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Rodolfo Lucena

+ corrida

Perfil Rodolfo Lucena é ultramaratonista e colunista do caderno "Equilíbrio" da Folha

Perfil completo

Em caminhada, maratonista descobre desafios e conquistas de Heliópolis

Por Rodolfo Lucena
04/12/13 19:21

selo_rodolfo_correndo“Não quero mais morar em barraco, não posso mais morar em barraco, NÃO VOU mais morar em barraco!”, gritava para si mesmo, em silêncio, a menina de 17 anos, saindo da casa pobre em que morava com pai, mãe e quatro irmãos, amontoados todos em pequeno espaço. Não chorava: caminhava quase em desespero pelas vielas de chão batido até que viu ao longe uma pequena multidão.

Aprochegou-se e ainda ouviu uma jovem senhora de sotaque nordestino e fala decidida dizer: “A terra é nossa!”, fechando um discurso em que convocava a favela a lutar por melhores condições de vida e moradia. “É com esses que eu vou”, pensou a garota, então não chorosa nem raivosa, mas determinada.

Já lá se vão mais de 30 anos –33, para ser exato. Antonia Cleide Alves hoje tem casa que ajudou a construir. De certa forma, é herdeira daquela paraibana que conduzia as lutas comunitárias nos anos 1980: há décadas militante de movimentos populares, está no segundo mandato como presidente da Unas, a União de Núcleos, Associações e Sociedade de Moradores de Heliópolis e São João Clímaco.

Foi ela a minha anfitriã de hoje, me levando pelos caminhos da maior favela de São Paulo –comunidade carente, no dizer politicamente correto. No terreno de 1 milhão de metros quadrados, vivem cerca de 220 mil pessoas, segundo a líder comunitária –o censo oficial, contando apenas os bolsões irregulares, dá números diferentes, cerca de 40 mil moradores.

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Cheguei pouco depois das sete horas, muitos ainda saíam para pegar ônibus na Estrada das Lágrimas, uma das avenidas que limitam a comunidade. Partindo de uma das instalações da comunidade, quase na entrada de Heliópolis, Cleide me leva para o quarto dia de meu percurso de 460 km por São Paulo.

1Heliocingapura

Cada metro da favela esconde e revela uma história de dor e luta. “Aqui eram os barracões onde a gente vivia”, diz ela, apontando para um prédio retangular azul e cinza, o primeiro Cingapura da comunidade (acima). Mais para a frente, outro conjunto se ergue onde antes era só lixo ou terreno baldio.

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E assim vamos, percorrendo ruas asfaltadas e mal traçadas, entrando por becos e vielas de uma comunidade que está cada vez mais organizada: tem escolas, creches, biblioteca –com acervo escolhido por Antônio Cândido–, áreas de atendimento médico, postos policiais.

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Tudo resultado de lutas dos moradores, que muitas vezes tiveram de enfrentar armas de capangas ou da polícia. “Os grileiros diziam que a gente tinha de pagar aluguel”, conta Genésia Ferreira de Miranda, 56, que chegou à favela em 1979 e logo começou a organizar outras mães de família em defesa da posse da terra.

Foi o discurso de Genésia que Cleide ouviu, há 33 anos. Era uma das primeiras assembleias para mobilizar os moradores, o embrião da hoje poderosa Unas. (Confira AQUI um vídeo que fiz com Genésia)

Na época, a terra não tinha dono mesmo. Fora de propriedade do conde Sílvio Álvares Penteado, que gostava de carros e balões –foi o primeiro homem a voar sobre São Paulo. Nos idos de 1920 a 1940, empregados do aristocrata paulistano viviam em 36 moradias construídas nas glebas da região sudeste da cidade. Já em 1942, porém, as terras são compradas por um instituto de previdência e, ao longo dos anos, acabam em mãos do governo federal.

No início dos anos 1970, em plena ditadura militar, Heliópolis começa a ser uma espécie de depósito de favelados. Para ali são transferidas 153 famílias que a Prefeitura desalojara de uma comunidade em Vila Prudente. Mal chegam, tratam de lutar pela vida; aos poucos, viceja o processo de união: hoje a comunidade abriga, em casas de material, filhos e netos daqueles pioneiros.

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O cabeleireiro Silas Santos, 25, nasceu ali mesmo. Hoje não estava trabalhando: esperava o andamento da reforma que seu pai, um dos veteranos de Heliópolis, fazia nas instalações de seu salão de beleza.

Ele só tem elogios para a comunidade, mas há quem tenha reclamações fortes a fazer. Uma comerciante se esconde da fotografia enquanto reclama do barulho que festeiros fazem em noitadas de som alto e muito consumo de bebidas e drogas numa viela onde se veem espalhados cartazes avisando “Proibido som alto”.

Em vez de chamar a polícia, em muitos casos os moradores preferem ficar quietos, temendo eventuais represálias de traficantes. “O que a associação faz é tentar ocupar os locais, fazer projetos nos terrenos onde há mais problemas”, diz Cleide.

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Um exemplo é a casa da Criança e do Adolescente, que recebe jovens fora do horário escolar. É lá que encontro Neguinha da Unas, moradora da região desde 1983. “Quem me trouxe foi Dona Chica da Vila Prudente”, explica ela enquanto informa sua atividade de hoje: “Faço políticas públicas”. De fato, é uma das candidatas da entidade ao Conselho Participativo Ipiranga.

Seguimos a jornada, e o fôlego de Cleide me impressiona. Fala sem parar enquanto caminha, o que parece pouco comum para uma trabalhadora sedentária –além de dirigente comunitária. Ela explica que não chega a fazer esportes regularmente, mas participa, como caminhante, da corrida anual que a comunidade organiza: “Faço quatro quilômetros em uns 40 minutos”, diz.

Seus feitos atléticos, porém, parecem não lhe importar. O que valem são as conquistas conjuntas. “Isso aqui era uma lagoa”, aponta. Urbanizado, o terreno roubado ao esgoto hoje tem casas e a sede da rádio comunitária, a Heliópolis FM, também fruto do trabalho coletivo dos moradores.

12 serralheiro

“A antena foi eu que construí”, diz Francisco Sabino Soares, 63, que dirige pela viela em direção ao trabalho. “É o melhor serralheiro da região”, elogia Cleide. Logo entramos na rádio.

Naquela hora, o prédio é ocupado por apenas uma pessoa, que trabalha sem parar no estúdio, se dividendo entre o microfone, o telefone, a operação de som e do computador: Liberalino Santos, 61, coordenador de programação e produtor de “Roberto Carlos e Convidados”.

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Basta sair e avisto exemplo de empreendedorismo e bom humor, a hamburgueria MEC Favela, que sofreu até processo por causa do nome, segundo me diz Cleide. Pelo jeito, sobreviveu às querelas jurídicas.

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Nos letreiros, procura deixar claro que não tem nada a ver com algum outro estabelecimento cujo nome porventura soe parecido; trata-se de uma sigla que significa Minha Estrela Central – Favela lanches.

Para Cleide, a “estrela central” é outra: a filha Rafaela, mais velha de seus rebentos (tem ainda Gabriel, que está entrando na adolescência). É ela que nos abre a porta da casa onde mora a família.

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Orgulhosas, as duas posam numa escada do prédio, que hoje tem dois pavimentos, construídos ao longo de anos, mas já foi mais modesto. “Construí minha casa no mutirão de 1992. Foram 192 famílias, cada uma com um terreno de 5 m por 15 m, 75 metros quadrados. Ninguém ganhou dinheiro, a prefeitura dava os matérias, tudo pré-moldado, para fazer casas de 24 metros quadrados.” Saímos, não sem antes ela voltar a mostrar Rafaela, dizendo baixinho, não sem sorrir: “Essa não nasceu em barracão”.

