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Rodolfo Lucena

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Perfil Rodolfo Lucena é ultramaratonista e colunista do caderno "Equilíbrio" da Folha

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Ibirapuera acorda feliz no ano em que vira sessentão

Por Rodolfo Lucena
01/01/14 12:41

selo_rodolfo_correndoReportagem, para mim, só vale se for resultado de investigação. Não gosto dessa história de sair com uma tese pronta e só buscar elementos que a confirmem, ou de fazer primeiro o título e depois rechear com alguns dados, declarações, citações de especialistas. Mesmo assim, neste espaço em que venho lhe abrindo meu coração e minhas passadas por São Paulo, devo confessar, em segredo de ofício, que hoje saí de casa com o título pronto e os primeiros parágrafos deste texto já arrumadinhos da minha cabeça.

O título seria “Ibirapuera acorda de ressaca no ano em que vira sessentão”, e a história teria cenas dantescas de sujeira espalhada pela grama, restos de vômito no asfalto, casais das mais diversas denominações sexuais rolando seminus sob macegas, sem falar do balanço de atividades policias que incluiria várias prisões, apreensão de drogas diversas e registros de pelos menos 16 brigas –em pelos menos três casos, as vítimas ficaram muito feridas e tiveram de ser levadas às pressas para o hospital mais próximo, onde ainda não estariam fora de perigo de morte. Para contrabalançar o caos e a barbárie, incluiria algum senhorzinho ou senhorinha corredores, exemplo de denodo e dedicação, inspiração para o ano que entra.

Tudo isso porque, pela primeira vez nos registros de que tenho notícia, o Ibirapuera foi palco de uma “festa da virada”: na passagem do Ano Novo, o mais emblemático parque da cidade teve show de música (sambinha bom, até com o grupo Demônios da Garoa), luzes e confraternização. O público acorreu com entusiasmo, e a multidão foi o triplo do imaginado pelos organizadores (fico pensando em quem faz esses cálculos; parece que o pessoal não tem noção de que, nesta cidade, há demanda reprimida de tudo).

Antes de sair, no início da manhã de hoje, ainda li a cobertura da festa (AQUI). Imaginei que tudo estaria nos conformes, de acordo com o que eu tinha previsto. Beleza.

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Errado. O parque é que estava uma beleza. Pouco depois das 7h, estava quase completamente limpo. Ainda havia algumas áreas com lixo espalhado, mas muito pouco; em outros locais, os detritos haviam sido recolhidos, mas estavam em sacos no chão, aguardando a etapa seguinte do processo de limpeza. Havia alguns casais de ressaca ou ainda tirando aquela soneca reparadora, mas todos estavam muito bem comportados. E a cidade, vista de lá, parecia linda (foto acima).

O parque, por sua vez, estava na sua melhor forma. Além de tudo bacaninha, as trilhas ensolaradas eram convidativas ao exercício. Como parte de minha jornada de 460 km por São Paulo, em homenagem ao próximo aniversário da cidade, percorri os três principais caminhos geralmente encarados pelos corredores.

O percurso mais conhecido e mais frequentado –às vezes, mesmo no começa da manhã de dia de semana, fica lotado—é o que a gente chama de “volta de 3”. No asfalto, é um percurso quase circular de três quilômetros, que pode ficar um pouquinho maior se, como fiz hoje, incluir algumas passagens por fora.

É muito bom para treino de ritmo: faz-se uma volta de 3 km correndo forte, com intervalo trotado de 500 m ou 1 km. Para maratona, fiz muitos treinos desse gênero ali, começando com duas voltas até chegar a sete, sempre lutando para manter a mesma velocidade por quilômetro.

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Outra volta curtinha é a da pista de Cooper, toda ela sob a sombra de árvores frondosas. Tem banheiro e bebedouro, coisa fina. Dá para fazer uma trajeto de 1.200 m ou, colocando mais uma voltinha interna, chegar a 1.500 m. Você nem precisa de GPS, pois está tudo marcadinho (a volta de 3 tem apenas marcações no asfalto, feitas por diversas assessorias esportivas, o que pode confundir o iniciante). O piso é de chão batido com pedrisco, e há muuuuuuitas curvas, coisa de que alguns treinadores não gostam, como também nem todos são exatamente fãs dos pedriscos.

Para mim, tanto faz como fez. A minha volta predileta é a “cerca”, como alguns mais velhos a chamam, pois margeia a cerca que protege o Ibirapuera. É uma trilha de verdade, construída inicialmente por milhões de passadas que formaram um trilho na grama e no chão de terra.

Houve administração no Ibirapuera que tentou, de forma arbitrária, abusiva e inútil, proibir seu uso…. O bom senso acabou por prevalecer, e hoje a trilha também está com marcadores feitos em pedaços de troncos de árvore, bacaninha, colocados a cada cem metros.

Quando comecei a usá-la, há 15 anos, era também conhecida como trilha de 6, referência à sua extensão. Mas é preciso dar algumas voltinhas extras para alcançar essa quilometragem. De qualquer forma, é uma delícia.

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Quando me preparava para minha segunda maratona, no século passado (ou seria no último milênio?), e já tinha aprendido que devia me hidratar mesmo nos treinos (para a primeira, treinava horas sem beber nada, pensando que assim estivesse ficando mais resistente), Eleonora me ajudou muito nos percursos pelo Ibirapuera, montando verdadeiros postos de abastecimento, com água de coco, água, barrinhas e outras guloseimas de corredor….

Bom, apesar do entusiasmo dos corredores, que se deleitam com a sombra e o piso de terra, com a visão das árvores e das aves, o Ibirapuera não é só para nós (ainda bem!!!). tem muito mais, como você pode ver neste site AQUI.

O parque foi entregue à cidade como um presente, uma comemoração do quarto centenário de São Paulo, que agora vai completar 460 anos. Não é preciso uma calculadora eletrônica de oitava geração para perceber que, portanto, o Ibirapuera vai festejar em 2014 seus 60 anos. Foi projetado por Oscar Niemeyer, que teve ainda diversos colaboradores.

O grande arquiteto comunista também foi o responsável por alguns de seus prédios e pelo desenho do edifício mais jovem, o auditório Ibirapuera e sua língua de fogo.

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Há no parque o Museu de Arte Moderna, com seu superestiloso e careiro restaurante, e também o Museu Afro Brasil –para mim, o mais emocionante da cidade: não deixe de visitá-lo quando for ao parque, é uma viagem na história, um convite à reflexão sobre a construção do Brasil como nação. Do outro lado da avenida, no prédio onde foi o Detran (foto), fica o Museu de Arte Contemporânea (ainda não fui lá, mas também é superelogiado).

Tem espaço para aulas sobre jardinagem e áreas de puro relaxamento. Pulmão verde da cidade, também é centro de produção de flores e plantas diversas no Viveiro Manequinho Lopes, nomeado em homenagem a um pesquisador apaixonada pela vida (saiba mais sobre ele neste estudo AQUI; é um pouco longo, mas muito interessante).

Resumo da ópera: de ressaca ou não (Não!), o Ibirapuera é bom demais. Fico muito feliz de ter podido passear nele neste primeiro dia de 2014, de sol e céu azul (talvez venha uma chuvinha por aí).

Tomara que o ano continue ensolarado (e cheio de surpresas) para todos nós. Feliz Ano Novo! Vamo que vamo!

DIA 30 – PROJETO 460 KM POR SÃO PAULO

Clique no mapa para conhecer mais detalhes sobre o percurso do dia

mapa dia 30 1dez2013

QUILOMETRAGEM DO DIA: 11 km

TEMPO DO DIA: 2h31min18

QUILOMETRAGEM ACUMULADA: 368 km

TEMPO ACUMULADO: 83h15min16

QUILOMETRAGEM A CUMPRIR: 92 km

DESTAQUES DO PERCURSO: parque Ibirapuera, Museu Afro Brasil, Museu de Arte Moderna, Museu de Arte Contemporânea

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Em memória do cadeirante Israel Barros, morto na 88ª São Silvestre

Por Rodolfo Lucena
31/12/13 14:26

selo_rodolfo_correndoDe novo, a virada do ano vai ser de choro, dor, angústia e raiva para Fátima, seus dois filhos e seus dois netos. Não há mais, na família, marido, pai, avô: no ano passado, Israel viajou do Pará a São Paulo para participar da São Silvestre e nunca mais voltou. Morreu esborrachado no muro do estádio do Pacaembu.

Sem a maior parte de uma perna, por causa de um acidente na adolescência, Israel acabou se tornando atleta e sonhava em participar de uma paraolimpíada. Na São Silvestre passada, tudo virou fumaça: a cadeira de corrida que dirigia bateu na guia da calçada e Israel Cruz Jackson de Barros voou.

Foi um acidente, concluiu o inquérito policial aberto sobre o caso. E também foi o que me disseram os assessores de imprensa dos organizadores e promotores da prova. Ficaram de mandar mais informações sobre o desenrolar do caso e providências tomadas, mas, até o momento em que escrevo este texto, nada chegou (a foto abaixo é do blog dele, que ainda está no ar e pode ser lido AQUI).

A família de Israel, que a todos sustentava com seu trabalho e com sua atividade esportiva, está a ver navios.

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Fátima, a viúva, conseguiu recentemente emprego como faxineira em um órgão público municipal, em Ananindeua, na região metropolitana de Belém. Há cerca de dois meses, teve de volta a cadeira do marido, destroçada. Até agora não sabe o que fazer com a relíquia, não tem dinheiro para consertar nem conseguiu comprador.

Diz que pretende buscar ajuda de advogado para tentar obter o que considera seu direito, algum tipo de compensação. “Dinheiro nenhum vai trazer de volta meu marido”, me disse ela ontem, por telefone, “mas eu preciso sustentar minha família.”

Não faz diferença para ela nem para os filhos e netos de Israel, mas resolvi fazer de minha participação na São Silvestre de hoje uma homenagem à memória do cadeirante Israel.

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Maior e mais tradicional corrida de rua do país, a São Silvestre é um exemplo do descaso e falta de consideração com que os corredores de rua somos tratados por algumas organizações de provas. Começa pelo horário, já tantas vezes criticado quando a prova era à tarde e ainda merecedor de crítica agora: se começasse duas horas antes, a saúde dos participantes correria menor risco…

A água é quente, e já virou tradição. No primeiro posto, distante mais de 4 km da largada, os atendentes gritavam, no que parecia um desolador exercício de ironia: “Só tem água quente, só tem quente”. Parecia brincadeira…

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A temperatura não melhorou nos postos seguintes, e o abastecimento piorou: vários gavetões de garrafas de água estavam vazios já no segundo posto.

No único local de entrega de isotônico, então, a coisa ficou kafkiana. A bebida era servida em apenas um mesão, e os corredores se acotovelavam, enfrentando fila e muvuca. Isso que já não éramos uma multidão, pois eu caminhei toda a prova, estava entre os participantes de ritmo de mais de 10 minutos por quilômetro.

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Essa bagunça enfrentei também na hora de retirar o kit. Apesar de a entrega ter sido tranquila, sair do salão foi num sofrimento, pois nos obrigam a passar por um verdadeiro corredor polonês de lojas, tudo superapertado e confuso, num calorão dos infernos. E olha que também estive entre os últimos a pegar meu número.

Ainda bem que, apesar dos organizadores, a São Silvestre resiste, e os corredores a transformamos num encontro de alegria, uma confraternização, um momento de pensar e de não pensar, de chutar o pau da barraca ou simplesmente mostrar que pode.

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Essa alegria das ruas contagia mesmo quem não corre, como uma simpática grávida, que usou seu barrigão para nos desejar a todos boa sorte na 89ª São Silvestre.

Na prova, há vi jovens mamães levando o filhote em cadeirinha de rodas, e vi deficientes portadores de males degenerativos serem levados por voluntários, em exemplo de dedicação e espírito de luta.

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Isso é o que tínhamos todo: vontade de guerrear consigo mesmo, com a preguiça, com a desesperança, com a angústia, com a dor, cada qual no seu quadrado.

Como corredor, sofri muito nos primeiros quilômetros, sentindo-me um tanto humilhado ao ser ultrapassado pela multidão, que parecia encarar com pouco caso aquele caminhante no meio da massa de guerreiros.

Mas eu também combatia o bom combate. A fratura no joelho não me permitia correr, mas virei um caminhante em busca de resultados. No primeiro viaduto, exultei: começava a fazer ultrapassagens, fiquei até “me achando”, como diz a juventude, e agradeci a festa que faziam torcedores do Corinthians (veja ESTE VÍDEO AQUI).

Isso se repetiu em outras subidas e, quando chegamos à Brigadeiro, foi uma alegria para mim. Eu estava mais rápido do que jamais fora, com média abaixo de 10 minutos por quilômetro. Resolvi lutar para manter e, se desse, baixar.

Passei a ter metas, queria ultrapassar mais um e outro e outro. E conseguia. Vi uma senhora que caminhava muito rápido, ela serviu de exemplo para mim, mas acabou também ultrapassada –aliás, ganhei até de “Pelé”.

pele Os dois quilômetros da Brigadeiro estão entre os mais velozes de minha jornada de 460 km por São Paulo em homenagem ao próximo aniversário da cidade.

Fiquei até emocionado, soquei o ar quando cheguei à Paulista e vi o pórtico. Cruzei a linha com mais de meia hora de vantagem sobre o tempo que imaginava possível. Ergui o braço em memória de Israel, mas fiz da São Silvestre o que dela fazemos todos nós: uma celebração à vida.

Vamo que vamo!

DIA 29 – PROJETO 460 KM POR SÃO PAULO

Clique no mapa para conhecer mais detalhes sobre o percurso do dia

mapa sao silvestre dia 29 31dez2013

QUILOMETRAGEM DO DIA: 15 km

TEMPO DO DIA: 2h27min25

QUILOMETRAGEM ACUMULADA: 357 km

TEMPO ACUMULADO: 80h43min58

QUILOMETRAGEM A CUMPRIR: 103 km

DESTAQUES DO PERCURSO: 89ª Corrida São Silvestre, avenida Paulista, Brigadeiro Luiz Antonio, Centro de São Paulo

 

PS.: Leia, a partir de agora, reportagem que escrevi em janeiro deste ano e foi publicada na edição de feverieo/2013 na revista “O2”. Nela, relato o acidente de Israel e conto um pouco da trajetória desse guerreiro da vida.

 

MORTE NA CONTRAMÃO

Israel treinava pela manhã, começando seu dia na madrugada. Acordava às 3h30 e saía a circular pelas ruas escuras de Belém com sua cadeira de rodas feita em casa, com restos de outras. Dali, a bem dizer, ia direto  para a academia, onde fazia exercícios durante mais de uma hora. Só então ia ver os familiares: em casa, tomava banho, almoçava e ia para o trabalho. Voltava no fim do dia, jantava, dormia.

