Benefícios e riscos da corrida para crianças
28/04/12 05:02Na reportagem de capa da edição de hoje da Folhinha, falo sobre o mundo das corridas para crianças. Conversei com organizadores de provas, com jovens corredores, médicos, psicólogos, treinadores. Cada entrevista foi muito enriquecedora e, na reportagem publicada, tentei colocar o sumo do que me foi dito.
Agora, cá no blog, há chances de aprofundar a discussão, acrescentar detalhes, atacar pontos mais específicos dos benefícios e riscos da corrida para crianças.
“A participação em corridas tende a estimular a prática regular e o preparo para o esporte”, diz a ortopedista pediátrica Patricia Moreno Granjeiro. Ela alerta, porém: “Exigir demais precocemente pode tirar a criança de um futuro esportivo”. E dá a dica recheada de filosofia: “Divertir-se é mais importante do que vencer”.
Além de especialista em medicina esportiva, Patricia tem uma vida dedicada ao esporte. Desde os 13 anos treina formalmente. Foi jogadora de vôlei e remadora profissional –campeã brasileira e sul-americana de remo–, além de jogar basquete e dar suas corridinhas de brincadeira.
Acompanhe a seguir os melhores momentos da entrevista com Patricia, que atua no Hospital das Clínicas, no HCor e no Instituto Vita.
+CORRIDA – Correr é bom para as crianças?
PATRICIA MORENO GRANGEIRO – As crianças, de maneira geral, devem ser estimuladas a praticarem atividade física. Correr é uma prática natural que pode ser realizada na maioria dos ambientes e com relativamente pouco investimento em equipamentos. Salvo raras exceções, movimentar o corpo desde a mais tenra idade tende a trazer muitos benefícios para a saúde física e mental do indivíduo. O acompanhamento médico especializado e com treinadores experientes deve ser seguido para garantir a saúde da criança.
+CORRIDA – Participar de corridas é bom para as crianças?
PATRICIA MORENO GRANGEIRO – A participação em eventos esportivos e corridas organizadas, tanto para crianças como para pessoas de qualquer idade, tende a estimular a prática regular e o preparo para o esporte. O mais importante é observar que a quantidade de exercício seja apropriada para cada faixa etária e que o fator lúdico seja mais presente que o competitivo, principalmente para os mais novos.
+CORRIDA – O que há de positivo e de negativo na participação de crianças em corridas?
PATRICIA MORENO GRANGEIRO – Os pontos positivos não incluem apenas o melhor desenvolvimento do aparelho locomotor e cardiovascular, mas também o fato de que o esporte pode promover disciplina, concentração e socialização. A corrida é considerada a base dos esportes e pode ser a primeira oportunidade para desenvolver coordenação, força muscular e equilíbrio do corpo. Assim, aprimorar-se na corrida pode ser vantajoso mesmo no caso de escolha por outros esportes no futuro. Os pontos negativos ficam para as situações nas quais não se respeita o desenvolvimento da criança e a exigência física e mental excede o considerado saudável. É quando começam a surgir problemas com lesões e desgastes físicos e mentais. As corridas competitivas vêm com o tempo e a maturação do jovem atleta. Exigir demais precocemente pode tirar a criança de um futuro esportivo.
+CORRIDA – Crianças precisam treinar para corridas?
PATRICIA MORENO GRANGEIRO – Com o tempo, juntamente com o desenvolvimento neuro-psico-motor da criança, o jeito de correr muda. Assim, à medida que a criança adquire força e coordenação, as técnicas de corrida podem ser aprimoradas. Além disso, a maioria dos treinadores inclui atividades de coordenação, agilidade, força e flexibilidade para preparar o corpo para o exercício. Essa fase de treinamento corresponde aos períodos em que as crianças têm objetivos competitivos e engatam em treinamentos específicos.
+CORRIDA – A partir de que idade a pessoa pode efetivamente começar a treinar para se desenvolver em algum esporte?
PATRICIA MORENO GRANGEIRO – Para cada fase de vida existe um programa particular a cumprir. É importante observar que a criança não é uma miniatura de um adulto. O organismo em crescimento tem peculiaridades e para cada faixa etária existe um grau de desenvolvimento e coordenação.
Crianças antes dos cinco anos ainda não adquiriram um padrão de marcha e corrida maduro e não tem ainda movimentos coordenados nem visão amadurecida. Podem fazer corridas de distâncias muito curtas, mas não devem ingressar em corridas nem treinamentos.
Dos cinco aos oito anos, as corridas devem ser inseridas em brincadeiras e alternadas com períodos de caminhada. Assim, elas podem usar o corpo de maneira mais livre e não correm o risco de se entediar.
Dos nove aos 12 anos, as crianças começam a ter um nível de maturidade e crescimento que permite que participem de um treinamento formal e participe de competições. Podem treinar velocidade e aprender a manter o ritmo nas distâncias mais longas.
Dos 13 aos 15 anos, durante a puberdade, elas têm um crescimento maior e começam a adquirir mais força. Os treinamentos podem se intensificar e em geral as pessoas começam a escolher um esporte para se dedicarem. Nessa fase, intensificam-se naturalmente o empenho e volume de treinamento, portanto deve-se manter o cuidado para evitar lesões de sobrecarga. Nessa idade e nos anos seguintes, o atleta deve seguir um programa de treinamento com suporte técnico adequado e preparo fora das pistas com exercícios para fortalecimento, flexibilidade e coordenação.
+CORRIDA – Praticar esporte, afinal, é positivo? Ou só leva a lesões?
PATRICIA MORENO GRANGEIRO – O esporte é benéfico quando se respeita o limite do corpo e da mente. Ao mesmo tempo, o outro lado do espectro pode significar crianças com uma sobrecarga de treinamento e cobranças com riscos de lesões e interrupção precoce da vida esportiva. As fraturas de estresse em tíbias e metatarsos têm se tornado mais frequentes em adolescentes, principalmente meninas, sujeitos a uma carga excessiva de treinamento. Individualizar o treinamento pode ser uma alternativa, nem todas as pessoas respondem da mesma forma e é preciso conhecer os limites de cada um. Sempre que a criança disser que está dolorida ou cansada deve-se permitir que ela pare.
+CORRIDA – Pais devem correr com seus filhos?
PATRICIA MORENO GRANGEIRO – A participação dos pais na vida dos filhos é importante na maioria dos aspectos do desenvolvimento destes. Nas corridas e treinamentos, os pais devem participar com seu entusiasmo e garantir equipamento apropriado como os tênis. Mas têm que tomar cuidado com o grau de cobrança que colocam nos filhos e na cobrança inadequada de desempenho e resultados. Se os pais quiserem correr com seus filhos, o ritmo deve ser ditado pela criança. Divertir-se é mais importante que vencer.
Concordo com o incentivo da prática esportiva em crianças, pois além dos benefícios físicos, acredito que também estimule o espírito em equipe e a organização. Por outro lado, a dosagem desse incentivo deve ocorrer de acordo com o gosto e aptidão da criança. Caso contrário, a criança adquire o sentimento de rejeição ao esporte. Por isso, os pais devem respeitar o esporte escolhido pela criança; o filho de um maratonista pode adquirir gosto pelo vôlei, e de forma alguma deve haver imposição do gosto dos pais ao filho.