Claro que não é vergonha nenhum nascer em barracão, palafita ou molambo qualquer. A frase de Cleide me pareceu pontuar uma vida de lutas, de conquista de condições melhores para viver e construir família.

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É o mesmo sorriso da vendedora de calçados Vanessa Marlen da Silva, 33, que há três meses abriu uma lojinha em frente a um riachão hoje parcialmente canalizado, onde há algum tempo se amontoavam casebres de papelão, madeira velha e zinco. Vanessa morava em um deles; hoje vive em apartamento num dos prédios redondos projetados por Ruy Ohtake (saiba mais aqui). E faz sucesso vendendo sapatos de saltos estratosféricos, como o modelo “meia pata” que mostra na foto acima.

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Os prédios redondos são emblemáticos: simbolizam a um só tempo luta e conquista. Também demonstram que as campanhas de Heliópolis não são apenas da comunidade, mas pertencem a toda São Paulo, a todos. E há ainda muita mobilização necessária, diz Cleide neste vídeo AQUI, em que também explica a origem das lágrimas da estrada que serve de limite a Heliópolis.

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Com uma visita à tal figueira-benjamina que testemunhou adeuses de famílias paulistanas em tempos idos, encerro meu caminho na comunidade. Com certeza, não conheci a face mais violenta da região, que há poucos meses foi atingida por incêndio de origem duvidosa que deixou três mortes (leia mais AQUI). Aliás, já no ano passado um dos líderes da Unas alertava sobre o estranho caráter desses sinistros (confira AQUI).

Mas isso não me apoquenta agora. A vida vale mais. Saio entusiasmado com os exemplos de construção de cidadania que vi ao longo de quase três horas de caminhadas, paradas e conversas. Vamo que vamo!

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DIA 4 – PROJETO 460 KM POR SÃO PAULO

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Clique no mapa para acessar informações mais detalhadas sobre o percurso de hoje

QUILOMETRAGEM DO DIA: 6 km

TEMPO DO DIA: 1h58min27

QUILOMETRAGEM ACUMULADA: 54 km

TEMPO ACUMULADO: 10h19min53

QUILOMETRAGEM A CUMPRIR: 406 km

DESTAQUE DO PERCURSO: passeio pela comunidade Heliópolis, área na zona sudeste de São Paulo com 1 milhão de metros quadrados e 220 mil moradores

Corredor tenta descobrir fetiche da avenida Sapopemba

Por Rodolfo Lucena
03/12/13 16:30

selo_rodolfo_correndo“Onde fica Sapopemba?” foi uma pergunta que rondou as eleições para a Prefeitura de São Paulo em 1985 –as primeiras depois do fim da ditadura militar. O ex-presidente Jânio Quadros (1917-1992), então candidato a alcaide paulistano, detonou seu rival Fernando Henrique Cardoso, então disputando o mandato municipal pelo PMDB, dizendo que o adversário não poderia almejar governar a cidade, pois nem sequer sabia onde ficava Sapopemba.

Por histriônica que fosse, a questão calou fundo na campanha peemedebista, que parecia destinada à vitória. Assessores do candidato organizaram dossiês, dando a ele uma aula de São Paulo, segundo registro na coluna Painel da Folha, para que soubesse a localização do bairro e até da avenida de mesmo nome.

Mais tarde, próximo ao pleito, Fernando Henrique, ao comentar pesquisas que lhe eram favoráveis, disse, de forma irônica: “Estou ganhando em todas as zonas eleitorais, inclusive em Sapopemba, que não sei onde fica”.

Quando as urnas se abriram, a história foi outra.

Tenho a dizer que sei onde fica Sapopemba, vibrante bairro da zona leste paulista. Para saudá-lo, hoje percorri a artéria que o corta e lhe dá nome, rasgada na crista de uma longa coxilha, com baixios escorrendo de cada lado, como caudas de um enorme vestido rodado.

Estou falando da avenida Sapopemba, que trilhei hoje em mais uma etapa de meu projeto 460 Km por SP, uma homenagem ao próximo aniversário da cidade.

Pela internet afora, a nossa prezada avenida é louvada como a segunda maior do Brasil (a primeira seria a avenida Brasil, no Rio de Janeiro) e a terceira do mundo, mas os textos que vi não apresentam fontes para sustentar esses dados. Dizem que ela tem cerca de 45 km de extensão e 1.786 postes de luz –foge-me à compreensão a importância desse dado. Vi textos informando comprimento diferente: 23 km.

Esse me parece mais perto dos mapas que vi e do percurso que encarei na manhã de hoje, começando por volta das 5h30. Do seu ponto inicial, próximo ao largo Água Rasa, até cruzar sob o viaduto da Jacu-Pêssego, foram algumas centenas de metros além dos 19 km (estou dando um desconto porque fiz algumas voltinhas no percurso).  Dali para a frente, a crer nos mapas internéticos, não há muito mais (existe nas redondezas uma estrada Sapopemba, mas parece ser outra coisa).

A Prefeitura informa que a Avenida Sapopemba possui 26 km de extensão dentro do município de São Paulo, começando na avenida Salim Farah Maluf e indo até a divisa com Mauá.

Enfim, se é verdade que, como diz o povo, tamanho não é documento, deixemos as medições para os medidores e contemos a empreitada do dia.

Noite escura, o corredor causa estranhamento a uns poucos cidadãos ainda sonolentos nos pontos de ônibus (lá no Rio Grande do Sul, a gente chama de “parada de ônibus”), que abrem espaço para minhas passadas e me encaram curiosos.

Cuido para não tropeçar nas armadilhas das calçadas mal iluminadas e, por volta do terceiro quilômetro, cruzo pela delegacia da Vila Diva, onde os policias investigam quatro mortes e duzentas agressões (casos registrados de janeiro a outubro deste ano). Mais um pouco, avisto o perfil de uma igreja.

Disseram-me que são muitas as casas de oração na avenida. Não sei se há contabilidade, mas, de fato, passei por muitos templos das mais diversas denominações, instalados em prédios suntuosas ou em quase-barracos, armazéns comerciais modificados para a prece ou pequenos muquifos em que se prevê o destino.

Com meia hora de corrida, o negro do céu vai se acinzentando, clareando, já dá para ver melhor. É quando me surpreende um enorme tubo que parece brotar do chão para ocupar canteiro central da avenida, transformado em praça para abrigar o inusitado visitante…

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2adutoracomidapra22demaioCurioso, percorro a praça 22 de Maio, onde há mesinhas de cimento para o descanso dos transeuntes.No pé de uma árvore, alguém deixou um prato de comida colorida e com um jeito até apetitoso, mas minha fome ainda não é grande que chega para tentar experimentar o gosto dos acepipes, que parecem mais algum tipo de oferenda religiosa do que restos de coisa feita para comer de verdade.

Me vou, mas antes faço uma pose com a tubulação: o encanamento é gigante mesmo, maior do que eu…

Com a luz do sol que chega, levo um susto logo adiante, ao ver um muro com decoração horripilante (desculpe aí, mas de vez em quando rimar faz bem ao coração). Azulejos brancos e coloridos, formato geométrico: será que os caras queriam dizer alguma coisa?

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Lembrando de outros portentos arquitetônicos que me pareceram de inspiração semelhante, imaginei que o muro pudesse ser de um motel, hipótese confirmada metros depois. Mas a própria Sapopemba mostra que nem todo motel precisa ser horrível: quadras mais para a frente, outro estabelecimento do gênero decora o muro com sugestivas pinturas de borboletas ou insetos assemelhados se refestelando em flores desabrochadas. “Que gracinha!”, talvez dissesse a apresentadora televisiva Hebe Camargo, muitas vezes eleita a cara de São Paulo.