Israel tinha um sonho: representar o Brasil na Paraolimpíada de 2016, no Rio de Janeiro. Morreu sem ter tido sequer chance de participar de uma seletiva, de mostrar o que tinha conquistado com seu esforço. Na manhã do dia 31 de dezembro de 2012, esborrachou-se contra o muro do estádio do Pacaembu, na zona oeste de São Paulo.

Ele disputava a São Silvestre, que naquele momento não tinha multidão a correr nem fãs a aplaudir. Os cadeirantes, sem alarde, largaram minutos antes das sete horas, juntamente com outros atletas com necessidades especiais. Com uma cadeira importada, feita no Japão sob medida para seu corpo, cruzara a avenida Paulista, descera a passagem subterrânea para alcançar a Doutor Arnaldo, fazendo esforço na pequena ladeira que levava ao plano.

Chegou à Major Natanael, ladeira forte ao lado do Instituto Médico Legal. Como todos os concorrentes, entrou na contramão, ladeando o cemitério do Araçá e ganhando velocidade. Ninguém sabe a quanto rodava Israel naquela ladeira traiçoeira; outros cadeirantes chegaram a registrar ali velocidade de 48 quilômetros por hora –o que é bastante, se comparada à velocidade de 30 quilômetros por hora desenvolvida na chegada, na avenida Paulista plana e acolhedora, mas é pouco se comparada aos 70 quilômetros por hora que alguns cadeirantes alcançavam na longa descida da rua da Consolação, quando era outro o percurso da São Silvestre.

Então alguma coisa aconteceu. Talvez uma dor no braço, herança de lesão mal curada que tinha prejudicado seu desempenho na recente corrida da Pampulha, em Minas Gerais.

Talvez uma topada com um olho de gato encravado no asfalto –em 2011, quando o percurso da prova pela primeira vez incluiu a descida da Major Natanael, essa era uma das preocupações dos para-atletas, pois um erro ali poderia provocar um tombo.

Talvez um pneu furado. Naquela forte ladeira, em 2011, Fernando Aranha liderava a prova quando dois pneus de sua cadeira furaram, tirando-lhe as chances de chegar ao título.

Ninguém sabe, ninguém viu. Ou quem viu não conta. Segundo o delegado que comanda o inquérito, um PM foi testemunha do acidente. Seu nome não foi revelado, mas o delegado contou à imprensa uma versão do caso: a cadeira dirigida por Israel bateu na guia da calçada e o corpo voou longe, indo de encontro ao muro do estádio.

Israel morreu na contramão, como diz a canção, mas não atrapalhou o tráfego. Caiu na calçada, sangrando e sofrendo. Foi socorrido quase imediatamente, pois um dos postos fixos de atendimento médico ficava a poucos metros de onde ocorreu o acidente, às 7h35. Foi levado ao hospital, mas não resistiu aos ferimentos, morrendo pouco mais de uma hora depois.

Às 16h52 do dia da prova, o dia do acidente, o dia da morte, foi publicada a notícia no site da São Silvestre. Sob o título “Organização informa acidente fatal com cadeirante”, o texto informava: “A organização da Corrida Internacional de São Silvestre confirmou no fim da tarde desta segunda-feira a morte de um participante da prova dos cadeirantes, disputada no período da manhã na capital paulista. Israel de Barros, de 40 anos, perdeu o controle de sua cadeira de rodas e sofreu uma colisão no muro do estádio do Pacaembu”.

Seguia-se comunicado oficial dos organizadores: “O Comitê Organizador da 88ª Corrida Internacional de São Silvestre comunica o falecimento do atleta Israel Cruz Jackson de Barros, inscrito na categoria Cadeirante masculino. O fato ocorreu em razão de um acidente durante a prova realizada na manhã desta segunda-feira, em que o atleta se chocou contra o muro do Estádio do Pacaembu.

O atleta, segundo outros participantes, teria perdido o controle de sua cadeira na descida sofrendo uma queda muito forte. Prontamente atendido pela equipe médica do evento, que estava próximo ao local, Israel foi depois levado à Santa Casa de São Paulo ainda consciente, às 7h35, foi atendido pela equipe do hospital, mas, infelizmente, não resistiu em razão da gravidade dos ferimentos e faleceu às 8h50.

O atleta estava devidamente inscrito na prova, obedecendo os critérios de seleção do evento cujas inscrições foram feitas pela Fundação Cásper Libero e supervisionadas pela organização técnica do evento e pela ADD – Associação Desportiva para Deficientes.

O Comitê Organizador está acompanhando o caso juntamente com a ADD para atendimento à família do competidor, uma vez que o mesmo não residia na Capital.”

De fato, “o mesmo” não residia na capital paulista. Israel Cruz Jackson de Barros morava em Ananindeua, na região metropolitana de Belém. Vivia com a mulher, Fátima –que todos chamam de Adriana, nem ela mesmo sabe direito dizer por quê–, o enteado, a filha do casal e a primeira netinha, de apenas dois meses. Sustentava a família com seu trabalho como funcionário público municipal de Belém, atuando no posto de saúde de Icoaraci. Recebia bolsa-atleta do Estado e mais apoio de um empresário local, além dos parcos prêmios em dinheiro.

“A gente dependia dele. Agora nem sei por onde começar”, me disse a viúva em entrevista por telefone poucos dias depois do enterro de Israel. Ela também contou um pouco sobre a vida desse para-atleta quarentão que sonhava com um pódio nos Jogos do Rio-2016.

Israel nasceu em 13 de outubro de 1971, em Coruçá, no interior do Pará. A maior parte da vida, viveu sem a perna esquerda, que perdeu depois de um acidente ocorrido quando tinha 14 anos. O ocorrido é relatado pelo próprio Israel, que mantinha um blog em que divulgava suas atividades, contando o que chamava de sua “história de superação e determinação na vida e no esporte”.

O acidente ocorreu no dia 15 de outubro de 1985, às 17h, segundo relato de Israel: “Minha irmã me pediu que a ensinasse a andar de bicicleta. Foi aí que inventei uma brincadeira: corria na bicicleta e minha irmã tinha que sentar na garupa. Na terceira vez que corri com muita velocidade, minha irmã puxou a garupa da bicicleta, a manete da bicicleta entrou na minha coxa do lado esquerdo, perfurando e atingindo a veia femoral. Fui levado para o Hospital Beneficência Portuguesa, os médicos fizeram o possível para salvar a minha vida. Passei por quatro cirurgias; no final, tiveram que amputar a minha perna do lado esquerdo. Aqui me tornei uma pessoa com deficiência.”

Ele tinha acabado de completar 14 anos e precisou reunir forças para enfrentar a nova vida: “No inicio é tudo difícil, é como nascer de novo”, escreveu ele em seu blog.

O então garoto foi aprendendo a conviver com a dor, com o sofrimento. Descobriu que, apesar da perna perdida, podia estudar, ter uma vida social, praticar esporte. Com 22 anos, tinha se tornado jogador de basquete em cadeira de rodas, jogando pela Associação dos Deficientes Físicos do Pará.

Fortão, boa pinta, atraiu a atenção de uma garota recém-chegada do interior paraense. Francisca Aldeídes, então com 17 anos, tinha saído de Altamira para fazer exames médicos em Belém. Também de família de poucos recursos, ficara alojada nas mesmas instalações onde estavam hospedados os para-atletas que disputavam um campeonato de basquete em cadeira de rodas.

No refeitório, notou Israel: “Eu vi ele com uns amigos, eu me comovi”. Conversaram, Israel convidou a moça para assistir ao jogo, que seria à noite. Depois da partida, saíram, conversaram sem parar. “Pegamos amizade”, diz a hoje viúva.

Fátima já tinha um filho pequeno, mas isso não atrapalhou em nada o namoro. Logo ela estava grávida, e eles resolveram viver juntos. “Quando vim morar com ele, meu filho, Caíque, ia fazer três anos. Israel que cuidou do meu filho.”

Namoro, trabalho, mas nada de descuidar do esporte, conforte diz Fátima: “Ele era apaixonado pelo basquete, mas aí começou a ter corridas aqui, e ele começou a participar das corridas usando a mesma cadeira que usava para jogar basquete. Aí ele se encantou pelo atletismo. Dedicou-se muito, se entregou às corridas. O atletismo é a segunda profissão de meu marido”.

No esporte, também lutava contra dificuldades. Por falta de recursos financeiros, não conseguia ter um bom equipamento para competir. Durante muitos anos, competiu com equipamento improvisado, conforme diz Fátima: “Tinha um amigo que corria junto com ele, o Itabereci,  montaram uma cadeira de atletismo caseira. Desmancharam uma cadeira de basquetebol e fizeram uma cadeira de atletismo. Ele corri nessa cadeira, que pesava aproximadamente 17 kg.”

O próprio Israel relembrava a história, há cerca de três anos, quando registrou em seu blog: “Minha cadeira é de ferro, feita com peças de sucata que pesa 17 kg, enquanto as de outros atletas são de alumínio ou de fibra de carbono, que pesa 6 kg”.

E Fátima continua: “O grande vilão dele era essa cadeira, que era pesada demais. O sonho dele era ter uma cadeira mais leve, de carbono. Ele batalhou muito, fez um blog contando a história dele, pedindo ajuda para os amigos para conseguir um patrocinador para ajudar a ter um material melhor. O material dele atrapalhava, porque não permitia ele desenvolver muito…”

Mesmo assim, Israel começou a colecionar conquistas, como mostra em seu blog: de setembro a dezembro de 2008, por exemplo, acumulou cinco títulos em provas locais e regionais, em distâncias de 10 km e 12 km.

O denodo e os resultados nas ruas fizeram com que ganhasse apoios. Um empresário local passou a dar ajuda pagando passagens e estadia para competições fora de Belém. “Fiquei sensibilizado com a dificuldade do atleta para conseguir uma simples passagem para participar de uma prova representando nosso Estado. A partir daí, viabilizamos sua ida à corrida da Pampulha, em Minas, há uns quatro anos. Ao voltar, ele entrou em contato para agradecer e contar como havia sido. Foi o início de uma relação de amizade, incentivo e respeito”, conta Eduardo Daher.

“Seus pontos fortes eram a dedicação, a perseverança e a seriedade. Ele estava a caminho de alcançar seu maior sonho, que era participar de uma paraolimpíada internacional”, diz o empresário.

Aliás, por pouco Israel não conseguiu índice para participar dos Jogos Paraolímpicos de Londres no ano passado.  “Nos treinos em Belém, estava com marcas que lhe permitiriam participar da Olimpíada de Londres, mas na prova classificatória em Natal, o vento forte atrapalhou, não permitindo que ele atingisse a marca necessária”, lembra o apoiador.

Já então Israel competia com a sua cadeira nova, que comprara havia dois anos, no Japão. Foi uma verdadeira epopeia conseguir fazer a viagem e levantar os recursos, lembra a viúva do para-atleta: “Fez livro-ouro, conseguiu apoio do governo, acabou indo”, diz ela.

Com sua cadeira nova, Israel tratou também de aprimorar seu estilo de corrida. Além das rodagens pelas ruas de Belém nas madrugadas escuras, passou a treinar sob a orientação de uma técnica, a professora de educação física Sandra Maria Souza Malcher, vice-presidente da Federação Paraense de Atletismo.

Na pista do estádio Mangueirão, os treinos eram realizados três vezes por semana. Além dos tiros e trabalhos intervalados, faziam também exercícios de força aproveitando a rampa do estádio.

“Ele era um atleta focado, consciente, preocupado com seus resultados. Cuidava de sua alimentação, tinha muito cuidado com sua cadeira, tinha uma boa qualidade de vida, não tinha o costume de bebida nem de qualquer outra coisa que pudesse interferir no seu trabalho”, diz a especialista.

Muito cuidadoso com a cadeira nova, deixava o equipamento guardado apenas para grandes competições. Qualquer problema lhe sairia muito caro, pois as peças para troca deveriam ser importadas. Um simples pneu furado já poderia ser um baque no apertado orçamento da família.

“Ele conseguiu essa cadeira, realizou o sonho dele, mas ele não curtiu muito. Ele chegou a correr quatro vezes apenas com essa cadeira”, lembra a viúva de Israel, emocionada. Uma dessas competições foi a Volta da Pampulha em 2011, quando ele conquistou o primeiro lugar, derrotando o amigo e rival Jaciel Paulino (campeão da São Silvestre de 2012).

“Conheci o Israel nas provas do Comitê Paraolímpico Brasileiro em provas de pista, corridas de 5.000 m e 10.000 m. Ele era uma pessoa responsável, amigo, sempre de bom astral e brincalhão. Já competi com Israel algumas vezes, poucas vezes em prova de rua, nas provas de pista mais vezes. Ganhei e também já perdi. Uma prova que marcou foi a Volta da Pampulha de 2011, quando ele adquiriu uma cadeira nova. Tive uma surpresa na prova, ele correu muito bem e ganhou a prova com um minuto de diferença”, diz Paulino.

Pois foi com essa cadeira japonesa, construída de acordo com o corpo de Israel, que o cadeirante foi a São Paulo disputar a São Silvestre. E foi com ela que Israel morreu.

Quando escrevo este texto, ainda não há explicações oficiais sobre o que aconteceu. No terreno policial, o caso é investigado como homicídio culposo, quando não há intenção de matar. A polícia tentar descobrir se alguém teve culpa, responsabilidade, no acidente que provocou a morte do para-atleta, cujas razões também não estão claras: Documento da Santa Casa, onde ele foi atendido depois do acidente, encaminhado ao Instituto Médico Legal (IML) indica que ele teve um “trauma torácico”, mas não especifica a causa da morte, segundo foi registrado na imprensa.

Os resultados das perícias no local do acidente e na cadeira, assim como das investigações policias, só devem sair ao longo deste mês. Também não há indicação de que os organizadores da corrida estejam dispostos a fazer modificações no trajeto.

Ao contrário. Em entrevista à Folha, o diretor técnico da prova, Manuel Garcia Arroyo, afirmou que não há intenção de alterar as regras nem o trajeto da São Silvestre. Para ele, o caso foi uma “fatalidade inexplicável”: “Largaram oito cadeirantes e não aconteceu nada [com os outros]. Estamos aguardando as investigações, mas não faz sentido. Até agora ninguém sabe o que houve. Ele não fez a curva. Não dá para saber se ele se enganou, se não brecou, se houve algum problema com a cadeira.”

Sobre o trajeto, Arroyo afirmou: “Todos os cadeirantes andam em alta velocidade na descida. O que se pode fazer é um alerta melhor. A cidade é cheia de subidas e descidas. Não faz sentido alterar o percurso. Seria como mudar uma curva de Interlagos em caso de acidente”.

