhorar. As duas comunidades devem se encontrar e se transformar em um bairro grande, forte, com poder de articulação e de realização”.

É um poder que, de seu lado, a comunidade mais pobre vem construindo: “Paraisópolis é uma experiência que a gente pode levar para o mundo todo, de como as pessoas se organizam, se mobilizam e transformam a realidade”, afirma Gílson.

Com o que concluo este capítulo. Vamo que vamo!

DIA 38 – PROJETO 460 KM POR SÃO PAULO

Clique no mapas para conhecer mais detalhes sobre o percurso do dia

mapa dia 38 10jan2014

QUILOMETRAGEM DO DIA: 4 km

TEMPO DO DIA: 2h05min50

QUILOMETRAGEM ACUMULADA: 441 km

TEMPO ACUMULADO: 102h29min05

QUILOMETRAGEM A CUMPRIR: 19 km

DESTAQUES DO PERCURSO: Paraisópolis, ateliês de artistas locais e atividades da associação de moradores

 

1

Lugar da USP é no coração e na memória do corredor

Por Rodolfo Lucena
09/01/14 15:49

selo_rodolfo_correndoAinda via, lá longe, a camiseta amarela. O sujeito que a vestia era grande, despontava entre a massa de corredores. Já estivera muito mais distante, agora se transformava num alvo possível, talvez a 300 metros, quem sabe a 200 metros. Não sabia ainda calcular distâncias, mas tinha certeza de que queria alcançá-lo, passar dele: derrotar o rival seria a medida do sucesso.

Rival, aliás, inventado ali mesmo, na hora. Não tinha nada contra o tal fulano, que conhecera em outros carnavais, nas lides informatas, e agora via ali, tal como eu, meio pelado para o calça-paletó-gravata que costumávamos vestir no cotidiano. Por certo, ele nem me percebera, mas isso não importava; o que valia era que eu estava mais perto.

Ele entrou no estádio, na parte decisiva da prova, e eu cruzei o portão talvez uns 20 metros atrás; eu estava na reta, ela já na primeira curva. Mas ele parecia enfraquecer, eu acelerava. Ele na segunda curva, eu já passando a primeira, entramos na reta e eu estava na cola do sujeito. Acelerei mais, acelerei mais, o pórtico parecia crescer, ficar enorme, assim como o sujeito de camiseta amarela.

Passei, fui o primeiro, venci, cruzei gritando a linha de chegada na minha primeira corrida de rua, já lá se vão mais de 15 anos. Não se assuste, não fui o campeão na geral, muito menos na faixa etária; como em todas as outras corridas de minha vida, porém, fui o vencedor na minha categoria, a de mim mesmo.

Era o mês de maio de 1998, e o local a Cidade Universitária, o campus principal da Universidade de São Paulo, na região oeste da cidade. Centro da intelectualidade brasileira, coração da pesquisa científica do país, é também o maior cenário de encontro de corredores, que aos sábados costumam lavar com suor o asfalto de suas alamedas. Quase 16 anos mais tarde, fiz da USP meu destino de hoje na reta final de meu percurso de 460 km por São Paulo, em homenagem ao próximo aniversário da cidade.

Confesso que, por várias vezes, relutei em incluí-la no meu trajeto. Conhecida demais, carne de vaca, pensava eu. Não há, porém, como dissociá-la do mundo das corridas, do atletismo, da busca de saúde e diversão.

1 arvore

Quando comecei a frequentar a Cidade Universitária, por sinal, era diversão e descanso que buscava. Nos domingos de sol, levava minhas filhas para desfrutar dos gramados, do sol, das sombras. Hoje a Cidade Universitária não é aberta ao público aos domingos, mas, nas manhãs de sábado, fica engalanada pela presença de milhares de atletas amadores –já vi cálculos estimando em 10 mil pessoas a frequência nas sabatinas.

Há corredores e ciclistas, num convívio de equilíbrio instável, que às vezes explode em bate-boca, briga ou acidente (não tenho dados para julgar com precisão, mas fico com a impressão de que esses acontecimentos menos felizes estão menos frequentes).

Para evitar a muvuca, preferi a manhã de hoje. Imaginava que seria uma trajeto solitário e desde ontem me preparava psicologicamente para enfrentar longas horas de conversa comigo mesmo. Para minha sorte, porém, encontrei um corredor, colega de longa data, que se juntou à minha caminhada, tornando tudo muito mais fácil e divertido.

Mesmo assim, enquanto conversávamos, uma parte de mim mergulhava na ladeira da memória. Cada pedaço de asfalto fez parte de um treino; cada metro de trilha me acompanhou em algum momento da minha vida de corredor.

Quando me recuperava de minha primeira fratura por estresse, por exemplo, usava apenas a grama. Quando fiz a preparação para minha primeira ultramaratona, rodei quatro vezes seguidas a “volta da USP”, um treino de cinco horas do qual saí convencido de que estava pronto para enfrentar os morros e o sol da África do Sul (estava mesmo!).

chafariz mlehor

A tal “volta da USP” é um percurso de dez quilômetros com algumas subidas e descidas leves, mais a temida escalada da Biologia e a veloz rampa abaixo da Arquitetura. Na época, alguma provas “oficiais” usavam esse trajeto –hoje quase todas dão preferência para roteiros mais planos e menos complicados–, mas meu debute foi em circuito diferente.

A minha primeira corrida teve apenas oito quilômetros e consistiu de duas voltas na avenida em frente à raia de remo, com o final na pista de atletismo do estádio. Resumo da ópera: vai 2 km, volta 2 km, repete o feito e termina o estádio, sob o aplauso das arquibancadas. Que não estavam lotadas, mas tinham minha mulher e minhas filhas, o que era tudo o que eu precisava e queria…

Caminhando hoje, revi a curva do retorno, no fundão da reta da avenida Professor Mello Moraes (é a primeira vez que leio, escrevo ou ouço o nome oficial da avenida da raia). Prezado leitor, estimada leitora, você não imagina como essa curva demorou a chegar, na primeira volta de minha primeira corrida.

Eu lembro de ver os atletas voltando; fazia o maior esforço para entender onde ficava o ponto de retorno, mas estava distante de minha vista. Quanto mais corrida, o ponto de retorno parecia mais distante; eu bufava, resfolegava e seguia correndo, algum dia ia ter de haver uma curva, algum dia eu ia começar a voltar também.

Depois, passou; fui passando alguns atletas, encontrando o caminho de mim mesmo até que descobri o alvo, acho que foi lá pelo km 5 ou 6, e aí tudo ficou mais fácil –ou, pelo menos, é assim que eu vejo olhando de longe, quase 16 anos depois, feliz por saber do resultado daquele desafio.

A USP, claro, não é só corrida; aliás, como é evidente, corrida é apenas um aspecto secundário, lateral, do portento que é essa universidade. “Sua graduação é formada por 240 cursos, dedicados a todas as áreas do conhecimento, distribuídos em 42 unidades de ensino e pesquisa e oferecidos a mais de 57 mil alunos. A pós-graduação é composta por 239 programas (totalizando 308 cursos de mestrado e 299 de doutorado)”, diz o site oficial, AQUI.

Mais importante que a numerália, é sua história de templo da ciência e da cultura –hoje em dia, segundo ouço, há divergências quanto à excelência da universidade, mas, de qualquer forma, fica o registro. Tem um passado de intelectualidade irrequieta, de espírito crítico e contestador –não por acaso, teve muitos de seus professores (os melhores da época, alguém poderia argumentar) cassados, perseguidos e até banidos pela ditadura militar.

Mesmo assim, a USP foi por muitos anos um centro de resistência à opressão. Eu ainda morava em Porto Alegre quando o Crusp (Conjunto residencial da USP) se tornou símbolo de luta pelas liberdades democráticas (saiba mais AQUI, por um site oficial, e AQUI, com um olhar diferente; AQUI estão os registros do inquérito feito pela ditadura).

Já em São Paulo, tive oportunidade de presenciar as grandes manifestações que tiveram como resultado o impeachment do ex-presidente Collor –lembro de um ato em que todos foram vestidos de preto, em resposta à convocação presidencial para que o povo usasse verde-amarelo.

Hoje, acompanho à distância os entreveros que lá acontecem. Participo apenas de corridas e passeios, faço de lá palco para alguns treinos de excelência.

Adoro visitar, por exemplo, o bosque da USP, um local totalmente excelente, como diria Paulo Bonfá no saudoso programa “Rock Gol”.

argolas

Quando lá fazia os tais passeios dominicais com minhas filhas, era certo parar na área das argolas; as meninas adoravam se balançar ali, deixando o pai cheio de medo e orgulho (vai que uma caia!!!).