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Já que o amor está no ar, que os holofotes se voltem para o casalzinho que, numa viela lateral, se despede com abraços e beijos. Preparam-se para enfrentar o dia cada um por si, mas, antes, só um apertinho mais, um beijinho, um sorriso, que a jornada vai ser dura e há que se ter um pouco de ternura (ih, rimei de novo!).

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A avenida Sapopemba, em si, nada tem de terna. É feia, cinza, poeirenta, cheia de carros, com calçadas bagunçadas. De certa forma, um retrato da Paulicéia, da parte sofrida e trabalhadora da cidade. Milhares moram aqui –o bairro tem mais de 200 mil habitantes–, mas o que mais aparece à vista são estabelecimentos comerciais, lojas de todo o jeito, supermercados, oficinas, bares, restaurantes.

Seu nome vem de idioma indígena: o livro “São Paulo, 450 Bairros, 450 Anos”, de Levino Ponciano, afirma que significa “raiz chata” em tupi-guarani. Refere-se a um tipo de raiz que se desenvolve juntamente com a árvore, chegando a 2 m de altura.

Já o livro “1001 Ruas de São Paulo, de Sílvia Costa Rosa, conta que, quando a hoje avenida foi aberta, nos idos do século 19, era uma estrada de chão batido usada por tropeiros e pequenos sitiantes, que circulavam por ali para ir até o centro vender sua produção.

Até o seu quarto quilômetro, é quase uma subida só, chegando a cerca de 870 metros acima do nível do mar; segue a topografia da montanha que domina, continuando encabritada até outro pico por volta do km 12, de onde começa a despencar –não sem alguns solavancos.

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No seu início, é rua comum, de mão dupla; depois se alarga, ganha canteiro central, às vezes abraça praças e contorna rotatórias. Numa dessas, quase me enrolei todo, sem saber exatamente para onde seguia a via (rima!). Tive de dar uma parada, porém, ao ver a placa indicando que ali começava o Parque da Integração Zilda Arns.

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O que o tal parque integra não ficou claro para mim, mas tive de conferir como era essa homenagem à irmã do cardeal Dom Paulo Evaristo Arns, ela mesma estrela de brilho próprio, batalhadora incansável pelos diretos humanos (saiba mais sobre ela AQUI).

A pracinha é bacaninha, com pista para caminhada e ciclismo e até uma quadra de amarelinha pintada no chão.

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Costeando a pista de ciclismo, há um pequeno gramado com muitas árvores –reconheci mangueiras e goiabeiras. Tive vontade de ficar mais, mas já tinha me afastado da Sapopemba por várias centenas de metros. Voltei e fui recompensado: mais adiante a via se encostava no finalzinho do parque.

Assim é a avenida Sapopemba: cheia de surpresas. Num certo ponto, acolhe um abrigo para idosos; em outro, abre espaço para lixo em terreno baldio.

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Com ar de classe média trabalhadora até por volta do número 14.000, a partir dali vira bagunça. A numeração se complica, repete, vai e volta: passei por uns três quarteirões ficando sempre pelos 14.600 e adjacências; do outro lado da rua, o 18 mil e caqueirada é vizinho do 15 mil e pouco…

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É mais um sinal de que ela vai empobrecendo. Nas ladeiras laterais, nos vales que a margeiam, é nítida a perda de qualidade de vida da população: muitas casas sem reboco, coladas umas às outras, ribeirão escuro e fedido abrindo caminho pela vegetação.

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Em alguns pontos, nem sequer há calçada. Disputo a rua com os carros, correndo na contramão, na faixa de ônibus, nem sempre respeitada. O suor escorre, o cansaço bate: já estou correndo há quase três horas, depois de uma noite mal dormida –meu cérebro ainda não se acalmou das emoções que envolvem a construção dessa corrida que, para mim, tem ares monumentais.

Vejo enfim o ponto final que esperava: o encontro da avenida Sapopemba com outro portento da metrópole, a Jacu-Pêssego. Ou, pelo menos, o viaduto que dá acesso a ela. Passo por baixo, encaro o concreto armado e as favelas ao longe.

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Sigo ainda mais um pouquinho, abraçando com minhas passadas um grande conjunto habitacional que fica ali por perto.

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É meu jeito de dar tchau para Sapopemba. Qualquer hora, estou de volta. Vamo que vamo!

DIA 3 – PROJETO 460 KM POR SÃO PAULO

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Clique no mapa para acessar informações detalhadas sobre o percurso de hoje

QUILOMETRAGEM DO DIA: 20 km

TEMPO DO DIA: 3h02min49

QUILOMETRAGEM ACUMULADA: 48 km

TEMPO ACUMULADO: 8h21min26

QUILOMETRAGEM A CUMPRIR: 412 km

DESTAQUE DO PERCURSO: passeio pela avenida Sapopemba, a mais longa da cidade, com 26 km de extensão

 

PS.: Obrigado ao pessoal do Banco de Dados da Folha, que colaborou com pesquisa para este texto.

Corredor ‘abraça` Memorial da América Latina com suas passadas

Por Rodolfo Lucena
02/12/13 15:48

Hoje saí de casa para abraçar o Memorial da América Latina. Não com meus braços, que não alcançariam nunca os mais de 80 mil metros quadrados em que o conjunto de prédios de uso cultural está instalado, na Barra Funda (região central de São Paulo). Mas com minhas passadas, circulando um a um os edifícios do complexo.

Começaria, por certo, com o auditório Simon Bolívar, atingido por incêndio na semana passada. Seria, pensava eu, uma forma de render homenagem ao local que já abrigou tantos espetáculos e eventos importantes para a cidade e para o país.

A largada do segundo dia do projeto 460 km por São Paulo, que festeja os 460 anos da cidade a serem completados no próximo dia 25 de janeiro, aconteceu pouco antes das 7h, na esquina da avenida Sumaré com a Francisco Matarazzo. Para ser exato, liguei meu cronômetro e o GPS na praça Souza Aranha, que é exemplo de mais uma das ironias da cidade.

O nome da praça remete a uma famosa família de Campinas, cujo patriarca foi Joaquim Egídio de Souza Aranha –saiba mais sobre ele AQUI. Porém a portentosa estátua que ali fica é a do conde e capitão de indústria Francesco Matarazzo (saiba mais sobre ele AQUI).

Rindo comigo mesmo do entrevero de figurões, atravesso a avenida em direção à estação rodometroferroviária da Barra Funda (alguns dos serviços a têm como Palmeiras-Barra Funda). Aquilo é uma barafunda, com o perdão do trocadilho: só nos ônibus intermunicipais circulam em média 40 mil pessoas por dia. E há ainda metrô, trens e ônibus municipais.

Quem aproveita a multidão são os prestadores de serviços: de manhã cedinho, já chegam os vendedores de café, bolo e outras guloseimas que a turma em correria vai consumindo. Há também fedor geral, indicando o uso de algumas áreas como banheiro público improvisado.

Mais alguns metros e encontro o Memorial. Primeiro, caminho pelo entorno, testando se vai ser possível cumprir meu plano inicial, de percorrer o perímetro completo do terreno. Não dá, mas descubro uma bela grafitagem nos baixos do viaduto Antártida.

Volto ao Memorial, caminhando sempre, porque o meu primeiro dia de corrida deixou dolorida a musculatura das panturrilhas e das coxas. Há que relaxar um pouco.