Diferentemente do que ocorre no autódromo de Interlagos, porém, as curvas dos percursos por onde correm os cadeirantes não são protegidas. Melhorar as condições de segurança, ainda que o percurso não seja alterado, é uma reivindicação dos cadeirantes, segundo o campeão Jaciel Paulino.

“O que podemos fazer é procurar aprender com outras provas internacionais. Na Maratona de Nova York, por exemplo, nas ruas, os obstáculos que apresentam algum desnível, buracos e bocas de lobo são pintados de laranja. Em alguns trechos críticos (com curvas e descidas perigosas), são colocados fardos de fenos. Isso não evita o acidente, mas diminui bastante o risco de ocorrer um acidente fatal”, diz Paulino.

A todas essas, a família espera, ainda sem saber direito o que fazer, como diz a viúva Fátima Aldeídes Mendonça da Silva: “Eu queria que me dissessem uma coisa concreta sobre o que aconteceu, eles falaram coisas muito vagas. Quem perdeu fui eu, meu marido, meu companheiro, meu amigo. Ele era muito amigo. Ainda estou chocada demais com o que aconteceu”.

 

 

 

 

 

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Corredor exagera no último treino para a São Silvestre

Por Rodolfo Lucena
30/12/13 14:06

selo_rodolfo_correndoVou lhe dizer uma coisa: tenho mais sorte do que juízo. Saí hoje cedinho para fazer um treino bacaninha, planejado usado sistema internético de mapeamento: iria visitar dois parque de uma tacada só, num último treininho leve para a São Silvestre. Daria uns 10 km, talvez 12 km, dependendo de quando eu rodasse em cada parque.

Mas, como diz o outro, uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Ou, para não sair do terreno das sandices, treino é treino e jogo é jogo. Ou ainda, para não esquecer a orientação precisa da torcida do Grêmio, treino é jogo, jogo é guerra.

Quando me vi na rua, escolhi caminhos outros que os sugeridos pelo serviço de mapas. Já cansei de correr pela marginal, é suja, fedorenta, barulhenta, com os carros fungando na nuca, um desastre. Preferi seguir meu nariz, pegar ruas menores, olhar a cada esquina imaginando encontrar algo desconhecido.

Afinal, é isso que faz um corredor de rua (no meu caso, um caminhante de rua, por causa do maldito joelho fraturado que incomoda de vez em quando).  A gente persegue a rua, quer encontrar o âmago do asfalto, das vidas que constroem a cidade.

Fazer isso me deu mais quilômetros do que eu precisava hoje, provocou na musculatura estresse maior do que o recomendado na véspera de uma prova difícil. E me fez encontrar belíssimos –ou, pelo menos, muito significativos—registros da história de São Paulo.

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O primeiro foi logo ao cruzar a marginal pela ponte da Vila Maria, vindo da Vila Guilherme, onde rodara diversos quilômetros no parque de mesmo nome, antigamente conhecido como Parque do Trote (acima, as arquibancadas antigas).

Chegando do lado de cá, fui procurar o melhor caminho para chegar ao parque do Piqueri. Ao atravessar a rua, porém, vejo á minha esquerda um muro azul e branco com os dizeres União dos Operários e uma data que, de longe, me parece indicar 1917, o ano da Revolução Soviética.

(Abrir parênteses: queria incluir links sobre a revolução soviética, mas os sites que encontrei me pareceram indignos de sua leitura; se você se interessa pelo assunto, recomendo “Dez Dias que Abalaram o Mundo”, de John Reed; para compreender melhor a época, ganhando uma percepção do que rolava no período pré-revolucionário, sugiro o filme “Encouraçado Potemkin”.)

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Bom, o tal clube é de um pouco antes da revolução, mas com certeza surgiu inspirado pelos vapores socialistas. Foi fundado no dia primeiro de maio de 1917, por operários que queriam montar um time de futebol de várzea –e a história que eu sei para aí mesmo, pois não há muito mais  no site oficial da agremiação. Descobri, porém, que há um restaurante no local, e o prato forte é carneiro na brasa –depois do final do meu projeto d 460 km por SP, vou ver se dou uma passada lá…

A outra descoberta também se deu por olhar em volta. De uma esquina, vislumbrei um fundo de rua, uma árvore mais frondosa, uma cerca de ferro que parecia antiga, uma construção que lembrava uma igrejinha. Era coisa antiga, com certeza.

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Fui investigar e dei de cara com a famosa Vila Maria Zélia, primeira vila operária de São Paulo, construída exatamente em 1917. O local é hoje uma condomínio, mas os casarões antigos que ainda restam de pé estão protegidos (não dá para dizer preservados, porque os prédios estão em situação miserável, vários deles parecendo em condições até mesmo pouco seguras).

Logo na praça de entrada, um mural dá ideia de como foi a vila. Mas a realidade é bem outra, como você pode conferir nas imagens a seguir.

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Idealizada para abrigar os 2.100 operários especializados da Cia Nacional de Tecidos de Juta, 1917 a vila hoje é constituída por aproximadamente 200 casas com mais de 600 habitantes. Há uma associação de moradores, e este site AQUI traz muita informação sobre o local, a história e a luta pela preservação do patrimônio.

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Aos olhos deste visitante, acredito que muito mais poderia ser feito. Se o Estado (aqui me refiro tanto às autoridades estaduais quanto municipais e federais) considera importante a sua preservação, deveria trabalhar mais rápido nisso. E dar um jeito para que a área se transforme no que parece ser sua vocação: um museu a céu aberto, uma aula viva de história, sociologia e arquitetura.

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Certas coisas me fazem parecer militante do patrimônio histórico ou soldado do exército das causas perdidas, mas não faz mal. Pelo menos tenho minha caminhada, que hoje ainda me faz passar por um curioso monumento instalado defronte ao quartel dos Bombeiros, na Celso Garcia.

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Conseguiu descobrir o que é? Trata-se dos restos de um botijão de gás, depois de uma explosão, e foi colocado ali com propósitos educativos, para que as pessoas saibam o que pode acontecer quando não são tomados os cuidados necessários –bem, pelo menos foi o que me disse a pessoa que me atendeu na portaria do quartel.

Outro quarteirão, outra descoberta: um baita parque, muito arrumadinho, com grama fresquinha e verdejante. Já se foram mais de 11 km, mais ainda não é o parque do Piqueri. É o parque Belém, de fato bem novinho: foi inaugurado no ano passado, ocupando uma área que foi colônia correcional e centro de detenção de menores infratores (saiba mais AQUI).

Fico com vontade de dar uma volta pelas alamedas do Belém, mas já estou fazendo bem mais do que deveria. Aliás, pelo certo, não se deve treinar na véspera de uma corrida como a São Silvestre. No máximo, um trotinho de meia hora; eu já caminhava havia mais de duas horas e conversava comigo, me dizendo que a corrida amanhã vai ser broca.

A São Silvestre é a maior e mais divertida corrida do Brasil. Para a de amanhã, há 27,5 mil inscritos, segundo os organizadores (meu número é o 27.508). Muitos vão correr fantasiados, muitos vão estrear no asfalto, muitos farão dela sua única celebração corrida no ano.

Quero lembrar que, para se divertir, é preciso tomar algumas precauções (ainda que, como você viu, eu não seja exatamente o sujeito mais cauteloso do mundo quando se trata de preparação para corridas).

O melhor é se hidratar bastante, desde bem antes da prova. Beba mais água hoje e amanhã antes da corrida. Tome um bom café lá pelas 7h30 e leve água, barrinhas de cereais, talvez uma banana ou uma maçã ou mesmo um sachê de carboidrato para consumir uns 20 minutos antes da largada.

Saia com calma. O primeiro quilômetro é congestionado mesmo; o segundo é o mais perigoso, em descida: na dúvida, caminhe. Depois você recupera. Beba água em todos os postos de hidratação, torcendo para que neste ano ela esteja pelo menos fresca, se não gelada (no ano passado, estava quente, cheguei a ter náuseas nos primeiros goles…).

Use protetor solar e desfrute da cidade. O percurso atual passa por área interessantes, curta as praças, o largo do Arouche, o Municipal. A subida até o Largo São Francisco é dura, mas depois tem uma descidinha que serve para relaxar e preparar o espírito para a escalada da Brigadeiro.

Procure manter um ritmo, qualquer que seja. Vai haver um platô sob o viaduto da 13 de Maio; relaxe um pouco ali e daí, meu amigo, queime o chão que a Paulista já estará à vista. Faça a curva correndo, grite para a torcida, mande beijos para o público e se consagre: você é mais um sãosilvestrino (ou sãosilvestrense? Ou sãosilvestrado?).

Não vou fazer nada disso. Caminharei na boa, farei muitas fotos e, se tudo der certo e nada der errado, se meu joelho não chorar e se minha lombar não derreter, devo completar em 3h15, talvez 3h30. É quase uma maratona… Pelo menos, poderei dizer que corri a maratona da São Silvestre…

O calor, por certo, estará muito pior do que hoje. Há previsão de 32 graus Celsius. Bueno, a gente sabe que o verão é quente e se inscreve quem quer; mas bem que os organizadores poderiam mostrar um mínimo de interesse pela saúde dos atletas, fazendo a largada mais cedo, você não acha?

Reclamações à parte, ainda não terminei de contar meu percurso de hoje, na 28ª jornada de meu trajeto de 460 km em homenagem ao próximo aniversário de São Paulo.

Estou quase chegando ao parque do Piqueri, mas comecei no da Vila Guilherme, que incorporou o parque do trote –o nome é porque ali funcionava a Sociedade Paulista do Trote (saiba mais AQUI).

flor

Trata-se de um parque pequeno e supersimpático, expansivo, aberto: quase toda sua área está exposta ao sol, portanto programe sua visite para o início da manhã o final do dia.

A maior atração, para o corredor, é a pista de cerca de 800 m (804,5 m originalmente) que era usada nas carreiras de antigamente e hoje Server para testar pernas e pulmões de humanos. Há ainda outras trilhas, algumas pegando parte do perímetro, outras em círculos internos à trilha principal. O corredor/caminhante também pode preferir o trilho criado na grama por milhões de passadas…

trote

Uma área de sombra protege um parquinho infantil bem cuidado, quadra de esportes e um terreninho sombreado e cheio de verde, equipados com bancos antimendigos (lembra? Foi a urbanista Raquel Rolnick que nos falou sobre eles, em um dos primeiros dias do Projeto 460 km pro SP) e outros mais confortáveis.

Saí dali bem satisfeito. Não é um parque que visitaria em um treino, considerando a distância da região onde moro, mas deve atender bem a população do entorno –hoje havia pouca gente por lá, mas há pouca gente em toda a cidade.

nadir dias

Meu caminho seguiu para avenida Nadir Dias, mais uma grande artéria cortada por córrego sujo e maltratado… Dali atravessei a ponte da Vila Maria, como já disse, descobri marcos históricos da cidade e enfim cheguei ao parque Piqueri.

Ele é minúsculo: 20% menor do que o do Trote, que já é pequeno; menos da metade do seu jovem vizinho, o já citado parque Belém. Não faz mal: é bonito, cheiroso, verdejante, espetaculoso, simplesmente o máximo.

lago

Se o parque do Trote é aberto e expansivo, o do Piqueri é contido, induz ao recolhimento, à meditação. Mal entrei no parque, me senti protegido pelas sombras, a temperatura estava um pouco (bem pouco…) mais amena que no asfalto da avenida Celso Garcia, o ambiente revolucionava meu espírito.

Talvez seja este o maior bem do Piqueri: ele te acolhe. Ao mesmo tempo, é cheio de ação.

Tem quadras esportivas, canchas de bocha, churrasqueiras, áreas para a criançada, equipamentos de exercícios para a terceira idade, locais para bombados puxarem ferro e uma sensacional, porém curtíssima, pista de Cooper (como dizem os cartazes colocados no parque).

piqueri trilha 2 melhor

Há um lago com cisnes, há uma pequena horta nos fundos do prédio da administração, há um quiosque com biblioteca aberta aos frequentadores. Acima de tudo, há paz, convite ao recolhimento. Tanto que uma jovem corredora que andava alguns metros à minha frente de repente parou, ao ver um jardim, e se aboletou num tronco a pensar sabe-se lá em quê. Para mim, é a imagem do Piqueri.

garota meditando

Com o que me despeço. Se você for a São Silvestre, quem sabe a gente se encontra na Paulista. Vamo que vamo!

 

DIA 28 – PROJETO 460 KM POR SÃO PAULO

Clique no mapa para conhecer mais detalhes sobre o percurso do dia

mapa dia 28 30dez2013

QUILOMETRAGEM DO DIA: 16 km

TEMPO DO DIA: 3h21min47

QUILOMETRAGEM ACUMULADA: 342km

TEMPO ACUMULADO: 78h16min33

QUILOMETRAGEM A CUMPRIR: 118 km

DESTAQUES DO PERCURSO: parques do trote e do Piqueri, vila Maria Zélia, União dos Operários Futebol Clube

 

 

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Corredor descobre Bororé, ilha com veneno no coração

Por Rodolfo Lucena
29/12/13 16:19

selo_rodolfo_correndoCâncer. O diagnóstico veio em agosto do ano passado, e ela seguiu os passos recomendados: fez a cirurgia para extirpar as mamas, radioterapia e quimioterapia. Para ficar mais segura, complementou o tratamento com produtos naturais, que podem lhe fortalecer o sistema imunológico. Hoje caminha firme, mesmo sob o sol forte, e acredita que não foi acidente:

“Não sou só eu. Aqui perto de casa, tem mais uma. Dois morreram esses tempos e tem mais dois com câncer, intestino, mais ali para a frente”, diz Jacqueline Penha Ribeiro, 49, funcionária pública na área de saúde e guia de turismo na ilha do Bororé, na zona sul de São Paulo.

Não parece normal tal incidência da doença. A culpa, diz ela, pode ser da água. O bairro que, apesar de ser chamado de ilha, é uma península, não tem água encanada, não recebe serviços da Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do estado de São Paulo). Os moradores se abastecem em poços, e o terreno está contaminado por metais pesados.

Jacqueline conta que estudo recente demonstrou a presença de alumínio e bário entre outros metais deletérios para os humanos e de comprovada relação com a incidência de câncer e outros males (uma reportagem que vi sobre a ilha falava de pessoas com problemas de pele). Além desse, vários trabalhos científicos realizados nos últimos dez anos já demonstraram que há diversos tipos de contaminação na água da região.