Hoje, o que mais prezo são a sombra e o piso de terra batida, uma raridade nesta São Paulo de cimento, asfalto e fumaça. A volta ali tem um quilometrozinho, faz-se num zás-trás e é uma delícia.

Em treino, é claro, é melhor repeti-la algumas vezes antes de seguir asfalto afora; hoje, porém, fiquei apenas no reconhecimento mínimo e indispensável.

bosque

No asfalto, gosto das longas subidas do “final” da USP, passando pela prefeitura e voltando pela avenida do hospital; ainda que não tão íngreme quanto a da Biologia, essa ascensão é demorada, exige resistência e determinação, permite avaliar o ritmo e o fôlego.

Gosto também de me embrenhar por alamedas menos usadas, sair fora do trilho comum da volta já conhecida. Foi numa dessas que descobri uma subida que leva a uma das unidades do Instituto de Física; no alto é o estacionamento do prédio e, de lá, tem-se uma vista sensacional da cidade.

Às vezes, vou até lá só para ficar parado, besta, olhando esse monumento que é São Paulo. Subo num banco que parece estar à minha espera, dirijo a vista para a zona oeste, bebo com os olhos a serra da Cantareira e o pico do Jaraguá, giro o corpo para atacar o centro, a Paulista, a cidade inteira parece estar ali e é de quem viu primeiro.

vista 3

Hoje sei que não está. Um dia, num texto aqui do blog, escrevi que São Paulo é um mar. Cada vez mais, descubro que não é. Mais se parece, talvez, com um sistema solar, uma galáxia, cheio de planetas de tamanhos e poder diversos, distantes uns dos outros, mas vinculados entre si. E não é de quem viu primeiro, não é de ninguém e é de todos nós.

Melhor parar por aqui, se não viro poeta, apóstolo ou louco (um pouco mais do que sou…). Vamo que vamo!

DIA 37 – PROJETO 460 KM POR SÃO PAULO

Clique no mapa para conhecer mais detalhes sobre o percurso do dia

mapa dia 37 09jan2014

QUILOMETRAGEM DO DIA: 15 km

TEMPO DO DIA: 2h55min52

QUILOMETRAGEM ACUMULADA: 437 km

TEMPO ACUMULADO: 100h23min15

QUILOMETRAGEM A CUMPRIR: 23 km

DESTAQUES DO PERCURSO: Cidade Universitária, com seu bosque e suas alamedas

6

Granito de Guaianases, testemunha da história do planeta

Por Rodolfo Lucena
08/01/14 16:36

selo_rodolfo_correndoQuando Napoleão invadiu o Egito, no final do século 18, ficou impressionado com as construções realizadas pelos faraós, na Antiguidade. Para sublinhar a importância do momento, disse a seus soldados: “Do alto dessas pirâmides, quarenta séculos vos contemplam.” Pois no Granito de Guaianases, na zona leste de São Paulo, algum guia turístico ou professor mais entusiasmado pode dizer a seu público atento: “Do alto dessa pedreira, seis milhões de séculos vos contemplam”.

Não estou sendo gaiato não. A formação rochosa que aflora à nossa vista, no local onde foi uma antiga pedreira, tem em torno de 600 milhões de anos, segundo me conta a geóloga Stella Cristina Alves de Souza, 47. Ela trabalha na subprefeitura da região e criou a Visita Técnica a Sítios Geológicos em Guaianases, que apresenta locais do bairro onde ainda é possível ver rochas e aprender um pouco sobre a história da cidade.

O tal Granito é um portento. Trata-se de um paredão que, talvez por causa da exploração da rocha, quebrada para ser vendida como brita, acabou ficando numa formação em anel.

É quase uma superpiscina natural, hoje empregada como parte das obras de combate a enchentes da região. Chamada de Piscinão da Pedreira, é o maior do gênero na capital, com capacidade para 1,5 milhão de metros cúbicos de água, quase cinco vezes a capacidade do segundo maior da cidade, o do Jabaquara.

granito 1

Hoje, havia trabalhadores no local cuidando da limpeza da área, e o equipamento de bombeamento da água aparentemente estava funcionando. Mas, para mim, o que interessava era saber mais sobre o tal granito.

Por sorte, como você viu na imagem acima, o nível da água estava bem baixo e dava para ver a rocha em toda sua grandiosidade (no olhômetro, calculo que o paredão tenha mais de 60 metros de largura e mais de 20 metros de altura, a partir do nível em que água estava hoje).

paredao 2

“É uma viagem ao centro da terra”, diz Stela, que foi minha convidada/anfitriã na jornada de hoje no meu percurso de 460 km por São Paulo, em homenagem ao próximo aniversário da cidade. Trata-se de uma metáfora, é claro: observando a rocha, podemos imaginar o que ocorreu para que ela se formasse (confira AQUI VÍDEO em que a geóloga dá mais explicações).

O tipo de rocha ali encontrada é o granitoide, e a idade aproximada das rochas está entre 540 milhões e 600 milhões de anos. Ela se formou nas profundezas da crosta terrestre, entre 70 km e 650 km da superfície (o que já seria abaixo da crosta, na região chamada manto). Surgiu a partir da colisão de placas tectônicas, no movimento de encontro das áreas onde hoje são o Brasil e o continente africano.

Stella me explica que “há duas possibilidades para a gênese do granitoide, uma delas é que essas rochas foram formadas a partir de material (magma) proveniente do manto (fonte mantélica) por algum processo que o diferenciou e o tornou da forma como ele se apresenta, provavelmente com contaminação dos materiais da crosta (contaminação crustal), visto na grande quantidade aparente dos minerais quartzo e muscovita (mica). Outra possibilidade é que este material tenha se formado dentro da crosta, com materiais da própria crosta (fonte crustal), por meio de um aquecimento local diferenciado. Somente estudos geológicos mais aprofundados darão a resposta definitiva para esta questão. De qualquer forma é uma rocha de origem em grande profundidade, no mínimo no nível da crosta inferior.”

Na minha ignorância geológica, pensava que a porção terrestre do planeta havia tido apenas dois grande momentos, um em que tudo estava mais ou menos junto, formando um grande continente, e outro em que as placas começaram a se separar até chegarem na condição atual.

Nananina, me diz Stella, mostrando mapas da história geológica da terra. Houve vários movimentos de encontros e separações, abraços e partidas das placas. E cada colisão dessas deixou marcas que chegaram até a superfície do planeta.

Grande parte delas já não está à vista, por causa da obra humana, enchendo a terra de casas, edifícios, concreto e asfalto, ocupando centímetro quadrado por centímetro quadrado, como mostra essa visão da região leste de São Paulo, onde o verde pouco aparece.

01 vista da cidade

O que, na opinião de Stella, aumenta a importância científica, turística e, digamos assim, humana, de preservar os sítios geológicos. O primeiro que visitamos, por sinal, traz indícios de dos momentos geológicos profundamente distintos no tempo e no espaço.

Trata-se do sítio geológico Etelvina, onde se entra passando por um campo de futebol de várzea. “Em menos de duzentos metros, vemos unidades de duas eras muito diferentes”, diz Stella, apontado para pedregulhos que, para mim, não parecem mais do que isso mesmo…

01 turmalina mica

Aos poucos, porém, percebo que há diferenças. Num pequeno monte coberto de terra vermelha, há um veio de pedrinhas coloridas e outras mais achatadas e quebradiças. São as turmalinas, consideradas pedras semipreciosas, e a mica, que os mais antigos talvez conheçam por seu uso como resistência nos ferros de passar roupa.

Devo confessar que eu me lembro. Para trocar a tal resistência, era preciso desatarrachar a chapa do ferro, onde ele ficava encaixada. Quebrada, não servia mais para prover o calor necessário para o ferro poder alisar as roupas.

Esses minerais são encontrados no Complexo Embu. Já eu não encontrei uma definição compreensível do que seja “complexo”; para você ter uma ideia, há um estudo que diz: “ O Complexo Embu foi intrudido em períodos pré-metamórficos por rochas tonalíticas a graníticas de afinidade cálcio-alcalina; e, posteriormente à foliação principal, por maciços sin a tardi-tectônicos constituídos de biotita granitos porfiríticos e muscovita-biotita granitos equigranulares”.  Fiquei boiando, mas dá para entender que se trata de um terreno com características específicas.

stella1

Outro sítio é a Formação Rezende, que onde é encontrado um terreno argiloso, e se formou na superfície, originada de um processo de sedimentação (êba, isso dá para entender: a partir da erosão de rochas maiores, as partículas vão se depositando em uma área. Isso ocorreu há relativamente pouco tempo, entre 24 milhões e 25 milhões de anos, no processo de separação das placas onde hoje estão Brasil e África, diz Stella (foto acima).

