Rodolfo Lucena

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Perfil Rodolfo Lucena é ultramaratonista e colunista do caderno "Equilíbrio" da Folha

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Kipsang quebra o recorde mundial da maratona e diz querer mais

Por Rodolfo Lucena
30/09/13 14:11

Na entrevista coletiva oficial, antes da maratona de Berlim, o queniano Wilson Kipsang já era claro ao dizer que iria tentar buscar o recorde mundial na prova de ontem. E que estava confiante em conseguir seu objetivo.

A segurança de Kipsang vem sendo construída há tempos. Há dois anos, ele beliscou a marca mundial, que então eram de seu compatriota Patriock Makau, ao vencer a maratona de Frankfurt em 2h03min42, apenas quatro segundos mais lento que o recorde de então (2h03min38, estabelecido ali mesmo em Berlim).

Além disso, já correu sub2h05 quatro vezes na carreira. Aliás, na sua preparação para Berlim, teria feito treino na distância oficial cravando marca melhor que o recorde. Correr por duas horas a um ritmo de 2min55 por quilômetro não era alheio ao corpo e à mente do atleta.

Claro que tudo precisava ser perfeito. O clima estava bom, havia um ventinho (no final, Kipsang chegou a reclamar da brisa contrária), e os termômetros estavam na casa dos oito graus Celsius. Os coelhos estavam ensinados, conscientes do ritmo a correr e da marca que era buscada ontem.

Mas saíram voando: a passagem do primeiro bloco de 5 km sinalizava final em menos de duas horas e três minutos, coisa em que ninguém estava apostando. Era preciso reduzir.

Os poucos, a turma foi acertando o passo. Cinco quilômetros depois, a previsão era de final em 2h03min29. Deram uma pequena acelerada para a passagem do km 15 e cruzaram a marca da meia maratona em 1h01min32 (2h03min04 para o final, se o ritmo fosse mantido).

Daí as coisas degringolaram. Do km 20 ao km 25, foi a pior passagem de 5 km. A previsão ainda indicava recorde, mas ali-ali, com apenas quatro segundos de vantagem, que poderia facilmente se perder ao longo dos duríssimos 17 km que faltavam.

Nos últimos cinco quilômetros em que os líderes são puxados pelos marcadores de ritmo, o ritmo se descontrola totalmente, o recorde parece estar indo embora. A previsão é de 2h03min48.

No pelotão de liderança, os contendores são Wilson Kipsang e o jovem Geoffrey, que tem o mesmo sobrenome, mas não é parente. Corajosamente, Eliud Kipchoge, outro queniano, se alinha com o trio de ferro. Um puxando o outro, outro desafiando o um, os três conseguem recuperar um pouco, a passagem do km 35 é um pouco menos aterradora, mas ainda não traz de volta o recorde mundial.

Então Wilson Kipsang decola. Pega a prova com as mãos, os dentes, pernas e pés que se movem como metrônomo, mas um pouquinho mais forte a cada instante. Engole asfalto e devora segundos, deixando para trás quem quer que fosse.

No km 40, Kipsang passa exatamente no ritmo do recorde mundial de Makau. Precisa garantir forças para manter o ritmo, acelerar um pouquinho que seja. Palmas e gritos do público são incentivo que ele depois relembra, agradecido.

Voa nas avenidas germânicas. Vê o portal de Brandenburgo e acelera ainda mais. Vence e quebra o recorde em um final épico: 2h03min23.

Sorri, pega a bandeira de seu país (foto Reuters, no alto), que ainda hoje chora os mortos em recente atentado em um shopping na capital, Nairobi. Abraça Kipchoge, que cruzou a linha cerca de 40 segundos depois. Os dois riem, o campeão cumprimenta e cumprimentado. Seus olhos brilham e sua voz é firme quando dá a primeira entrevista como recordista mundial da maratona.

“Examinando minha carreira até agora e o meu progresso na maratona, acho que tenho potencial para correr mais rápido”, disse ele, mostrando que o novo recorde já está sob ameaça do próprio recordista. “Qualquer coisa abaixo de 2h03min23 serve”, brincou Kipsang.

A vitória lhe valeu mais de US$ 120 mil apenas em prêmios diretos concedidos pela prova. E ele entra para o panteão de recordistas como os que foram homenageados pela organização da maratona de Berlim, que ontem realizou sua edição de número 40.

Para comemorar a data, levou a Berlim atletas que bateram o recorde mundial na cidade alemã. Lá estavam a queniana Tegla Loroupe e a japonesa Naoko Takahashi, o multirrecordista Haile Gebrselassie e o elegantérrimo Paul Tergat. E também estava o brasileiro Ronaldo da Costa, que iniciou a moderna onda de quebra de recordes, ao derrubar em 1998 uma marca que durava dez anos.

O tempo de Ronaldo da Costa, por sinal, era perseguido por outro brasileiro, este na ativa: Marílson Gomes dos Santos correu ontem pela primeira vez na maratona de Berlim em busca de baixar sua melhor marca pessoal (2h06min34, Londres-2011).

Não conseguiu. Na verdade, passou longe. Apesar de uma bela colocação –ficou em sexto lugar, mostrando sua determinação e espírito de luta–, o tempo foi pífio em relação à marca almejada. Completou em 2h09min24, cerca de três minutos pior do que gostaria. Talvez a imagem abaixo, capturada pela fotógrafa brasileira Fernanda Paradizo, diga mais sobre o resultado dele do que qualquer avaliação que possamos fazer.