Esta pesquisa AQUI, por exemplo, conclui que “parte dos poços utilizados para abastecimento humano na região da Ilha do Bororé-SP apresentam-se contaminados por microrganismos do grupo coliformes; a maneira como são construídos pode estar auxiliando na contaminação; e existem indícios da ocorrência de doenças associadas ao consumo de água contaminada”.

chegada ilha

Todos os estudos que li propõem imediata intervenção de autoridades competentes para minorar os problemas. Jacqueline, que hoje foi minha anfitriã na ilha, em que trilhei mais um pedaço de minha jornada de 460 km em homenagem ao próximo aniversário de São Paulo, diz que nada tem sido feito, apesar das reivindicações da comunidade.

A Associação de Turismo da Ilha do Bororé, por exemplo, tem um projeto para identificar os problemas de abastecimento e procurar soluções. Por ironia ou como manifestação de desejo, a página se chama Ilha do Bororé Saudável (saiba mais AQUI).

A ilha, no entanto, parece mais com o próprio nome, que identifica veneno feito com ervas e usado para deixar mais mortais as flechas produzidas pelos índios da região. O veneno do nome, a ilha o traz também no coração, nos intestinos, na terra e na água.

Está, porém, distante da vista. Ao olhar do visitante, Bororé é uma beleza, recanto paradisíaco feito de verde intocado (ou pouco tocado), que contrasta com o cinza e a feiura do lado de cá do as águas.

cachorrinho e onibus

Para chegar até a balsa que faz a travessia 24 horas por dia, é preciso descer a avenida Dona Belmira Marin, que é supermovimentada e, nas horas de pico, para mesmo –há quem leve uma hora para percorrer os cerca de oito quilômetros da balsa até a avenida Teotônio Vilela, uma das principais artérias da zona sul.

Hoje, porém, foi rapidinho: quando passei por lá, o comércio estava todo dormindo e não havia fila para a balsa. A travessia durou cerca de cinco minutos e, chegando ao outro lado, dois impactos: a sujeira da rua, com lixo espalhado pelo chão contrastando com a beleza natural da área, e o cheiro de mato, ar gostoso.

cruzeiro

Nossa anfitriã nos leva, primeiro, por um passeio histórico. Vemos o cruzeiro, supostamente ponto de partida e chegada de romarias de tropeiros no final do século 19, e a capelinha local, construída em 1904. Do outro lado da rua, o primeiro armazém do bairro ainda resiste, depois de reformas e mais reformas. Sobraram, porém, a estrutura arquitetônica original e parte da cobertura, montada com telhas feitas nas coxas ali mesmo no bairro.

armzem

Olarias, nos conta Jacqueline, foram as primeiras atividades econômicas da região, aproveitando o terreno argiloso. Havia também fazendas de carvão, a exemplo das existentes em encostas na serra do Mar (falei sobre isso no texto de ontem). Hoje, Bororé faz parte de uma área de proteção ambiental e a ilha é reserva natural, então há grande controle sobre a produção na região, e não são permitidas novas construções.

O que não significa eu tudo esteja às mil maravilhas para os cerca de 3.500 moradores da ilha. Que não é ilha, mas onde a população fica ilhada e abandonada a qualquer problema: por causa da chuva da noite passada, a ilha acordou hoje sem luz elétrica, o que é muito comum acontecer.

Mesmo em dias de sol, o povo pode ficar sem ter o direito de ir e vir. Isso porque a afluência de visitantes nos fins de semana engarrafa a via de acesso à balsa, e os ônibus não conseguem passar ou têm de esperar muito para conseguir passagem. “Já teve demora de mais de cinco horas”, diz minha cicerone.

Ao que parece, é terra sem lei: não há na região posto de polícia, nem mesmo daqueles trailers… Apesar disso, na minha visita de hoje vi passar um carro da PM e um da Polícia Ambiental da Guarda Civil Metropolitana. E foi só. Também, pelo menos que eu visse, não havia nada que exigisse presença das forças da lei.

jacqueline

O certo é que, segundo me diz Jacqueline (foto), a juventude local não se sente atraída a ficar por ali. E os moradores mais antigos, como a própria anfitrião, que nasceu ali mesmo, em uma baia de cavalos, numa fazendo onde trabalhavam seus pais, estão cada vez mais desconsolados.

“A gente fornece água e luz para São Paulo”, diz Jacqueline, referindo-se à represa Billings, “mas não temos água boa nem luz”. Seu rosto, que sempre esteve disposto ao longo de nossa caminhada, se entristece: “A pior coisa é o descaso, o abandono.”

Como a pontuar a frase da bororerense, ouvimos um ganido de cão, fraquinho, choroso. Machucado ou doente, imaginamos. Passávamos sob o Rodoanel, e Jacqueline logo encontrou uma trilha para que subíssemos até o estradão. Dali mesmo deu para ver um cachorrinho preso em um moirão, no canteiro central da autoestrada.

Atravessamos o asfalto, fomos até lá. A cadelinha era o retrato da maldade humana: estava amarrada com um fio, deixada ali sem água nem comida, para morrer se esganiçando em choro por ajuda. Ciclistas que passavam por ali também já a tinham visto e nos falaram que havia avisado a polícia.

cachorrinha

Mas resolvemos não esperar. Ela estava arisca, apesar de cansada, e ameaçava morder a mão do afago. Recusou comida, mas aceitou água. Com ajuda de um ciclista, conseguimos por fim desembaraçar o emaranhado de nós que a prendia. A cadelinha não quis vir com a gente, mas, pelo menos, estava livre. (Pelo que conta ESTE SITE, a ilha do veneno também pode ser conhecida como ilha do abandono)

Ficamos imaginando quem poderia ter feito tal coisa, qual a personalidade do sujeito. Ele se deu a um trabalho danado para fazer a maldade, chegou mesmo a colocar em risco a vida –atravessar o rodoanel não é a coisa mais segura do mundo. Vai entender a raça humana…

A gente nem tentou. Seguimos até o ponto final da estrada principal da ilha, que começa em uma balsa (a primeira balsa, por suposto) e termina na segunda balsa (há ainda uma terceira, mais ao sul, mas leva a outras áreas da região).

pescadores

Em caso de total incapacidade de ação das balsas, o visitante pode pegar uma estrada que desemboca no terminal de ônibus Varginha. Mas advirto que o percurso é dolorido e pouco recomendado.

O rodoanel rasgou Bororé em duas –diferentemente do ocorrido em Parelheiros, aqui a autoestrada se assentou sobre aterro, fazendo uma espécie de muralha, com aberturas em alguns pontos. Já ocorreu acidente em que um ônibus voou do rodoanel e fechou a passagem sob a estrada, reilhando os ilhéus.

Falando em passagem, Bororé está no percurso de um importante circuito de ciclismo, a rota Márcia Prado, em homenagem a uma ciclista que morreu atropelada na avenida Paulista (saiba mais AQUI). Também faz parte do caminho de uma cavalgada até Pirapora do Bom Jesus.

E, a partir de hoje, integra minha jornada de 460 km por São Paulo. Foram 13 km de muito aprendizado e descobertas na ilha que não é ilha e tem o coração envenenado.

Amanhã tem mais. Vamo que vamo.

DIA 27 – PROJETO 460 KM POR SÃO PAULO

Clique no mapa para conhecer mais detalhes sobre o percurso do dia

mapa dia 27 VA 29dez2013

QUILOMETRAGEM DO DIA: 13 km

TEMPO DO DIA: 4h03min17

QUILOMETRAGEM ACUMULADA: 326km

TEMPO ACUMULADO: 74h54min46

QUILOMETRAGEM A CUMPRIR: 134 km

DESTAQUE DO PERCURSO: ilha Bororé

 

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Água da bica revigora caminhante cansado da trilha

Por Rodolfo Lucena
28/12/13 20:32

selo_rodolfo_correndoQuando saí de lá, já quase não se enxergava nada. Vinda do mar, da montanha, dos céus, sei lá de onde, a neblina tomava conta da paisagem. Vinha a galope, tal Cavalo Branco, como é chamada pelos índios guaranis que habitam a região. Mas não apagava da memória as imagens que eu acabara de ver, gigantescos cartões-postais feitos de vida, verde, mata e morro, nuvens e sol a pino (meio envergonhado de quando em vez e, na hora em que saí, totalmente dominado…).

Visitei hoje, na minha jornada de 460 km por São Paulo, em homenagem ao próximo aniversário, o ponto mais distante do centro que conheço. É no alto de um morro, 880 m acima do nível do mar, no extremo sul da cidade, divisa com Itanhaém, que vai se derramar montanha abaixo até chegar às ondas do Atlântico.

O mirante, de onde dizem que se avista o mar em dia de céu limpo, fica no Parque Estadual Serra do Mar, núcleo Curucutu, uma joia da natureza protegida pela distância do centro, por estradas de terra não muito bem cuidadas e pelo difícil (impossível???) acesso por transporte coletivo –o ponto de ônibus mais próximo fica a 11 km da entrada do núcleo, segundo site oficial, mas trabalhadores do parque me falaram em 15 km…

Donde se conclui que não faço poesia nem invento marra se lhe digo que a primeira aventura foi a própria chegada ao local. O que deveria ser um percurso de cerca de 70 km, conforme os mapas oficiais, chegou a mais de 92 km por causa dos caminhos errados que tomamos.

E não foi por falta de orientação: na véspera, liguei para o parque e fui muito bem atendido por telefone. Recebi várias dicas a respeito do passeio e até uma mensagem eletrônica com mapa e mais orientações para a trilha (levar comida, não esquecer o repelente de insetos nem o protetor solar, colocar na mochila troca de roupa extra e por aí vai).

Na interpretação do mapa, porém, nos equivocamos; quando pedimos ajuda na estrada, recebemos dicas pouco claras e até desorientadoras. Resultado: depois de mais de duas horas de viagem, chegamos à porteira da estrada que nos levaria à aldeia Curucutu de índios guarani.

Estávamos na estrada errada, na direção errada, na distância errada e no Curucutu errado. O remédio, nos disse um superatencioso guarda ambiental, seria voltar tudo até a bifurcação onde havíamos cometido o pecado original.

Cocei a cabeça, comecei a arrancar a barba em desespero, o que talvez tenha avivado a carta geográfica cerebral de nosso amigo, que sugeriu um corte de caminho, mas por estrada de terra. O percurso seria mais difícil, mas bem mais curto e com menor risco de erro, garantiu ele (desculpe aí, não lhe guardei o nome, a conversa foi rápida, mas saiba que tem minha gratidão eterna; aliás, acho que era soldado Douglas, mas pode ser só impressão).

Vamos nessa. A vantagem foi que tangenciamos a Cratera de Colônia e pude entreter os parceiros de jornada com informações sobre o território paulistano onde, há milhões de anos, um corpo celeste explodiu. Você, fiel leitor deste blog, já conhece toda a história; se não conhecer, por favor, dê uma pesquisada rápida aqui mesmo no Mais Corrida –basta colocar a expressão Cratera de Colônia na caixinha de busca que fica aqui ao lado deste texto (vale a pena, lhe garanto, ainda que minha opinião possa ser suspeita).

placa 1

Bueno, para encurtar a história, perguntamos ainda mais algumas vezes ao longo do caminho, mas não nos perdemos mais. De qualquer forma, exultei e saí correndo do carro, quase gritando GOOOOLLLL! Quando vimos a primeira placa indicativa apontando o Núcleo Curucutu. Dizia que nosso destino estava a 5,5 km de distância. Se estivesse a 55 km, e nós na direção certa, também festejaria!

Contamos a sucessão de trapalhadas ao simpático monitor que nos atendeu, destacamos que tinham sido três horas e quarenta minutos de viagem sob o sol inclemente e sobre chassis trepidante em estrada de que carrinho mil, como o nosso, pede distância. O especialista nas trilhas do Curucutu foi solidário e ainda nos deu esperanças: “Demorou, mas vai valer a pena”.

trilha arvores

Conta já, para lhe deixar com água na boca: valeu a pena mesmo. E olha que a trilha tem míseros dois quilômetros e caquerada. Com mais umas voltinhas que fizemos, meu GPS marcou 3,4 km percorridos em quase três horas de caminhada. Como um pequeno trecho da trilha invade o município fronteiriço, deixamos tudo por 3 km, para efeito do Projeto 460 km por SP, e fica resolvido.

Perdão por ter interrompido a descrição do majestoso parque com essas minúcias administrativas, mas é bom que você fique sabendo de todos os meus andares, em nome da transparência. Além disso, o passeio também começa de uma forma um pouco burocrática para quem está com sede de mato.

Antes de meter o pé no barro (hoje nem tinha tanto barro assim) somos apresentados às instalações do Núcleo Curucutu. Um mapa mostra as dimensões do parque estadual como um todo, uma maquete dá uma ideia tridimensional do terreno, e o monitor ensina que o nome do núcleo homenageia um tipo de coruja.

Ficamos sabendo também que, até 1957, a área era ocupada por uma fazenda produtora de carvão vegetal –ou seja, plantava árvores para queimar. Para preservar mananciais –na região, há nascentes dos rios Capivari e Embu Guaçu–, o Estado comprou a Fazenda Curucutu em 1958 e transformou seus 12,029 mil hectares em reserva florestal.

É um terreno enorme. Imagine que um hectare é mais ou menos um quarteirão de rua (10 mil metros quadrados). O parque, então, toma 12 mil quarteirões e mais um pouco. E coloca na trilha marco informando o ponto exato da divisa entre São Paulo e Itanhaém.

marco1

Nas suas boas intenções em defesa do ambiente, São Paulo tratou de tentar recuperar a área deflorestada. O governo investiu em espécie de rápido crescimento e, desde 1963, já foram cultivadas ali cerca de 63 mil árvores pinus eliiottii (uso a grafia recomendada pelo Aurélio).

Muito bem, a mata reviveu. Alto lá! Como percebe quem passa por ali ou em qualquer outro território de pinheiros, onde eles crescem não nasce grama nem praticamente nenhum outro tipo de vegetação. Há silêncio na mata porque não há pássaros nem animais em busca de comida.

O resultado é que há no parque uma floresta de pinheiros que faz um mal danado para a vegetação nativa, dificulta sua recuperação. Hoje consciente disso, a administração tem planos para cortar todos os pinus, mas isso envolve licitações, concorrências, burocracia e tal e coisa –não se sabe quando, portanto, serão tomadas as devidas providências.

Enquanto isso, os monitores e manejadores do parque estão em guerra de guerrilha contra o pinheiral, cortando e eliminando as mudas pequenas que encontram pelos caminhos do Curucutu.