Já as rochas do complexo Embu se formaram a uma profundidade de 20 km a 30 km, durante um processo de colisão das placas tectônicas, há 780 milhões de anos, quando ocorreu a união do que hoje são Brasil e África.

O resultado são o xisto, turmalinita e quartzito na parte superantiga, e a argila na mais modernosa –tudo numa área de uns 200 metros, sem que haja indícios da região de rochas dos períodos intermediários. O que ocorreu para que isso acontecesse não se sabe: a área ainda está para ser estudada em profundidade.

“A ideia da Visita Técnica é mais por dúvidas do que dar respostas”, diz Stella. Ela explica que o conhecimento que existe hoje sobre os sítios é baseado em inferências, em informações obtidas com o estudo de rochas e áreas semelhantes. Não há, até agora, estudos específicos da região.

E a área merece, diz ela, apresentando um outro terreno que demonstra o resultado dos movimentos dos intestinos do planeta. É o sítio Juscelino,  aonde chegamos dando a volta em ou outro campo de futebol, este usado para um trabalho de inclusão social com a garotada da região (talvez por ironia, fica em frente a uma unidade da Fundação Casa, antiga Febem, que abriga menores infratores).

Como em muitas áreas abertas da cidade, ali também há lixo, ainda que não muito. Por isso, chamava a atenção a sombrinha abandonada sob o sol…

sombrinha

Não há nada muito marcante nem tão chamativo quanto o Granito de Guaianases. “As áreas que vamos visitar não são muito bonitas”, avisou Stella no início da manhã de hoje, antes de sairmos a conhecer os sítios geológicos.

Podem não ser, mas são curiosas. No sítio Juscelino, há o que ela chama de “mar de dobras” (as partes mais escuras na foto abaixo), que são indicadores cinemáticos, ou seja, marcas do movimento das placas tectônicas. Aliás, eu venho usando essa expressão aqui, mas ninguém é obrigado a saber o que são: “gigantescos blocos que compõem a camada sólida externa do nosso planeta, sustentando os continentes e os oceanos”, segundo explica este SITE AQUI; há mais explicações AQUI.

mar de dobras

Não tenho a menor pretensão de transformar este texto numa aula de geologia, mas espero que tenha conseguido, pelo menos, mostrar a importância de preservar áreas que podem funcionar como um museu a céu aberto, na opinião de Stella: “Nós queremos mostrar que a história de Guaianases não começa quando o povoado se formou, mas sim muito tempo antes. É uma forma de a gente conhecer mais o nosso chão”.

Falando na história do bairro, era um território habitado por índios –daí o nome da  região. Como no resto do Brasil, já no início do século 19 os primeiros donos da terra tinham sido expulsos ou exterminados, e vicejava a propriedade privada. Havia fazendas e olarias; no século passado, começa a exploração das rochas, com a abertura de pedreiras (AQUI há mais informações sobre Guaianases).

No total, então visitei os três sítios geológicos, que devem virar parques em algum momento no futuro (saiba mais AQUI). Infelizmente, porém, não sei exatamente quanto caminhei na manhã de hoje: logo depois da visita ao primeiro sítio, meu GPS de pulso arriou. Juro que carreguei o bicho ontem, e que as informações na tela diziam que a carga da bateria estava completa. Alguma coisa aconteceu ou eu fiz algo errado e deu no que deu: primeiro, “low battery”; depois, morte total.

Mal sabia ele, porém, que eu tinha um estepe: carreguei meu celular com dois programas de medição de caminhadas e corridas. Usei um deles, que já havia testado anteriormente; foi ele que gerou o segundo e o terceiro mapas aqui apresentados. Para cálculo de distância, porém, não tenho muita confiança: percebi, nos testes anteriores, que ele estava medindo a mais.

Parece estranho, não? Como é que ele faz mapas bons, mas tem medição ruim? O comparativo foi feito com meu GPS de pulso, no qual confio mais. Assim, vou dar um desconto de mais de 30% na distância medida pelo aplicativo: no total, deu mais de três quilômetros nas caminhadas nos três sítios (a gente foi de carro de um a outro local). Vou contar apenas dois quilômetros e estabelecer um tempo total de 60 minutos (ficamos cerca de 20 minutos em cada sítio).

Do ponto de vista estatístico, é o que temos. Amanhã tem mais. Vamo que vamo!

DIA 36 – PROJETO 460 KM POR SÃO PAULO

Clique nos mapas para conhecer mais detalhes sobre os percursos do dia; a numerália é do total do dia

Aqui é o Sítio Geológico Etelevina

mapa dia 36 parte 1 08jan2014

Aqui é o Sítio Geológico Juscelino

mapa dia 36 parte 2 08jan2014 juscelino

Aqui é o Granito de Guaianases

mapa dia 36 parte 3 08jan2014

QUILOMETRAGEM DO DIA: 2 km

TEMPO DO DIA: 1h

QUILOMETRAGEM ACUMULADA: 422 km

TEMPO ACUMULADO: 97h27min23

QUILOMETRAGEM A CUMPRIR: 38 km

DESTAQUES DO PERCURSO: Granito de Guaianases e outros sítios geológicos do bairro da zona leste de São Paulo

 

 

10

Alamedas de cemitério são palco de treino de fotógrafo

Por Rodolfo Lucena
07/01/14 14:05

selo_rodolfo_correndoUma piscina gigantesca, quadras poliesportivas, canchas de tênis, pista de corrida com piso de carvão, campos de futebol e de rúgbi –eis apenas alguns dos recursos disponíveis no Parque Esportivo dos Trabalhadores, antigo Ceret, na confluência de Tatuapé, Jardim Anália Franco e Vila Formosa, na zona lesta de São Paulo.

Foi lá que comecei o meu trajeto de hoje, com o fotógrafo-corredor Marcos Viana “Pinguim”, que foi meu convidado/anfitrião neste dia, em mais numa etapa de meu percurso de 460 km em homenagem ao próximo aniversário de São Paulo.
Apesar de ser o “antigo Ceret”, é pelo nome tradicional que o parque é conhecido. A banca de jornais que fica em frente, por exemplo, chama-se Banca Ceret, sigla que significa Centro Educativo Recreativo e Esportivo do Trabalhador. Pelo que entendi, a área era território do Estado; hoje, porém, está sob administração da prefeitura.

Tudo lá é grandioso, começar pela área de entrada principal, que é dominada por uma reprodução do “David”, de Michelangelo, em proporções enormes. O parque, em si, não é gigantesco, mas se sobressai na região –é cerca de três vezes maior, por exemplo, do que o parque do Piqueri.

1 davd

O mais legal é que essa área toda está ocupada com equipamentos para a prática esportiva –nessa condição, foi o único parque que vi. A pista de corrida é de babar e fica aberta para qualquer um, desde que obedeça a regras básicas de convivência –mais rápidos ficam numa área, mais lentos noutra, e todos rodam no mesmo sentido.

Nascido e criado na Vila Formosa, Viana vai me mostrando o parque, que é cheio de orgulho: sua piscina, por exemplo, é a maior da América Latina, segundo afirma o portal da prefeitura. Por suas alamedas, dá para fazer uma volta de 1.500 m e ainda há outros percursos; há rampas bem pronunciadas, usadas para treinos de força e resistência de corredores que frequentam o PET.

3 piscina

Ficamos pouco tempo por lá, porque nosso destino era o verdadeiro playground e principal centro de treinamento de meu convidado/anfitrião: o cemitério de Vila Formosa. Segundo a prefeitura paulistana, é o maior da América Latina, com cerca de 770 mil metros quadrados –é a quarta maior área verde do município, superado apenas pelos parque Anhanguera, Ibirapuera e do Carmo.

No caminho até lá, passamos por ruas pacatas da zona leste, que têm um jeitinho de cidade do interior. No caminho, Pinguim vai contando um pouco de sua história até virar fotógrafo-corredor. Aliás, eu uso essa expressão porque é isso mesmo que ele faz: corre as provas carregando seu equipamento fotográfico e captura imagens dos corredores, que se transformam em clientes.

Formado em processamento de dados no ano de 1985, desde essa época prestava serviços na área de informática, desenvolvendo programas. Gostava de correr –sua primeira São Silvestre foi em 1981, quando tinha 15 anos—e de apreciar corridas. Era o que fazia na Paulista, São Silvestre de 1994, quando muitos atletas fizeram homenagens a Ayrton Senna, que tinha morrido em um acidente em maio daquele ano.

Pinguim fotografou um grupo, as pessoas pediram que ele mandasse fotos individuais. Cobrou pelo trabalho e percebeu que isso poderia ser uma fonte de renda extra –que, aos pouco, se transformou em sua principal atividade profissional.