 

Já a alemã Irina Mikitenko conseguiu tudo o que pretendia e ainda mais um pouco. Aos 41 anos, a atleta não só chegou em terceiro lugar como quebrou o recorde dos veteranos 40+ por uma larga distância, cravando 2h24min54 –a marca anterior, da russa Ludmila Petrova, era 2h25min43, estabelecida em Nova York em 2008.

Foi muito legal ver chegar a sorridente Mikitenko, que trazia em sua vitória não apenas a conquista pessoal, mas a demonstração que pessoas mais velhas também podem correr competitivamente ao lado dos melhores do mundo.

“Eu tenho 41 anos, mas isso não significa nada”, disse ela. “Eu me sinto como se tivesse 20 anos de idade e 20 anos de experiência.”

A campeã, a queniana Florence Kiplagat, correu na frente o tempo todo, sendo perseguida pela compatriota Sharon Cherop, quem em alguns momentos pareceu ter chance de dar bote, mas acabou ficando na boa. Acabou chegando mais de um minuto depois da campeã, que completou em 2h21min13.

Evento desagradável do dia foi o feito de um sujeito interessado em promoção rápida e internacional de um site de encontros. Na chegada de Kipsang, o homem rompeu o cerco e cruzou a linha de braços erguidos, instantes antes do queniano. Foi logo dominado e entregue a polícia, mas o estrago já estava feito.

Não que o corredor tenha sido prejudicado (levou um susto, é claro). Mas a imagem que Berlim tenta passar, de prova segura e organizada com perfeição, foi no mínimo arranhada. Não faltou gente a dizer, nas redes sociais, com ironia: “Imagina isso na Copa…”.

Lua cheia ilumina treinão de maratonista

Por Rodolfo Lucena
26/09/13 16:20

Você já viu o cara na TV, agora ele está aqui no blog. E, de três a quatro vezes por semana, corre nas ruas do Rio, se preparando para voar na maratona de Chicago, no mês que vem. Na última sexta-feira, EDUARDO ELIAS, 43, apresentador do Fox Sports, fez o maior treino de sua vida. Pela primeira vez, passou dos 32 quilômetros na preparação para uma maratona. Aqui, ele conta como foi. Obrigado, Edu, e sucesso em Chicago.
Vamos ao texto que ele mandou especialmente para este blog.
“Passava dos 45 minutos de treino. Eu já havia chegado à pedra da praia do Leme e começava a voltar para Copacabana. Foi quando uma danada de uma raiz ou uma imperfeição do solo resolveu me passar o pé. Só sei dizer que voei, dei duas cambalhotas desajeitadas, bati o quadril e ralei um pedaço das costas. A camisa branca ficou toda marrom na parte de trás. Levantei, achei o gel de carboidrato que voou da minha mão. E voltei a correr, satisfeito, até completar 3 horas de treino.

Sucesso total no maior treino da minha vida. Com direito ao show do nascimento, no mar, de uma lua cheia, amarela, gigantesca e inspiradora.

Foi assim, cheia de emoções, a última sexta-feira: pela primeira vez fiz um treino de 32 km. Sim, porque nas três maratonas que concluí recentemente, minha planilha trazia, no máximo, treinos de 30 km. Tinha uma certa dúvida como seria, havia um tom de desafio supremo. E, apesar do tombo, foi bom demais.

Completei os 32 no mesmo tempo em que fiz os 30 km no ano passado. E muito mais inteiro. Tanto que registrei o meu melhor ritmo (5min22) no último quilômetro. Mais: completei caminhando com dignidade, ao contrário do ano passado, quando me arrastei para chegar em casa.

Claro que essa evolução não vem por acaso. Reforcei a musculação e corri religiosamente de três a quatro vezes por semana. Não perdi nenhum dos treinos longos. Pese aí também a companhia do amigo Thiago, que fez ao meu lado (e com um ótimo papo) boa parte dos últimos treinos longos.

Quem corre sabe a ajuda que representa um parceiro desses. A gente se distrai na conversa, mas, ao mesmo tempo, é sempre mais um alerta, um vigilante para dizer que o ritmo está caindo. Meu ritmo ideal era 5min35 e às vezes vinha o Thiago: “Edu, estamos na casa dos 50…” Era a deixa pra acelerar.

Ultimamente corro inspirado com a leitura do livro “Nascido Para Correr”, que tem como linha condutora o jeito fácil e alegre de correr dos índios Tarahumaras. Correr pelas montanhas no México é rotina e diversão na vida deles. O livro conta a história de vários corredores que ali se inspiraram, como o mítico ultra-maratonista americano Caballo Blanco (morto no ano passado). Vale demais a leitura.

A gente deve mesmo procurar correr mais relaxado, com mais alegria. Precisamos tentar guiar a cabeça a ajudar os problemas físicos – que, no meu caso, não são poucos.

Neste meu ciclo de maratona, iniciado em junho, a luta vem sendo contra as dores nas costas. A região lombar gritou. Há tempos sei que tenho de conviver com um desvio de duas vértebras, que de vez em quando dão um sinal de alerta. Em agosto, dei um mau jeito andando de bicicleta com minha filha. Pronto: o maratonista virou velhinho, andando torto e com passos curtos.

Parecia até que eu estava de brincadeira. Chegava mancando à academia, aquecia, começava a trotar na esteira. Vinte minutos depois, estava dando tiros a 16 km/h. As pessoas olhavam de um jeito esquisito.

Os treinos eram concluídos com sucesso. Mas na hora em que esfriava a musculatura, eu voltava a mancar. Por isso, ficaram constantes as visitas ao osteopata e ao acupunturista. Cada uma delas me ajudou um pouco, e agora estou 85%. Uma das grandes alegrias dos 32 km foi perceber que em nenhum momento lembrei das dores nas costas.