Então, chega de conversa e trilhemos esses caminhos. São de subida, por suposto, já que o destino é o Mirante (1,6 km de percurso com dificuldade média, segundo o folheto oficial, cerca de duas horas de caminhada com paradas e explicações do monitor).

trilha com bromelias

A trilha começa lindinha e arrumadinha, com degraus sustentados por pedaços de tronco, e vai se tornando menos comportada à medida que adentramos a mata. Nas imediações das instalações do parque, a floresta é o tal pinheiral e, assim, um tanto estéril (algum biólogo que me leia por certo vai pular da cadeira ao ler um ambiente natural descrito como estéril, mas não se avexe não, é força de expressão…).

Caminhemos mais alguns metros e a mata se enche de vida: dá para perceber exatamente o fim do pinheiral e o início da vegetação nativa, menos vibrante e impressionante, mais baixa, arbustiva, verdejante.

Trata-se, mais ainda, de um impressionante viveiro de bromélias e orquídeas, de diferentes tipos, tamanhos, cores –a chuva-de-ouro parecve dominar, mas há muitas outras.

orquidea

Pare um pouco e respire. Dá até dor no pulmão. Não vou dizer que o ar seja limpo, pois dificilmente encontraremos ar puro no planeta terra, em tempos hodiernos, mas pelo menos não é fedido; é claro, cheiroso, um sopro de vida em alvéolos carcomidos pela fumaça dos motores.

A parada é boa para perceber o chão. Há terreno mais seco, outro mais escorregadio, barro, terra firme, às vezes alguma pedra cheia de limo vira armadilha –as piores, porém, são as arapucas colocadas por caçadores clandestinos à caça de tatus e outros animais.

Na vimos  nenhum bicho grande (a joaninha não conta nem os famélicos insetos), apesar da propalada riqueza da fauna da região.

joaninha

Veados, macacos, tatus, antas, jaguatiricas e onças estão entre as espécies de presença registrada, assim, como uma variedade enorme de aves –que eu me lembre, só vi um casal de quero-queros valentemente protegendo seu ninho com rasantes aterradores.

O que não vimos de bichos, vimos em penca de plantas. Até uma carnívora –insetívora, corrige o monitor, mas admite que todo mundo chama a dita de carnívora. Sua base mantém fresquinhas as gotas do orvalho noturno; quando insetos vêm se banhar ou beber, se enredam nos pelinhos da planta. De consumidores, passam a ser consumidos…

insectivora

Já os caminhantes se consomem em suor; o sol está forte, mas escondido pelas nuvens. Mesmo assim, o calor é intenso. “Tudo é mais aqui”, diz o monitor, informando que a diferença de temperatura em relação ao centro da cidade, no calor ou no frio, pode chegar a seis graus.

mar de morros 2

Apesar do nevoeiro, do topo do mundo –ou, pelo menos, do topo o mirante—dá para ver o marr de morros que se estende até o oceano de água. Não consigo identificar Itanhaem nem a praia, mas a paisagem grandiosa já me satisfaz.

A viagem de volta, moror abaixo, dá ainda mais satisfação. Passamos por um bica, ducha e baheira naturais em um dos caminhos de água do morro. Desce gelada e forte, explode na cabeça, na nuca, nas costas, dá um choque que faz o coração voar para tentar obrigar o corpo a reagir…

agua d abica

Berrando e pulando, aos poucos a gente se acalma. Não que o gelo fique menos gelado, mas é suportável. O choque inicial se transformação em compreensão, mergulho na água, me deixo envolver; apesar de pequena, a banheirinha permite até que estenda o corpo e me deixe levar pela água.

Revivo. Saio da água melhor, mais disposto, alegre, falante. Ainda bem, porque aqui acabou. E amanhã tem mais. Vamo que vamo!

DIA 26 – PROJETO 460 KM POR SÃO PAULO

Clique no mapa para conhecer mais detalhes sobre o percurso do dia

mapa dia 26 28dez2013

QUILOMETRAGEM DO DIA: 3 km

TEMPO DO DIA: 2h54min17

QUILOMETRAGEM ACUMULADA: 313km

TEMPO ACUMULADO: 70h51min29

QUILOMETRAGEM A CUMPRIR: 147 km

DESTAQUES DO PERCURSO: Parque Estadual Serra do Mar, núcleo Curucutu; trilha do Mirante

 

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Corredor vê Campo Limpo coberto de asfalto e cinza

Por Rodolfo Lucena
27/12/13 14:15

selo_rodolfo_correndoA mão foi o que vi primeiro. Tal qual em um filme de terror, os dedos emergiram das profundezas, parecendo independentes de corpo. Tatearam o cimento e sentaram praça, permitindo que a palma se apoiasse completamente, dando sustentação ao braço esquerdo, que se ergueu e, como guindaste ou grua, puxou o resto do homem.

Apareceu o cabelo, a testa, o rosto, o tronco já curvado sobre o braço, impulsionado talvez pela perna esquerda que, fora da vista, protegida pela mureta, servia de alavanca para o salto. O braço direito girou em movimento amplo, como pêndulo, carregando um enorme saco preto de lixo, talvez cheio de latinhas de cerveja vazias, pedaços de papelão ou outro lixo qualquer que pudesse valer alguma coisa em algum lugar. Enfim, o homem vindo das margens do córrego sujo e fedorento, metros abaixo do nível da rua, pulou a mureta, equilibrou-se no arremedo de calçada, ganhou a avenida e foi-se embora pelo dia adentro.

Vi a cena na manhã de hoje, enquanto caminhava pela estrada de Campo Limpo, na zona sul de São Paulo, ciceroneado pela jornalista comunitária Patrícia Silva, 25. Tudo aconteceu em poucos segundos, mas o movimento pareceu resumir o que vi hoje naquele bairro da zona sul de São Paulo, nos limites da cidade: muitos riachos a céu aberto, valões escuros e fedorentos, e muita gente querendo ganhar a vida como lhe fosse possível, em um comércio que parece florescente.

sol nasce VA

Antes de nosso passeio começar, fomos até o Cristo de Taboão da Serra. Fica no alto de uma escadaria que pode tirar o fôlego de alguém menos treinado. De lá, vê-se São Paulo e uma grande parte do bairro que iríamos visitar; até bati uma foto (acima) que me pareceu artística, seja lá o que esse conceito encerre.

Apesar de nos arrancar um pouco de suor, essa primeira caminhada não valeu. Só liguei o GPS quando já estávamos novamente em São Paulo –ali, basta atravessar a rua para trocar de cidade. Mas o piscinão do córrego Pirajussara, obra protetora contra enchentes na região, deixava bem claro que estávamos na Pauliceia.

piscinao do pirajussara

Seguindo pela estrada do Campo Limpo, que é uma espécie de perimetral do bairro e tem alguns quarteirões com muitas casas de comércio e serviço, de bares a bancos e filiais de grandes magazines, encontraríamos ainda mais um grande piscinão, além de muitos córregos…

Não por acaso, o bairro é ponto de enchentes e, nas encostas dos morros que o rodeiam, há muitas casas enfaveladas que podem cair em algum temporal mais forte (há 32 áreas de risco, segundo levantamento divulgado pela Prefeitura).

Na avenida, porém, o risco maior é para os pedestres: as calçadas, como em quase toda a cidade, são estreitas; quando eventualmente mais largas, é preciso disputar a tapa o espaço com carros levados para conserto em oficinas ou simplesmente fazendo alguma manobra…

patricia

Patrícia, que mora ali há 20 anos, define Campo Limpo como bairro-dormitório; é exemplo de construção sobre construção, cimento, asfalto, tijolo e fumaça de ônibus, carro e caminhão.

Só depois de uns cinco quilômetros andando é que chegamos à primeira grande área verde da região, um complexo de duas praças, cada uma com seu próprio nome, que é mais conhecido como praça do Campo Limpo.

praca VA

Escrevi “grande” em comparação com outras áreas que vi, mas não serve nem para disputa de uma milha: a volta dá menos de um quilômetro e boa parte do terreno estava às traças (ou às pombas, para ser mais preciso) na manhã de hoje.

Mesmo assim, é o melhor terreno para treinos de corrida e caminhada; vi alguns abnegados esportistas ali valendo volta sobre volta, completando a distância do treino fazendo contornos em uma avenida que sai do meio da praça e que, apesar de larga, é pouco movimentada. Ainda bem…

Na sua área mais movimentada, há brinquedos para crianças e uma pista de skate, que um solitário skatista ocupava hoje. É um terreno bem arborizado e fica vizinho a uma das entidades mais ativas na comunidade, comandada pelo grupo de teatro Trupe Artemanha (leia AQUI reportagem que Patrícia escreveu sobre o trabalho da turma). Do outro lado da praça, que parece o epicentro do movimento comunitário local, fica a portentosa sede do Projeto Arrastão.

corrego3 VA

Não que tudo seja uma belezura pelos arredores. A próxima rua, apesar do animado nome de Serra da Esperança, é grudadinha num desesperado córrego (mais um, este talvez seja caudatário do Pirajussara, se não for o próprio…); logo em seguida vem a fronteira com Taboão, com o que faço a volta e trato de me enfronhar mais pelos caminhos do Campo Limpo.

É uma grande área da cidade. O bairro em si tem cerca de 13 quilômetros quadrados e mais de 200 mil habitantes; é administrado pela subprefeitura de Campo Limpo, que ainda abrange Capão Redondo e Vila Andrade –mais de 600 mil pessoas no total, em uma área de aproximadamente 36 quilômetros quadrados.

“Eu não seria assim, de correr atrás e querer saber das coisas, se não morasse aqui”, avalia a jovem Patricía. “Eu quero entender melhor as  pessoas, descobrir qual o meu papel em tudo isso.”

É o que a move a fazer mais um vestibular, agora para cursar Ciências Sociais.  Por isso, sai da casa por volta das nove da manhã e só volta perto da meia noite, depois de um dia de trabalho e de aulas no cursinho.

É uma rotina a que está acostumada, e já foi pior: quando se preparava para o primeiro vestibular, de jornalista, trabalhava em um restaurante de dia e estudava à noite. Ganhava bem menos do que hoje, mas o tempo gasto no transporte, na fieira de ônibus, metrô e trem, continua o mesmo.

No final de semana, é dia de cuidar das tarefas domésticas. Nem sempre, porém,  é possível cumprir sua cota de lavação de roupa: ontem, por exemplo, faltou água na casa em que mora (não é coisa nova, como se vê nesta reportagem AQUI).

A rua onde mora Patrícia é longa, começa com moradias que chegam a custar R$ 200 mil, vai subindo o morro e se enfavelando: barracos se acotovelam, pessoas caminham quarteirões em penca até chegarem à parada de ônibus mais próxima, e a violência diz presente.

Numa rua vizinha, no quarteirão abaixo da casa da jornalista comunitária, por exemplo, dois jovens foram executados a tiros no ano passado. Estavam numa viela, pertinho de outro córrego imundo onde casas se equilibram sobre palafitas. A reportagem que relata o crime cita outros assassinatos ocorridos em dias próximos, também ali por perto (leia AQUI). Aquele outubro foi pródigo de sangue, em casos em que os criminosos podem ter sido integrantes da polícia que jurou proteger a população (leia mais AQUI).

Para sair dali, muitas vezes ela subia uma montanha, na sua caminhada até o transporte público para ir à escola. Hoje, repetimos a escalada, que é muuuito mais íngreme do que qualquer Brigadeiro que se apresente na São Silvestre. Mesmo assim, sobrevivemos, chegamos ao alto e despencamos para mais uma das grandes áreas de comércio do Campo Limpo.

roupas VA

Tal como outras da região,a rua da lomba abaixo encerra em si mesma ampla diversidade: num mesmo quarteirão, comércio, favela e bem pintadas casas de alvenaria. Algumas aproveitam o sol para secar a roupa do dia…

Concluímos nossa jornada na praça do Arariba, cuja reforma foi festejada há alguns anos no boletim da subprefeitura, que também comemorava a limpeza do local. Pois olha, está precisando urgente de nova visita dos garis, pois parece abandonada à própria sorte.

beleza VA

Aliás, como você pode ver na imagem acima, não vi nada na área que justificasse o nome de Vila das Belezas. Talvez alguma fina (ou nem tanto ) ironia, sei lá.

Com a dúvida, encerro a caminhada, pois amanhã tem mais. Vamo que vamo.

 

DIA 25 – PROJETO 460 KM POR SÃO PAULO

Clique no mapa para conhecer mais detalhes sobre o percurso do dia

mapa dia 25 27dez2013

QUILOMETRAGEM DO DIA: 12 km

TEMPO DO DIA: 2h46min26

QUILOMETRAGEM ACUMULADA: 310km

TEMPO ACUMULADO: 67h57min12

QUILOMETRAGEM A CUMPRIR: 150 km

DESTAQUES DO PERCURSO: piscinões do córrego Pirajussara, estrada e praça do Campo Limpo, parque Arariba, Vila das Belezas

 

 

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Festa de corredor é meter o pé no asfalto

Por Rodolfo Lucena
26/12/13 14:03

selo_rodolfo_correndoDepois de um diazinho de folga saudado com alegria e gratidão pelo meu joelho direito, voltei hoje ao meu percurso de 460 km por São Paulo em homenagem ao próximo aniversário da cidade.

No espírito natalino, a jornada de hoje foi de confraternização e reencontro: caminhei com um bando de amigos que comigo integram a Nossa Turma, equipe de corrida sem chefes nem lei, em que impera a amizade descompromissada, mas duradoura. Coisa de corredor…

O grupo completa dez anos de vida em 2014, meio desmelinguido e, ao mesmo tempo, cada vez mais forte. Já chegamos a ter perto de 40 pessoas em uma turma de comunicação internética; na caminhada de hoje, juntamos uns dez… Mas haja experiência: já tivemos casamentos e descasamentos no grupo, nascimentos e namoros, além de títulos em penca e participações nas corridas mais estranhas do planeta.

Um dos nossos, por exemplo, já participou até em uma maratona coberta, em ginásio. Haja paciência. Temos gente muito rápida e lerdinhos como eu, especialistas em montanha e guerreiros do asfalto. Fazia uma data que não nos encontrávamos; claro que a confraternização precisava ser em uma corrida ou, pelo menos, em um treininho coletivo.

1 sumare noturna

Em consideração por meu joelho detonado, ninguém correu: caminhamos todos por percurso muito querido dos corredores paulistanos. Começamos com o céu ainda escuro, no viaduto da Oscar Freire sobre a avenida Sumaré (para ser mais preciso, acho que, naquela altura, é a avenida Paulo 6º; ih, acho que  “acho” não combina com precisão, mas é o que temos).

A Oscar Freire é cantada em prosa e verso como a Quinta Avenida paulistana, cheia de lojas de marcas internacionais, com ricaços percorrendo suas calçadas. Mas isso é mais lá para baixo, em alguns quarteirões dourados; nos seus altos, perto da Heitor Penteado, a rua é tão classe média como qualquer outra da região.