Enquanto isso, seguia seus treinos, voltando de quando em vez ao cemitério, que frequentava desde menino. “A gente corria por lá, pulava, empinava pipa, caçava balão…”

8 alameda

Hoje ele continua correndo por lá, buscando as alamedas de chão de terra, as subidas e descidas fortes, como forma de se preparar melhor para sua diversão, que também é seu trabalho –ou seria o contrário?

Pinguim tem um extenso currículo de corredor. Já fez 48 maratonas e seis ultras  –provas mais longas que maratona. Seu melhor tempo, carregando o equipamento fotográfico, é de 3h57, na maratona de São Paulo, e o recorde pessoal é de 3h41. Mais impressionante, talvez, é a marca de 5h12, com câmera, nos 50 km da Supermaratona de Nova Friburgo (RJ).

Sobre os treinos no cemitério, ele diz: “Não faço isso porque sou gótico ou qualquer outra coisa, faço porque é prático, fica do lado da minha casa”. Graças a essa preparação, afirma ele, tem resistência para correr e fotografar provas de montanha e corridas em trilha, como tem feito.

E, conforme ele diz, o cemitério, de fato, daria um belo parque. Aliás, um de seus administradores já teve como meta aumentar o uso da área pela população vizinha, segundo registra reportagem publicada na revista Babel – LEIA AQUI, o texto é muito interessante, cheio de informações curiosas sobre o cemitério. Sobre isso, vale também conferir o livro “Metrópole da Morte, Necrópole da Vida”, que aponta usos pouco convencionais do cemitério (saiba mais AQUI).

Na manhã de hoje, vi apenas um sujeito passeando com dois belos cães golden retriever e um corredor que fazia um treinão de ritmo, metendo 15 km no percurso “muro a muro”, como diz Pinguim.

pinguim

O trajeto preferido do meu anfitrião tem aproximadamente 4 km e é feito quase todo sobre chão batido, um pouco de grama  –o piso mais adverso é de paralelepípedo, mas em apena poucas centenas de metros em uma alameda.

Há silêncio e ar gostoso. Há também memórias terríveis –há cerca de três anos, foram descobertas no parque ossadas de corpos que haviam sido enterrados sem identificação. A suspeita era de que se tratava de vítimas da ditadura militar.

Um dos desaparecidos que poderia ter sido enterrado lá, segundo ESTA REPORTAGEM, é “Virgílio Gomes da Silva, líder sindical e veterano da ALN (Ação Libertadora Nacional) que, sob o codinome Jonas, integrou o comando do sequestro do embaixador americano Charles Elbrick, em 1969”.

12307489  Luis Lima Folhapress

Parentes das vítimas da ditadura chegaram a participar, em 2012, de uma manifestação realizada no próprio cemitério de Vila Formosa (foto Lucas Lima/Folhapress). Mas, até o final daquele ano, pelo menos, nenhum das ossadas havia sido identificada, de acordo com o que diz ESTA REPORTAGEM.

Talvez por isso, não exista no local algum marco de referência ou memorial –pelo menos, não vi nada semelhante. O que há, mesmo, é muita tranquilidade. E trabalho: na manhã ensolarada de hoje, havia muita gente carpindo o loca, arrumando sepulturas, dando um jeito no terreno.

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Mesmo assim, há muitas áreas de capim alto e mesmo locais usados para descarte clandestino de lixo. Encontrei, por exemplo, esse velho monitor jogado numa estradinha perdida do cemitério…

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Encontramos também muitos pássaros, que alegram o ambiente. E podem proporcionar cenas dramáticas de caça mortífera, como o momento em que um gaviãozinho (ou sei lá que ave de rapina de pequeno porte) captura uma pomba e voa carregando sua presa. Essa imagem nem eu nem o fotógrafo-corredor conseguimos captar. Ficou, pelo menos, o registro da pomba morta no chão do cemitério de Vila Formosa.

pomba

Vamo que vamo!

DIA 35 – PROJETO 460 KM POR SÃO PAULO

Clique no mapas para conhecer mais detalhes sobre o percurso do dia

mapa dia 35 07jan2014

QUILOMETRAGEM DO DIA: 10 km

TEMPO DO DIA: 2h31min37

QUILOMETRAGEM ACUMULADA: 420 km

TEMPO ACUMULADO: 96h27min23

QUILOMETRAGEM A CUMPRIR: 40 km

DESTAQUES DO PERCURSO: Centro Esportivo dos Trabalhadores, cemitério da Vila Formosa

 

 

2

Roger, a juventude e o voo da coruja

Por Rodolfo Lucena
06/01/14 20:22

selo_rodolfo_correndoTava na cara que aquilo não ia dar certo. A menina vinha subindo a rua, resfolegando, tentando controlar dois cachorros indóceis, o garoto que seguia na direção oposta imaginava aqueles boxers enormes saltando por cima dele, os bichos estavam babando, quase rasgando a coleira… Escaparam!

“Quando vi, estava em cima do muro, não sei como subi lá, era um muro mais alto que eu, foi a adrenalina”, diz Roger Moreira, do Ultraje a Rigor, rememorando um de seus feitos atléticos da infância, que não teve muitos. “Na escola, o pessoal me excluía um pouco porque eu era perna de pau”.

Hoje, com 57 anos e pai de uma menina de um aninho, o criador de sucessos como “Inútil” e “Nós Vamos Invadir Sua Praia” continua sem ser o maior esportista do mundo, mas tem uma longa carreira de skatista, experiência no surfe com prancha longa, alguma habilidade no tênis e melhorou muito no futebol. Até caminhadas está enfrentando: foi o meu convidado/anfitrião de hoje, em mais uma jornada do meu percurso de 460 km por São Paulo em homenagem ao próximo aniversário da cidade.

A gente se encontrou em frente ao parque Burle Marx, na zona sul de São Paulo. Ele chegou vestindo uma camiseta em que estava escrito “Jovem é uma merda”, letras pretas sobre fundo branco. Eu não dei muita bola, porque estava mais preocupado com percurso que faríamos: pelo que lembrava do parque, que visitara apenas uma vez, era pouco mais do que uma pracinha, tudo de concreto, nós iríamos virar hamsters andando centenas de voltas em torno de um laguinho ou coisa que o valha.

Não contava, porém, com os amplos conhecimentos de Roger a respeito da geografia do local. “Quando vim para cá, isso aqui era tudo aberto, aqui em volta eram fazendas”, diz ele, que vive no Morumbi há 25, em um condomínio loteado por um ex-criador de galinhas.

Logo percebi que o parque Burle Marx era muito mais do que eu tinha visto inicialmente. Havia, é claro, os belos jardins projetados pelo artista do verde, abrigando “um espelho d’água, um conjunto de painéis escultóricos, palmeiras imperiais, um lindo pergolado e um gramado de duas cores que imita um tabuleiro de xadrez”, como descreve o site oficial, que também traz interessantes informações históricas.

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O gramado enxadrístico é lindo, as esculturas são sensacionais, mas não há espaço ali para caminhar. Roger mostrou outros caminhos: descendo uma alameda, chega-se à entrada das trilhas do parque. E aí é só alegria: chão de terra, sombra, subidas, descidas, tudo num desenho de idas e vindas, quase um labirinto, que é para aproveitar melhor o espaço minguado.

Na caminhada, fui aprendendo mais sobre o cantor e guitarrista paulistano, que aprendeu a ler aos três anos –mais tarde, descobriu-se dono de um QI privilegiado e hoje faz parte de uma associação que reúne pessoas de elevado quociente de inteligência.

Não é nada do outro mundo, afirma ele, e os superdotados têm os mesmos tiques e fraquezas de todo nós. “Você pede uma dica de uma planilha e aparecem quatro sugestões, cada um dizendo que a solução dele é a melhor.”

O fato de ter sido geniozinho na escola pode tê-lo deixado um pouco longe dos esportes, mas nem tanto: ainda menino, pegava jacaré com aquelas madeiras redondas e, antes de surfar, aprendeu a cortar onda no body board.

Sabia que queria fazer música, mas, para contentar a família, entrou para a faculdade de arquitetura. Não sossegou, porém, enquanto não foi para os Estados Unidos, onde pretendia aprimora seus conhecimentos musicais em uma escola em Boston.

Seu destino inicial foi San Francisco, onde tinha um porto seguro na casa da irmã que já morava lá. Para pagar os estudos, foi faxineiro, trabalhou como diarista, entregou pizza e chegou a gerente de pizzaria.

Desses trabalhos, o que mais o divertiu foi o de entregador de menus de pizzeria. “Saía carregado, com as sacolas cheias de papel, mas caminhava bastante, parava um pouco, seguia, ia conhecendo a cidade.”