E vamos ver o que acontece. Porque maratona é sempre dúvida. Sempre há dores. Nos históricos 32, tive uma dorzinha no tornozelo, outra no joelho. Diminuí o ritmo e controlei as malvadas. Senti cansaço e, lá pelos 25, parecia que não ia dar para concluir. Deu, com sobra.

O que vai acontecer em Chicago, ainda não sei. Mas o treino da semana passada não foi um tombo na preparação. Foi um salto, uma dose de confiança sensacional. Agora faltam menos de três semanas.

E é engraçado pensar. Parece até impossível. Mas lá, no esperado dia 13 de outubro, não vou correr a 5min35 por quilômetro. Pretendo ir para 5min05. A adrenalina, o descanso, a alimentação farão a diferença. Nos últimos três anos, percebi o que é uma maratona. Treino é treino, prova é prova.

Maratona para mim é segurar, num ritmo bom, mas controlado. E a corrida, de certa forma, começa aos 35. Nos últimos sete, é o momento da coragem.

Vamos com fé e alegria, como fazem os Tarahumara.”

 

Brasileiro entra para os Top 15 do mundo nos 1.500 metros

Por Rodolfo Lucena
23/09/13 16:55

Uma, duas, três voltas na pista, mais 300 metros e está pelada a coruja!!! Cai um recorde que durava mais de 30 anos. De quebra, um brasileiro aparece entre os 15 melhores corredores do mundo neste ano.

Tudo bem, não é na categoria principal, não é entre os adultos profissionais. Por outro lado, isso pode acender esperanças em relação ao futuro do atletismo brasileiro, pois o sujeito em questão é apenas um garoto que está prestes a sair da adolescência.

Estou falando de Thiago André (foto Fernanda Paradizo/CBAt), que venceu no último fim de semana a prova de 1.500 m no Brasileiro de atletismo, categorial juvenil (atletas até 19 anos). A competição, realizada em São Paulo, teve a participação de 358 atletas nas diversas modalidades do atletismo.

Apesar do calor de cerca de 30 graus C e da baixa umidade (30%), Thiapo mandou ver, liderando a prova desde o princípio e fechando em 3min45s14, novo recorde do campeonato. A marca anterior era de 3min46s5, estabelecida por Francisco de Assis em 1982. Era o recorde mais antigo do Brasileiro de juvenis.

“Esse resultado foi inesperado. Vou competir agora no Sul-Americano e vou dar o máximo para baixar ainda mais essa marca”, disse o menino depois da prova, segundo o site da CBAt. No Pan juvenil, disputado na Colômbia, ele havia conquistado a prata nos 1.500 m e nos 5.000 m.

Com a nova marca, ele entra no seleto grupo dos Top 15 do mundo. Acabei de ver a lista da IAAF (a Fifa do atletismo), que ainda não traz o resultado do brasileiro. Pelos tempos que ali constam, porém, Thiago assume o 14º posto. É o terceiro não africano no ranking.

Maratonista dá o maior pau no trânsito de Moscou

Por Rodolfo Lucena
20/09/13 10:44

Motoristas de carros particulares voltando para casa, no final da tarde de uma sexta-feira na capital da Rússia, chegam a percorrer 42 quilômetros em mais do que o dobro do tempo necessário para o vencedor da Maratona de Moscou completar a prova.

Realizada no domingo passado, a nova maratona tem um belo trajeto, no entorno do estádio Lujniki. O percurso percorreu as margens do rio Moscou, Anel do Jardim e Anel Boulevard. O ucraniano Oleksandr Matviychuk levou 2h19min36 para completar o trajeto em primeiro lugar.

Não é nenhum tempo fantástico, mas mais do que suficiente para vencer um carro que tivesse de enfrentar o trânsito de Moscou, que já foi considerado, em uma pesquisa de 2010, o terceiro pior do mundo, atrás de Pequim e de Johanesburg (África do Sul).

Na hora do pique, na sexta-feira anterior à prova, o motorista levaria mais de três horas para percorrer a distância da maratona, segundo um site russo especializado em monitorar o trânsito de Moscou.

Isso é até pouco: na sexta-feira de pior trânsito da cidade, no ano passado, o trajeto da maratona de Moscou seria percorrido em seis horas e meia por um motorista encalacrado no centro da cidade.

Para vencer isso, não precisa nem ser maratonista do primeiro time. Até eu sou mais rápido….

 

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Maratona de Hong Kong alerta contra autorretrato na corrida

Por Rodolfo Lucena
18/09/13 07:46

Feliz da vida, a corredora parte para uma aventura de 10 km e não quer deixar de registrar aquele maravilhoso instante. Saca de seu celular, estende o braço na clássica pose de quem fotografa a si mesmo e… deixa escapar da mão o telefone.

Abaixa-se para resgatar a pequena maravilha da tecnologia moderna e… provoca uma confusão dos diabos. Quem vinha atrás tropeçou nela e quem vinha atrás de quem vinha atrás dela tropeçou no que vinha atrás e assim por diante, num engaventamento-monstro de corredores.

Você pode ter rido da confusão, mas a coisa foi grave e aconteceu de verdade na maratona de Hong Kong deste ano, que reuniu mais de 70 mil corredores, a maioria deles participando das provas menores incluídas no evento (meia maratona e 10 km…).

Por isso, os organizadores da prova, já pensando na edição do ano que vem, estão lançando uma campanha para advtertir os futuros participantes sobre os perigos do uso do celular.