O viaduto, logo de manhã cedo, fica lotado de gente que utiliza os ônibus especiais, fretados, que levam e trazem trabalhadores das cidades próximas à metrópole. Põem-se todos em fila, apertados, desconfortáveis; em dia de chuva, então, é um horror.

Aos domingos, o viaduto recebe uma feira. Tem boa variedade de frutas, mas apenas uma banca de peixes; os preços são razoáveis, considerando a região (é menos careira que a feira do Pacaembu, por exemplo, que também é mais famosa e tem o pastel da Dona Maria…).

Do viaduto da Oscar Freire, vê-se a estação Sumaré do metrô, que é uma das mais bonitas, na opinião deste que vos fala. Além da arquitetura, dos vãos e dos vazios, ela tem um enorme mural com fotografias de anônimos paulistanos. É obra do artista Alex Fleming, que é da terra, mas mora em Berlim.

1 sumare noturna 2

Ele diz que seu trabalho reflete a Paulicéia: “As pessoas anônimas, todas as raças se misturando, como na Sumaré. As pessoas devem ser decifradas, porque todas têm poesia dentro delas. Então, vamos decifrar o outro, vamos conviver” (leia a entrevista completa AQUI).

Descemos a Sumaré em direção ao Pacaembu. O canteiro central está arrumadinho, bem mais agradável para caminhar; não que esteja bonzão, mas já foi muito pior, então, encaremos o chão com olhar positivo.

Para mim, isso não importa muito, pois gosto da Sumaré de qualquer jeito. Foi ali com aprendi a correr na rua. Lembro que, no início, mal conseguia ir de uma ponta a outra da avenida. O dia em que fiz ida e volta, há 15 anos, foi de festa para mim. E quando fiz ida e volta duas vezes, então!!!

Já levei um tombo feio, que me arregaçou joelho, cotovelo e o mingo direito. Também já furei a cabeça num galho escondido (desviei do primeiro, mais baixo, mas não percebi que havia outro na sequência). Nesse dia, bares e até um açougue me negaram guarida para lavar a testa ensanguentada; esperei sentado na guia até que Eleonora foi me resgatar. O machucado não era grande, mas a sangueira assustava…

Sem tombos nem sangue, saímos da Sumaré e fomos até o parque da Água Branca, que alguns do grupo não conheciam. É um parquinho muito legal, ainda que pequeno: a volta dá 1.600 metros se você fizer alguns contornos extras; simples, acho que não chega a 1.200 m.

Essa é a visão do corredor. As famílias se divertem levando a criançada na área de brinquedos, além de atirar nacos de pão aos peixes do lago e correr atrás das galinhas, que circulam livremente pelo asfalto, muitas delas levando a filharada a tiracolo…

1 galinhas

Ali já foi a sede do Dieese, o Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos, grande aliado nas lutas dos trabalhadores brasileiros, notadamente nos anos 1970 e 1980.

Hoje, os prédios históricos abrigam escolas, associações e até uma espécie de clube de recreação da terceira idade, que promove animadas matinês dançantes. Aos sábados, há uma feira de produtos orgânicos e tendinhas onde é possível fazer um ótimo café da manhã.

Passeamos com satisfação pela Trilha Pau Brasil, que é curtíssima, mas muito interessante. Minifloresta, traz árvores as mais diversas, muitas delas devidamente identificadas: espatódea, quaresmeira, sibipiruna e, claro, um rol de pau Brasil. Vale a pena passar por ali.

Alguns dos jardins estão bem cuidados; várias áreas parecem ter recebido flores há pouco tempo, como essa da foto abaixo, aos fundos do laguinho de águas turvas, onde as carpas se divertem…

1 pato flores

Deixamos os bichos conversando entre eles mesmos e subimos a Monte Alegre para tomar o rumo da volta à estação Sumaré do metrô. Essa é uma ruazinha danada, principalmente residencial, mas com um pequeno comércio pequeno comércio nos quarteirões mais próximos ao parque. E, claro, é nela que ficam os prédios mais bonitos do complexo de edifícios da PUC; o destaque vai para o Tuca, o teatro da universidade.

Além do mais, é uma ótima pedida para treinos de força. Tem uma subida brutal, depois dá um mergulho alucinante (joelho nenhum merece aquilo), terminando numa escadaria escorregadia, para então oferecer cem metros de subida que é quase uma escalada… Depois vira normal de novo. Fazendo ida e volta umas duas ou três vezes já dá uma sessão de treino de força para ninguém botar defeito.

rua da mata

E assim terminamos a jornada de hoje, mas não a sessão de “Túnel do Tempo”. Disse que a Nossa Turma completa dez anos em 2014. Nossa primeira corrida, a primeira vez que surgimos como grupo, foi um revezamento de 90 em São Francisco do Sul, Santa Catarina, que festejava 500 anos em 2004.

Na época, escrevi um texto contando como fora a prova e nossa participação. Ei-lo a seguir , em itálico (avise, por favor, se estiver ruim de ler).

“Encharcado dos pés ao peito, o corredor emerge da praia depois de enfrentar um trecho onde cruzara um riozinho transformado em caudaloso obstáculo. Antes dele, uma atleta mirrada chegara ao asfalto molhada até o pescoço, nervosa, reclamando que a água supostamente “pela canela” quase a tinha encoberto. Até dera braçadas para salvar da correnteza a pulseira que indicava ser ela a corredora da vez.

 Foram momentos do Revezamento dos 500 Anos – Volta de São Francisco do Sul, prova de 90 quilômetros realizada em 17 de setembro passado como parte das comemorações do pentacentenário da bela cidade do litoral norte de Santa Catarina.

 Beleza, por sinal, talvez tenha sido o principal chamariz a atrair as equipes que participaram do evento. Dividido em 15 etapas, o percurso da prova acompanhou todo o perímetro da ex-ilha (no início do século passado, um aterro a ligou ao continente), passando por estradas de terra, condomínios litorâneos e praias atraentes _várias delas, porém, com areia fofa, tornando mais pesado o desafio da corrida.

Para tornar as coisas ainda melhores, o dia, que prometia ser quente, amanheceu nublado e assim permaneceu pela maior parte do tempo, facilitando o trabalho das 16 equipes que participaram do evento, organizadas em grupos de três e seis atletas.

Uma turma pequena, que tomou de assalto o estacionamento do mercado público, no centro histórico de São Francisco _a ilha foi descoberta em 1504 pelo comandante francês Binot Paulmier de Goneville. Um século e meio mais tarde, foi povoada pelos portugueses, que deixaram a herança arquitetônica que emoldurava a área da largada da corrida.

O primeiro corredor de cada equipe cruzou por essa área multicentenária, pisou em paralelepípedos e rapidamente saiu da vila, tomando uma estrada de terra quase vazia, ladeada de verde e calmaria.

Por esse terreno a prova seguiu também na segunda etapa, que terminou na beira do asfalto, sinal de que estávamos, sim, na era do motor, e não das caravelas. Ali, todas as equipes fizeram uma pausa, aguardando a chegada da última: era preciso cruzar a autoestrada, que não podia ficar interrompida à espera da passagem de cada uma.

Quando todos estávamos no local, a Polícia Rodoviária armou a proteção, e corredores e carros de apoio atravessaram o asfalto. Do outro lado, foi dada nova largada. Iniciava-se o terceiro dos 15 trechos, e agora era cada um por si.

Só na quinta etapa chegamos à praia, depois de passar pelos intestinos da ilha, em estradas tranquilas. Sempre que uma bifurcação ou cruzamento pudesse levar dúvida ao atleta, havia pessoal da organização para informar o caminho certo.

Da quinta perna em diante, sucederam-se as praias. Aqui, areia fofa. Mais à frente, terra firme. Aqui, distância solitária. Mais à frente, surfistas em penca. Mas, em geral, os corredores éramos os donos do terreiro.

Para o bem e para o mal, enfrentando sozinhos perigos não prometidos, como relata o atleta Marcos Sanches, o mais rápido da equipe Nossa Turma (da qual tive a honra e o prazer de participar):

“Eu estava apreensivo, pois a galera tinha comentando que no meio do caminho havia um rio, havia um rio no meio do caminho…

“Comecei o meu trecho e tão logo estava na beira da água do mar corri forte. A sensação de correr ali foi a mais gostosa de toda a corrida: a areia era tão dura que parecia uma pista de borracha, era fácil correr em um ritmo muito forte, eu nem sentia o cansaço enorme herdado do primeiro trecho.

“E assim acompanhei a praia, correndo na divisa entre o mar e a areia, as vezes tendo que tomar cuidado para não molhar os pés. Quando cheguei ao rio, na minha frente era só água. Eu só não queria perder tempo, aquele rio era um obstáculo muito indesejável, ele roubava de mim o ritmo forte que eu estava segurando de forma tão agradável.

“Segui pela margem do rio até que não deu mais, tirei o tênis o mais rápido possível e logo estava dentro da água até a cintura, precisava passar e fui em frente. A água chegou ao peito, e a correnteza tentava me levar para o mar. Quanto mais eu afundava maior era a força relativa da água porque eu perdia meu peso, minha resistência. Eu não podia nadar, porque a água me levaria. Por um momento, fiquei com medo.

“Mas eu já estava saindo do outro lado, e o rio foi ficando mais raso. A areia no fundo era muito mole, os meus pés afundavam até o joelho na areia. Se estivesse de tênis, seria desesperador porque ele encheria de areia. Saí logo do outro lado e comecei a correr, tentando voltar ao ritmo antigo, mas as pernas parece que endureceram na água fria e por uns 200m eu corri lentamente, com o tênis na mão.

“Logo o ritmo voltou ao normal e senti o pé arder. Era uma bolha, O final do trecho não chegava, eu precisava colocar o tênis, que havia molhado, pois não aguentava a dor. Calçado, voltei ao meu ritmo forte e ainda tive um longo trecho para me deliciar com o prazer de correr naquela areia.”

Cerca de sete quilômetros depois, outro rio estava no caminho dos corredores. Dessa vez, porém, não havia ilusão: todos sabiam que teriam de dar pelo menos algumas braçadas. A travessia foi acompanhada por pessoal dos bombeiros, e havia até uma corda jogada na água para eventual apoio aos atletas.

O sol já mordia, quando conseguia passar entre as nuvens. Mas, mesmo com o céu nublado, o mormaço fazia aumentar o cansaço das equipes, que agora só queriam completar a prova o mais rápido possível.

Faltavam apenas quatro trechos e as posições de todas as equipes estavam razoavelmente consolidadas nas respectivas categorias. Mas ninguém queria afinar, e cada corredor dava o máximo para o grupo.

No caso dos primeiros, porém, a situação era diferente, pois a disputa seguia firme. A Petrobras Paraná, de seis atletas, enfrentava o assédio do trio By Digo Maxímus, que brigou palmo a palmo no percurso. Acabou firmando pequena vantagem e terminou os 90 quilômetros em 5h30, menos de quatro minutos à frente do trio.

Vencedores e vencidos foram festejados no jantar de confraternização em que foram distribuídos os prêmios. Na verdade, saíram todos vitoriosos, satisfeitos depois de uma prova que, apesar das evidentes dificuldades de logística, apresentou boa organização e respeito aos atletas.

Quanto à Nossa Turma, terminamos com muita festa, de peito estufado pelas várias corridas que enfrentamos e vencemos.

A primeira foi simplesmente chegar a Santa Catarina como grupo: a equipe foi montada via internet, com atletas que não se conheciam entre si e moram em locais tão diferentes como Porto Alegre, Concórdia (SC), São Paulo e São José dos Campos. Mas cada um queria fazer o grupo funcionar, correr o que desse e o que não desse: acabamos fazendo um tempo oito minutos melhor que o estimado e ainda trouxemos um belo troféu para casa, o de segundo lugar na categoria aberta mista.”

Com o que encerro mais esta etapa. Amanhã tem mais. Vamo que vamo!

DIA 24 – PROJETO 460 KM POR SÃO PAULO

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mapa dia 24 26dez2013

QUILOMETRAGEM DO DIA: 9 km

TEMPO DO DIA: 1h59min43

QUILOMETRAGEM ACUMULADA: 298 km

TEMPO ACUMULADO: 65h10min46

QUILOMETRAGEM A CUMPRIR: 162 km

DESTAQUES DO PERCURSO: avenida Sumaré, parque Água Branca, Tuca

 

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Esgrimista faz da São Silvestre coisa de cinema

Por Rodolfo Lucena
24/12/13 14:34

 

selo_rodolfo_correndoEla era um colosso. Enorme, erguia-se pelos menos 20 centímetros acima da adversária. Morena, de cabelos longos, tinha olhos também negros, profundos, que pareciam engolir a rival, torná-la ainda menor, mais mirrada e oprimida. Além do mais, era ar-rreen-ti-na, que se pronuncia assim, arreganhando os dentes cheios de erres. E vinha para a luta embalada com a glória de uma medalha conquistada meses antes, nos Jogos Pan-Americanos de Winnipeg.

“Eu acertei o primeiro golpe! Aquilo era uma afronta, uma coisa inimaginável. Como é que um serzinho medíocre, uma formiga como eu, podia pensar em enfrentá-la de igual para igual? Berrei, gritei e voltei para a luta”, conta a cineasta paulistana Lina Chamie, imitando seus gestos de comemoração enquanto relembra os tempos de esgrimista competitiva.

A luta daria direito a chegar às quartas-de-final no Sul-americano de 1999. Já veterana, a brasileira de 38 anos passara a etapa classificatória em último lugar e, nos mata-matas, vinha se equilibrando no fio da navalha –ou melhor, no fio da espada, a arma branca que manejava no tablado. Vencera duas eliminatórias por 15 pontos a 14, mas agora com certeza não ia dar.

Treinador e companheiros de equipe lhe cumprimentavam pela inesperada trajetória, dizendo que já tinha cumprido seu dever, como se considerassem a derrota inevitável. Qualquer análise fria da retrospectiva das oponentes confirmaria a expectativa, mas o fato é que, chegando ao terceiro e definitivo round , a minúscula brasileira perdia por apenas um ponto do portento argentino: 13 a 12 para a rival é o que dizia o placar.

Pois não é que Chamie empatou? E, num golpe certeiro, passou à frente? “No me vas a ganar!!”, gritou Lina para a própria máscara, que atirou no chão enquanto comemorava o ponto conquistado, imitando gesto de célebre esgrimista. A luta se reiniciou, a argentina atacou, a brasileira respondeu e também a beliscou: ponto para as duas, vitória para Lina, os mesmos 15 a 14 dos combates anteriores.

lina chamie

“Foi a glória”, lembra ela enquanto passeamos pela zona oeste de São Paulo em mais uma caminhada de meu percurso de 460 km em homenagem ao próximo aniversário da cidade. Mesmo perdendo a etapa seguinte, a esgrimista terminava então seu melhor ano da carreira. Como cineasta, também concluía um 1999 denso: meses antes, acabara de filmar seu primeiro longa-metragem, “Tônica Dominante” (veja um TRAILER AQUI).