Mesmo com tanta labuta não deu para bancar a faculdade nos EUA, e Roger voltou para o Brasil: “Não estudei música, mas chegando aqui comecei com a banda. Comecei meio de farra, tocando em festinhas, depois procurando barzinhos, o negocio foi dando certo…”

Além dos covers, surgiram as composições próprias. “Voltei em 1980… Em 82, a gente tinha uma seleção sensacional que perdeu a copa, e foi quando eu compus `Inútil`, meio que nesse feeling: pô, nem o futebol, que a gente fazia direito, dá certo…”

O Ultraje a Rigor, pelo menos, fez um sucesso danado. Segundo o que me diz a Wikipedia, “em 1985 a banda ficou nacionalmente conhecida pelo álbum Nós Vamos Invadir Sua Praia, que trouxe o primeiro disco de ouro e platina para o rock nacional. O mesmo álbum, mais tarde, acabou sendo consagrado como o melhor álbum de rock nacional pela Revista MTV, em dezembro de 2008”.

Apesar do sucesso, os caras seguem trabalhando. Reduziram o número de shows, mas estão firmes na TV. Agora é época de férias, e Roger diz que pretende retomar alguma atividade física. “Até o fim de fevereiro, pretendo surfar pelo menos um Mês, fazer umas caminhadas, fazer uma ginástica, ver se eu perco pelo menos uns cinco quilos…”

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A jornada de hoje foi um bom começo. As subidas nas trilhas e escadarias encravadas na terra no Burle Marx já deixaram o cara de língua de fora, como na foto acima.

Brincadeira, pessoal, o sujeito nem ficou tão cansado assim, como você pode conferir NESTE VÍDEO AQUI, em que Roger resume sua experiência na tarde de hoje.

Além das prometidas caminhadas, é bem possível que arrume tempo para descer algumas rampas no Morumbi; afinal, é skatista desde o final da adolescência. “Eu tinha 17, 18 anos, a gente comprava rodinhas de patins na Água Branca, fazia a própria tábua, parafusava… Era tosco, as rodinhas quebravam. Eu vinha fazer aqui no Morumbi, embora morasse na Vila Mariana. Tinha muito pouco trânsito na época”.

Hoje ele vive no Morumbi e já não tem mais 18 anos. Talvez por isso use a tal camiseta em que está escrito: “Jovem é uma merda”. É mesmo?, pergunto a ele.

A resposta: “É uma merda. Falo por conhecimento próprio, eu mesmo. Tem uma frase muito legal: `Antes de você ser um velho sábio, você precisa ter sido um jovem idiota`”.

Com o que, aos risos, encerramos a conversa e a caminhada e fomos tomar um pouco de água gelada –Roger não bebe nem usa drogas desde os idos dos anos 1980.

E onde entra a coruja que coloquei lá no título?

Não entra: ela faz parte de outra história. Como a caminhada com Roger seria à tarde, resolvi fazer um trajeto sozinho pela manhã, para que o parque Villa-Lobos fique registrado nesta jornada pela cidade.

O Villa-Lobos está uma beleza, agora ampliado com a recente abertura de um primo que é também um extensão: o parque Cândido Portinari, inaugurado no finalzinho do ano passado “inacabado e com lama”, como diz esta reportagem AQUI.

O novo espaço rouba parte do antigo estacionamento interno do Villa e ainda pega um trecho do talude que fica mais perto da estação de trens Villa-Lobos-Jaguaré. Já está bem arrumadinho e foi um prazer correr por lá.

Há apena um área do Villa-Lobos, atrás dos campos de futebol, que parece ter sido esquecida pelos cortadores de grama: quem corre por ali preciso tomar cuidado para não se embaraçar nas touceiras do caminho e levar um tombão daqueles…

Por lá também costumam ficar corujas e hoje me preparei para ver se capturava a imagem de alguma. Pois não é que, quando subia uma escada do talude, vi uma bela e grandota corujinha, com os olhos maiores do que o corpo, parecendo até fazer pose para a câmera?

Ela estava, porém, numa área de sombra. Preparei a máquina, esperando que o bicho desse um passinho para trás. Ela voou.

Cliquei, mas a coruja já se tinha ido. O que sobrou foi a imagem abaixo.

vooo da coruja

No problema. Amanhã tem mais. Vamo que vamo!

DIA 34 – PROJETO 460 KM POR SÃO PAULO

Clique nos mapas para conhecer mais detalhes sobre os percursos do dia; a numerália traz o total do dia

Caminhada matinal, sozinho (o mapa internético não retrata a realidade atual do parque)

mapa dia 34 parate 1 06jan2014

Caminhada à tarde, com Roger Moreira, do Ultraje a Rigor

mapa dia 34 parte 2 06jan2014

QUILOMETRAGEM DO DIA: 10 km

TEMPO DO DIA: 2h47min26

QUILOMETRAGEM ACUMULADA: 410 km

TEMPO ACUMULADO: 93h55min46

QUILOMETRAGEM A CUMPRIR: 50 km

DESTAQUES DO PERCURSO: parque Burle Marx, parque Villa Lobos, entrevista com Roger Moreira, do Ultraje a Rigor

 

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Um caminhante à procura de um parque

Por Rodolfo Lucena
05/01/14 14:44

selo_rodolfo_correndo“É isto mesmo: avenida Guarapiranga, 575”, me garantiu ontem, por telefone, a simpática moça que atendeu em nome do parque municipal Guarapiranga. Eu havia ligado porque o endereço disponível na página da prefeitura não batia com a localização que os mapas internéticos apontavam.

E, ainda que em boa parte de meus percursos eu saia meio que sem destino, sempre há algum grau de programação, de preparação, especialmente quando o terreno me é pouco conhecido. Hoje pretendia visitar os parques da região da represa de Guarapiranga (alguns deles tinha percorrido dias atrás).

Encontrar o parque ecológico não foi problema, endereço e localização internética bateram de primeira. Já a área verde municipal foi mais complicada, pois o endereço apresentado no portal já não existe, pelo menos oficialmente.

Mas o parque, com certeza, existia: vi na rede vários relatos de visitantes, com descrições que confirmavam as informações do site oficial. Então resolvi sair em busca da área verde, começando do princípio.

Às 7h de hoje, mais ou menos, larguei do largo do Socorro e tomei o rumo da avenida Guarapiranga, uma das grandes vias de acesso a essa parte da zona sul –é a maior região da cidade e tem vários escaninhos, cada um, por sua vez, também gigantesco, como você já viu em outros passeios dessa jornada de 460 km por São Paulo.

Nos seus primeiros dois quilômetros, é puro asfalto, cinza, feiura (sei que volto a me repetir, mas, com raras e conhecidas exceções, a cidade de São Paulo é muito feia, suja, abandonada. Na manhã nublada de hoje, então, as coisas ficavam ainda piores.

Nem passar por um córrego alegra muito a vista. Depois de uns dois quilômetros de avenidona, com corredor de ônibus e vária pistas de rolamento, começo a entender a confusão do endereço (ou, pelo menos, faço uma hipótese que parece razoável).

1 pimeira ponte

No que seria seu caminho natural, seguindo em frente, a Guarapiranga vira estrada do M`Boi Mirim (que é a subprefeitura da região). Ou seja, morreria no encontro com a outra avenida. Mas não é isso que acontece: ela faz uma acentuada curva à esquerda, aproxima-se da represa, e a numeração da avenida se confunde com a numeração antiga, da estrada Guarapiranga. O que fora 575, hoje 2.700 e qualquer coisa; quem buscar nos mapas por esse endereço, porém, também não vai encontrar o local do parque.

Mas, caminhando, achei a entrada. E a irritação com a confusão enderecística se transformou em satisfação e prazer: o parque é uma beleza.

Não é muito grande –o equivalente a pouco mais de 15 quarteirões—e o acesso à represa está fechado, porque há risco de desabamento do talude. As outras áreas, porém, podem ser visitadas ao bel prazer do vivente, e são por demais prazerosas.

Adorei, por exemplo, a sala de estar, recantos abertos na mata, com bancos de madeira nem um pouco confortáveis, mas lindos. Quando cheguei, o parque estava com pouco movimento (esperado num dia nublado e propenso à chuva), o que fazia do local um convite ainda mais incisivo ao recolhimento.

3 sala de estar pmg

Quem prefere ação também encontra: há quadras para esporte, áreas com brinquedos bem bacanas para a criançada, academia ao ar livre para exercitar os músculos e uma volta de 1.500 metros bem desafiadora, com fortes subidas e descidas. O único problema é o piso, paralelepípedo, muito perigoso; há risco de escorregões e de topadas nas pedras irregulares.