“Não faça fotos de si mesmo”, pedem os organizadores educadamente. Eles chegaram mesmo a pensar em banir o uso do celular e proibir a produção das fotos “egocêntricas” (em inglês, foi criado um termo para esse tipo de imagem, é “selfy”, com plural “selfies”, neologismo produzido a partir da palavra “self”, que significa “eu mesmo”), mas viram que seria dar murro em ponta de faca. Por isso, lançam uma campanha educativa….

Afinal, em um evento em que devem participar 73 mil atletas, qualquer paradinha significa risco de engavetamentos humanos, choques, tombos e, potencialmente, indesejadas visitas ao hospital.

 

A primeira vez de Marcelo foi em Praga

Por Rodolfo Lucena
16/09/13 10:22

Hoje em dia, MARCELO VAZ CAMPOS é diplomata de carreira e trabalha na representação brasileira em Praga, onde vive há dois anos. Jornalista de formação, Marcelo, 32, foi colaborador do caderno Informática da Folha quando eu era o responsável pela edição. Na época, talvez nem pensasse em correr um dia. Pois acaba de fazer sua estreia em corridas de rua, lá na capital da República Tcheca. Leia a seguir o relato que ele mandou especialmente para este blog.

 

Há quatro meses decidi que, depois de quatro anos sedentário, iria encontrar alguma atividade para mexer meu corpo e recuperar o fôlego que, pensando bem, talvez eu nunca tenha tido, pois nunca nos meus 32 anos levei atividade física muito a sério. Para ser sincero, corrida nem era minha primeira opção. Minha preferência era natação, mas, um dia, assistindo a uma série da BBC chamada “Origins of Us”, me chamou a atenção a descoberta, já não muito recente na academia (a científica, digo), de que a habilidade de correr longas distâncias, um diferencial do Homo sapiens com relação aos outros primatas, foi fundamental para a evolução da espécie.

Quando soube disso, pensei: “Se o corpo humano foi desenvolvido para correr, e essa habilidade foi essencial para a sobrevivência dos nossos ancestrais, por que não?” Além disso, não dependo de ninguém para correr, o que para mim é, psicologicamente, uma enorme vantagem: posso adotar um ritmo de treinos meu e apenas meu, sem a pressão de eventuais companheiros nem a sensação de atrapalhar quem já corre mais. Comecei então uma série de treinamentos específicos e, incentivado pela minha instrutora da academia (a de ginástica), decidi que, na tarde do último dia de agosto, faria minha primeira corrida de 10 km aqui em Praga, República Tcheca, onde vivo, e outra uma semana depois.

Não foi fácil sair da inércia, mas aos poucos fui alcançando distâncias mais longas. Nos meus treinos mais recentes no parque perto de casa, consegui atingir a marca de 10 km em tempos até que bons (de 55 a 48 minutos) para quem, antes, não conseguia correr nem 500 m sem ficar ofegante, então não havia preocupação quanto à minha capacidade de concluir a prova. Mas, como diz a sabedoria popular, treino é treino, jogo é jogo. Vestindo camiseta com os dizeres “Correr fez o Homo sapiens”, celular no braço, aplicativo de GPS ligado e música no ouvido, larguei às 16h de 31 de agosto. Foi assim:

Até 1 km: Tanta gente. Ainda bem que consegui largar no pelotão de 45-50 minutos. Estou com energia e não queria ficar para trás, caçando espaços para passar as pessoas. Estava muito pessimista quando me inscrevi no pelotão de “mais de 70 minutos”. Também, convenhamos, eu não corria nada. A dor que eu estava sentindo no calcanhar passou, mas esse final de gripe pode me complicar. Bom, não faz diferença, agora é só correr. Até agora tudo bem, estou conseguindo meu espaço. Ei, aquele cara está correndo com um balão laranja indicando 45 minutos. Que útil. Enquanto eu tiver contato visual com ele, estou contente, significa que estou cumprido o meu objetivo de repetir minha melhor marca.

De 1 km a 2 km: Boa. Completei 1 km e a primeira música da minha seleção ainda não acabou. Significa que estou indo a menos de 5 minutos por quilômetro. Agora, o que é essa dor no meu abdômen? Isso não vai dar certo… Conheço essa dor desde quando era criança, das aulas de educação física. Fazia algumas semanas que não sentia isso. Justo hoje? Vai, Marcelo, respira fundo, 1, 2, 3, 4, expira, 1, 2, 3, 4… repete uma vez, e outra. Pronto, já me sinto melhor. Posso prestar atenção no cenário de novo. Mesmo aqui, um pouco fora do centro, Praga é muito bonita. Não, não é hora de turismo. Olha para a frente, concentra na passada.

De 2 km a 3 km: Subida. Não muito forte, nem mesmo muito longa, mas subida mesmo assim. A cada passo sinto mais as pernas. Sério que uma rampinha vai me prejudicar? É, vai. Cada vez mais pessoas estão me passando, e já não vejo o cara do balão laranja. No parque, meus treinos começam com descida e depois seguem só no terreno plano. Assim fica fácil, né? Vou ter que ver isso aí, porque parece que o trajeto da semana que vem tem mais subidas. Não vou me preocupar por enquanto, estou correndo. Pernas, aguentem!

De 3 a 4 km: Já conheço melhor esta área da cidade. Costumo andar por aqui, às vezes, e nunca tinha reparado nessa subidinha chata. E tenho sede. Que calor, como faz falta uma brisa e a sombra das árvores! Minha passada já não está tão longa quanto no começo. Está parecendo os meus primeiros treinos, há uns três meses, quando o pior trecho era sempre perto do terceiro quilômetro. Tanta gente correndo bem, eu preciso ser capaz também.