Atingido por fogo cujo início ainda não é conhecido (leia AQUI), o auditório Simon Bolívar está fraturado, dolorido, escangalhado. Por dentro, nem dá para imaginar a situação (confira AQUI um quadro geral do estrago). Por fora, o prédio gigantesco, que tinha confortáveis cadeiras para mais de mil pessoas, não parece ter sofrido grande perda. A marca mais evidente do estrago são vidros quebrados.

Por ali inicio meu abraço ao Memorial, que foi inaugurado em 1989, desenhado por Oscar Niemeyer, príncipe da arquitetura brasileira, com base em projeto cultural de Darcy Ribeiro (saiba mais sobre o conjunto AQUI).

Circulo o auditório Simon Bolívar, merecida homenagem ao líder de lutas libertárias na América Latina (veja AQUI um documentário sobre a vida dele). O passeio acende minhas memórias: ali assisti a grandes shows, ali apresentei meus livros a colegas jornalistas, ali até estive no palco, canto a plenos pulmões que tudo estava bem (veja AQUI vídeo de apresentação do coral Fundap, do qual faço parte).

A passo acelerado, “abraço” prédio por prédio, fazendo uma volta em torno de cada um –o restaurante, a administração, a biblioteca, a sala de exposição onde no ano passado vi maravilhosas obras de Portinari… Encontro até uma pequena área de brinquedos para a criançada; ao lado dela, aparelhos parta que o povo da Terceira Idade faça seus exercícios. Estava tudo vazio, o que talvez explique a tranquilidade com que o filhote de bem-te-vi esperou minha chegada. Até posou para a foto.

Com uma hora de caminhada, cinco quilômetros percorridos, o abraço de pernadas estava completo. Saí em busca de outros territórios.

Cruzando o viaduto Antártida, em que a área para pedestres é minúscula, vi que a situação melhorou um pouco, com a demarcação de faixa para ciclistas. Tudo longe do ideal, como dá para ver na foto abaixo, mas, pelo menos, acrescenta um pouquinho de proteção para os que não saem pela cidade de armadura de aço e gasolina.

Agora apresso o passo, troto, corro até. Estou na Marginal do Tietê, aproveitando um terreno onde há calçadas. Cruzar cada rua transversal é uma exercício de luta pela vida: nem pensar em atravessar na esquina, é preciso subir um pouco cada rua para evitar os veículos que acessam as artérias laterais em boa velocidade.

Com cuidado, passo pelos barracões da Gaviões da Fiel e continuo em frente, passando também pelas instalações do Centro Esportivo Brasil-Japão; além de abrir competições de beisebol (leia mais AQUI), é o único estádio fora do Japão com instalações oficiais para a prática do sumô, segundo diz este texto AQUI, da Prefeitura de São Paulo).

Não vi nenhum gordinho de fraldas (brincadeira, hein, turma do sumô), mas há muita sujeira na região. Terrenos baldios servem de depósito de lixo, mas, do outro lado da rua, enormes desenhos em prédios do conjunto habitacional Parque do Gato parecem dizer que os moradores da região gostariam que fosse diferente –e estão dispostos a batalhar por isso.

Construído em área onde antes existia uma grande favela, o conjunto tem nove prédios, com quase 500 apartamentos. Inaugurado em 2004, o conjunto recebeu em julho passado um “banho de tinta”: foi quando começou o projeto das supergrafites do pessoal do Revivarte (saiba mais AQUI).

Ainda que deem ao conjunto um ar mais divertido, claro que as ilustrações não conseguem mudar tudo. Ali do lado dos prédios está a favela do gato ou favela da ponte Estaiadinha, palco de seguidos incêndios nos últimos tempos. Um dos mais graves chegou a afetar a dita ponte, que está interditada ao trânsito (saiba mais AQUI).

Aproveitei para dar uma corrida no território vazio de carros. Trata-se de uma ponte que, para pedestres, liga o nada a lugar nenhum, pois é feita apenas para veículos: nasce no meio do asfalto da avenida do Estado e desemboca do outro lado do rio Tietê, na Marginal no sentido Ceasa (ou leste-oeste, genericamente).

Seu nome oficial é Governador Orestes Quércia, mas virou Estaiadinha por ser menor e “mais jovem” que a ponte Estaiada (ponte Octávio Frias de Oliveira, na certidão de nascimento), que fica do outro lado da cidade, sobre o rio Pinheiros. O apelido se refere estais, os cabos de aço que integram a estrutura da ponte.

Discussões engenharísticas à parte, aproveitei para curtir a vista da cidade e iniciei mais um trecho de corridinha para abraçar outro território incendiado.

A favela do Moinho é velha conhecida dos corredores. Fica no entorno do viaduto Orlando Murgel, que muitos de nós chamamos simplesmente de viaduto da Rudge, referência à avenida em que está plantado. Ali já foi um dos mais doloridos e complexos trechos da São Silvestre (ainda nem conferi como vai ser o percurso deste ano).

O corredor já tinha passado da metade da prova, gastara a empolgação inicial, e pegava ali numa subidinha longa e chata, da qual nem a chegada à plana Rio Branco dava alívio: o retão sem fim, na tarde quente e solitária, se transformava em novo desafio para o corredor.

Pois a favela ali de baixo, na qual hoje dei um abraço corrido, já foi vítima vários incêndios –em 2011, pertinho do Natal, ocorreram mortes (veja AQUI). Até há pouco tempo, o viaduto estava interditado, mas agora se presta à passagem.

Por baixo dele, há instalações da Prefeitura, um centro de reciclagem. E gente que mora como pode.

É o caso de Maurício Alves, 32 (de camisa verde), que até quatro meses atrás vivia em Osasco e trabalhava como forneiro de pizza, segundo me disse. Hoje recolhe material para reciclagem. Alguma coisa que encontra, usa como mobília ou enfeite da área onde está instado –com sorriso aberto, me ofereceu uma deteriorada escultura de um bandeirante barbudo, que achou parecido comigo.

Aceitei, contribuí com uns trocados para seu almoço de hoje, e perguntei o que acontecera para provocar tanta mudança na sua trajetória.

Ele abriu os braços, de um jeito meio desconsolado, meneou a cabeça, fez um sorriso de dúvida e nada falou. Seu corpo todo dizia, porém: “É a vida, né?”.

Pois é: é a vida. Segue o baile. Vamo que vamo.

 

DIA 2 – PROJETO 460 KM POR SÃO PAULO

Clique no mapa para conferir informações detalhadas sobre o percurso de hoje

QUILOMETRAGEM DO DIA: 15 km

TEMPO: 2h40min10

QUILOMETRAGEM ACUMULADA: 28 km

TEMPO ACUMULADO: 5h18min37

QUILOMETRAGEM A CUMPRIR: 432 km

DESTAQUES DO TRAJETO: Memorial da América Latina, conjunto habitacional Parque do Gato, ponte Estaiadinha, Favela do Moinho

 

PS.: Obrigado à minha filha Laura, que colaborou com parte da pesquisa para este texto, à Eleonora e ao motorista George Francisco Gomes, que deram dicas para eu planejar o percurso de hoje.

Mata, trilha, índios e pelada marcam largada do projeto 460 km por SP

Por Rodolfo Lucena
01/12/13 17:32

Numa manhã nublada, com ameaça de chuva, promessa de sol e névoa encobrindo os cocurutos das montanhas que cercam São Paulo, comecei hoje meu circuito de corridas em homenagem ao 460º aniversário da cidade.

A largada do projeto 460 km por São Paulo foi na cancela que marca a entrada ao Parque Estadual do Jaraguá, na estrada que leva ao pico: o topo da montanha é o ponto mais alto da capital paulista, com 1.135 m acima do nível do mar.