Para mim, não parece o mais recomendado piso para corridas, mas havia gente trotando por lá, assim como vários caminhantes. Eu me metia pelas trilhas que encontrava, procurando áreas diferentes, subindo escadarias lindas, algumas feitas de tocos de árvores, outras escavadas na terra.

4 escada de tocos

Não é para menos: o paisagismo do parque foi projetado pelo escritório de Burle Marx, arquiteto apaixonada pela natureza. Segundo o site oficial (veja AQUI), foram registradas na área 181 espécies de árvores, algumas de existência ameaçada –portanto, o parque serve também como reserva natural.

Eu já estava dando por encerrada minha visita quando di um caminhozinho subindo bosque adentro. “Vamos ver no que vai dar”, disse a mim mesmo. Meu amigo, minha amiga, é uma trilha sen-sa-cio-nal, que tem lugar em qualquer treino de força ou preparação para corrida de montanha.

Sobe, desce, tem curva à direita, curva à esquerda, descida mais forte, descida mais leve, subida curta e íngreme, degraus irregulares, sombra, sol, vista da represa… Tá bom assim ou quer mais?

6 trilha pmg

Tem mais: é chão de terra batido, afofado por folhas que caem sem parar das árvores em volta. Há silêncio, quebrado apenas pelo eventual ruído das passadas e resfolegar de outros corredores.

Alguns podem dizer que ela tem muitas curvas. De fato, não é uma volta de um quilômetro como as do bosque da USP ou do bosque do Morumbi: tive de fazer várias idas e vindas para completar aquela distância, o que ficaria muito chato e cansativo na realização de treinos longos.

mapa trilha pq municipal guarapiranga

Acontece que o corredor não usa esse tipo de trajeto ou terreno para longos, nem mesmo para ritmos. Vale para um treino talvez de 5 km, subindo e descendo, invertendo direções, testando caminhos. Além de ser uma boa preparação de força, é também um teste de equilíbrio (a tal propriocepção) pois as mudanças são muitas em todo o percurso.

5 vista da represa pmg

Resumo da ópera: apesar de não ser treinador, aposto que corredores que se preparam para provas de trilha aproveitariam muito um treino por lá. Vale a viagem, uma vez por semana ou uma vez a cada dez dias. Caminhante desengonçado e medroso que sou, fiz as descidas pé ante pé, temendo sofrer no joelho; quando ficar bom dessa maldita fratura por estresse, pretendo voltar lá e fazer algumas voltas nessa trilha, em alguma manhã solitária.

Minha jornada não terminou ali. Queria ainda conhecer o tal Parque Ecológico Guarapiranga, que fica relativamente perto (mais uma meia dúzia de quilômetros). O caminho não tinha muito mistério: seguir pela avenida Guarapiranga (que um dia fora estrada….) até o fim, tomando então a estrada da Riviera.

No papel, é lindo, na vida real é complicado: como em toda a cidade, ali também as calçadas são um desastre. Tento manter um ritmo razoável, mas a maior dificuldade é ficar equilibrado no terreno irregular, que piora nas longas e, às vezes, íngremes subidas e descidas.

Logo depois do final do parque, passo por uma rua que me faz esquecer daqueles perrengues das calçadas e mergulhar na ladeira da memória. Ali era, até hoje, o ponto mais distante que eu conhecia dessa região da zona sul. Estive ali há mais de dez anos, entrevistando um velejador que foi um dos brasileiros medalhistas de ouro no Pan de 1963, o primeiro realizado no Brasil.

A entrevista fazia parte de um projeto que desenhei e realizei, chamado Ouro no Brasil. Em resumo, conversei com [quase] todos os brasileiros que foram campeões naquela competição, quando o país conquistou 14 ouro. No caso do boxe, não encontrei os lutadores, mas falei com o treinador deles, o grande Valdemar Zumbano, que também recebeu medalha.

Meu entrevistado na Guarapiranga foi o sensacional Klaus Hendriksen, que me recebeu com uma alegria e gentileza que poucas vezes vi em gente tão importante. A entrevista com ele ESTÁ AQUI; se você quiser conhecer todos os entrevistados, CLIQUE AQUI –um dia ainda transformo todas essas conversas em livro…

Bom, chega de passado. A vista a partir da avenida Guarapiranga vai mais uma vez mudando, transforma-se num retrato de São Paulo, das enormes discrepâncias sociais que vivemos. Na avenida, o comércio vibrante subindo o morro; nas encostas, favelas em diversos estágios, algumas até misturadas a ruas em que aparecem grandes sobrados, outras só com barracos muito modestos.

8 morro

As imagens se repetem na estrada da Riviera, que tem um jeitão mais rural, com grandes terrenos cercados, alguns condomínios, um movimentado pesqueiro… Em alguns pontos, simplesmente não há calçadas, o que torna meu andar ainda mais complicado: o joelho direito volta a doer. No km 11 de minha jornada, sofro pontadas lancinantes, agulhadas, tenho de parar. Mexo um pouco a perna, faço massagem no joelho, mas a dor é interna, lá no meião do osso, sei lá…

Ela passa, porém, depois de alguns instantes. Consigo apoiar a perna no chão; para mim, fica claro que terrenos irregulares são um veneno para o joelho. A pisada fica irregular, os ângulos de entrada são sempre diferentes, e o fêmur dá umas carcadas na área machucada. Calçadas bagunçadas, descubro, são ainda piores para o caminhar do que descidas íngremes; nestas, já sei que o joelho poderá sentir e tomo precauções…

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Bom, mas não vou parar agora (atenção, leitor: você NÃO deve fazer isso; ao primeiro sinal de dor, pare; descanse; se a dor persistir, aborte o treino). Tento fazer caminhada mais ritmada, usando mais a rua e menos a calçada; dou jeito na passada e sigo em frente.

O Parque Ecológico do Guarapiranga é um portento! É gigantesco: tem 250,30 hectares, ocupando 7% dos 28 km no entorno da Represa do Guarapiranga.

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Toda essa maravilha, no entanto, não está disponível ao público: o parque foi criado em 1999 “para promover a preservação e proteção da fauna e flora no entorno da represa, (…) constituindo uma proteção contra invasões e ocupações ilegais”, de acordo com o site oficial.

São objetivos nobres, e o parque os procura cumprir: há aulas de educação ambiental, atividades monitoradas e um surpreendente e assustador Museu do Lixo, que mostra uma pequena parte dos objetos que já foram retirados da represa…

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Como corredor transformado em caminhante, porém, o que mais me interessa em um parque são as trilhas, as áreas de exercício. Vou para a pista de Cooper e me apaixono: todinha de grama, com marcação de distância a cada 100 metros e ainda possibilidade de áreas de sombra… Não tinha visto nenhuma como ela na cidade…

Quando já escrevia na minha cabeça as loas e moas que faria à pista, ela acabou: é curta, curtinha e não tem sequer uma rotatória final de retorno: o caminhante volta sobre seus próprios passos. Pode enveredar por uma trilhazinha mais selvagem, na mata, o que sempre alegra o coração, mas, no final, são meros 500 metros…

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Dá para caminhar em outras áreas do parque, mas a passarela ecológica, de madeira, que não agride o solo, é também muito escorregadia quando molhada, como estava hoje. Foi uma luta sair de lá sem levar um tombo daqueles humilhantes… Pelo menos quatro vezes dei um escorregão assustador…

13 jogo

O que não diminui a beleza e os atrativos do parque, que ainda tem quadras esportivas à beira da represa e brinquedos para a criançada. Corredores e caminhantes da região, porém, pelo que vi hoje, preferem ficar mesmo no asfalto em frente ao parque, criando seus próprios caminhos. Afinal, não é o que fazemos sempre? Vamo que vamo!

DIA 33 – PROJETO 460 KM POR SÃO PAULO

Clique no mapa para conhecer mais detalhes sobre o percurso do dia

mapa dia 33 05jan2014

QUILOMETRAGEM DO DIA: 15 km

TEMPO DO DIA: 3h15

QUILOMETRAGEM ACUMULADA: 400 km

TEMPO ACUMULADO: 91h08min20

QUILOMETRAGEM A CUMPRIR: 60 km

DESTAQUES DO PERCURSO: parque Guarapiranga, Parque Ecológico do Guarapiranga, avenida Guarapiranga, estrada da Riviera

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Na Cantareira, Núcleo Engordador oferece trilhas de paz e silêncio

Por Rodolfo Lucena
04/01/14 12:47

selo_rodolfo_correndoSom de água corrente, pequenas cachoeiras borbulhantes, insetos de tudo quanto é tipo, aves, macacos assoviadores –eis a trilha sonora que acompanha quem percorre as trilhas do Núcleo Engordador, uma das unidades que integram o Parque Estadual da Canteira. Foi lá que estive na manhã de hoje, em mais uma etapa de meu percurso de 460 km por São Paulo em homenagem ao próximo aniversário da cidade.