De 4 km a 5 km: Já estou perto do centro da cidade, perto do meu trabalho também. Mais pessoas nas ruas batem palmas e fotografam os corredores. Que legal. Tantas vezes estive do lado de fora, vendo a ação. Estou contente que hoje estou aqui na rua. Aqui estão oferecendo água. Vou pegar um copo. O primeiro gole sai todo errado, derrubo água e não bebo nada. Vejo uma pessoa jogar água na cabeça. Penso em fazer o mesmo, mas ainda tenho sede. Reduzo a velocidade, até andar, para conseguir beber a água. Não acho que seja uma boa ideia. Em todas as vezes que parei no meio do treino, a retomada do ritmo foi difícil. Mas a sede é maior que minha ambição.

De 5 a 6 km: Acabo de completar a metade do trajeto e sinto meu corpo pedindo arrego de todos os lados. A respiração parece insuficiente e os músculos doem. Estou num ritmo aceitável, mas até quando? Não posso parar. Passo todos os dias nesta rua, vai que algum conhecido me vê andando! Chego agora à belíssima praça da Cidade Velha, o dia está ensolarado e eu estou fazendo algo inédito. O cenário é realmente muito bonito. Olho para o alto e vejo as fachadas dos prédios, admiro o que vejo, acho que é o melhor que posso fazer. Na minha frente já aparece um corredor com o balão indicando 50 minutos. É, não terei como atingir meu melhor tempo, não.

De 6 km a 7 km: Logo vou completar o sétimo quilômetro. Quando fiz 10 km pela primeira vez, três semanas atrás, eu tinha previsto correr 7 km. Ao atingir o objetivo, me senti bem o suficiente para seguir o treino, devagar e sempre. Aquele dia foi muito bom, voltei para casa contente, postei o resultado no Facebook e marquei todos os meus amigos corredores. Depois daquele dia, como se tivesse vencido uma barreira psicológica, só não treinei 10 km quando havia alguma razão especial para isso, então hoje não há de ser diferente. Pronto, cheguei ao rio. Agora é acompanhar a margem até a chegada. Está fácil.

De 7 km a 8 km: Não, não está fácil. Estou cansado demais. Eu deveria ter dormido melhor durante a semana, eu deveria ter me hidratado mais, eu deveria ter treinado tão sistematicamente quanto nas semanas anteriores (mas para isso eu não deveria ter pegado gripe), eu não deveria ter parado para tomar aquele copo de água no meio da corrida. O quilômetro todo é uma disputa entre meu desejo de não parar e o limite que, mais cedo do que eu previa e gostaria, pareço atingir.

De 8 km a 9 km: Por que estou tão cansado? Quem sabe agora, caminhando, eu me recupere um pouco. Devo estar perdendo pelo menos dois minutos. Vejo várias garrafas de água jogadas no chão. De onde elas vieram? Não sei, mas agora não vou voltar para procurar. Quer saber? Vou pegar esta aqui, que parece cheia. Providencial. Molho minha cabeça, limpo o suor do rosto, tomo uns bons goles. No público, alguém estende o braço e me oferece um cumprimento. “Força”, parece dizer. Cumprimento de volta e sigo. É hora de voltar a correr.

De 9 km a 10 km: Quero acelerar para compensar a perda de tempo, mas está difícil, melhor voltar à passada normal. Quantos metros fiz em ritmo acelerado? Uns 300, 400? Nossa, quem esticou este quilômetro? A chegada parece tão longe! Concentra, falta pouco. Mais alguns passos e… cheguei.

Logo que ultrapasso a linha de chegada, recebo um SMS da organização: 56min59s. Achava que faria bem melhor. No celular, o aplicativo diz que meu trajeto foi de 11,5 km. Como assim? Sei com certeza que hoje foi 10 km. Talvez, então, o aplicativo erre, e meus treinos tenham sido de 9 km ou menos. Se for isso mesmo, então esta foi não só minha primeira vez em uma corrida, mas também minha primeira vez chegando realmente a 10 km. Considerando também o cansaço da gripe e a falta de treinos na semana, tenho de me orgulhar. Até porque, há quatro meses não tinha feito nem sequer um treino, e meu objetivo quando me inscrevi nesta corrida era apenas terminar. Hoje, contrariando minha própria expectativa, sinto prazer em correr e já conto as horas para a próxima prova.”

 

 

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Na praia deserta, corredor encontra urubus famintos

Por Rodolfo Lucena
13/09/13 14:50

Pois dia desses tive a oportunidade de correr na bela praia de Jurerê, no litoral norte da não menos bela ilha de Santa Catarina, onde fica a festejada Floripa, Flóps, Florianópolis, a Ilha da Magia.

Pois Jurerê, para quem não conhece, não é uma: são duas. A Jurerê propriamente dita e a Jurerê Internacional. A praia é uma só, mas são duas estruturas urbanas diferentes.

A chamada Internacional é uma superincorporação onde ficam casas de ricos, ricaços e muito ricos; eventualmente abriga tabém traficantes de drogas e contrabandistas (em junho foi feita uma grande apreensão em uma mansão local).

Nos últimos dias, a praia esteve vazia. Estava frio, o sol ficava escondido entre as nuvens, a névoa tomava conta do horizonte. Mesmo assim, eu acreditava: saía a correr em busca do sol, sabendo que não seria forte o suficiente para me abater, mas razoável, bom para aquecer os ossos.