Às sete horas, em ponto ou quase, disse tchau para a Eleonora, minha mulher, abanei para a cinegrafista da TV Folha, Isadora Brandt, e queimei o chão. Não que tenha saído correndo de forma desabrida, pois sei de minhas limitações. Mas fui num trote decidido, de quem pretende chegar ao topo sem reduzir (pelo menos, é o que alguém pode acreditar vendo esse breve filme produzido pela Eleonora: clique AQUI).

Iria me encontrar com caminhos que trilhei há muitos anos: ali levamos nossas filhas quando ainda eram bem pequenas; por ali treinei, há quase dez anos, durante minha preparação para a maratona da Grande Muralha da China.

Mais do que tudo isso, iria me encontrar com os intestinos de São Paulo, pedaços de vida que não aparecem nos Jardins ou no espigão da Paulista. No percurso de hoje, conheci um cacique guarani de apenas 33 anos, que comanda a luta de seu povo pela demarcação de terras, única forma que veem de sair da vida miserável que levam, em barracos fedorentos e escuros, num terreno com esgoto a céu aberto e cães sarnentos aninhados entre a criança da tribo.

Percorri trilha perigosa, que me fez enfrentar medos e procurar garantias de segurança. Encarei pirambeira de asfalto, território livre apenas para carros e caminhões, em que calçadas são área acidentada, armadilhas para incautos transeuntes. E me diverti acompanhando instantes de um futebolzinho de várzea, a velha e boa pelada de domingo de manhã.

O início foi pelas perigosas curvas da Estrada Turística do Jaraguá. Dentro do parque, são pouco mais de 4,5 km de ascensão traiçoeira: nos primeiros metros, o aclive é leve, convida ao trote mais firme, acelerado até. Aos poucos, porém, a estrada e a montanha vão se revelando mais brutais, imperiosas, íngremes: as curvas se acentuam, o aclive fica mais pontiagudo. Com pouco mais de dois quilômetros de subida, já dá para começar a suar.

Em recompensa ao nosso esforço, a montanha oferece vistas da cidade. Do alto, temos a nossos pés prédios indústrias, edifícios, casas com piscina e favelas, estradas e ruelas. É o que anima a continuar, a buscar o topo.

E lá cheguei depois de mais de 40 minutos de trote, caminhada e paradas para fotos. Feliz, mas triste, obrigado a dar de cara com o envelhecimento e perda de performance –há dez anos, subia na maciota em pouco mais de 25 minutos. Enfim, chega de chorumela –confira meus comentários mais entusiastas e deprimidos neste videozinho AQUI.

Não há tempo para lamentos, o descanso deve ser breve. Tomo um pouco de água e me vou pela escadaria acima: no topo do topo do topo da cidade há 250 degraus numa gigantesca estrutura que suporta a principal antena do Pico do Jaraguá (há outras, cada uma com sua função específica ou várias, basicamente transmissão de mídia e de voz). Subo com cuidado, desço com atenção redobrada e daí me vou pela Trilha do Pai Zé, caminho mágico morro abaixo.

No topo do morro, não encontro vestígios do ribeirão Itaí –falha minha, talvez ainda esteja por lá. Gostaria de tê-lo visto: foi nele que Afonso Sardinha descobriu sinais de ouro por volta de 1580. O português caçador de índios se estabeleceu na montanha, onde a mineração começou cerca de dez anos mais tarde e foi até o século 19.

Aliás, dizem que há sinais dos caminhos que garimpeiros rasgaram na montanha. Não sei, não vi; talvez uma herdeira seja a Trilha do Pai Zé, que desce quase do alto do morro até o conforto da área mais “civilizada” do parque, onde há brinquedos para as crianças, estacionamento e lanchonete.

A trilha está muuuito mais bem cuidado do que quando a vi pela última vez (há um monte de anos…). Na época, ela estava interditada, em obras, mas mesmo assim um pequeno grupo de corredores desatinados desafiamos a escorregadia alameda.

Hoje, nada de aventuras. Fui a passo. No dia nublado, muito pouco gente no parque, menos ainda os que se arriscavam pelo caminho do Pai Zé. Segundo os registros oficiais, cerca de 10 mil pessoas visitam o parque nos finais de semana (é uma média, claro, pois aposto que hoje a visitação não chegou nem perto disso).

Muito ou pouco, o rol de visitantes já é atraente o suficiente para que se fale em cobrar ingresso ao local, questão que tem provocado polêmica. Em maio passado, o governador Geraldo Alckmin (PSDB) enviou à Assembleia Legislativa projeto que prevê a concessão à iniciativa privada, por 30 anos, dos parques do Jaraguá e Cantareira, na capital, e de Campos do Jordão, na serra da Mantiqueira.

Não há nada regulamentado ainda, mas já houve protestos. Em junho, cerca de 2.000 pessoas se reuniram na região em um ato público pacífico contra o que os manifestantes consideram ser “privatização” do parque (saiba mais AQUI).

Foram protestos –mas de outro tipo—que me levaram a descobrir que, quase em frente ao parque, existe uma aldeia de índios guarani. Na pesquisa que realizei antes de começar a jornada de hoje, encontrei reportagem falando sobre manifestação realizada por índios “paulistanos”.

“Índios Guarani fecham rodovia Bandeirantes e convocam para ato”, era a manchete do texto (leia mais AQUI). A principal reivindicação era a demarcação de terras.

E essa continua sendo a grande campanha da tribo, me disse na manhã de hoje o cacique Weramirim (raio pequeno) (foto), com quem conversei na aldeia que se amontoa na rua Comendador José de Matos, que desemboca na Estrada Turística do Jaraguá.

No pequeno terreno, 127 famílias –cerca de 700 pessoas—vivem em condições miseráveis. Há choças, choupanas, barracos, casas precárias. O esgoto rola pelo chão batido, cachorros, gatos e galinhas circulam entre a criançada que brinca com bonecos produzidos pela própria tribo.

Tais condições não são de hoje: já era assim, ou quase, nos anos 1990, quando o sertanista Orlando Villas-Bôas visitou o local, segundo informa este texto AQUI.

Nascido em uma aldeia guarani em Mangueirinhos, no Paraná, o cacique Nelson (seu apelido em português) tem 33 anos e comanda o grupo desde o ano passado –antes, era uma mulher a líder da tribo.

“Não esperava ser cacique. Eu tinha muito conhecimento da nossa cultura. Tenho cabeça de dar ideia, de fazer projetos, de manter nossa cultura. A comunidade resolveu fazer um voto para eu cacique na aldeia.”

A campanha principal é a luta pela demarcação das terras, diz ele. “Aqui está muito atrapalhado. A ampliação foi feita, está no processo, e a gente está esperando resposta dos políticos e da Funai”.

Enquanto a demarcação não chega, eles procuram lutar contra outros problemas. Os líderes têm dito à comunidade para não comer as galinhas que por lá ciscam –no início, foram criadas para servir de alimento, mas hoje catam comida no esgoto e não servem para a mesa humana.

Tentam controlar os cachorros e gatos, que são abandonados na região e acabam levando doenças para crianças. Além disso, vêm procurando reduzir a sujeira da aldeia –estava marcado para hoje um mutirão com voluntários que apoiam os guaranis para fazer uma limpeza na área.

A conversa estava boa, mas eu precisava seguir. Agradeci a entrevista, desejei sorte e sucesso e parti para o asfalto.

Segui pela mesma rua da aldeia, passando por baixo da rodovia Bandeirantes –a mesma que fora interrompida por manifestação dos guaranis—para tomar a direção da estação ferroviária do Jaraguá, inaugurada em 1891.

Na minha cabeça, peguei o caminho certo, mas minhas passadas comprovaram o contrário. Depois de mais uma lomba enorme, topei com a estação Vila Clarice. Êta nóis! Tive de voltar um montão, e o sol já tinha vencido, pelo menos parcialmente, sua briga com as nuvens matutinas.