Uma das maiores flores urbanas do mundo –em alguns lugares, eu a vi festejada como “a maior”–, a serra da Cantareira tem 7.900 hectares de mata. É a reserva de verde de São Paulo, tão carente de vegetação (tenho visitado muitos parques na cidade, mas o que mais encontro mesmo é asfalto, cimento e casas inconcluídas, que ficam só no tijolo e se apóiam umas nas outras.

Na serra, o Parque Estadual da Cantareira é uma maravilha, protegendo a área e abrindo trilhas para que a população possa ter acesso a um pouquinho de natureza selvagem (se não selvagem, pelo menos pouco manejada). Sua unidade mais conhecida é da Pedra Grande, do lado do Horto Florestal, que tem acesso fácil e várias trilhas bacanas.

Quando minhas filhas eram pequenas, visitamos várias vezes o local, que tem uma trilha portentosa, a da Pedra Grande, que leva a uma rocha de onde se descortina a cidade. É uma beleza. Mas não foi meu destino de hoje.

caminho bonito

O Núcleo Engordador, ainda que também na zona norte da cidade, é bem mais distante. A maneira mais fácil de lá chegar, para quem vai de carro, é seguir pela rodovia Fernão Dias, saindo na alça do km 79; logo se vê uma placa indicando o destino desejado. Há ônibus que saem dos terminais localizados nas estações Santana e Tucuruvi do metrô.

A viagem vale a pena. Apesar de a área destinada aos visitantes não ser grande (a maior trilha tem 3 km), o parque é uma delícia, parece que a gente está longe do mundo, da poluição e do trânsito. Gostei de tudo o que vi, a começar pelas escadas escavadas no chão e protegidas por pneus, em vez de madeiras –ficou bom de caminhar e provavelmente mais resistente às intempéries.

Antes de chegar à entrada da trilha principal, há uma área para descanso e piquenique, além de um pequeno museu que mostra máquinas antigamente usadas no local. O Engordador leva esse nome porque foi uma fazendo de engorda de gado; mas também é área de captação de água para a cidade (as máquinas são do tempo do início dessa atividade). Este site AQUI tem muitas informações legais sobre o parque.

brinquedos

Uma parquinho para a criançada é equipado com brinquedos feitos com troncos. Eu me repito, mas realmente está tudo bem cuidado, limpo, e os brinquedos são desafiadores: achei legal um trepa-trepa feito com pneus velhos. Aposto que a criançada de dois a dez anos manda ver nesse território.

Disse aposto porque, quando cheguei, não havia ninguém no parque além dos seguranças e demais funcionários. Fui o primeiro visitante, o que certamente contribuiu para que pudesse apreciar a calma e me deleitar com a paz da floresta (quando saí da primeira trilha, já chegavam vários grupos, nem todos exatamente silenciosos).

agua

A trilha mais longa, que passa por muita água –cruzamos várias vezes o rio Engordador–, tem diversas cachoeiras e pequenas quedas d`água, mas hoje todas estavam fraquinhas, desmilinguidas pela falta de chuva nos últimos dias.

Toda arrumada, a trilha começa por um desfia à nossa força de vontade: uma escadaria escavada na terra leva para local proibido e certamente maravilhoso. Não se pode subir por ela; o sentido obrigatório é outro. Mas que dá vontade, lá isso dá.

sentido obrigatorio

Numa dessas, uma cobrinha sai rebolando da estrada, fazendo seus esses corporais para desaparecer entre a folhagem da mata. Nunca vou saber se corri algum risco, acho que não; era uma cobra de uns 80 cm, um dedo de espessura, marrom. Foi tudo o que vi.

Além de insetos, dava para ouvir os assobios de macacos. O único animal mais empolgante à vista foi uma ave bem grandota, parecia uma galinha de Angola voadora, porém com as penas não tão escuras…

A vegetação também surpreende, mostrando coisas como esta árvore abraçada por suas próprias raízes (ou, pelo menos, foi o que pareceu para este seu botanicus ignoramus).

abraco

No topo da trilha, está o tanque de captação de água, mas a maior atração que ela oferece é mesmo a possibilidade de contato com a natureza, de submergir na mata.

Essa é também a sensação na outra trilha, a do Macuco, em homenagem a um tipo de ave de grande porte (será que foi a que vimos? Tenho quase certeza de que não, mas não custa fazer onda). Ela é mais comportada, nível “fácil” (a da cachoeira é nível “médio”), mas também vale o passeio, ainda que rápido.

Por isso, caminhe devagar quando for lá, para aproveitar cada instante de ar da mata. Ele faz falta à nossa vida.

Antes de sair, ainda fiz uma foto da represa. Está vaziazinha, coitadinha, mas a imagem ficou bacana. Vamo que vamo!

vista geral

DIA 32 – PROJETO 460 KM POR SÃO PAULO

Clique no mapa para conhecer mais detalhes sobre o percurso do dia

mapa dia 32 04jan2014

QUILOMETRAGEM DO DIA: 5 km

TEMPO DO DIA: 2h00min38

QUILOMETRAGEM ACUMULADA: 385 km

TEMPO ACUMULADO: 87h53min20

QUILOMETRAGEM A CUMPRIR: 75 km

DESTAQUES DO PERCURSO: Parque Estadual da Cantareira, núcleo Engordador, com trilhas, cachoeiras e área de lazer e recreação

 

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“Revolução Esquecida” é lembrada por corredor em São Paulo

Por Rodolfo Lucena
02/01/14 14:16

selo_rodolfo_correndoQuinhentos e três mortos, 4.846 feridos, mais de 1.500 prédios destruídos –esse foi o resultado do cruel bombardeio que atingiu São Paulo em julho de 1924, castigo que o governo federal impôs à cidade onde seguia vitorioso o movimento de rebeldia contra a oligarquia cafeicultora.

Apesar da enormidade do morticínio no mais violento conflito armado da história paulistana, a memória daqueles dias parece apagada dos registros. Não por acaso, a Revolução de 1924, uma das etapas do movimento tenentista, é também chamada de “Revolução Esquecida”.

As ruas de São Paulo, no entanto, ainda expõem feridas daqueles dias de terror. Foi em busca de alguns desses pontos que saí na manhã de hoje em mais uma etapa de minha jornada de 460 km por São Paulo, em homenagem ao próximo aniversário da cidade.

Dei a largada em frente ao que muitos consideram um dos poucos locais preservados, que resistiram ao tempo e ao bombardeio. Trata-se da chaminé da antiga Usina de Força, no bairro da Luz, ao lado do que hoje é o quartel da temida Rota (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar). O prédio também foi duramente atingido.

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Na chaminé, dá para notar o efeito dos tiros e também do tempo. É exagero dizer que ela está preservada. Protegida, talvez, porque há uma cerca em seu redor. Mesmo assim, há lixo atirado na área protegida, e moradores de rua se abrigam nos escaninhos na construção.

O desmazelo com relíquias de nossa história, que ali vi, se repetiu em quase toda a minha jornada. Algumas centenas de metros adiante, na mesma rua João Teodoro, vejo antiga fachada do Liceu de Artes e Ofícios também “preservada” –vítima de vandalismo e sem sequer uma placa que dê informações sobre o local, apesar de estar integrada ao conjunto do prédio da instituição.

liceu

Aliás, o centro velho não é apenas testemunha dos maus tratos com nossa história, mas evidência dos maus tratos com o nosso presente. As ruas estão imundas, há lixo espalhado e concentrado em muitos lugares, e perdi a conta do número de prédios abandonados que vi (fiquei pensando na quantidade de gente vivendo ao léu na cidade).

centro chao

Enveredei pelas ruas mais movimentadas no Brás, onde quase nada é bonito, mas se respira ação, atividade, vida na enorme quantidade de lojas, lojinhas e lojões de confecção. Hoje, porém, a rua Oriente estava mais parada, efeito dos festejos do Ano Novo e do feriadão: muitas portas fechadas decepcionaram os poucos turistas e compradores –em relação a um dia normal—que lá estiveram no início da manhã. Talvez abrissem mais tarde, sei lá.

Cruzei o largo da Concórdia, de irônico nome e, em vez de volta subindo o viaduto do Gasômetro, resolvi margear a linha férrea, do lado de lá, passando pela estação Brás e seguindo em direção ao metrô Bresser. Brás e Belenzinho, ao lado da Mooca, eram bairros operários nos anos 1920 e foram algumas das regiões mais atingidas pelo bombardeio das tropas federais.