Às vezes, dava sorte: com uma ou duas horas de treino, o sol conseguia romper fracamente eentre as nuvens e dava bom dia aos transeuntes.

Às vezes, o nublado dominava. Na praia vazia do ricos, ricaços e muito ricos, quem passeava eram os urubus. Fiquei pensando se não seria uma metáfora… Ou paráfrase, anacoluto, sei lá.

Bueno, como estou em fase de corrida com fotografia, resolvi capturar uma imagem dos bichos. Que estavam em cena, para mim, inusitada: banqueteavam-se dos restos mortais de uma tartaruga marinha. Se você for biólogo ou conhecedor do assunto, por favor, colabore identificando a espécie. Para mim, é uma tartarugona.

Parei, fotografei e fui embora.

Na Jurerê dos ricos, ricaços e muito ricos, ficaram os urubus e o cadáver da tartaruga..

Corrida nos Alpes: para começar, 35 km em 12 horas!!!

Por Rodolfo Lucena
11/09/13 12:47

O treinador de corrida SIDNEY TOGUMI completou 40 anos neste ano e está a todo o vapor no mundo das ultras, ao mesmo tempo em que atua em uma assessoria esportiva em São Paulo. Nos intervalos do trabalho, bai ali e acolá para correr qualquer coisinha assim de uns cem ou duzentos quilômetros. A mais recente foi pouca coisa maior: 300 km nos Alpes, passando por trechos nas Itália, na França e na Suíça. Sem mais delongas, apresento a seguir o relato da prova que SIDNEY mandou especialmente para este blog, o que agradeço.

 

Era início de dezembro de 2012 e eu sabia que as inscrições para as provas do Ultra Trail Du Mont Blanc logo estariam abertas. Comvidei meu amigo Eduardo Sarhan para me acompanhar. Na rápida conversa, expliquei que se tratava da etapa mais longa da competição, com 300 quilômetros de distância, 24 mil metros de desnível positivo acumulado e tempo limite de 138 horas.

Claro que deixei de lado alguns pontos, como o fato de poucas equipes completarem 100% do percurso, as dificuldades técnicas ou ainda o clima instável, que anualmente obrigava a organização a reduzir ou modificar o percurso. Afinal, pesavam particularidades como a largada em Chamonix, na França, o trajeto passando por Morgex, na Itália, e Champex, na Suíça, até o retorno a Chamonix. No Google Earth, tratava-se de um fantástico círculo pelo maciço do Mont Blanc.

Desembarcamos no final de agosto último em Chamonix, após meses de treinamentos e tendo no currículo a minha participação, no ano anterior, na categoria UTMB, de 160 km e 9.000m de desnível. A emoção me dominava. Os participantes do PTL praticamente desfilam ao entrar no “curral” de largada, ovacionados pelos milhares de expectadores presentes. Individualmente, tivemos a honra de uma torcida particular, incluindo a brasileira mais bem classificada no UTMB 2013, Manuela Vilaseca, 8º lugar geral feminino, e do meu amigo-irmão de ultras, o venezuelano Ylich Iausquin.

Contagem regressiva e Gooooooooo!!!!!!

O Sarhan saiu como um louco à frente de todos e eu tentava acompanha-lo, mas já sabendo que estava bem acima do meu ritmo. O percurso não é demarcado pela organização, e as equipes devem navegar por GPS, carta topográfica, bússola e road book. O Sarhan seguiu a indicação errada de alguns locais. Perdemos um pouco de tempo, mas logo voltamos à rota.

A diferença física da dupla acabou por interferir no nosso progresso. Discutimos muito sobre o ritmo nas primeiras horas de prova, pois eu não conseguia acompanhá-lo. Situação normal para duas pessoas que nunca haviam competido juntos. Treino é treino, jogo é jogo.

Ritmo ajustado, seguimos por onde o GPS nos mandava. Passadas 12 horas da largada, enfim tivemos a noção real da prova. Chegamos a um posto de controle, perguntei sobre a distância que havíamos percorrido e a resposta foi um baque: 35 quilômetros!

Ainda pensando na média de 2,9 km/h, nos reabastecemos de comida e água e seguimos nosso rumo. Durante a noite. fazíamos períodos de 30 minutos de sono, na tentativa de tentar recuperar um pouco as energias física e psicológica. Passávamos por lugares maravilhosos, porém técnicos e de difícil acesso, nada semelhante à geografia brasileira.

Infelizmente, entre o segundo e o terceiro dia, o Sarhan decidiu deixar a prova. Ele não se sentia bem e acabou por tomar essa difícil decisão. Pelo regulamento, eu poderia continuar desde que outra equipe ou competidor me aceitasse como novo integrante e, por sorte, logo fui recebido por uma dupla de franceses. Triste, me despedi do Sarhan e segui em frente, sempre com o pensamento na chegada.

Além do físico, o desafio psicológico aumentava, pois eu precisava me adaptar à nova equipe, de Stephane e Loic. Agora como trio, juntos com outra equipe francesa e uma sueca, cruzamos a fronteira entre França e Itália rumo, à cidade de Morgex. Foi lá que tomei o meu primeiro e revigorante banho, desde a largada três dias antes.

Dormimos por 40 minutos e seguimos em frente, por um curto trecho como um quarteto, pois o também francês Sebastien tinha passado a integrar a equipe. Uma hora depois, Stephan e Luli também desistiram da prova. Nos despedimos, nos desejaram sorte e seguimos na prova, agora uma dupla de um brasileiro que não fala francês e um francês que não fala inglês e, claro, nem o português.