Eu que não consegui vencer minha batalha no asfalto: ruas estreitas, ainda que chamadas de avenidas, com mão dupla para o trânsito e zero espaço para o pedestre me obrigaram a caminhar. Eu já estava bem cansado e preferi não me arriscar no espaço reduzido deixado para os transeuntes.

Em contrapartida, logo tive uma boa satisfação. Passei por um murão caiado, que cercava um campinho de futebol –eram terras do Jaraguá Futebol Clube, informava um cartaz. Pois uma pelada estava em andamento, e por alguns minutos acompanhei a guerra no gramado. A torcida era pequena, mas um trio de garotos empoleirados em um telhado criticava lance por lance…..

Queria agora era terminar meu dia, minha manhã, meu primeiro trecho desta jornada de 460 km. Para mim, não havia contramão, como apontavam poderosas placas em uma via…

O que eu via era a confusão urbana, a cidade erguida sem planejamento, ocupando espaços e transformando morro em concreto…

Até que cheguei ao meu destino. Depois de 13 quilômetros corridos, caminhados, suados, estava enfim na estação de trem, uma das mais antigas da cidade, hoje incorporada à linha Rubi (saiba mais AQUI).

Travei o cronômetro, registrei a aventura. E fui de volta para casa, recarregar as energias. Tive uma recepção festiva.

É só o começo. Abraço, vamo que vamo!!!!

 

CONFIRA O PERCURSO DE HOJE

Clique no mapa para abrir página com informações detalhadas sobre o primeiro trajeto de minha jornada de 460 km por São Paulo

QUILOMETRAGEM DO DIA: 13 km

QUILOMETRAGEM ACUMULADA: 13 km

QUILOMETRAGEM A CUMPRIR: 447 km

DESTAQUES DO PERCURSO: Estrada Turística do Jaraguá, Pico do Jaraguá, trilha do Pai Zé, aldeia guarani do Jaraguá, estação de ferro do Jaraguá

 

Blog ganha “cara nova” para acompanhar 460 km por São Paulo

Por Rodolfo Lucena
29/11/13 10:12

A partir deste domingo, 1º de dezembro, este blog –e a minha vida também—vai sofrer uma revolução. Nestas páginas, você vai poder acompanhar tintim por tintim minha homenagem maratonística a São Paulo.

No próximo dia 25 de janeiro, a cidade completa 460 anos, que eu vou transformar em quilômetros, percorrendo 460 km por suas ruas, avenidas, vielas e becos, contando aqui histórias  da metrópole e das figuras que a constroem.

O blog vai ter um jeitão especial durante os cerca de 40 dias que a jornada deve durar. A mudança mais imediatamente visível será uma ilustração –chamada de selo, no jargão jornalístico— que vai marcar a identidade gráfica do projeto.

Eis aqui a marca de minha jornada 460 km por São Paulo:

A caricatura animada é resultado do trabalho de várias cabeças; uma obra coletiva, digamos assim, como acontece em grande parte das produções jornalísticas.

Desde o início do planejamento do trabalho, eu imaginava que seria importante termos uma marca específica, especial.

Lembrei-me do bonequinho “Rodolfo Corredor” que ilustrou alguns dos vídeos que produzi para a TV Folha (veja o primeiro deles clicando AQUI). Imaginei casar aquela imagem com o mapa de São Paulo e conversei sobre isso com o Mário Kanno, que é editor-assistente de Arte na Folha.

Natural de Bauru, Kanno, 48, trabalha no jornal há mais de 20 anos. Já ganhou vários prêmios internacionais, inclusive um por uma arte produzida em 2008 para uma edição especial do caderno “Informática” (hoje Tec), que eu então editava.

Pois o Kanno foi o sujeito que, lá atrás, quando começamos a fazer vídeos de corrida para o TV Folha, imaginou que seria legal ter uma ilustração animada nos filmes. Ele se lembrou, na época, do traço do ilustrador Paulo Crumbim, a quem convidou para a empreitada.

“Procurei fazer o personagem a partir de formas básicas, para ter uma fácil leitura do desenho, com uma paleta de cores simples para não causar ruído”, diz o santista Crumbim, 30, que hoje é free-lancer e tem no currículo uma participação em “História de Amor e Fúria”, filme brasileiro de animação que ganhou o festival de Annecy (França) deste ano.

Agora o Kanno imaginou recuperar a criação e produzir o que é conhecido como “gif animado”, que é a animação que você viu acima. Para a combinação do benequinho, o mapa e o letreiro, foi chamado Demetrius Daffara, da editoria de Arte da Folha, que usou dois programas para fazer a finalização.

Nos textos especiais do blog, teremos ainda mapas mostrando o percurso de cada dia e outras informações estatísticas da jornada. Quem preparou a formatação do resumo do dia foi a Márcia Soman Soares, que trabalha na área de edição da home page da Folha.

Espero você a cada dia, todos os dias, aqui neste espaço virtual. Seja bem-vindo.

Blogueiro percorre 460 km em homenagem a São Paulo

Por Rodolfo Lucena
26/11/13 11:04

Perdão, prezado leitor, estimada leitora, pelos dias vazios neste blog. Foi por uma boa causa: fiz um rápido, mas necessário, processo de desintoxicação tecnológica, passando um breve período longe de internet, celular e afins.

Aproveitei para pensar na vida e no mundo, preparando a mente para o que será um dos grandes desafios de minha vida de corredor: a partir deste domingo, dia primeiro de dezembro, começo uma longa jornada de corridas e caminhadas em homenagem a São Paulo.

No próximo dia 25 de janeiro, a maior cidade brasileira completa 460 anos. E eu pretendo transformar cada um deles em quilômetros, percorrendo as ruas da cidade, suas grandes avenidas e suas vielas esburacadas, trazendo para você histórias da metrópole.

Ao longo de cerca de 40 dias, vou correr e caminhar 460 km pelos confins da cidade, sem esquecer do centro e das elegantes alamedas dos Jardins. Em várias dessas caminhadas, terei convidados especiais, que vão enriquecer a jornada com suas histórias: o escritor Ricardo Lísias, o artista de rua conhecido como Elvis da Paulista e algumas lideranças comunitárias já estão confirmados.

Você também será bem-vindo. Para mim, cada dia será uma surpresa. Defini pontos por onde vou correr ou caminhar, mas a jornada será montada conforme as condições físicas deste blogueiro e a situação climática da cidade.

De qualquer forma, de vez em quando vou anunciar o percurso seguinte, de modo que eventuais interessados possam se somar a essa homenagem a São Paulo –além de batermos um bom papo corrido.

Você também pode dar sugestões de percurso ou de locais a serem visitados. Prometo ler todas as dicas e levar tudo em consideração, mas nem sempre vou conseguir responder –desde já, peço desculpas.

Você pode usar o meio que desejar para se comunicar –o e-mail do blog ou redes sociais–, mas o melhor é usar o canal de comunicação especial que abri para o projeto.

Assim, se quiser falar comigo sobre o Projeto 460 KM por São Paulo, por favor, escreva para o e-mail 460kmsp@gmail.com. Repito: não vou colocar sistema de resposta automática; lerei tudo o que chegar e vou procurar responder a todos.

No último domingo, saiu na revista sãopaulo, da Folha, a apresentação do projeto, incluindo alguns locais por onde vou passar. Confira o texto clicando AQUI (as fotos e a montagem são de Toni Pires)

Ao longo dos próximos dias, darei mais informações sobre o projeto. Aguardo com carinho a sua participação.

Vamo que vamo!!!