Naquela direção, o comércio muda de gênero; em vez de lojas de confecção, uma sequência de armazéns e vendas de comida, casas do norte, alguns depósitos de bolachas e doces. Meus caminhos nem sempre têm saída: mais de uma vez dou de cara no muro que protege a linha férrea. Finalmente, chego à estação Bresser e posso cruzar os trilhos em direção à Mooca.

Passo pelo Museu da Imigração, que fica em um trecho sem saída da rua Visconde de Parnaíba. Ocupa belo prédio de interesse histórico, mas está em obras, fechado à visitação –AQUI você pode consultar o acervo digital.

Frustrado, continuo minha jornada. Numa rua próxima, há uma casa de atendimento a adultos carentes, e seu entorno é tomado por moradores de rua –fico pensando que, mesmo que seja bom o atendimento no albergue, é preciso alguma política para atender os que ficam do lado de fora, entender suas razões, conhecer seus medos.

Bem, na caminhada há também espaço para deixar a mente rolar e curtir a arte pela arte: é assim que registro esta prateleira de uma oficina.

oficina

Do viaduto sobre a Alcântara Machado, tenho um vislumbre da área da Mooca que foi bombardeada. Vejo prédios em ruínas, chaminés que resistem ao tempo, telhados com jeito de antigos. É para lá que vou.

antartica

Ainda que, entre todos os locais que visitei hoje, a Mooca seja a mais limpa e afluente, ali também encontro lixo nas calçadas de algumas ruas periféricas.

lixo

Relego. Meu destino é descobrir os restos do cotonifício Rodolfo Crespi que, além do belo nome, era um dos mais importantes estabelecimentos industriais de São Paulo no início do século. Além de sua pujança econômica, também abrigava um vibrante movimento operário. Foi bombardeado, assim como outros estabelecimentos industriais da região.

Aliás, prédios civis foram os alvos de escolha do governo federal. No dia 13 de julho de 1924, “os bairros da Mooca, Braz e Belenzinho foram atingidos por um canhoneiro tão pesado que as ruas ficaram repletas de cadáveres. Os coveiros não davam conta de cavar sepulturas para enterrar todos os mortos, o que levou muitas famílias a enterrar os mortos nos quintais de suas casas”, segundo registra o site Portal da Mooca (por sinal, muito bom, dá para ficar horas ali).

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Do imponente prédio da fábrica de tecidos, sobrou a fachada; o resto é usado por uma grande supermercado que, pelo que pude perceber, talvez tenha mantido também alguns prédios de armazéns antigos. Mas não vi na fachada nenhum registro do que foi o prédio nem da importância histórica dele.

Aliás, estou a me repetir, mas é doloroso ver a história se perdendo no asfalto, como grãos de areia escapando pelas mãos. Meu sentimento se transformou em alegria ao ver um monumento vermelho numa esquina próxima, a confluência das avenida Paes de Barros e ruas da Mooca, do Oratório e Taquari, que era conhecida nos anos 1920 com Praça Vermelha, local de encontros de militantes comunistas e anarquistas.

monumento vermelho

Ledo engano. A escultura cuidadosamente arquitetada para projetar no solo a letra M foi ali colocada em homenagem aos 450 anos do bairro. Mas as placas nela instaladas não fazem nenhum referência ao local. Foi dali que, em 1930, quando da Revolução comandada por Getúlio Vargas, o povo marchou para arrebentar a delegacia onde sindicalistas e operários costumavam ser trancafiados e sofrerem torturas  –o episódio foi uma espécie de Queda da Bastilha paulistana.

O vitorioso movimento de 30, por sinal, é herdeiro direto do derrotado movimento de 1924 –grande parte dos militares que participaram da revolta em São Paulo se somou à Coluna Prestes e ajudou a dar substância ao processo que redundou na vitória getulista.

Donde se conclui que, como diz Chico Buarque na canção imortalizada na voz de Milton nascimento, “A História é um carro alegre, cheio de um povo contente, que atropela indiferente todo aquele que a negue. É um trem riscando trilhos, abrindo novos espaços, acenando muitos braços, balançando nossos filhos”.

Enfim, como em muitos outros conflitos da humanidade, é preciso dar tempo ao tempo para que se possa avaliar quem foram, efetivamente, os vencedores e os vencidos.

Os revolucionários de 1924 podem ter sido esquecidos, mas seu movimento acabou dando frutos seis anos mais tarde. Este não é um blog de história, mas me permita sugerir algumas leituras sobre o assunto.

Para um resumão geral, leia ESTE TEXTO AQUI, de um dos maiores estudiosos do período, o historiador José de Souza Martins. AQUI VOCÊ ENCONTRA um texto acadêmico bem interessante, de Carlo Romani, que oferece uma visão de esquerda daquele processo. Se você prefere um estilo mais jornalístico, confira ESTE TEXTO AQUI, que traz como epígrafe trecho da “Moda da Revolução”, de Cornélio Pires e Arlindo Santana, que você pode OUVIR AQUI. Já que entramos no terreno multimídia, talvez você se interesse pelo documentário “São Paulo, Cidade Aberta”: leia AQUI uma resenha e VEJA AQUI uma cena do filme.

Encontrei ainda um site gigantesco sobre o assunto. Tem o óbvio título de Revolução Brasileira de 1924 e traz muitos artigos de historiadores, com diversas orientações ideológicas. Um dos primeiros textos é uma ampla reportagem sobre a inauguração, no ano passado, no Paraná, de um Memorial da Revolução de 1924. Aqui em São Paulo, não encontrei homenagem semelhante, mas o Arquivo Público fez em 2009 uma exposição chamada “1924 – A Revolução Esquecida” –o registro digital você encontra AQUI.

Bueno, voltando à minha caminhada, segui pela rua Javari para conhecer a fachada do estádio do Juventus, cujo nome oficial é Conde Rodolfo Crespi, o mesmo do já citado cotonifício.

juventus

Os vigias não me deixaram entrar para fotografar o campo, o que não diminui meu carinho pelo time: há alguns anos, adorei participar de uma corrida promovida pelo clube. O relato está em meu livro “+Corrida” e também AQUI, na verão antiga deste blog; você precisa rolar a página até chegar ao texto, que se chama “Travessura Encabritadas”.

Dali segui por outras ruas onde estiveram erguidas fábricas vítimas do bombardeio; hoje há fechadas, prédios mal cuidados, de novo o desmazelo com a história de nosso povo. Há pelo menos um quarteirão na rua Borges de Figueiredo que poderia ser transformado em museu a céu aberto. Mas as relíquias se perdem, e as áreas são destinadas a estacionamentos ou enormes condomínios –este, em construção, pelo menos preservou uma chaminé dos tempos antigos.

condo VA

Não é muito, mas é melhor que nada. A essas altura, já tinha percorrido mais quilômetros do que pretendia nesse dia –tenho de preservar o joelho direito, que tem reclamado um pouco das caminhadas sem descanso (afinal, uma fratura por estresse merece algum cuidado, não é mesmo?).

Apesar disso, sigo em frente, porque tinha visto, em mapa internético, um certo Parque da Mooca, que queria fazer de ponto final de minha jornada de hoje. Caminho, caminho e nada. Vejo apenas um enorme quadrilátero vazio, terreno baldio protegido por muros, numa região um pouco mais alta, de onde é possível ter até uma boa imagem de parte da cidade.

vista da cidade

Ando e anda por ali, nada do tal parque, nem ao menos uma pracinha. Só aquele terrenão, que parece estar lá apenas esperando o tempo passar, em tradicional processo de especulação imobiliária.

Calculo que tenha pelo menos uns 100 mil metros quadrados, e imagino se não seria ali o tal Parque? Não é, mas deveria ser –pelo menos, na opinião de um grupo de moradores. É o que percebo nas pichações nos muros que protegem a área verde: “Queremos um parque na Mooca”, diz uma delas.

queremos um parque

Em agosto passado, descubro depois de rápida pesquisa na internet, cerca de 500 pessoas participaram de um abraçaço no terreno, reivindicando que o espaço seja entregue ao público. Parece que a Mooca mantém viva sua tradição de mobilização popular.

Vamo que vamo!

DIA 31 – PROJETO 460 KM POR SÃO PAULO

Clique no mapa para conhecer mais detalhes sobre o percurso do dia

mapa dia 31 02jan2014

QUILOMETRAGEM DO DIA: 12 km

TEMPO DO DIA: 2h37min26

QUILOMETRAGEM ACUMULADA: 380 km

TEMPO ACUMULADO: 85h52min42

QUILOMETRAGEM A CUMPRIR: 80 km

DESTAQUES DO PERCURSO: chaminé da Luz, tombada pelo Patrimônio Histórico, bairros do Brás, Belenzinho e Mooca, áreas atingidas por bombardeio na Revolução de 1924, Museu da Imigração,

 

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