Sebastien e eu tentávamos nos comunicar por gestos. A situação era no mínimo divertida. Como competidores, eu subia melhor, mas ele me deixava para trás nas descidas.

Em certo momento, cheguei a duvidar se conseguiria terminar a prova, pois meus joelhos passaram a doer muito. Em outro, precisei literalmente dar comandos para que Sebastien tentasse manter a racionalidade.

Em meio a um caminho extremamente técnico, íngreme e cheio de pedras, o francês começou a delirar. Alucinado, ele não conseguia mais controlar o sono. Fiquei superpreocupado, pois me parecia que ele estava com um esgotamento mental muito severo e imaginava que ele poderia ‘apagar’ de vez, em meio de um paredão de pedras.

Comecei a falar alto com ele, dando ordens num inglês simples e cheio de mímicas para que ele me ajudasse a encontrar marcas nas pedras que sinalizavam o caminho. Tentava motivá-lo e, consequentemente, mantê-lo acordado. Por quatro vezes tive que dar gel na boca dele, para que se alimentasse e mantivesse um nível de energia satisfatório. Após duas longas horas, finalmente, conseguimos atravessar a montanha. Comemoramos com um forte abraço, como se tivéssemos terminado a prova.

Aquela era a última travessia mais técnica e, partir dali, o aclive e declive facilitavam o descolamento. Já no vale de Chamonix, faltavam 17km, quando olhei o relógio. Teríamos apenas 2h05 para cruzar a linha de chegada dentro do horário limite. Naquele momento, não importava mais que já haviam se passado mais de 270 km, que os joelhos doíam como se quisessem saltar das pernas ou que os delírios por um momento testaram nossas racionalidades. Queríamos o colete de finisher!

Ainda faltavam 10 km e 1h10 para o tempo limite, quando começamos a correr. Corremos como loucos. Deixamos de lado sono, fome, dores, enfim, tudo o que nos incomodava, com o único objetivo de cruzar a linha de chegada e receber o colete de finisher do PTL 2013. Entramos na cidade, o ritmo era de quase 12km/h, bem acima da nossa média total da prova de 2,16 km/h. Já em Chamonix, passamos algumas equipes, cruzando a linha de chegada com 136h04min.

Desastre? Derrota depois de tanto sofrimento e aventura?

Para nossa sorte e surpresa, a organização havia estendido o tempo limite em 30min.

Recebi o colete de finisher aos prantos. Um choro de alegria, satisfação, orgulho, alívio, um misto de sentimentos indescritíveis. Sebastien e eu nos abraçamos e nos agradecemos por tudo que passamos.

Cada minuto da prova e cada emoção passaram como um flash na minha cabeça quando todos os atletas que terminaram o PLT 2013 foram convidados para subir ao palco e tocar o sino que simboliza a competição. Eu era o único brasileiro daquele grupo e sabia que era apenas o terceiro brasileiro a completar a categoria mais longa nesses dez anos de Ultra Trail Du Mont Blanc. “

“Fotografa nós”, diz o homem da rua ao corredor

Por Rodolfo Lucena
08/09/13 14:06

São Paulo é um mar. As ruas são ondas, em que o corredor mergulha, às vezes cansa, imagina que vai soçobrar, mas emerge para uma nova marola, outra vaga, um desvio, um tubo. O corredor surfa no asfalto.

As gentes são como os peixes, moluscos, crustáceos, algas, tão diferentes entre si como os habitantes das profundezas aquáticas, ainda que, como eles, irmãos, compatriotas, concidadãos.

Hoje tive mais uma prova, um gostinho do que é São Paulo, seu sal amargo, seu doce sol, sua crueldade cinzenta, o sorriso carinhoso de seu povo.

Saí de casa para perseguir meu nariz. Quase chegando à Paulista, encontro perdida num canto, abandonada, mas nem tanto, porque carinhosamente deixada em uma cadeira, a Maricota. Boneca de pano andrajosa e desmilinguida, é a parceira de um artista do asfalto que com ela às vezes dança na esquina da Paulista com a Consolação, ali onde um dia foi o Riviera –ele vai voltar!.

Hoje Maricota estava sozinha.

Desço a Consolação, seguindo caminhos que tantas vezes percorri a pé, de carro, de ônibus, para casa e para o trabalho, para o trabalho e para casa. Paro no Redondo, que já não é o Redondo, mas qualquer outra coisa que nem percebi. De qualquer jeito, não canso de me impressionar com a majestade do prédio criado em curvas.

Ao pé dele, um morador de rua dorme, como muitos outros nas quebradas do centro.

Passo pela Love Story, a boate de todas as boates, e o povo está saindo. Um mulher vestida com um colante berrante e uma blusa multicolorida, tão colada ao corpo quanto as calças, grita, chuta um carro, é contida por seguranças e conhecidos, o motorista do táxi sai para ver o estrago, mas é dissuadido de enrolar pela turma do deixa-disso, a mulher volta a atacar, seu alvo é alguém encolhido dentro do carro, a turma do deixa-disso enxota o taxista, o carro arranca e a confusão termina.

Passo por travestis, prostitutas, proxeneta, curiosos, bêbados, drogados, boyzinhos, coxinhas, garotinhas que querem descobrir a noite (agora já manhã alta). Sigo pela praça da República, subo a São João, desço para o Anhangabaú. Quando começo a atravessar, vejo o viaduto Santa Ifigênia , todo de aço, me convidando para passar por ele. Aceito o convite.

Faço uma curva, subo uma pequena ladeira e eis que a vejo.