Canadense de 75 anos é a atleta veterana do ano

Por Rodolfo Lucena
18/11/13 07:53

No último Mundial, realizado em Porto Alegre, ela ganhou nada menos do que OITO medalhas de ouro competindo na faixa etária de 75 anos. É dona de seis recordes mundiais na sua faixa etária e de uma simpatia do tamanho de sua habilidade atlética.

Estou falando da canadense Christa Bortignon, que não se cansa de competir nas pistas do mundo inteiro –na foto do alto (Divulgação), ela representa seu país no Mundial de veteranos que, como disse, foi realizado em Porto Alegre neste ano. Ela foi eleita pela IAAF (a Fifa do atletismo), a atleta veterana do ano.

Seus feitos são consistentes. No ano passado, ela quebrou 20 recordes nacionais em sua faixa etária; ao longo da carreira, já estabeleceu 27 recordes mundiais na faixa etária em diversas distâncias.

Sobre sua simpatia, basta conferir neste vídeo, em inglês, clicando AQUI (mesmo quem não entende inglês vai gostar do jeitinho da veterana corredora).

No masculino, o veterano do ano foi Charles Allie, dos Estados Unidos, que compete na categoria M65. Quebrou os recordes mundiais de sua faixa etária nos 200 m (24s65) e nos 400 m (56s09), além de cravar a melhor marca do ano nos 200 m em ginásio coberto (25s41).

Os prêmios maiores foram para um multigalardoado e uma estreante no mundo de honrarias da IAAF.

No masculino, o título mais uma vez foi para o jamaicano Usain Bolt, multirrecordista dos 100 m e dos 200 m, que leva o prêmio pela quinta vez.

Já a melhor atleta conquista o título pela primeira vez: é a também jamaicana  Shelly-Ann Fraser-Pryce que, como Bolt, fez misérias nas pistas neste ano.

Aos 26 anos, ele reconquistou o título Mundial dos 100 m na Rússia, onde estabeleceu o melhor tempo do ano para a distância –10s71. Também é dona do melhor tempo do ano nos 200 m (22s13) e ganhou o ouro nessa distância no Mundial.

Além dos troféus simbólicos, cada um levou um cheque de US$ 100 mil.

Ultramaratonista Adilson Dama luta contra efeitos de derrame cerebral

Por Rodolfo Lucena
14/11/13 10:19

Jornalista e apaixonado por esporte, o FÁBIO MARADEI está sempre atento à turma da Baixada Santista e ligado no que ocorre no mundo das ultramaratonas –afinal, presta assessoria para ninguém menos que Valmir Nunes, o melhor ultra brasileiro da atualidade (talvez da história). Pois MARADEI ficou sabendo que o grande ultramaratonista Adilson Dama tinha sofrido um AVC (acidente vascular cerebral, também chamado derrame cerebral) e daí… Paro por aqui e deixo que o próprio jornalista conte a história, em texto produzido especialmente para este blog.

“Outro dia estava em casa, tranquilo, curtindo meu filho, e o Ortides Rocha, o Neco, técnico da equipe de atletismo de Cubatão, me ligou para contar uma notícia triste. Adilson Dama, sem dúvida, um dos principais corredores que a Baixada Santista já teve, tinha sofrido um AVC. Estava se recuperando e ficou feliz ao ouvir que eu tinha um filho.

A notícia me transtornou. Conheço o Dama há mais de 15 anos. Viajamos juntos para o Mundial de 100 KM na França em 1999. Nos tornamos grandes amigos. Mas, ultimamente, por conta do meu antigo trabalho, estava um pouco afastado.

A última vez que lembro ter visto bem o Dama foi nos 10 KM Tribuna FM do ano passado. Em todos os encontros, Dama estava feliz. Afinal, é um vencedor na vida. Tem uma família linda e já representou muito bem a nossa região e o Brasil lá fora. Foram inúmeras corridas de 100 km, muitas conquistas.

Para quem não conhece, Dama se especializou em corridas de 100 quilômetros, as chamadas ultramaratonas, pouco difundidas aqui no Brasil. Ele começou na distância em 1998, competindo “em casa” na Ultramaratona de Cubatão, promovida pela Memorial. Logo em sua estreia, foi o quarto colocado.

No ano seguinte, já estava no Mundial, realizado na França, terminando em oitavo lugar. Ainda em 99, foi o segundo na tradicional prova na Espanha. A primeira vitória internacional foi em 2003, em Portugal. Ainda voltou à Espanha outras vezes e foi o segundo colocado em 2007.

Falei com a minha mulher que precisava ver o meu amigo. E queria levar o Gabriel, meu filho lá. Fomos até Cubatão num domingo, antes das 9 da manhã, sem avisar. E, ao chegar, tive uma emoção muito boa, vendo o Dama me recebendo no portão.

Não sabia como o encontraria. Afinal, ele sofreu um AVC Isquêmico no dia 28 de agosto. Muito recente. Mas lutador que sempre foi, já estava de pé e tinha acabado de treinar por uma hora. Fiz questão que ele conhecesse o meu filho, porque é um atleta e, acima de tudo, uma pessoa, que tenho grande admiração, grande amizade.

Dama, estou feliz por você estar voltando. Isso será uma fase e com já combinamos, logo vamos correr uma prova de 10 km juntos. Compromisso assumido. Do jeito que ele é guerreiro, acho que terei de treinar bastante para aguentar o seu ritmo. Fico feliz por ele ter a Valéria, uma grande mulher ao seu lado, e seus dois filhos, carinhosos ao extremo.

A sua recuperação está evoluindo rapidamente, sobretudo com a família em volta, o ajudando totalmente. A fono está bastante satisfeita com as condições dele e por sua dedicação, com as chamadas terapias informais, com a família. Todos estão envolvidos e seus filhos são vigilantes, com a postura, fala, atividades. E, na fisioterapia, ele mostra sua garra de atleta e desempenha todas as atividades propostas.

Apoio não falta. Dama, você vai voltar… e logo. Tenho certeza. A vida, às vezes, prega peças na gente, mas temos capacidade de superar adversidades, dar a volta por cima. E pelo que vi, o Dama vai voltar. Sempre tive muito orgulho de divulgar o trabalho de Dama aqui e no exterior e terei mais orgulho de compartilhar uma corrida ao seu lado.

Quem conhece a história de Dama sabe que ele gosta mesmo é de superar grandes desafios.”

 

Mais velha mulher na maratona de Nova York-2013 morre com os tênis nos pés

Por Rodolfo Lucena
12/11/13 10:48

Quando estava por volta do km 32 da maratona de Nova York, Joy Johnson levou um tombo. Caiu no asfalto, bateu a cabeça e uma comoção se desenrolou ao seu redor.

Bombeiros e socorristas tentaram convencê-la a abandonar a prova para ser atendida, mas a vontade pétrea da senhora de 86 anos falou mais alto.

“Vou até o fim”, disse ela, como se fosse um comando. E todos não tiveram nada a fazer a não ser abrir alas para a dama corredora.

E lá se foi ela, completando sua 25ª maratona de Nova York em 7h57min41. Não foi o melhor tempo de sua vida –nos anos 1990, ele chegou a fazer a prova em cerca de cinco horas–, mas o suficiente para ela ser a campeã de sua categoria: afinal, foi a mais idosa mulher a completar a prova no primeiro domingo de novembro.

Em uma entrevista antes da prova, Johnson disse que planejava correr no seu próprio ritmo. Quando cansasse, caminharia: “Sei que vou estar entre os últimos, mas não me importo. Eu fico feliz porque posso sair da cama todas as manhãs e correr; muita gente de minha idade está em cadeira de rodas…”

A veterana atleta começou a correr há cerca de 25 anos, depois de se aposentar como professora de educação física na Califórnia.