Não por acaso, o filme tinha a música como fio condutor. De certa forma, invertia a trajetória da diretora. “Descobri a música no cinema”, me conta ela. Aos 11 anos, assistiu com a mãe, a artista gráfica Emilie Chamie (1927-2000), ao filme “2001”, de Stanley Kubrick. “A música de Strauss foi uma descoberta”, diz, citando ainda o encontro com as composições de Mahler no filme “Morte em Veneza”, de Visconti.

Por essas e outras, foi estudar música e filosofia em Nova York. Para completar o sustento, trabalhou em ofícios diversos. “Fui lanterninha do Woody Allen”, diz, revelando a admiração pelo cineasta norte-americano a quem teve a subida honra de levar até a poltrona em uma sala de espetáculo às escuras.

Formou-se, fez mestrado e carreira como musicista, tocava clarinete em orquestra e banda. Mas continuava ligada no Brasil, onde jogava seu amado Santos. “Fui a todas as finais”, afirma. Menos a de 1984, contra o Corinthians, pois estava nos Estados Unidos. Mas ficou grudada ao telefone, ouvindo o pai, o poeta Mario Chamie (1933-2011) contando os detalhes do jogo: “Foi um a zero para nós, gol do Serginho Chulapa”.

A volta ao Brasil marcou sua transformação: o cinema, que a levara à música, chamou-a de volta. Primeiro fez curtas-metragens; quando filmava seu primeiro longa, o artista principal sofreu um acidente, quebrou a cabeça. Ficou hospitalizado e passou por longo processo de recuperação, tempo em que a diretora se afastou do cinema, chegou até a ficar ruim.

Lembrou-se da esgrima, que praticara em seus anos nova-iorquinos, e voltou à luta. Os treinos fortes incluíam voltas e mais voltas em torno do bloco onde está instalado o ginásio do Ibirapuera. “Quarterón!”, comandava o técnico cubano Guillermo Bettancourt, e lá se ia ela rodar os 2.200 m, que uma vez completou em 10mi17.

ginasio

“Cheguei a fazer 10 km em 58 minutos”, diz ela, lembrando que, não poucas vezes, corria com caneleiras e carregando pesos nas mãos. Outro temido ingrediente da preparação para as lutas de espada eram os saltos nas escadarias do ginásio Mauro Pinheiro, que faz parte do complexo esportivo do Ibirapuera.

cartazNa sua jornada, Chamie olhava a cidade, que integrou como personagem em seu filme de maior destaque, “A Via Láctea”, que abriu a semana da crítica no Festival de Cannes de 2007 (veja o TRAILER AQUI). Assim, não é inesperado que a São Paulo esteja presente em seu trabalho primeiro documentário, “São Silvestre”, que estreia nesta sexta-feira, dia 27, em cinemas de São Paulo, Rio e Curitiba.

No longa, a mais importante e tradicional corrida de rua do Brasil é mostrada como uma imitação da vida, a jornada de luta, dor e superação que todos nós enfrentamos. A inspiração para o filme veio da própria corrida. Há alguns anos, quando morava em um prédio na Paulista em frente ao ponto de chegada da prova, Lina desceu ao asfalto, viu as expressões dos chegantes e disse a si mesmo: “Isso tem de virar filme” (confira AQUI VÍDEO em que ela me conta essa história em mais detalhes).

Demorou, mas virou. É documentário, mas tem ator. O corredor principal é interpretado (ou seria vivido?) por Fernando Alves Pinto, o mesmo que sofreu concussão cerebral quando participava do primeiro longa de ficção de Chamie. Talvez agora tenha sofrido mais…

“Lina, não vai dar… Lina, desculpe, não vai dar”, arfava ele pelo sistema de radiocomunicação, falando com a diretora enquanto corria sob a chuva subindo a Brigadeiro na edição de 2011 da São Silvestre. Estava chegando ao ponto final de suas forças, já correra mais de uma hora carregando cerca de cinco quilos em equipamento (foto Divulgação).

Nando aquecendo2 lina chamie

Sem falar do peso do próprio corpo. Fernando nem de longe é gordo, mas também não era um atleta; treinou um pouco, mas na corrida que é a preparação para filmagem. Imaginou que dava, imaginaram todos, porém o asfalto lhe foi comendo as forças com mais rapidez e intensidade que esperava.

Sobrou-lhe a vontade, como acontece com muitos de nós nos quilômetros finais de uma maratona ou nos derradeiros metros de um cinco quilômetros de estreia. Com câmera, fios e metais amarrados ao corpo, reuniu forças para não levar um tombo na descida da Brigadeiro –a filmagem foi na edição de 2011, quando a prova terminou no Ibirapuera— e pode festejar a chegada.

Lina, por seu lado, festeja seu trabalho: “Não há nada que eu não goste no filme. Ele é o filme que eu queria fazer, esta lá sem concessões e é isso”.

A produção envolveu um pequeno exército de câmeras e corredores. Além de Fernando e sua grua particular, outros corredores carregaram máquinas na testa, no peito, na nuca, na canela; houve também câmeras montadas em uma bicicletas e uma máquina de andar.

No total, 14 olhos de lentes de máquinas esportivas e ainda três câmeras cinematográficas captaram a corrida; sem diálogos, as cenas são marcadas por música, pela respiração dos atletas e por alguma interjeição do ator. “É um filme sem palavras que procura reproduzir de maneira sensorial a viagem do corredor”, diz Lina (esse VÍDEO AQUI mostra bastidores da filmagem).

corredores passam - largada! lina chamie

E por que mostrar isso em cinema?, pergunto a ela, já no final de nossa caminhada, em frente ao local de chegada da prova, na avenida Paulista. “A São Silvestre é um marco da nossa cidade e existe no imaginário coletivo de todo brasileiro. É uma corrida democrática pelas ruas de São Paulo reocupando a cidade de maneira única. É uma corrida emocional e muito peculiar pois representa a passagem do ano e todas as esperanças de um futuro melhor.”

Belas palavras, que poderiam bem servir para terminar este texto. Bastaria colocar meu “vamo que vamo” depois do “um futuro melhor” e a conclusão estaria totalmente dentro dos conformes.

Quase. Faltou dizer que Lina ainda esgrima de quando em vez, que treinou em Cuba, na mesma Havana de onde voltou há poucos dias depois de participar de um festival em que mostrou “São Silvestre”.

E que a ar-rren-ti-na por ela derrotada nos idos de 1999 continuou espadachim; apesar de altos e baixos, há dois anos, voltou a medalhar em um Pan-americano. Fora dos ringues (será que se diz ringue na esgrima?), Elida Aguera também é artista: cantora, a morena de negros e profundos olhos já tem dois discos no mercado (saiba mais AQUI).

Agora, sim, sem cantar, filmar nem brandir florete, espada ou sabre, eu me despeço. Vamo que vamo!

DIA 23 – PROJETO 460 KM POR SÃO PAULO

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mapa dia 23 24dez2014

QUILOMETRAGEM DO DIA: 10 km

TEMPO DO DIA: 2h17min13

QUILOMETRAGEM ACUMULADA: 289 km

TEMPO ACUMULADO: 63h11min03

QUILOMETRAGEM A CUMPRIR: 171 km

DESTAQUES DO PERCURSO: ginásio do Ibirapuera, avenida Paulista

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Com pentacampeão de Nova York, corredor visita marcos históricos de São Paulo

Por Rodolfo Lucena
23/12/13 16:56

selo_rodolfo_correndoA empilhadeira elétrica enlouqueceu de repente. Os comandos travaram, a máquina acelerou. O trabalhador que fiscalizava a operação do equipamento percebeu o desastre iminente e saltou fora, o mais longe que deu. Saiu vivo, mas a máquina ainda o pegou: 16 mil quilos de ferro e aço lhe esmigalharam o pé, que ficou grudado no chão de fábrica.

“Tiveram de chamar os bombeiros para tirar a empilhadeira. Não sobrou nada do meu pé, não dava nem para pensar em implante”, conta o pernambucano Paulo Almeida, que então tinha 32 anos e trabalhava na área administrativa da empresa, mas estava de plantão na fábrica em Itapecerica da Serra.

O acidente ocorreu no dia 31 de dezembro de 1997. A primeira amputação foi imediata, mas o jovem pegou infecção hospitalar e ainda sofreu outros três cortes na perna direita. Apesar disso, em março de 1998, pode receber a primeira prótese. Cerca de dois meses mais tarde, começava a correr. Com mais alguns meses, ainda praticamente sem treinos, completou a maratona de São Paulo.

“Terminei em seis horas e meia, sei lá. O coto estava sangrando, todo inchado, eu nem sei como consegui”, contou ele na manhã de hoje, enquanto caminhávamos na região de Vila Mariana e Ipiranga, em mais uma jornada de meu percurso de 460 km por São Paulo em homenagem ao próximo aniversário da cidade.

atravessando a rua

Sofrida ou não, a corrida virou febre para o atleta amputado –antes do acidente, ele nunca havia participado de provas, mas tinha sido um bom jogador de futebol de campo e de salão, atuando no time da empresa.

Em novembro de 98, menos de um ano depois do desastre, participou da maratona de Nova York. No ano seguinte, ao lado das provas longas, começou a investir em corridas de velocidade (100 m e 200 m), pensando em conseguir uma vaga na Paraolimpíada de Sydney.

Chegou a ter o quarto melhor tempo do mundo, foi convocado para a seleção brasileira, mas foi cortado pouco antes do embarque. A decepção fez com que abandonasse de vez as corridas de pista, dedicando-se a provas de resistência, onde conseguiu destaque e reconhecimento.

Hoje, aos 47 anos, casado e pai de um garoto de quatro anos, Paulo Almeida é quase uma lenda entre os corredores de longa distância. Foi cinco vezes campeão da maratona de Nova York na categoria de amputados, duas vezes ouro em uma maratona no Brooklin, bicampeão em Chicago, tricampeão na maratona de São Paulo.

Em 2001, tornou-se o primeiro atleta amputado a participar da mais importante ultramaratona do mundo, a Comrades, na África do Sul. Naquele ano, não conseguiu completar a prova no tempo limite –sua prótese quebrou no km 81.

“Resolvi ir até o fim de qualquer jeito. Dei um jeito de amarrar a prótese, caminhei, às vezes andei aos pulos”, lembra ele. Cruzou a linha de chegada em cerca de 12 horas, mas seu feito não foi computado.

Deu um tempo, deixou a poeira baixar, treinou mais: “Acordava às 4h e ia correr na rodovia Bandeirantes. Como eu parou muito, tinha de fazer mais do que os outros corredores, para me garantir. Se eles treinavam 60 km, eu fazia 70 km”.

Preparado, voltou à África do Sul em 2007, levando um parceiro e uma prótese extra. A cada 10 km, encontrava o amigo e trocava a lâmina de carbono (menor, mas semelhante à que o sul-africano Oscar Pistorius usa) que usa na perna direita. Perdeu um total de 53 minutos com as paradas técnicas, mas conquistou sua medalha.

“Terminei a Comrades num pé só, literalmente. Quando faltavam uns cem metros, tirei a lâmina e passei pulando na perna esquerda, com o coto no ar e a prótese na mão”.

Ao longo da carreira, sempre conseguiu bons patrocínios. Hoje, ao lado dos apoios de empresas, também faz palestras. Pode escolher a dedo as provas em que participa. Seu ano de maratonas termina em Nova York,  onde já disse presente 14 vezes; o próximo desafio será provavelmente em Copenhague, em maio.

Enquanto isso, treina nas ruas de São Paulo. Costuma sair de madrugada, sem destino, rodando todos os dias pelos menos duas horas. Em geral, seu ritmo é forte, perto de quatro minutos por quilômetro (15 km/h), mas hoje fez a gentileza de caminhar ao meu lado, num ritmo muito mais fraco.

Saímos com o céu ainda escuro, indo buscar algumas referências da história paulistana.

1 marco 9 km pinheiros

O primeiro deles dá tristes sinais de abandono, apesar de tombado pelo Conpresp (Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo). Fica na rua França Pinto, quase na esquina da Domingos de Morais.

 

Antigamente, aquela era a Estrada nº 4, estrada de Santo Amaro, e a estrutura de cimento servia como marco rodoviário. Está sem nenhum tipo de proteção e muito maltratado pelo tempo, pelos elementos e também pela raça humana; mesmo assim, ainda é possível ler as palavras “Pinheiros 9 km” gravadas no bloco.

Seguindo nosso passeio histórico, passamos pelo museu Lasar Segall.Ia recomendar de forma entusiástica a visita ao local, que costuma fazer excelentes sessões de cinema, além de ter um acervo artístico da melhor qualidade. Ao visitar a página do museu, porém, fiquei sabendo que está fechando para reformas. Mesmo assim, é útil dar uma olhada em sua versão internética AQUI.

Às vezes Paulo precisava parar, tirava a prótese e tirava ou colocava uma meia no coto, conforme o suor ou a situação da perna. “No calor, o coto incha muito. Além disso, o suor não evapora porque a prótese fica por sucção”, explica.

1 rearrumando a protese

Conversando sempre, passamos pela Casa Modernista, que ainda estava fechada (conheça mais sobre ela AQUI) e chegamos ao parque Independência, que talvez seja o mais bonito de São Paulo, graças a seus fabulosos jardins.

Caminhamos pela pista de Cooper, coberta por árvores, e apreciamos o sensacional prédio que abriga o museu do Ipiranga –está fechado para reformas, saiba mais AQUI.

jardins

Paulo fala de suas conquistas e diz que a maior delas é conseguir viver bem consigo mesmo, de bem com a vida, apesar da perda. “Você pode ser amputado há 50 anos, mas sempre vai sentir que falta algo. Às vezes, ainda me abaixo para tentar botar a meia no pé que não tenho.”

Com a prótese, caminha e corre muito bem. No final de nosso percurso, deu um trotinho para a gravação DESTE VÍDEO AQUI. E terminamos nossa corrida ao lado de mais um marco rodoviário tombado pelo patrimônio paulistano.

Esse, no Ipiranga, está localizado na antiga Estrada nº 3 (Estrada de Santos) e seu estado de conservação está ainda pior do que o primeiro que vimos na caminhado de hoje. Pelo menos, está protegido por correntes, mas não sei se isso adianta muita coisa.