Não sei quem é nem cumpri meu dever jornalístico de identificar a praça ou descobrir seu nome. Apenas a vi e gostei dela, não mais estátua de bronze, aço, cimento, granito ou o que o valha, mas coisa viva, modificada pelo homem da rua, que lhe deu boca e arma, até uma luva improvisada.

Quando eu fotografava a estátua/intervenção, vi lá ao fundo um morador de rua, catador de coisas, multicolorido. Imaginei até que pudesse ser ele o autor, tantas eram as criações que fizera no próprio corpo.

Ele se aproxima, chega mais perto, fala: “Fotografa nós dois”, como se de fato fosse a estátua sua criatura. Aí está a cena.

Ele informou ser o irmão Edmílson Bispo dos Santos e mais não disse nem lhe foi perguntado. Saiu para continuar a catar coisas na praça, eu segui minha carreira.

Vi lixo no caminho.

Vi helicóptero nos céus, fazendo um barulhão dos infernos.

Vi a vovó colorida de olhar perdido.

Vi uma ruela atraente, inusitada, talvez rescaldo das vilas operárias da zona leste.

A partir dali, segui jornada por uns lugares estranhos, acompanhando a linha do fura-fila, vendo ao longe os caminhos do metrô, mas sem saber direito por onde andava.

Seguia meu nariz, cumprindo jornada de caminhada e corrida. Tinha muita dor na lombar, a perna esquerda rengueava um pouco, mas não lhes dava descanso. Ver a cidade vazia, exposta, ameaçadora e cálida, me animava, assim como as corres e cheiros fedidos de arroios urbanos.

Passei rumo a uma área da zona sul, cruzei pela estação Tamandatueí do Metrô, da qual nunca tinha ouvido falar, apesar de ela estar na linha verde, que uso rotineiramente.

Faltava apenas um bloco do meu treino. Precisava sair daqueles confins sem gente, daquele corredor solitário de armazéns vazios. Subi por uma rua que parecia mais movimentada, talvez tivesse um bar ou um posto de gasolina onde eu pudesse beber água, engolir meu gel de carboidrato (o segundo do dia).

O que tinha, mesmo, era um jovem cavaleiro trotando pelo asfalto. Corria para longe, mas longo encontrou alguém que trazia um animal no cabresto. Voltaram os dois, vinham na minha direção. Pedi que posassem para uma foto. Eis pai e filho, que aos domingos levam seus animais para um passeio.

Fiz até um vídeo com eles. Vamos ver se a internet lerdíssima da minha casa permite que eu o coloque no ar. (Atualização: Consegui! Para ver o vídeo, clique AQUI.)

Ele me disseram onde eu estava: avenida Carioca, no Ipiranga. Mas nos confins do Ipiranga, não pertinho do parque nem da avenida Nazaré, que tão bem conheço.

Subi longa e cheguei à favela Heliópolis. Domingo de manhã, todo mundo de bom humor, não tive problemas para percorrer algumas de suas ruelas. Depois prossegui, pois já era quase hora de o treino acabar e não tinha a menor ideia de onde encontrar metro ou ônibus para voltar para casa.

Apesar disso, continuei correndo atrás de meu nariz, que não estava sendo o melhor guia do mundo: acabei chegando a avenida Anchieta, já quase fora dos limites da Pauliceia. De uma passarela sobre a via, vi o primeiro engarrafamento do domingo.

Depois fui me ajeitando, reconhecendo locais, descobrindo caminhos. O treino terminara: 25 km em 3h18, pode ser muito para alguns, pouco para outros, foi o que deu para mim, num percurso pleno de descobertas.

Antes de voltar para casa, ainda há tempo para mais uma olhada para a cidade. Vejo o mundão de telhados e janelas, tenho certeza: São Paulo é um mar.

Blogando em causa própria: convite amplo, geral e irrestrito

Por Rodolfo Lucena
05/09/13 15:50

Prezado leitor, peço vênia para usar este espaço em causa própria: nesta sexta-feira, dia 6 de setembro, haverá sessão de autógrafos de meus livros “MARATONANDO – Desafios e Descobertas nos Cinco Continentes” e “+CORRIDA – Pensamentos no Asfalto, Relatos de Provas e Dicas de Treinamento”.

A função começa às 20h, no II Salão do Jornalista Escritor, no Auditório Simon Bolívar, no Memorial da América Latina, que fica na Av. Auro Soares de Moura Andrade, 664. Tem estacionamento pago. É ao lado da estação Barra Funda do Metrô (linha vermelha).

“MARATONANDO” foi meu primeiro livro de corrida (antes, tinha publicado em 1976 o “Abertura 1812”, de contos). Nele conto minha trajetória de completo sedentário militante a ultramaratonista, fazendo aventuras por locais com a Grande Muralha da China, montanhas e vales do interior da Austrália e caminhos pelo litoral da África do Sul. Correr vira um aprendizado de vida.

Já o “+CORRIDA” traz experiências diversas. Além de relatos de provas que provas que enfrentei, trago entrevistas originalmente publicadas no meu blog e ainda filosofadas sobre o ofício de colocar uma perna depois da outra, um passo depois de outro o mais rapidamente possível. Entre as personalidades que me deram a hora de entrevistá-las estão o ex-recordista mundial da maratona, Ronaldo da Costa, e a única brasileira que participou da primeira maratona olímpica feminina, Eleonora Mendonça.

Bueno, está feito o convite. Passe adiante, avise os amigos, conhecidos, o cachorro, o gato e o papagaio. Espero você lá.

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