Ela era a “ídala” de um dos leitores deste blog, o multimaratonista Tadeu Guglielmo, que a conheceu depois da corrida em 2010 e tirou a foto do alto desta página.

Naquela oportunidade, Tadeu teve um breve encontro com a senhora, que reproduzo a seguir, em inglês, tal como ele mandou (a tradução é por minha conta):

“Eu a encontrei depois da corrida e tive a honra de beijá-la, depois de uma rápida conversa. “You have a friend or family waiting? (Um amigo ou alguém da família está esperando você?)”, perguntei a ela. “No” (Não), ela respondeu. “We take a taxi?  (Podemos tomar um táxi)”, convidei. “No, I’m fine (Não, estou bem)”, disse ela. “I can give a kiss?  (Posso beijá-la?)”. E ela: “Of course (Craro, cróvis)”. Congratulations (Parabéns) … Quase larguei tudo e fui para a Califórnia.”

Na manhã de segunda-feira (4/11), Johnson e sua irmã, Faith, de 83 anos, voltaram para o hotel depois de sua tradicional visita à gravação do show televisivo “Today”, no Rockfeller Center (foto abaixo, em que ela aparece com curativo no rosto).

Ela disse que estava cansada e foi tirar uma soneca, deitando sem nem sequer tirar os tênis de corrida. Não acordou mais.

Assim cumpriu sua própria profecia: “Eu sempre digo que vou correr até cair. Vou morrer usando meus tênis de corrida. Só não sei quando isso vai acontecer”.

Descanse em paz.

Monitor cardíaco de pulso é belo, mas limitado

Por Rodolfo Lucena
08/11/13 09:53

Prezado leitor interessado em profundas análises, estimada leitora que aguarda densas avaliações, desculpe aí minha simplicidade, mas o fato é que achei lindo o relógio que funciona como monitor cardíaco sem a necessidade de cinta peitoral. “Que bonito!”, foi minha primeira reação quando abri a caixinha em que veio a traquitana para testes.

Você pode não concordar com minhas preferências estéticas, mas é nelas que baseio uma parte de minhas análises de produto.

O relógio/monitor cardíaco Mio Alpha tem mostrador grande, preto, abraçado por uma faixa branca –o contraste faz com que ele se destaque no pulso, o que é muito bom para quem gosta de relógios espalhafatosos (como este seu blogueiro). Os números são grandes, indispensável para sujeitos com vista velha e cansada… Além disso, a pulseira acoplada, emborrachada, é larga e se adapta bem ao pulso.

Se estivesse falando de um simples relógio, talvez bastasse isso para abrir o sinal verde de compra. Mas não é de um relógio que tratamos, e sim de um monitor cardíaco de pulso, que promete liberdade para o tórax do corredor.

Antes de prosseguir, é bom dar algumas explicações para que mesmo não iniciados no uso desses dispositivos possam acompanhar esta avaliação.

O monitor cardíaco ou frequencímetro vem sendo usado há bastante tempo por corredores e atletas das mais diversas modalidades para acompanhar o desempenho do coração durante o exercício. A frequência cardíaca pode ser usada como medida da intensidade do exercício; também pode ser referência para a criação de zonas-alvo (você deve treinar a 60% de sua frequência máxima, ou a 40% ou a 80%, por exemplo, dependendo de sua capacidade e do objetivo de cada treino).

Isso é muito bom, e há um bom número de treinadores que gosta desse sistema, sem falar dos médicos.

Para monitorar a frequência, vários aparelhos de pulso (como GPS) usam uma cinta peitoral. A cinta tem um sensor que capta os batimentos cardíacos e os transmite para o relógio/GPS. Você acompanha os batimentos automaticamente e pode ter avisos sonoros ou na tela anunciando que está exagerando ou que está muito fraco na corrida.

As cintas mais modernas são bem flexíveis e ergonômicas, mas, de qualquer jeito, colocá-las é uma incomodação a mais. Devem ficar justas; às vezes, dançam no peito com o desenrolar do treino, quando o suor deixa a pele mais escorregadia. Você então aperta mais um pouco, o que não é a sensação mais agradável do mundo, dá a impressão de restrição dos movimentos do tórax…

Claro que, com o tempo de uso, a gente vai se acostumando e toma as providências para que atrapalhe/incomode o mínimo indispensável, mas, mesmo assim, é um corpo estranho.

Vai daí que a indústria vem procurando formas de livrar o corredor da cinta peitoral que acompanha o frequencímetro. Há relógios que capturam os sinais cardíacos a partir da pressão do dedo indicador sobre o mostrador, por exemplo. O Mio Alpha se apresenta como “o primeiro monitor cardíaco do mundo de leitura contínua que dispensa o uso da tradicional e incômoda cinta peitoral”.

Não conheço outro do gênero, mas não sei se é mesmo “o primeiro”; de qualquer forma, fica o registro da afirmação feita pela empresa.

Ele funciona com um sistema de luzinhas (LEDs) colocado na parte de trás do aparelho. O raio de luz incide sobre a pele e determina a frequência cardíaca com base na medição do fluxo sanguíneo (saiba mais clicando AQUI, texto em inglês). A medição é contínua e instantânea: você vê o tempo todo qual seu número de batimentos cardíacos por minuto naquele momento.

Nos meus testes, o monitoramento cardíaco funcionou perfeitamente, com leitura confiável –falo isso com base na leitura feita por outros sistemas que usei anteriormente.

Bom, mas o fato de o aparelho funcionar bem e fazer o que promete fazer não significa que esteja automaticamente aprovado.

Tive vários problemas para controlar o relógio/frequencímetro. Para acionar suas diversas funções (passar de relógio para monitor e vice-versa, iniciar sessão de treinamento, terminar, rever as informações do treino), usa um sistema de quatro botões.

Tecnicamente falando, não são botões. De fato, são dois “palitinhos”, um de cada lado do relógio, que você pressiona rapidamente ou segura pressionado por alguns segundos conforme o resultado que pretende obter.

Na minha obtusidade, levei um bom tempo para aprender a controlar direito os tais palitinhos. Cada vez que dava errado, ficava pensando por que raios o fabricante não havia colocado quatro botões simples, cada um com uma função e pronto. Seria muito melhor para usuários pouco delicados como este que vos fala.

Dito isso, tudo funcionou a contento nos treinos. Mas e daí? O que faço agora? Saio com um GPS em um dos pulsos e o monitor cardíaco no outro? Coloco os dois no mesmo pulso?

Afinal a ideia é diminuir o uso de aparelhos no corpo, não aumentar. Para quem usa aplicativos de corrida no celular, talvez a decisão seja mais simples, pois o Mio Alpha se comunica com vários deles, tanto da família Android quanto dos criados para o iPhone.

Para mim, porém, pareceu exagero. Ainda mais que o conjunto de informações prestadas é muito limitado: há a frequência instantânea, por certo, mas, ao final do treino, você recebe apena só tempo da sessão, a média da frequência cardíaca e o o tempo na zona- alvo. Isso não “fala” com o GPS que uso, o que o torna inútil para análises posteriores, comparações com outros treinos e por aí vai.

Também como relógio o Mio Alpha é limitado; não tem sequer despertador.

O que faz com que o preço pareça exagerado: R$ 799 é o custo informado pela DLK, que comercializa o aparelho no Brasil (saiba mais AQUI). Isso fica bem perto do preço de equipamentos mais completos, ainda que com cinta peitoral.

Claro que pode ser útil para muita gente, que precisa de contagem instantânea de batimentos cardíacos. Este blogueiro, porém, não o vê como equipamento que venha a fazer parte de seu “cinto de utilidades”, apesar da beleza e da simpatia do aparelho.

 

 

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