2 marco silva bueno

A reportagem que li sobre o tombamento dos marcos rodoviários, cita a presidente do Conpresp, Nadia Somekh, dizendo que o órgão pretende restaurar esses marcos e pesquisar se há outros na cidade.

Para saber mais sobre o assunto, fiz hoje uma consulta à assessoria de imprensa da Secretaria Municipal de Cultura. A resposta foi esta: “Não temos ainda nenhuma novidade relativa à restauração dos marcos”.

Amanhã tem mais. Vamo que vamo.

DIA 22 – PROJETO 460 KM POR SÃO PAULO

Clique no mapa para conhecer mais detalhes sobre o percurso do dia

mapa dia 22 23dez2013

QUILOMETRAGEM DO DIA: 10 km

TEMPO DO DIA: 2h24min06

QUILOMETRAGEM ACUMULADA: 279 km

TEMPO ACUMULADO: 60h53min50

QUILOMETRAGEM A CUMPRIR: 181 km

DESTAQUES DO PERCURSO: marcos rodoviários de São Paulo tombados pelo patrimônio histórico, museu Lasar Segall, Casa Modernista, parque Independência, museu Ipiranga

 

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Caminhada por Perus revive lutas operárias e crimes da ditadura

Por Rodolfo Lucena
22/12/13 18:01

selo_rodolfo_correndoO rabecão chegava lotado. Em vez seis corpos, trazia oito, às vezes dez cadáveres –eram indigentes mesmo, podiam ser empilhados. A camionete negra vinha escoltada por carros da polícia, alguns sem marca, e os soldados e agentes exibiam armamento pesado.

Alguns ficavam na porta do cemitério: ninguém entrava nem saía. Outros, de arma em punho, seguiam para acompanhar o trabalho dos coveiros, fiscalizavam o sepultamento. Quando algum novato reunia coragem para perguntar qualquer coisa, ouvia a resposta seca: “É praxe”. E mais nada.

“Praxe nada, que praxe o quê!”, indigna-se ainda hoje Antonio Pires Eustáquio, que trabalhou no Cemitério de Perus de 1976 a 1992. Aposentado, ele tem uma pequena lanchonete logo em frente ao Cemitério Municipal Dom Bosco, que foi construído em 1970, no governo Paulo Maluf, para receber corpos de indigentes e está ligado umbilicalmente aos crimes da ditadura militar.

Lá foram enterrados em vala comum, ao lado de indigentes, presos políticos e desaparecidos assassinados pela polícia política ou por representantes das Forças Armadas. A farsa começou a ruir exatamente por obra de Eustáquio que, quando assumiu a administração do cemitério, aos poucos foi descobrindo irregularidades nos livros de registros.

“Ninguém queria falar”, me contou ele hoje, durante a caminhada que fiz pelo bairro de Perus, um dos mananciais da história de São Paulo e do Brasil. De tanto investigar, acabou encontrando a vala comum onde estavam enterradas 1.049 ossadas e restos de cerca de 500 corpos de crianças menores de dez anos.

Algumas ossadas já foram identificadas. Em 2005, por exemplo, a família de Flávio Carvalho Molina, militante do Molipo (Movimento de Libertação Popular) que foi preso, torturado e morto pela ditadura militar em novembro de 1971, no Doi-Codi de São Paulo, recebeu uma urna com os restos mortais do rapaz (leia mais AQUI; e há outro caso AQUI).

Mas ainda há muito para ser feito, como deixam claro os registros sobre a Vala de Perus produzidos pelo Centro de Documentação Eremias Delizoicov e a Comissão de Familiares dos Mortos e Desaparecidos Políticos (leia mais AQUI).

Pelo menos, a questão não está apagada dos registros. Ao contrário. No local da vala, foi erguido monumento em que está escrito: “Aqui os ditadores tentaram esconder os desaparecidos políticos, as vítimas da fome, da violência do estado policial, dos esquadrões da morte e sobre tudo os direitos dos cidadãos pobres da cidade de São Paulo. Fica registrado que os crimes contra a liberdade serão sempre descobertos”.

1 memoria 2

O que não significa que sempre sejam punidos ou que tudo fique em paz, como destaca Antonio Pires, o descobridor da vala comum (confira AQUI um VÍDEO que fiz com ele). “Fui perseguido durante muito tempo”, me disse ele hoje, lembrando que teve de desligar o telefone de casa para não continuar a ouvir ameaças durante a noite e que o governo municipal chegou a lhe oferecer segurança especial, que recusou.

Fui apresentado a Toninho, como ele é mais conhecido, pela jornalista comunitária Jéssica Aparecida Moreira André, 22, que foi minha anfitriã/convidada na caminhada de hoje, no meu percurso de 460 km por São Paulo em homenagem ao próximo aniversário da cidade. Marca da história brasileira, o cemitério de Perus também esteve presente na vida da família Moreira André –dois tios de Jessica lá trabalharam como coveiros.

“Para nós, Finados era dia de festa”, diz, lembrando dos encontros com os primos. A parte da frente da casa dos tios era usada como estacionamento improvisado, que rendia algum dinheiro a mais para a família, e os primos se organizavam para vender água para os visitantes do cemitério.

A casa dos mortos fica em um dos pontos mais altos de Perus, num morro a 840 m acima do nível do mar (a crer do meu GPS). Isso não é dizer pouco, pois esse bairro na região noroeste da cidade é também uma dos mais encabritadas de São Paulo, erguido sobre uma série de colinas das proximidades da serra da Cantareira (abaixo, vista geral do bairro).

perus o bairro

Na descida do cemitério, voltando para a área mais central do bairro, ouço tiros. Se você nunca ouviu, fique feliz. Saiba que o som não tem nada a ver com o que sai no cinema –algumas coberturas em TV chegam perto da realidade.

Lembro que, no caminho, Jéssica tinha apontado para uma avenida que cruzávamos, dizendo que houve época em que dava medo passar por ali, tantos eram os mortos. Havia desova de cadáveres, chacina em bares instalados no matagal, tiroteio de tempos em tempos; hoje, com a via asfaltada e prédios de moradia ao longo da avenida, a situação está mais calma.

O som seco dos estampidos que ouvimos, ritmado, entrecortado, também não é para assustar. Encravado no caminho do cemitério, na estrada dos Pinheiros, há um clube de tiro: são apenas esportistas praticando na manhã de domingo, aprimorando a pontaria.

Quando passamos por ali, nossa jornada já estava perto do fim. Caminhávamos de volta para o ponto inicial: nosso encontro fora na praça Inácio Dias, um terreninho feio, cortado por um valão fedido (foto), onde nasceu Perus.

1 valao fedido

No século 17, a região foi explorada por mineiros que buscavam ouro (daí uma das explicações do nome, haveria na área tanto minério precioso como no Peru). Mais tarde, o vale serviu de passagem para tropeiros e forças militares. Mas a ocupação organizada começou em 1867, quando foi inaugurada a estação Perua, um das paradas da linha de ferro da São Paulo Railway, atual E. F. Santos-Jundiaí (saiba mais AQUI).

O certo é que uma comunidade foi aos poucos se formando em torno da estação. Ainda hoje, a praça fervilha. Quando cheguei, pouco antes das 8h, a comunidade começava a se espreguiçar: abriam-se as portas de um armazém, de um açougue, e chegava gente carregando enormes fardos embrulhados em sacos de lixo preto, de 100 kg. Eram vendedores que iriam arrumar os estandes de uma das versões itinerantes da “Feirinha do Brás”, que espalha seus tentáculos pela cidade vendendo roupas a preços baixos.

O bar da esquina, onde a juventude local costumava se reunir nas noites do fim de semana, só abriria mais tarde –quando voltamos estava repleto. Também só por volta do meio-dia vimos ocupadas as mesas de cimento, em cujos tampos estão pintados tabuleiros de dama (ou xadrez). Os veteranos moradores de Perus que lá estavam preferiam, porém, jogar dominó.

E havia não só veteranos, mas veteraníssimos. Conversei rapidamente, por exemplo, com Haroldo dos Santos, 73, um dos sobreviventes da Greve dos Sete Anos ou Greve dos Queixadas, como é conhecida uma das maiores epopeias da história das lutas trabalhistas no Brasil (veja AQUI um VÍDEO que fiz com ele).

A mobilização começou no período de efervescência do movimento sindical no Brasil, foi pisoteada pela eclosão do golpe militar, mas, mesmo sob forte repressão, seguiu até a vitória (meia vitória, podem dizer alguns, pois nem todos os trabalhadores demitidos foram reintegrados). Durou de 1962 a 1969, daí o primeiro nome do movimento.

A outra identificação surgiu durante uma das assembleias. Discursando para os trabalhadores, uma advogado afirmava: “Vocês são como os queixadas, sempre atacam em grupo, sempre atuam em bando.” Foi quase como dizer, tal qual os Três Mosqueteiros (que eram quatro, como se sabe), “Um por todos e todos por um”. Os grevistas viraram queixadas.

O adversário eram um dos maiores empresários do Brasil na época, J.J. Abdalla, dono e senhor da Companhia de Cimento Portland Perus, a algoz e razão de existência da região, dos moradores de Perus. Fundada em 1926, foi a primeira empresa do gênero no país; depois de passar por algumas mãos, chegou a Abdalla, que ficou conhecido como Mau Patrão.

capa-pretaOperários morriam por causa de doenças pulmonares contraídas nos dias de trabalho, as casas da região eram cobertas pela poeira que vinha da fábrica, tudo no bairro era acinzentado, como conta Jéssica no livro “Queixadas – Por Trás dos 7 Anos de Greve”, que você pode conferir na íntegra AQUI.

Os anos 1970, porém, viram aos poucos a empresa degringolar, e a fábrica acabou fechando em 1987 (leia AQUI um trabalho acadêmico sobre o processo). Do que foi uma das mais importantes indústrias do país, coração de todo um bairro –tinha time de futebol, construíra vila popular para os operários–, restam apenas ruínas.

Apesar de tombada pelo patrimônio histórico, a área ainda é de propriedade da família Abdalla, pelo que consegui descobrir. Hoje, quando caminhei pelo terreno e pelos restos do prédio, fui acuado por um enorme cachorro, que parecia cruza da rotweiller com dogue alemão. Sorte que percebi um vigia próximo, chamei por ajuda e pedi licença para, com Jessica, visitar os restos ainda de pé no enorme terreno.

À exceção do vigia, que está lá para evitar alguma ocupação ilegal ou o uso do terreno por consumidores de drogas ilegais, tudo está ao deus-dará. Ouvi comentários de que a Polícia Federal faz treinos no local, exercícios militares ou jogos de guerra, sei lá –de fato, entre as ruínas, havia estruturas que pareciam montadas para uso como proteção ou obstáculo (tonéis empilhados e enfileirados, peças de móveis derrubadas no chão…).

vista externa

Não consegui confirmação oficial da informação, passo apenas o que me falaram. Mas, quando saíamos do território das ruínas da Cimento Perus, passou por nós um carro da Federal (ou, pelo menos, pintado como se fosse).

As ruínas, me conta Jéssica (foto abaixo), foram parte importante no seu processo de crescimento como cidadã e militante peruense. Na adolescência, para os colegas de escola, chegava a mentir sobre o local onde morava, tinha vergonha de viver em território identificado com pobreza, violência, tráfico, crime.

1 jessica

Fracassou em sua primeira tentativa de entrar na faculdade e, sem recursos para pagar cursinho no centro de São Paulo, entrou num pré-vestibular popular, o Fábrica de ConheCimento, em Perus. Também aprendia a se relacionar com os jovens da comunidade, participando de um grupo de teatro local.

“No cursinho, aconteciam aulas também aos sábados, falando de reforma agrária e um café filosófico pra falar sobre memória. Daqui a pouco, me pego estudando a história de Perus e descubro que esse foi o espaço onde nasceu a primeira fábrica de cimento do Brasil; depois, descubro que os operários dessa fábrica foram os precursores do sindicalismo e de movimentos grevistas, antes mesmo do ABC do Lula.”

1 farica vista outra

A empolgação ajudou a estudante, que conseguiu entrar no curso de jornalismo (terminou a faculdade há seis meses). E o novo conhecimento adquirido a transformou em militante –hoje atua no Movimento Pela Fábrica de Cimento Perus e é jornalista comunitária, além de trabalhar como repórter de uma ONG da área de educação.

Esse movimento defende que o espaço das ruínas seja recuperado, com as obras preservadas e entregues para uso pela população, como museu, escola e outras formas de apropriação comunitária (saiba mais aqui).

Do outro lado do morro onde ficam os restos da fábrica, encontramos outras ruínas, as da Vila Triângulo, que foi um conjunto habitacional ocupado por operários da Portland Perus. O nome vem do formato em que as casas estão arrumadas, lideradas por uma igrejinha em situação periclitante.

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Passamos por lá e seguimos a jornada. Cruzamos pela sede do sindicato que liderou o movimento dos queixadas, atravessamos a avenida principal do bairro, nomeada em homenagem a um ex-dono da fábrica (“Não há ruas com nomes de queixadas”, protesta Jéssica) e vamos descobrindo a efervescência cultural de Perus.

No fim de uma rua sem saída, ao lado da linha férrea, está a sede do coletivo Quilombaque, que surgiu em 2005 em torno de jovens que se reuniam para tocar e aprender a tocar tambores e hoje abriga uma grande diversidade de tribos (saiba mais AQUI). Além do terreno musical, trafegam por outros caminhos da arte: foi por iniciativa deles, por exemplo, que grafiteiros encheram de cor e arte do murão cinza que separa a rua dos trilhos da ferrovia.

picho

A poucos quarteirões dali, sob um viaduto, está a sede da escola de samba da comunidade, a Valença. E também o ringue onde um ex-boxeador dá aulas para meninos de rua –o projeto se chama Caminhos do Futuro.

Inspirado pelo nome, me despeço, lembrando que a estrada é longa, mas há que lutar. Ou, como diz poesia que tanto repetimos nos anos 1970: “Caminante, no hay caminos; se hace el camino al andar”. Vamo que vamo!

DIA 21 – PROJETO 460 KM POR SÃO PAULO

Clique no mapa para conhecer mais detalhes sobre o percurso do dia

mapa 22dez2013

QUILOMETRAGEM DO DIA: 12 km

TEMPO DO DIA: 2h47min43

QUILOMETRAGEM ACUMULADA: 269 km

TEMPO ACUMULADO: 58h29min44

QUILOMETRAGEM A CUMPRIR: 191 km

DESTAQUES DO PERCURSO: ruínas da Fábrica de Cimento Portland Perus, primeira indústria do gênero no país; cemitério de Perus, onde foram encontradas ossadas de militantes mortos pela ditadura militar

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